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Para que queres uma boca tão grande, crocodilo?

Independentemente da distorção nos cadernos eleitorais causada pela ineficiência com que são actualizados – e cuja causa para tal será sórdida e a merecer intervenção urgente das autoridades – levando a valores de abstenção hipertrofiados, estas eleições legislativas registaram uma baixíssima participação face às graves incógnitas do momento económico, social e político. O problema da elevada abstenção discute-se em Portugal desde os anos 90, ou até finais de 80, passada a efusiva participação no período após o 25 de Abril e a progressiva constatação do fenómeno. Há várias explicações ao dispor nas ciências sociais, descrevendo e ilustrando a inevitabilidade de tal afastamento eleitoral dos cidadãos nas sociedades que vão amadurecendo o seu regime democrático, mas há também um peculiar factor que teve influência decisiva neste 5 de Junho: a promoção, nalguns casos com consequências epidemiológicas, de uma cultura populista anti-políticos e anti-partidos.

Quem alimentou esses sentimentos de ódio e pulsões pessimistas, destrutivas e catastrofistas estava na oposição à direita, tendo obtido o apoio passivo e activo da oposição da extrema-esquerda. O objectivo foi o de sempre: desgastar e boicotar o Governo apenas porque… era o Governo! Manter elevado o estado de insatisfação popular surgia como o mínimo dos mínimos – ou a essência mesma – do que estes partidos consideravam dever ser o exercício opositor. Ao mesmo tempo, porque nem tudo é racional embora seja racionalizável, a liderança reformista e carismática de Sócrates ia acumulando inimigos e desvairados desejos e juras de vingança. O caldo de ódio que se despejou na multidão também embriagava os cozinheiros, cada vez mais catatónicos na sua imobilizadora impotência e nos frenéticos delírios conspirativos e persecutórios. No pináculo desta vaga raivosa, e num assomo de irresponsabilidade demente, assistimos boquiabertos ao espantoso momento em que um Presidente da República, no Parlamento e em acto solene de investidura, maldisse a classe política, pediu suspeitos sobressaltos cívicos e legitimou uma manifestação que tinha nascido envolta em ambiguidades várias que sugeriam o repúdio radical dos partidos e do regime, a qual se temia pudesse originar actos de violência.

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Parabéns, Isabel!

A Isabel Moreira foi eleita para o Parlamento, como independente nas listas do PS por Lisboa. Sem qualquer desprimor para com os restantes deputados de todos os partidos, a quem devemos agradecer à partida a entrega das suas melhores competências para nos representarem na sede da democracia, é óbvio que a Assembleia da República acaba de fazer uma excelente contratação.

Sorte a nossa, felicidades para ela.

O bom amigo da direita

Nunca vimos um Louçã tão à rasca como aquele que veio anunciar não se sabe o quê no discurso da varridela do BE, tal como a Joana Amaral Dias tinha profetizado. E deixou esta frase:

Quero dizer aos nossos amigos e adversários que se aprende sempre mais com as derrotas do que com as vitórias.

A minha curiosidade não consegue ser maior: que poderá esta mula megalómana aprender?

Não estará na altura de mudar qualquer coisinha?

O líder do PCP considerou que a CDU obteve um resultado que «constitui uma inequívoca consolidação da expressão eleitoral que nos últimos anos vem registando».

«Este resultado representa um factor de estímulo, mas também de reforço daquela força que se assume como a mais sólida, coerente e determinada na defesa dos direitos dos trabalhadores, juventude e interesses populares.»

Fonte

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Jerónimo declara-se estimulado por constatar que o PCP está cada vez mais na mesma. E estar na mesma implica manter aquela força que se assume como a mais sólida, coerente e determinada na defesa dos direitos dos trabalhadores, juventude e interesses populares abaixo dos 8% e bem atrás dos partidos que atacam esses direitos e espalham desgraças às pazadas. Ora, que leva o bom Jerónimo, e magníficos camaradas, a querer que os trabalhadores, a juventude e os interesses populares tenham tão fracos defensores e representantes? Já agora, valia a pena pensar nisto, como diria o padre Dâmaso.

Entretanto, o PCP averbou mais uma grande vitória: conquistaram um deputado em Faro, coisa que não acontecia há 20 anos. Ena! Viva! Uau! Isso, para além de assinalar o iminente fim do capitalismo, são péssimas notícias para a troika, a qual já não pode ir descansada a banhos aos Algarves. De Vila Real de Santo António ao Cabo de São Vicente, Jerónimo promete que agora é que a luta vai aquecer. Em especial, no Verão.

