A Avenida da Liberdade não cabe no Rossio

A manifestação “Geração à Rasca” reuniu, segundo organizadores e propagandistas, 200 ou 300 mil participantes; até mais, sabe-se lá. Mas vamos admitir, para efeitos especulativos, que teve só 100 mil, coitadinha, esse número redondo que se transformou no mínimo dos mínimos para manifestações na Avenida contra o Governo. Agora levemos 10% dessa maralha para o Rossio, sob o patrocínio de outra marca: “Democracia Verdadeira Já”. Não chega para encher a praça se ficarem de pé, mas eles trazem tendas e sacos-cama. Vão ficar por ali durante uns dias a deliberar. Com surpresa, descobrem que não cabem lá todos. 10 mil galfarros a dormir e habitarem no mesmo espaço nem na Praça do Comércio e adjacências se conseguiriam aconchegar. Resolvem ficar uns poucos e voltarem os restantes no dia seguinte de manhã para darem início à democracia verdadeira logo pela fresca, quiçá também sonhando com uma política de verdade ao chegarem ao fim da tarde. Questões logísticas: mesmo que só estejam presentes 10% dos 10 000 previstos, e todos tiverem algo para dizer numa média de três minutos para cada intervenção, quantas horas demorará até conseguirem decidir uma simples ordem de trabalhos diária para a revolução?

O grupo de tontos que invadiu o Rossio – sem a minha autorização ou consulta – tem estado entretido a revelar aos lisboetas em que consiste o seu peculiar tipo de loucura. E consiste nisto: acham que a democracia corresponde à gestão da comunidade por todos, sem instituições mediadoras e sem representantes. Eis o que escrevem no seu manifesto e tentaram realizar:

Pretendemos assumir o controlo das nossas vidas e intervir efectivamente em todos os processos da vida política, social e económica. Estamos a fazê-lo, hoje, nas assembleias populares reunidas. Apelamos a todas as pessoas que se juntem, nas ruas, nas praças, em cada esquina, sob a sombra de cada estátua, para que, unidas e unidos, possamos mudar de vez as regras viciadas deste jogo.

Isto é só o início. As ruas são nossas.

Eles não explicam como é que dos múltiplos encontros nas esquinas e nas sombras das estátuas se passa para a mudança das regras seja lá de que jogo for, mas deixam muito clara a apetência para intervir efectivamente em todos os processos da vida política, social e económica. Deixemos de lado a vaga suspeita de que intervir em todos os processos da vida política já fosse suficiente para os deixar estafados só de pensar no tempo que lhes ocuparia a tarefa até aos fim dos seus dias, quanto mais também estender a ambição à vida social e económica, coisa que nem os deuses do Olimpo, apesar de completamente chanfrados dos cornos, tentaram. Fiquemos apenas com a expressão: intervir efectivamente.

Se por intervir efectivamente se entende a privatização das ruas, que eles reclamam serem suas, haja alguém que explique a estes tiranetes de merda que a democracia começou na Grécia precisamente quando se abriram vias públicas que permitiram o livre trânsito entre Atenas e os aglomerados populacionais dispersos pela Ática. Por essas estradas passariam os representantes de todo o povo a caminho da assembleia em Atenas. Se estes gregos que criaram a democracia viessem a Lisboa ver o que pretendem fazer em seu nome, fugiriam enojados do Rossio a correr pela Avenida da Liberdade acima.

9 thoughts on “A Avenida da Liberdade não cabe no Rossio”

  1. Aumentou o número de canídeos a mijar nas árvores do Rossio. Nada que uma boa chuvada não possa remediar.

  2. podias lá ter ficado a escrever baladas contestatárias, aproveitavas e tomavas o banho anual quando a bófia aparecer com o canhão d’água

  3. ó Valupi estás nos cinquenta, ressabiados, não é?
    ai, a juventude já foi à tanto tempo!
    vai à merda, tu que tanto gostas de insultar tudo e todos que não sejam iguaisinhos a ti.

  4. Caríssimo Valupi
    Cada post teu é um ensaio sobre a lucidez e um gole de água fresca! Agradeço-te ainda o saboroso vernáculo de hoje. À hora a que escrevo, confirmada a ida ao pote do esfomeado saco de gatos, tal vernáculo é trincheira de sanidade face à insanidade que se adivinha nos tempos que estão para vir!

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