“A vantagem das primárias é que vai ser um processo transparente para se verem onde é que estão as diferenças. E eu penso que essas diferenças são realmente muito importantes.“
“Penso até, pela experiência que tive agora na campanha eleitoral, que um dos problemas que levou a que muitos portugueses não dessem a sua confiança ao PS, apesar do grande desagrado com as políticas da direita na PS, também tem a ver com o facto de - como dizia o António Costa [risos] - de o PS ter de mostrar que não governa como a direita. Para governar como a direita, as pessoas preferem a própria direita.“
“Há muita gente que identifica o PS com a assinatura do Memorando que trouxe a Troika.“
“O PS tem muito de que se orgulhar da governação socialista anterior, com o que fez nesses anos de governação Sócrates, da escola pública ao investimento na ciência, na tecnologia, ao Simplex, enfim... Mas também cometeram-se erros. E eu penso que é muito importante assumir que se cometeram erros porque isso dá credibilidade ao PS. Dá às pessoas a garantia de que não se voltam a cometer esses erros.“
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Para a minha geração – criança no 25 de Abril, adolescente nos anos 80, jovem adulto nos anos 90 – o grande acontecimento político até à data terá de ser o voluntário descalabro económico e social a que Portugal se entregou em 2010 e 2011, culminando numa traição ao interesse nacional sufragada por maioria parlamentar num 23 de Março à tardinha. Não por ser o acontecimento de maior importância do ponto de vista histórico nos últimos 50 anos, mas por ocorrer no nosso período de maturidade política tem existencial protagonismo. Estamos agora dotados dos instrumentos cognitivos, da densidade vivida e do chamamento intelectual para compreendermos que algo de muito errado aconteceu. Tudo o que nos ajude a dar sentido ao absurdo servirá ao nosso crescimento colectivo.
Claro, nada há de absurdo no aproveitamento de crises internacionais devastadoras para derrubar o poder vigente e ocupar o poleiro. Foi o que esta direita fez, com a força dos seus poderes fácticos e da sua cultura rapace. Por isso, enquanto oposição, emporcalharam o espaço público com calúnias e assassinatos de carácter, depois fizeram uma campanha eleitoral onde mentiram do princípio ao fim, e chegados ao pote de imediato trataram de aplicar o plano secreto: empobrecer Portugal e os portugueses, desmantelar o Estado social, fazerem e viabilizarem negócios colossais.
O absurdo está do lado da esquerda. Como foi possível à esquerda não só deixar esta direita decadente e violenta sem luta mas – ó deuses do marxismo! – inclusive ser cúmplice raivosa no ataque a um Governo de centro-esquerda onde a defesa do Estado social tinha excelente obra feita e era vocação programática? Há várias respostas, tão mais fáceis de dar quanto nos deslocarmos em direcção ao fanatismo sectário do PCP. Eis um grupo que imita antropologicamente as seitas religiosas apocalípticas, pelo que a lógica do quanto pior melhor contribui para o reforço das suas crenças maniqueístas. Mas como explicar a mesma dinâmica de boicote à evidência de ser o Governo socialista a melhor solução para as ameaças que tinham desabado em cima do País a partir do final de 2008, insanamente agravadas a partir de 2010, e ainda a aliança com a cultura do ódio que vimos em vários e destacados militantes do próprio PS? Como é que alguém que se identifica com a democracia passa a colaborador daqueles que não escondem só querer servir a oligarquia? É uma questão fascinante.
