Todos os artigos de Valupi
De regresso ao absolutismo
O ataque do PSD e CDS à Constituição já era uma promessa em 2010, isto para ficarmos por uma memória recente. É um ataque ideologicamente legítimo, como qualquer outro que venha de outros quadrantes e entidades políticas. Mas a estratégia não foi levada às urnas em 2011.
Também fora da decisão dos eleitores ficou a estratégia do empobrecimento, vocalizada apenas avulsamente e baixinho em 2010. PSD e CDS optaram por mentir em todas as matérias onde viam que poderiam perder votos. Ao mesmo tempo, sabiam que o Memorando era a desculpa perfeita para terem carta branca numa tentativa de revisão constitucional sem necessidade de obter dois terços de aprovação no Parlamento. Estão a cumprir zelosamente o plano, pois ainda não apresentaram um Orçamento isento de ilegalidades constitucionais. Algumas têm recebido cobertura do próprio Tribunal Constitucional.
Esta actual investida da direita contra o órgão de soberania sem o qual a Constituição será apenas letra morta tanto pode ser uma manobra retórica para embrulhar mais um aumento de impostos como até poderá ser o início da antecipação das legislativas, aproveitando a crise socialista para ir a eleições nas melhores condições possíveis: com o PS ainda nas mãos de um Seguro completamente descontrolado e sem qualquer credibilidade.
PSD e CDS cavalgaram radiantes o tigre populista quando atiçaram durante anos a Grei contra os “corruptos” socialistas que dominavam o aparelho de Estado e pervertiam a moral e os bons costumes. Era preciso acabar com as fundações, os motoristas e as viagens de avião em 1º classe. Era preciso que os socialistas, esses vírus, fossem metidos nas prisões pois os males do mundo vinham deles e só deles. Chegados ao poder, desfrutando de uma situação onde se escudam na invasão estrangeira e contam com a cumplicidade activa do Presidente da República, e em que nem sequer a oposição consegue ter uma qualquer bandeira para agitar, o inimigo passou a ser o Tribunal Constitucional e os seus procedimentos democráticos.
Passos, Portas e Cavaco podem parecer políticos medíocres, mesmo decadentes, com percursos e atitudes caricatos e/ou desprezíveis, tantas as mentiras e contradições. Mas são eles que mandam no País. E, se conseguirem vergar o Tribunal Constitucional, se conseguirem organizar manifestações ou mesmo agressões contra os juízes, o absolutismo estará factualmente de volta.
Triunfo e apoteose da cultura dos afectos
No último dia de campanha para as europeias assistimos a uma coreografia que espelha luminosamente a complexidade do PS como ecléctico e fulcral partido do regime democrático a viver uma original crise de liderança. Começou dias antes com a manifestação das tensões entre Seguro e Sócrates a propósito da sua presença no almoço da Trindade e na descida do Chiado. Assis impôs publicamente a sua participação, calando os tenentes de Seguro. Entretanto, Soares recusa o convite de última hora para também estar presente. Chegado o dia, Sócrates desiste da arruada, apenas vai ao bife. Mas de lá parte ao encontro de Soares para que se soubesse a quem dava a sua lealdade e de que lado estava a razão, enquanto Seguro calcorreava a Rua do Carmo. Nisto, aparece Maria Barroso “por acaso” no Rossio para oscular Seguro. Eis o que o chefe de família anticongressos encontrou para dizer a respeito:
Para o líder do PS, Maria de Jesus Barroso "é uma distinta socialista e além disso é uma amiga muito querida, uma amiga muito pessoal, que quis vir dar um beijinho e um abraço".
"Naturalmente que isso é um gesto de uma grande importância política mas para mim é também um gesto muito pessoal", acrescentou António José Seguro.
Um gesto muito pessoal, é disto que Seguro gosta e é a isso – “um imenso magma de afectividade”, para citar alguém conhecido – que ambiciona reduzir o partido. Emoções à flor da pele, afectos capitosos, sentimentos embriagantes, este é o seu terreno de eleição (pun intended). É a famigerada “cultura dos afectos” com que Seguro se apresentou aos militantes socialistas em 2011, os quais estariam, ficava em subtexto, numa grave carência de abracinhos e beijinhos depois de 6 anos de frieza socrática.
