Para que servem, e a quem servem, os jornalistas?

Outro aspecto importante destes últimos anos e desta campanha é a demissão dos jornalistas por uma informação isenta e exigente. Os jornalistas transformaram-se em actores políticos partidários. A informação livre é um dos pilares do regime democrático. Esta informação é tendenciosa, superficial, incompetente, com falta de rigor e sem o mínimo interesse de ser imparcial. Haverá excepções, obviamente, mas o panorama geral é desolador.

Sofia Loureiro dos Santos

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Tudo o que a Sofia diz pode ser aferido diariamente, e não só em período eleitoral, mas o problema não está na falta de isenção dos jornalistas – ao ponto de se poder pôr em causa a mera possibilidade real de uma informação livre. O que seria? Em que parte do mundo existe? A produção de informação é sempre uma actividade inerentemente política, axiológica, posto que selectiva e hierarquizante. O que nos falta é a exigência do público para que os órgãos de informação, e os jornalistas individualmente, assumam as suas preferências partidárias quando relatam acontecimentos políticos ou os criticam. Porque quem feio ama, bonito lhe parece. E vice-versa.

Os jornalistas são useiros e vezeiros nos ataques aos políticos. Tanto aqueles que elegem como ódios de estimação, como à classe, numa rivalidade corporativa despeitada nascida da intimidade, da copofonia, das histórias de alcova. Todavia, dos políticos podemos dizer que se sujeitam a uma tarefa bastante complexa, desgastante e arriscada. Arriscam passar por incompetentes, arriscam perder amigos e ganhar inimigos, arriscam serem ameaçados e devassados – para além de não se conceber como apetecível o dia-a-dia de um Sócrates ou de um Teixeira dos Santos, dá ideia de que são obrigados a passar o tempo de forma algo distinta daquela pela qual os paxás ganharam a sua fama. Que arriscam os jornalistas? E que oferecem à comunidade, para além dos seus egocêntricos estados de alma? Têm suado a camisola na educação do povo, mas andamos todos distraídos e não reparamos?

Nesta campanha, estar a ler e ouvir o comentário depreciativo dos jornalistas a respeito das vicissitudes deste e daquele político, a que se segue a inevitável acusação de faltar discussão disto ou daquilo, é um tormento. Os jornalistas-comentadores, obrigados a seguirem a actualidade hora a hora, esquecem-se do seu papel mediador, pedagógico, analítico, e assumem missões que não lhes foram – nem devem – ser confiadas. A sua proximidade com os objectos que supostamente assimilam não permite a convencida e vaidosa sentença que se arrogam estarem sempre capazes de oferecer à audiência. Acima e antes de tudo, ao se permitirem brincar aos juízes dos políticos, os jornalistas-comentadores entram na arena e passam a rivalizar com eles. Mas com uma disfuncional diferença: os jornalistas-comentadores não vão a votos, nunca perdem, não saem de cena. O resultado é maníaco, com a repetição dos mesmos clichés eleição após eleição, o que leva ao aumento do fosso entre a política e a sociedade, entre os partidos e os cidadãos. Sobre este distanciamento que ajudam a criar e a aumentar, borboleteiam como carpideiras que se extasiam eroticamente nessas dulcíssimas e lânguidas dores que lançam no éter em troca de modestas ou chorudas remunerações.

Quem são os grandes nomes do jornalismo contemporâneo? Onde estão as autoridades, os exemplos, as escolas? Alguém me pode ajudar? É que há muito mais mérito, e proveito, naquele que se candidata a uma junta de freguesia em Alguidares de Baixo, seja ele quem for e para o que for, do que no pimpão que interroga altivo e cínico o Primeiro-Ministro ou tecla displicentemente a respeito da enésima falha do líder da oposição.

17 thoughts on “Para que servem, e a quem servem, os jornalistas?”

