De cruz

Como se sabe, o afastamento dos cidadãos em relação à política, e o rol de queixas respectivas e recorrentes, é um fenómeno com décadas e típico de todas as democracias consolidadas. A Internet veio dar amplificação, e intensidade, ao palavrório de maldizer contra os políticos – e contra a política – que sempre encheu as conversas de café e de salão.

Há muito de meramente patológico nessa torrente negativista, como seria inevitável. Pessoas verdadeiramente doentes que, ou por não estarem diagnosticadas e em tratamento, ou por serem atraídas para um modo de comunicação que permite a expressão descontrolada das suas perturbações, encontram na conflitualidade da política um espaço irresistível e de motivação inesgotável. Igualmente há muito de antropológico na forma como a democracia simula um estado de guerra entre facções, uma luta pelos recursos, pela sobrevivência. O legado ancestral em que o adversário parece esconder um inimigo favorece reacções bélicas que violam o nexo comunitário onde é suposto ocorrer o debate e a eleição. Mas também há muito de lógico e objectivo na desilusão que surge da incapacidade dos políticos para resolverem os cada vez mais complexos desafios da governação, e ainda no desânimo que se espalha letal pela pulsão dos políticos para a demagogia e o populismo.

Porém, todavia, contudo, o problema principal – porque primeiro – não está nos políticos. Como tu bem sabes. O problema está em mim. E em ti. Somos nós os responsáveis maiores pela situação. É o nosso absentismo, a nossa ausência, que deixa a cidade ao abandono. Temos medo, somos uns cobardes. Quão mais cobardes – portanto, mais impotentes – mais nos queixaremos dos políticos e da política.

Neste domingo, vale a pena ir votar só para podermos tocar na coragem dos candidatos. Aquele papelucho com palavras e quadrados vazios é um documento precioso para qualquer cobarde que esteja curioso a seu respeito, intrigado com o seu estado. É a prova de que há vários que ousam ser livres. Expondo-se ao berreiro dos cobardes, mas contando com o seu medo e fraqueza, avançam em direcção ao poder. Alguns vão conseguir entrar, outros não. Todos terão realizado uma parte do melhor de si só por terem decidido concorrer numas eleições democráticas. Sem eles, se ninguém concorresse a nenhuma eleição, a democracia desaparecia.

Grande o favor que nos fazem. A democracia depende deles. Da sua tão bela coragem. A qual, nem que seja por breves minutos ou segundos, podemos agarrar e fazer nossa. De cruz.

2 thoughts on “De cruz”

  1. De facto, na solidão da câmara de voto, onde só a consciência do eleitor preside, é que o exercício da verdadeiramente liberdade é possível, podendo escolher uma cruz na lista candidata preferida, escolher não por cruz nenhuma ou pura e simplesmente assumir a cobardia genética de inscrever no boletim de voto qualquer outra coisa que significa escolher nada.

    Votemos, pois!

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