Revolution through evolution
Cynical? You may be hurting your brain health
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Physical activity helps maintain mobility in older adults
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Social Networks Linked to Better Health for Older Adults
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Get Ready for the Computers of the Future
Slater addicted
A primeira vez que vi uma prova de surf foi, e por acaso, em 2013. A Fuel TV estava a transmitir as etapas do campeonato do mundo e tinha vários comentadores nacionais que iam botando faladura. A minha ignorância era tão grande que nem sequer estava familiarizado com o sistema de pontuação. E conseguia entender muito melhor um chinês fanhoso do que os nomes das manobras que deixavam tão excitados os comentadores. Mas já era um estupendo surfista desde 2011. Nesse ano, num Outubro com temperaturas dignas de Junho, comprei 5 lições de surf numa escola da Caparica. Consegui gastar 3, correspondendo a 6 horas de iniciação e a um total de menos de 1 minuto em que me aguentei na vertical sem cair, e este feito heróico numas ondas quase rasas. Foi o que me chegou e sobrou para ter a certeza de haver em mim um surfista que ainda iria dar muito que falar – dar muito que falar na minha rua, pois o plano seguinte consistia em comprar um fato de surf e passar a exibi-lo aos fins-de-semana para os vizinhos.
A prova era a Volcom Fiji Pro. Comecei a ver decorria a 2ª eliminatória, sendo essa a primeira para Kelly Slater dado que a vedeta tinha chegado atrasada ao evento. Como as segundas eliminatórias são constituídas pelos que não passaram na 1ª, era como se tivesse participado e não tivesse ganhado a sua bateria (a parte das eliminatórias onde se compete com 1 ou 2 surfistas para decidir a passagem). Não sei desde quando este nome se atravessava na minha desatenção, mas será correcto dizer que era desde sempre considerando que se trata da maior figura da história do surf. Conquistou em 1992 o primeiro dos seus 11 títulos mundiais, pelo que também eu chegava com atraso à romaria, um atraso de 21 aninhos. Não conseguiria reproduzir mais nenhum nome de surfistas actuais ou passados, estrangeiros ou portugueses, e mesmo sobre o Kelly desconhecia tudo para além do facto de existir e continuar a competir. O que não poderia desconhecer a partir de então era o entusiasmo com que a equipa da Fuel TV falava dele, o mesmo entusiasmo com que os fiéis de todas as religiões descrevem as epifanias respectivas. O homem não era só o rei da modalidade, era igualmente um semideus da linhagem de Posídon com incontáveis e indeléveis exibições dos seus poderes sobrenaturais. Ao mesmo tempo, essa intimidade tão antiga deixava escapar notas de cansaço, quase uma impaciência. Até quando é que teriam de continuar a prestar-lhe vassalagem, a pergunta corria subterrânea. Afinal, ele estava com 41 anos, quando a média dos restantes surfistas do campeonato mundial é de 30 para baixo. E sendo este desporto tão física e mentalmente exigente, que anda ali a fazer um quarentas?
Exactissimamente
Já aconteceu, mas nunca aconteceu
O nosso amigo Acácio Lima escreveu-me para informar de que o PS já apresentou um candidato a primeiro-ministro que não era secretário-geral: Almeida Santos, em 1985. Essa situação, porém, em nada se compara com a proposta de Seguro, dado que Almeida Santos foi uma escolha de Mário Soares, o secretário-geral ao tempo, e assumia por inteiro o seu legado político e governativo. Soares, por sua vez, afastava-se das eleições legislativas para se dedicar à sua candidatura presidencial em 1986.
O que Seguro acaba de propor, para além de diluir a responsabilidade do partido num plebiscito, poderia levar à coexistência de um secretário-geral opositor do candidato a primeiro-ministro do seu próprio partido. Como se actualmente houvesse carência de absurdo e caos ali para os lados do Rato.