  1. Valupi, quando falo da isenção informativa não quero dizer que seja apolítica. Defendo mesmo que os jornais, ou os jornalistas, se definam enquanto opção partidária, quando se está em período eleitoral. Seria muito mais transparente. O que penso é que não há sequer a preocupação de informar sem manipular. A informação livre existe se tivermos hipótese de ler várias opiniões e de ver as várias facetas de um caso, contadas por pessoas diferentes. Aquilo a que se tem assistido nem deveria ter o nome de jornalismo.

  2. Sei disso, Sofia, e por isso aproveitei o que escreveste para acrescentar, ou aprofundar, uma das facetas da questão introduzida. E sem dúvida de que será possível chegar a uma definição consensual do que seja uma “informação livre”, apesar da realidade contradizer, em todo o lado e todos os tempos, esse ideal.

  3. O jornalismo português visto pelo genial Eça: 138 anos depois descubra as diferenças…

    “A imprensa de Lisboa não tem opinião. Aquelles dos seus membros que por excepção presentem as idéas proprias, vivas, originaes zumbindo-lhes importunamente no cerebro, enxotam-as como vespas venenosas. É que a missão do jornalismo portuguez não é ter idéas suas, é transmittir as idéas dos outros. Por tal razão em Lisboa o homem que pensa não é nunca o homem que escreve. O jornalista nunca se concentra, nunca se recolhe com o seu problema para o meditar, para o estudar, para o resolver. Nunca procura a verdade. Procura apenas a solução achada pelo publico, pelo publico d’elle, pelo seu partido politico, pelos consocios do seu club, pelos seus amigos, pelos seus protectores, pelos seus assignantes.
    Portanto trabalha na rua, debaixo da arcada do Terreiro do Paço, nos corredores ou nas tribunas de S. Bento, no Chiado, no Martinho, no Gremio. Como trabalha? Trabalha d’este modo: informando-se;—é o termo technico. Uma vez informado, o jornalista considera-se instruido. Desde que tem a informação recebida tem o jornal feito. O que elle vos escreve hoje—notae-o bem—é o que vós lhes dissestes hontem. O jornal não é uma fonte de critica, de analyse, de investigação. O jornal é o barril de transporte das idéas em circulação, das soluções previamente recebidas e approvadas pelo consenso publico. O jornalista é o aguadeiro submisso e fiel da opinião. Não a dirige, não a corrige, não a modifica, não a tempera. O unico serviço que lhe faz é este: transporta-a dos centros publicos aos domicilios particulares. O publico é a nascente, é o veio, é o manancial; a imprensa periodica é simplesmente — o cano”.

    As Farpas: Eça de Queiroz, Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes – Outubro a Novembro de 1873

  4. De AAA, Mar Salgado:
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    Sócrates tem a derrota estampada na cara e raiva nos olhos. Derrota mais que merecida: uma pessoa que vive num mundo da fantasia, completamente irreal, que destruiu o país, levou-o à bancarrota, enxovalhou os portugueses, humilhou Portugal — Sócrates não merece menos que uma derrota estrondosa.

    Aliás, a pessoa a quem devemos ter tido a necessidade de recorrer à ajuda externa, a quem devemos a necessidade de ter uma administração alheia, que trate da nossa insolvência, a pessoa que levou o país a sofrer indignidades, como seja países estrangeiros dizerem-nos que temos de reduzir o número de efectivos militares, ou que devemos privatizar a água (a espanhóis?!?), só para referir duas situações que, em muitos casos, poderiam levar a uma guerra, apenas merece uma derrota monumental, uma coisa que fique para a História, algo que mostre ao mundo e aos credores que ainda temos algum juízo.

