Há mercado eleitoral para o populismo

Creio que Pedro Adão e Silva foi o único comentador político profissional a alertar, logo em 2011, para o risco que advinha de os dois principais partidos portugueses ficarem nas mãos de duas figuras nadas e criadas nas juventudes partidárias e cujos méritos se resumiam a isso mesmo. A sucessão de disfunções e cumplicidades entre a parelha veio dar-lhe razão, talvez até tenha superado o seu pessimismo.

Passos andava em 2008 a atacar Ferreira Leite e a elogiar Sócrates. Ninguém sabia o que pretendia para o País, nem ele, mas os militantes social-democratas achavam que ele era o futuro por ser parecido com… Sócrates. Em 2010, após o falhanço do avatar cavaquista de saias, ganhou sem surpresa. Seguiu-se a preparação do assalto ao poder, consistindo esta operação em mentir quanto pôde, por um lado, e em excitar as pulsões populistas contra os políticos, pelo outro.

Seguro andou vários anos a anunciar-se como o sucessor de Sócrates. Assim que teve uma oportunidade, lançou-se descontrolado para a agarrar. A campanha que fez para secretário-geral recuperava temas usados pela direita contra Sócrates e contra o PS. Seguro concordava com a necessidade de corrigir os erros (crimes?) do partido e achava-se destinado a fazer essa purificação. De caminho, reclamava estar a inaugurar uma forma de fazer política nunca antes vista. Uma nova forma de fazer política que nascia da sua superioridade moral e inviolável ética; no que fica como uma das mais importantes adesões ao populismo em Portugal por ocorrer no PS, supostamente o partido mais imune a essa perversão.

Temos, portanto, que estes dois políticos não hesitam em usar as forças centrífugas, e mesmo caóticas, do sistema democrático como meios para a obtenção do poder. Nem Passos, nem Seguro, ganharam eleições à conta de projectos de desenvolvimento económico e social. Os seus temas de campanha ou passaram por colossais mentiras ou por soberbas pretensões.

Neste sábado, Seguro recuperou em toda a força o discurso contra os políticos. Estamos no mesmíssimo território da “Política de Verdade”, onde, na prática, já não seria possível haver escolha entre partidos e pessoas. Se uns possuem a “verdade”, todos os outros são falsos. E se uns estão do lado do “bem”, quem não estiver com eles está do lado do mal. É, igualmente, o discurso que se foi tornando obsessivo em Cavaco, à medida que envelhecia e que ia aumentando a quantidade e a gravidade das velhacarias cometidas. Um discurso onde o político há mais tempo em funções, que já ocupou todos os principais cargos do regime, se arroga um estatuto acima da política e dos políticos. É, igualmente, o pasto que deu 600 000 votos a Fernando Nobre, uma anedota falante, e que levou Marinho e Pinto para o Parlamento Europeu.

Seguro voltou a dizer que vai obrigar os candidatos socialistas numas próximas eleições a assinarem um papel onde jurem resistir à corrupção. Nestes três anos ainda não tinha conseguido, mas agora ele está liberto, já não precisa de se anular. Com isso, alimenta um angelismo que, como a História regista invariavelmente, não passa de um culto de personalidade embrulhado em hipocrisia e cinismo. Espero que os jornalistas, pelo menos um, lhe perguntem quais foram os casos que o levaram a sentir a necessidade de purgar o PS desta forma. E também se ele gostaria de pôr Sócrates em tribunal.

8 thoughts on “Há mercado eleitoral para o populismo”

  1. Sem contestar as apreciações do autor e sem ter ou querer ter qualquer legitimidade para intervir nas atuais divisões do PS, chamo porém a atenção para o facto de ambos os candidatos à liderança serem nados e criados nas juventudes partidárias, sem atividade extra política conhecida.

  2. Manuel Sousa, a experiência política de António Costa faz dele algo mais do que um ser saído da Juventude Socialista. Seguro apenas foi ministro-adjunto de Guterres durante menos de 1 ano.

  3. As próximas primárias, a existirem, vão deixar mortos e feridos. E a continuar Seguro, temo que muitos não voltarão ao PS tão cedo. Lamento também que numa onda de populismo mediático, esta ideia de umas primárias que fortalecem o partido e a democracia tenha colhido frutos – diga-se, sobretudo à direita.
    Se podemos avaliar o que tem acontecido até agora, apenas tem servido para a destruição interna e externa. A campanha negra de Seguro tem marcado pontos na sua política de terra queimada. Mesmo que não ganhe, destrói o adversário.
    Não existissem mais diferenças e só esta seria suficiente, para mostrar a importância de uma mudança urgente na liderança do partido socialista e de um voto em Costa.

    Se existe um lado positivo nisto, é Seguro estar a mostrar que nada o separa de Relvas, nem de Passos. Tanto um como outro dizem-se defensores da ética, da verdade. No entanto para eles vale tudo, da mentira, à perversão, da destruição do país à destruição dos seus partidos.
    São exemplos práticos das razões que afastam o povo dos partidos e da política.
    Isto não é uma política de verdade, é uma política de mentira.

    Seguro é culpado de apoiar a coligação de governo. De alinhar com Cavaco. De não defender o partido, os seus ideais e a sua história. De apoiar a destruição do país.
    É culpado da sua própria fraqueza e incompetência.

  4. No jornal da meia-noite da SIC Noticias, vi o Seguro com um discurso muito inflamado contra António Costa. Até aqui nada de novo. O que é novidade para mim é ver Narciso Miranda nos apoiantes. Não têm um pingo de vergonha!

  5. Seguro faz-me lembrar a nossa “esquerda verdadeira”. Esta incendeia o seu discurso quando se atira ao PS. Com a direita é sempre muito, muito, muito mais suave. Façam um esforço de memória e verão que é verdade. E agora pergunto: nestes três últimos anos, alguma vez viram e ouviram um Seguro tão agressivo com a direita, como o Seguro duríssimo contra António Costa, a ponto de, ele que se diz de uma nova ética, entrar pelos ataques pessoais, coisa que nunca fez aos seus hipotéticos adversários da direita ou da esquerda radical? E ninguém se escandaliza por ver Assis e Alberto Martins alinhar neste jogo? Se isto não é o fim do PS, não sei o que poderá mais ser. Se alguém está à espera de um gesto de indignação contra a destruição em curso do Estado Social por parte de algum notável socialista, como seria, por exemplo, António Vitorino mandar Cavaco colocar no Relvas a condecoração que ele aceitou no 10 de Junho, desengane-se e espere sentado. Talvez Costa já não a vem a tempo para fazer alguma coisa. Basta que Cavaco leve a sério o pedido que Jerónimo vai hoje fazer-lhe a Belém. Até parece uma encomenda de Cavaco Passos/Portas. .

  6. Claro que há eleitorado para o populismo… basta ver o Seguro inflamado, que até parece que foi à farmácia das Caldas e se aviou com um caixote de viagra, de tal forma que, desatou a fazer promessas a torto e a direito; e isso faz desconfiar…. Este pânico , aliás, faz-me desconfiar se não terá já feito algum acordo com Passos e Cavaco, e se o desafio de Costa não terá vindo baralhar o timing… Já agora uma especulação louca: e se Cavaco, aproveitando a posição de Jerónimo, marcasse eleições antecipadas…. Pois , devo ter apanhado muito sol na cabeça e só faltam 5 dias para o Verão…. Esqueçam.

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