É mesmo uma nova forma de fazer política
Alinhar com as campanhas de ódio dos adversários contra o seu próprio partido.
Partir do princípio de que todos os seus camaradas são suspeitos de falhas éticas até à assinatura de uns papeluchos em contrário.
Ficar calado perante a torrente de calúnias contra ex-governantes do seu próprio partido.
Repetir, mandando repetir ou aprovando que se repita, o argumentário do ódio criado pela direita contra os adversários internos.
Anunciar-se como um ser moralmente excepcional e superior ao partido.
Dizer que aprova uma moção de censura sem saber o que ela ataca ou defende, depois dizer que não concorda com ela, depois mandar o seu grupo parlamentar votar a favor da moção com a qual não concorda, depois abandonar o grupo parlamentar aquando da discussão da mesma.
Recusar marcar um congresso para resolver uma questão incontornável de liderança, depois defender uma ideia que tinha recusado no ano passado e nela inventar uma solução nunca antes vista, ou sequer imaginada, onde o PS poderia ter um secretário-geral que não seria candidato a primeiro-ministro.
Estar três anos a ser o líder da oposição que a direita e o Governo além-Troika adoram e não querem perder.
Tudo isto é novo, e ridículo, e cada vez mais trágico.
Já nasceram?
Marco António Costa foi ao Política Mesmo na terça-feira. Gosto muito – e desde há muito – do Marco António Costa. Neste episódio não desiludiu. Aliás, ele nunca me desiludiu. É a constância personificada. Vejamos um exemplo do supino Marco António Costa:
Marco António Costa - Que esta disputa dentro do Partido Socialista não seja um factor de instabilidade na vida política nacional e não contribua para um crescendo da radicalização que tem havido da linguagem do Partido Socialista na vida política nacional...
Jornalista - Radicalizada? Mas estávamos em campanha eleitoral...
Marco António Costa - Muito antes da campanha eleitoral houve terminologias que foram usadas em ataques pessoais ao primeiro-ministro, o uso de tempos de antena que são pouco vulgares nas sociedades europeias, mais vulgares nas sociedades americanas, com campanhas muito pouco apropriadas para uma democracia europeia. Eu julgo que valeu tudo. E aquilo que eu deixo como apelo fundamental é que o Partido Socialista evite ser um factor de instabilidade para a vida política nacional.
Eis Marco António Costa, vice-presidente de um partido que desde 2008 não tem feito outra coisa que não sejam assassinatos de carácter, campanhas negras e golpadas mediático-justicialistas, um partido que afundou o País só para se poder alambazar no pote, a queixar-se do PS de um Seguro que, ainda antes de chegar a secretário-geral, já alinhava com a intenção de toda essa baixa política e decadência cívica, e o qual tem deixado o seu partido ser fustigado diariamente com essa chuva de velhacarias. Faz isto sentido? É que não pode fazer mais, como a inércia facial e o tom monocórdico do imperial Marco António Costa atestam e celebram. Ele demonstra que a política deve ser o espaço onde a palavra dos protagonistas não tem qualquer valor e onde as acções são regidas exclusivamente pela lógica da conquista do poder. Mas mais, ele igualmente exibe a impunidade de quem sabe que nunca será confrontado com a obscena e aviltante contradição entre o que diz e o que faz. Como é isto possível?
A resposta é estupidamente simples. Só é possível ao Marco António Costa ter uma carreira política onde nos trata como alimárias por causa da atitude dos jornalistas. No caso, o Paulo Magalhães, estimável e agradável profissional, optou por aquilo que será a normalidade junto dos seus colegas de imprensa e em momento algum chamou o estupendo Marco António Costa à sua responsabilidade. Pelo que este continuou a gozar com a malta até ao fim:
O que temos visto, por parte da oposição, é prometer o céu e fazer as promessas mais inconsistentes e mais irrealistas que é possível.
Não vamos deitar tudo a perder por uma medida populista, por uma medida eleitoralista.