    Sócrates vai perder, até as empresas de sondagens atiraram a toalha ao chão. E isso basta para que, nestes últimos dias, as pessoas queiram votar nos que irão vencer, aumentando os números da sua derrota. Mas Sócrates não merece só perder: ele tem de ser corrido, ganhou esse direito, conquistou-o. Não só pelo que eu vinha a referir. Nem só pelas mentiras, o diploma dominical, as trapalhadas que criou, as informações que omitiu, as perseguições que organizou, a arrogância e o desprezo que sempre manifestou pelos portugueses e pelo país: Sócrates merece uma derrota imensa também pela campanha inacreditável que tem vindo a fazer, que é a coisa mais vergonhosa que eu vi na política.

    A campanha de Sócrates é toda direccionada contra os outros e contra o que ele diz que são os programas dos outros (programas esses espartilhados pelo estado a que ele conduziu o país). O homem, no meio daquela panca clínica que provavelmente já não tem cura, não se explica aos portugueses. Não justifica a sua actuação nestes últimos seis anos, não se penitencia por nos ter deixado na bancarrota, não pede desculpa aos portugueses pela humilhação que vivem e pelo sofrimento que vão ter. Não dá contas do passado que nos pôs neste presente e pede apoio para o futuro. Pensará ele que os portugueses são doidos?

    Um tipo destes tem é de ser rapidamente metido numa camisa-de-forças e internado de urgência numa instituição apropriada que, mesmo que não o cure, o impeça de fazer mais maldades ao país e aos portugueses. E a pandilha que o segue, acaso não queira ser também internada, como inimputável, tem de ser responsabilizada por esta campanha socialista que é um insulto descarado aos portugueses, uma ofensa ignóbil a todos os que vão sofrer na pele os resultados da actuação demencial deste homem.
    Por isso, repito, não lhe basta perder: ele tem de ser corrido.
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    http://marsalgado.blogspot.com/2011/06/notas-de-campanha-ii-socrates-tem.html

  5. Os jornalistas servem para alardear, gerar receita, veicular o escandâlo, a mentira, servir a quem os paga.

  6. dutilleul: não sabia que a rancorosa Manuela também vomitava fel no Aspirina. Gostaria vossa Ex.a de um chazinho de tília, talvez? Para engolir melhor a aspirina?

  7. Os ocupantes habituais do espaço a que pomposammente se passou a chamar comunicação social, constituem um grupo de gente despida de seriedade intelectual, sem regras deontologicas,frequentemente ignorante dos assuntos que aborda, que se julga dotada de um poder que escapa a qualquer controlo ou crítica,e que se arroga o direito de julgar tudo e todos,promovendo assasinatos de caracter de qualquer cidadão que lhe caia nas garras.
    Evidentemente que há excepções que,como habitualmente, confirmam a regra.

  8. EGR, não digas dos jornalistas “assassinos de caracter de qualquer cidadão lhes caia nas garras”. Porque é tudo menos “qualquer cidadão”. Eles seleccionam aqueles que odeiam ou invejam, além dos outros todos que os seus patrões ordenam que assassinem. Nisto se tornaram os jornalistas: assassinos por encomenda.

  9. Ó dutilleul ou lá o que és, com uma esdrúxula cabeça como a tua não me admira nada que gostes do sabor da aspirina e, pela certa, não só da aspirina!!!

  10. Não! Não acredito. A dutilleul veio aqui porque quer qualquer coisa mais. Não é só aspirina. Talvez um supositório ou outra guloseima qualquer. Que acham?

  11. O facto de o jornalismo ser uma das classes profissionais onde mais se reflecte a mediocridade que de há anos para cá tem submergido o país, é apenas uma das consequências de ser uma actividade onde a exposição pública e a consequente projecção pessoal atraem um muito particular tipo de fauna.

    Quanto aos políticos, devem ser avaliados e tratados conforme os resultados que obtenham. Nunca se devendo exigir-lhes menos do que a qualquer director de empresa. Se não obtiverem resultados positivos, não têm qualquer utilidade para o sistema em que tentam singrar.

    Ah. E não se aceitam desculpas baseadas nos “condicionalismos de mercado”.