O voo da águia

Portas fez um discurso sombrio, pesado, não conseguindo esconder um doloroso sentimento de derrota face às expectativas criadas, alimentadas e acreditadas. Aquele azedume calado de quem ganhou o segundo prémio e acha injusto que por tão pouco, dois ou três pontos percentuais, acabe por perder tanto, quase tudo.

A campanha eleitoral do CDS para as próximas eleições começou nesta noite.

És enorme, Sócrates!

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Compare-se o discurso de derrota e despedida de Sócrates com os de Cavaco na noite da vitória e na tomada de posse. Um sai sem um pingo de ressentimento, depois da maior campanha de assassinato de carácter e golpadas mediático-judiciais que este país regista na sua História, o outro pediu que se denunciassem os nomes daqueles que ousaram falar do seu enriquecimento através de um grupo financeiro criminoso criado por amigos seus e homens da sua confiança política. Um ama Portugal, o outro odeia portugueses.

São dois mundos. E não se podem habitar ao mesmo tempo.

A Avenida da Liberdade não cabe no Rossio

A manifestação “Geração à Rasca” reuniu, segundo organizadores e propagandistas, 200 ou 300 mil participantes; até mais, sabe-se lá. Mas vamos admitir, para efeitos especulativos, que teve só 100 mil, coitadinha, esse número redondo que se transformou no mínimo dos mínimos para manifestações na Avenida contra o Governo. Agora levemos 10% dessa maralha para o Rossio, sob o patrocínio de outra marca: “Democracia Verdadeira Já”. Não chega para encher a praça se ficarem de pé, mas eles trazem tendas e sacos-cama. Vão ficar por ali durante uns dias a deliberar. Com surpresa, descobrem que não cabem lá todos. 10 mil galfarros a dormir e habitarem no mesmo espaço nem na Praça do Comércio e adjacências se conseguiriam aconchegar. Resolvem ficar uns poucos e voltarem os restantes no dia seguinte de manhã para darem início à democracia verdadeira logo pela fresca, quiçá também sonhando com uma política de verdade ao chegarem ao fim da tarde. Questões logísticas: mesmo que só estejam presentes 10% dos 10 000 previstos, e todos tiverem algo para dizer numa média de três minutos para cada intervenção, quantas horas demorará até conseguirem decidir uma simples ordem de trabalhos diária para a revolução?

O grupo de tontos que invadiu o Rossio – sem a minha autorização ou consulta – tem estado entretido a revelar aos lisboetas em que consiste o seu peculiar tipo de loucura. E consiste nisto: acham que a democracia corresponde à gestão da comunidade por todos, sem instituições mediadoras e sem representantes. Eis o que escrevem no seu manifesto e tentaram realizar:

Pretendemos assumir o controlo das nossas vidas e intervir efectivamente em todos os processos da vida política, social e económica. Estamos a fazê-lo, hoje, nas assembleias populares reunidas. Apelamos a todas as pessoas que se juntem, nas ruas, nas praças, em cada esquina, sob a sombra de cada estátua, para que, unidas e unidos, possamos mudar de vez as regras viciadas deste jogo.

Isto é só o início. As ruas são nossas.

Eles não explicam como é que dos múltiplos encontros nas esquinas e nas sombras das estátuas se passa para a mudança das regras seja lá de que jogo for, mas deixam muito clara a apetência para intervir efectivamente em todos os processos da vida política, social e económica. Deixemos de lado a vaga suspeita de que intervir em todos os processos da vida política já fosse suficiente para os deixar estafados só de pensar no tempo que lhes ocuparia a tarefa até aos fim dos seus dias, quanto mais também estender a ambição à vida social e económica, coisa que nem os deuses do Olimpo, apesar de completamente chanfrados dos cornos, tentaram. Fiquemos apenas com a expressão: intervir efectivamente.

Se por intervir efectivamente se entende a privatização das ruas, que eles reclamam serem suas, haja alguém que explique a estes tiranetes de merda que a democracia começou na Grécia precisamente quando se abriram vias públicas que permitiram o livre trânsito entre Atenas e os aglomerados populacionais dispersos pela Ática. Por essas estradas passariam os representantes de todo o povo a caminho da assembleia em Atenas. Se estes gregos que criaram a democracia viessem a Lisboa ver o que pretendem fazer em seu nome, fugiriam enojados do Rossio a correr pela Avenida da Liberdade acima.