Julgo que os portugueses não são susceptíveis a eleitoralismo fácil. Julgo que as eleições europeias mostram isso.
Julgo que o radicalismo, o afastamento, o fechamento político a que o Partido Socialista se entregou nos últimos anos não beneficiam o interesse nacional e também não beneficiam a imagem que os cidadãos têm do sistema político-partidário português. Portanto, eu acho que existe uma obrigação patriótica de os grandes partidos terem uma atitude de responsabilidade. É isso que eu espero do Partido Socialista para o futuro.
Marco António Costa, vice-presidente do partido que montou uma campanha eleitoral em 2011 onde jurou não ir fazer despedimentos nem aumentar impostos, garantindo ter as contas todas feitas, o partido que decidiu impedir Portugal de tentar escapar ao resgate assim traindo o interesse nacional, o partido que gostaria de ver condenados em tribunal políticos socialistas, o partido que logo após ter tomado o poder fez o exacto oposto de tudo o que prometeu dias antes. Este é o mesmo Marco António Costa que consegue perverter de forma absoluta a função da política e não ser sequer beliscado pelo jornalista à sua frente.
Quer isto dizer que há espaço em Portugal para outro tipo de jornalistas. Resta só saber onde estão ou se já nasceram.
How low can you go?
O burlesco e as burlas
Convém não deixar sem reparo dois episódios burlescos ainda da campanha para as europeias. Porque o burlesco é uma forma privilegiada de acesso ao sentido da vida, quiçá aos mecanismos que governam o universo.
O primeiro veio da Marisa Matias. Esta bravíssima lutadora contra a opressão capitalista lembrou-se de propor a inclusão do surf nos currículos escolares. Se a ideia já era maravilhosa em si mesma, só por ter sido concebida e vocalizada em público, o racional aduzido tem o poder de um furação de categoria 5:
“Não é muito compreensível que, com tanta costa, com tantos quilómetros de praia, seja muito difícil que as escolas cheguem, por exemplo, à prática de surf e a outras práticas associadas.“
Não é muito compreensível?!… Mas, minha rica senhora, não é nada de nadinha de nada compreensível. Será até o maior atentado contra o sistema educativo em Portugal ter esses quilómetros de costa e de praias ao abandono só porque há uns malucos que preferem ensinar os putos dentro das escolas. Quão melhor para o destino científico e profissional deste jardim justamente e não por acaso à beira-mar plantado que os professores, a começar pelos de Bragança para que fique o exemplo, peguem nas suas pranchas, ou canas de pesca, no mínimo no bronzeador e nas raquetas, e se dirijam decididos para a costa. A miudagem não teria outro remédio senão segui-los ou chumbariam por faltas caso preferissem ficar nas escolas a estudar. Só por esta proposta, deveria ser criado 1 lugar vitalício para o BE num parlamento à escolha, nacional ou internacional.
O segundo episódio foi uma oferta do Lobo Xavier. A propósito de uma oportunidade irresistível para dar largas à sua pulsão para caluniar Sócrates, despejando lúbrica e alarvemente o seu ódio, saiu-se com esta pérola:
“Se realmente o PS acha que esta é altura de recuperar a figura do engenheiro Sócrates, então essa é a altura de também eu voltar à política ativa.“
Ou seja, nada mais na política activa levaria o Lobo Xavier a querer agir a não ser o demónio, Sócrates. Qual cidadania, qual democracia cristã, qual bem comum, qual defesa da sociedade face ao Estado, qual luta pela liberdade, qual quê e qual caralho. Só o Sócrates tem o magnetismo, a força, o encanto suficientes para levarem um passarão do calibre do Lobo Xavier, um dos mais bem sucedidos cavalheiros de indústria cá no burgo, a largar o conforto do seu remanso e os corredores alcatifados das suas actividades profissionais para se dirigir a um almoço da tal candidatura que ficou em estado comatoso no passado domingo.
Encontrar um elogio mais sincero, e mais desvairado, do que este que Lobo Xavier involuntariamente fez a Sócrates não será possível. Nunca mais.