  12. Duas coisas há que não gosto de confundir, a saber: – Jornalistas e comentadores.
    Não me importo que os jornalistas comentem. do mesmo modo que me é indiferente que os comentadores façam jornalismo, todavia é imperioso que as duas coisas fiquem separadas e bem arrumadinhas.
    Ao jornalista pede-se isenção, fidedignidade, as seis bases da notícia (que, o quê, onde, quando, porquê e como), velocidade e concisão.
    Ao comentador, pede-se que comente, mas que nos diga previamente quem é, do que e de quem gosta e a quem serve.
    As conclusões teremos de ser nós a extrair, quer da notícia, quer do comentário.
    Infelizmente, hoje em dia, o jornalista prefere comentar a “sua” notícia sob o seu ponto de vista e segundo os seus (por vezes inconfessáveis) interesses, o que se desculpa ao comentador se esses interesses forem conhecidos, pois não o sendo, estará a querer fazer-se passar por cordeiro embora sendo lobo.
    Sei que não é fácil ao jornalista desportivo benfiquista criticar a falta de produtividade do Benfica, como o será ao portista admitir erros de palmatória aos dirigentes do seu clube, mas se não o consegue abandone a profissão e passe para comentador, pois aí a desculpa é maior quando labora num erro de simpatia.
    Ao jornalista, por muito que me custe, e até porque já os tive prestigiados e respeitados na família, se não tiverem capacidade para ultrapassar as suas simpatias e tenderem a eivar as notícias com os seus pontos de vista políticos, sejam eles partidários, desportivos, religiosos ou outros, melhor seria que abandonassem a profissão ou que então alguém zelasse para que não a exercessem em roda livre ou ao mando de…

  13. É bem verdade que, ao contrário dos políticos, os jornalistas-comentadores não arriscam absolutamente nada. Um bom exemplo são os que se especializaram em assuntos económicos. São umas verdadeiras estrelas, quem ou ouve e lê não tem dúvidas, qualquer um deles sabe muito mais de Economia do que os políticos que se dedicam ao mesmo assunto. Fazem diagnósticos sempre brilhantes e, claro, ao contrário dos políticos, têm solução para tudo o que é problema. Fica-se com a ideia de que se fossem eles a mandar é que era, quais crises quais quê. E quando a realidade os desmente de uma ponta à outra, que lhes acontece? Nada. Fazem de conta que não foi nada com eles e continuam a ditar as suas mais do que certezas absolutas a quem os quiser ouvir.

    Quanto ao resto, também não percebo por que não assumem as suas preferências políticas, até porque são mais do que óbvias. E ainda tentam passar uma imagem de isenção e imparcialidade como, por exemplo, nos debates entre os candidatos. Levam a coisa ao extremo, os jornalistas e as televisões não estão ali para beneficiar ninguém, a coisa é cronometrada e ai do candidato que fale mais um segundo do que o opositor. Tendo em conta o que se passa logo no minuto a seguir aos debates, não passa de uma autêntica anedota este aparente rigor encenado.

  14. Não acredito em jornalistas isentos, e até pode ser que os haja. Mas, tais serão sempre uma espécie de canja sem sal, própria para doentes.
    Em minha opinião, o mal está nos jornalistas que pretendem ser isentos, ou pior que pensam que são isentos, porque na realidade são manipulados (infantilmente manipulados) tornando-se em tais “actores políticos partidários”.

    Não creio que seja possível ou desejável fazer jornalismo sem espírito critico, sem ter uma opinião, sem ter valores em que se acreditam. Pois tudo isto é que dá alma ao jornalismo, que empolga e envolve os leitores e que permite que se prossigam causas e se faça investigação de forma honesta.

    Em minha opinião, a moda do politicamente correcto e da imparcialidade hipócrita destroem o jornalismo e a liberdade do jornalista denunciar e criticar.
    Mais, e para terminar: Se o jornalismo fosse desejávelmente isento então bastava um jornalista.

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