Entrelinhas

Joana Amaral Dias – talvez o melhor par de mamas da política nacional se excluirmos o Carlos Abreu Amorim – deu uma entrevista onde deixa duas revelações:

1ª – Que se identifica com Ferreira Leite no desejo de afastar Sócrates mesmo que isso implique ver um desqualificado qualquer como primeiro-ministro.

2ª – Que está na altura de Louçã arrumar as botas e entregar a chave da casa ao José Manuel Pureza.

Espera, não foi bem isto que ela disse?… Pois devia ter dito.

Não faltes à festa da consagração!

Os direitolas já entraram em celebração antecipada e preparam-se para uma bebedeira monumental neste domingo, regada a champanhe do mais caro, senhores generosos a distribuírem charutos e esfuziantes abraços, senhoras aprumadas a cantar à janela acenando a quem passa. Culminará numa cerimónia em que queimarão fotos e bonecos de Sócrates, de olhos fechados, mãos dadas, mergulhados num sepulcral silêncio. Logo depois, começa o bacanal, que durará até ao Sol nascer, onde dançarão nus fazendo um círculo por cima das cinzas, largando urros, espumando da boca e fustigando levemente as nádegas do parceiro da frente (ou parceira, que eles não são esquisitos) com alecrim aos molhos.

Entretanto, na prosaica realidade, está tudo em aberto. Os indecisos serão decisivos, como sempre, e não necessariamente a favor do africanista de Massamá. Numa outra frente, Portas poderá deixar a laranja bem amarga. E se Louçã não tiver estancado o êxodo daqueles que enganou em 2009, o PS será substancialmente reforçado. Basta que PSD e CDS não tenham maioria no Parlamento para que se instale uma homérica confusão e a vitória de Passos seja de Pirro. Caso o PS, por mais improvável que pareça, ganhe as eleições, então assistiremos a suicídios em massa da boa e séria gente da direita. Certos locais emblemáticos do País, como a Lapa e a Quinta da Marinha, correriam o risco de ficarem desabitados durante décadas.

O ódio a Sócrates, que se prepara para explodir numa incontrolável catarse, será a sua consagração absoluta, a entronização no plano do mito. E a garantia de, pelo menos, mais 10 anos a defender Portugal. Desta vez, instalado no palácio que andou a espiar, o cabrão.

Período de reflexão

O presidente social-democrata explicou a escolha de Fernando Nobre para número um da lista por Lisboa, referindo que essa opção “não podia ser mais acertada” e deu este exemplo como um sinal de abertura do partido – um “simbolismo para o futuro” – na colaboração com independentes num futuro Governo.

Fonte

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É mesmo este o gajo que queremos ver à frente da cena? Reflictamos.

O belo é difícil

O voto no PS é o mais difícil, o que exige mais cognição e domínio emocional, por isso é o mais gratificante. Tirando os casos de pura ligação militante e afectiva ao partido, imunes ou resistentes à dúvida, quem se questionar para votar PS tem de passar pela barragem de fogo cerrado dos assassinatos de carácter e do catastrofismo que a oposição lança há anos, que a comunicação social promove diariamente e que os moralmente ou intelectualmente brutalizados reproduzem na rua com fanatismo. Para além disso, o aceno romântico e abstracto que PCP e, especialmente, BE podem representar, com a sua infrene demagogia e deturpação ideológica, aumenta a dificuldade de escolher racionalmente, apelam à fragilidade volitiva e despertam a tentação de esgotar o voto num protesto que só serve para manter o sistema bloqueado à esquerda. Como se isto fosse pouco, o inevitável desgaste do exercício governativo, mais as pesadíssimas consequências sociais das crises que afectam a economia mundial e as finanças europeias, tornam quase irresistível o canto das sereias que promete tesouros e delícias caso se mude o rumo da navegação. Por fim, e nunca antes visto nas eleições passadas, o PS fez uma campanha que, na sua estranheza – como exemplo mais bizarro e notório do aparente absurdo da comunicação socialista, temos a recusa de Sócrates em participar no Fórum da TSF, onde durante as duas semanas de campanha os líderes dos restantes partidos apresentaram as suas propostas para as principais áreas da governação – só admite duas hipóteses explicativas: ou a estratégia foi a de procurar intencionalmente perder pela mais pequena margem, mas garantindo a derrota, ou estaremos face a uma estratégia absolutamente brilhante, onde a vitória se alcança pela artimanha de fingir fraqueza, desse modo levando o eleitorado para o confronto prévio com o choque de ver no Poder este PSD tão incompetente e volúvel. Claro, ninguém acredita na segunda hipótese, nem sequer se fala dela. E para a primeira há vários sinais que parecem indicar um processo de mudança de ciclo em marcha já desde o congresso em Abril.