Dúvidas metódicas
Que devemos concluir de terem sido aqueles cujo projecto de vida se resume a conseguirem viver muito acima das possibilidades dos restantes os que inventaram que os portugueses pobretanas tinham andado a viver acima das suas possibilidades?
E que devemos inferir de esta tanga, que tem tanto de imbecil como de ignóbil, ter colhido a cumplicidade calada da esquerda pura e verdadeira, a tal esquerda que verdadeira e puramente defende os interesses dos portugueses pobretanas e na miséria, ou assim o berra há décadas?
Exactissimamente
Vamos lá a saber
Exactissimamente
Revolution through evolution
Study: Larger Waistline, Fewer Votes
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Favoritism, not hostility, causes most discrimination
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Engineer invents a way to beam power to medical chips deep inside the body
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I like your genes: People more likely to choose a spouse with similar DNA
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Studies Show Different Types of Vinegar May Benefit Health
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Personal judgments swayed by group opinion, but only for three days
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Safety in numbers: Moderate drinking in a group reduces attraction to risk
Olhos nos olhos
Aquele político, cujo nome agora me escapa, que andou na última semana de campanha para umas eleições europeias a prometer que vai revogar a “TSU dos pensionistas” e devolver as reformas e as pensões que são devidas aos reformados e pensionistas, dando como garantia o poder hipnótico do seu olhar (fonte), por pouco não conseguia mais um feito histórico para o seu currículo.
Ficou a 4 pontos percentuais, ou menos.
Uma goleada contra o machismo
E o meu voto vai para…
De cruz
Como se sabe, o afastamento dos cidadãos em relação à política, e o rol de queixas respectivas e recorrentes, é um fenómeno com décadas e típico de todas as democracias consolidadas. A Internet veio dar amplificação, e intensidade, ao palavrório de maldizer contra os políticos – e contra a política – que sempre encheu as conversas de café e de salão.
Há muito de meramente patológico nessa torrente negativista, como seria inevitável. Pessoas verdadeiramente doentes que, ou por não estarem diagnosticadas e em tratamento, ou por serem atraídas para um modo de comunicação que permite a expressão descontrolada das suas perturbações, encontram na conflitualidade da política um espaço irresistível e de motivação inesgotável. Igualmente há muito de antropológico na forma como a democracia simula um estado de guerra entre facções, uma luta pelos recursos, pela sobrevivência. O legado ancestral em que o adversário parece esconder um inimigo favorece reacções bélicas que violam o nexo comunitário onde é suposto ocorrer o debate e a eleição. Mas também há muito de lógico e objectivo na desilusão que surge da incapacidade dos políticos para resolverem os cada vez mais complexos desafios da governação, e ainda no desânimo que se espalha letal pela pulsão dos políticos para a demagogia e o populismo.
Porém, todavia, contudo, o problema principal – porque primeiro – não está nos políticos. Como tu bem sabes. O problema está em mim. E em ti. Somos nós os responsáveis maiores pela situação. É o nosso absentismo, a nossa ausência, que deixa a cidade ao abandono. Temos medo, somos uns cobardes. Quão mais cobardes – portanto, mais impotentes – mais nos queixaremos dos políticos e da política.
Neste domingo, vale a pena ir votar só para podermos tocar na coragem dos candidatos. Aquele papelucho com palavras e quadrados vazios é um documento precioso para qualquer cobarde que esteja curioso a seu respeito, intrigado com o seu estado. É a prova de que há vários que ousam ser livres. Expondo-se ao berreiro dos cobardes, mas contando com o seu medo e fraqueza, avançam em direcção ao poder. Alguns vão conseguir entrar, outros não. Todos terão realizado uma parte do melhor de si só por terem decidido concorrer numas eleições democráticas. Sem eles, se ninguém concorresse a nenhuma eleição, a democracia desaparecia.
Grande o favor que nos fazem. A democracia depende deles. Da sua tão bela coragem. A qual, nem que seja por breves minutos ou segundos, podemos agarrar e fazer nossa. De cruz.