Quanto ao PSD, começou como prévio vencedor e cheio de medo, apavorado. A sucessão de erros foi quase indescritível – aqui bastamente anotados – e chega ao fim da campanha como começou: provável vencedor e cheio de medo. O medo é diferente do inicial, o qual nascia do temor que Sócrates suscitava a um vasto grupo de impotentes e delirantes. Agora, o medo nasce da exibição da falta de preparação política, e de salubridade moral, da laranjada que pretende governar o País. Passos Coelho revelou ser um líder não só fraco tecnicamente como incapaz de resistir às pressões e convulsões internas, está refém desse mesmo Cavaquismo que simulou combater antes de chegar a Presidente do PSD. Nesse sentido, é o exacto oposto de Sócrates, e não admira que tantos pretendam essa troca para reconquistarem influência perdida desde 2005.

Seja o que for que aconteça domingo, porém, há um triunfo garantido: quem votar PS está a mostrar, nem que seja a si mesmo, que defender a liberdade pode ser difícil, mas é também a nossa realização mais bela.

Parem as máquinas

O melhor texto de reflexão política neste período eleitoral tem a autoria da Alda Telles. É de uma inteligência tectónica tão acutilante que está fatalmente condenado ao ostracismo. Ironicamente, foi publicado num dos antros do ódio blogosférico a Sócrates e ao PS, por isso não surpreende a recepção calada e ressentida que teve, inclusive do próprio sujeito que a convidou a escrever.

A Alda tem poiso certo no Lugares Comuns.

Para que servem, e a quem servem, os jornalistas?

Outro aspecto importante destes últimos anos e desta campanha é a demissão dos jornalistas por uma informação isenta e exigente. Os jornalistas transformaram-se em actores políticos partidários. A informação livre é um dos pilares do regime democrático. Esta informação é tendenciosa, superficial, incompetente, com falta de rigor e sem o mínimo interesse de ser imparcial. Haverá excepções, obviamente, mas o panorama geral é desolador.

Sofia Loureiro dos Santos

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Tudo o que a Sofia diz pode ser aferido diariamente, e não só em período eleitoral, mas o problema não está na falta de isenção dos jornalistas – ao ponto de se poder pôr em causa a mera possibilidade real de uma informação livre. O que seria? Em que parte do mundo existe? A produção de informação é sempre uma actividade inerentemente política, axiológica, posto que selectiva e hierarquizante. O que nos falta é a exigência do público para que os órgãos de informação, e os jornalistas individualmente, assumam as suas preferências partidárias quando relatam acontecimentos políticos ou os criticam. Porque quem feio ama, bonito lhe parece. E vice-versa.

Os jornalistas são useiros e vezeiros nos ataques aos políticos. Tanto aqueles que elegem como ódios de estimação, como à classe, numa rivalidade corporativa despeitada nascida da intimidade, da copofonia, das histórias de alcova. Todavia, dos políticos podemos dizer que se sujeitam a uma tarefa bastante complexa, desgastante e arriscada. Arriscam passar por incompetentes, arriscam perder amigos e ganhar inimigos, arriscam serem ameaçados e devassados – para além de não se conceber como apetecível o dia-a-dia de um Sócrates ou de um Teixeira dos Santos, dá ideia de que são obrigados a passar o tempo de forma algo distinta daquela pela qual os paxás ganharam a sua fama. Que arriscam os jornalistas? E que oferecem à comunidade, para além dos seus egocêntricos estados de alma? Têm suado a camisola na educação do povo, mas andamos todos distraídos e não reparamos?

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DN ensina como se faz

O modo como o DN entrou nesta campanha em modo propagandista desbragado a favor do PSD poderá servir para muitas futuras teses de mestrado e doutoramento, em diferentes disciplinas e áreas de investigação. Está a ser um festival.

O Público não é diferente, mas neste ainda manda o Zé Manel ou os seus fantasmas.

À atenção dos labregos

Os labregos que acham que o anonimato na Internet se evita ao assinar com um conjunto de caracteres que eles aceitem como nome verídico (que tansos…), ou que um assumido pseudónimo não chega para identificar o autor ou utilizador que se decide por essa forma de expressão pessoal, devem ler esta notícia:

Professor fazia-se passar por mulher na Internet para conquistar outros homens

A história é rocambolesca, até com um lado hilariante para além das consequências criminosas, e dá-nos a ver um aspecto da PSP e da Judiciária que assusta: a facilidade com que se corrompem agentes.