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Quem tem medo do passado?

A ideia de que há um culto de Sócrates entre um certo grupo de políticos e populares – os tais “socráticos” que o Vasco Pulido Valente, numa contagem psicadélica cuja origem a ciência devia já estar a investigar, estabeleceu corresponderem a “centenas” (mas quantas?!… oh, angústia…) de indivíduos – não encontra material que a sustente nem precisa. É uma caricatura ao serviço da chicana.

Em análogo sentido, a ideia de que haveria alguém a impedir a crítica da governação de Sócrates e seus ministros é igualmente uma invenção cujo propósito é tão-só o de fazer da permanente difamação e paranóia o cerne do combate político. Quem é que, de resto, poderia impedir qualquer exercício analítico sobre alguma coisa, fosse o que fosse? A sociedade ainda não se transformou num imenso Comité Central.

Pelo contrário, o que se constata é o benefício de não criticar a história da política nacional de 2005 a 2011 – portanto, de não discutir, de não ajuizar e de não valorizar positiva e/ou negativamente as decisões e os seus resultados. À direita, a vantagem de reduzir o debate a calúnias e ao fogo de barragem da “culpa” é evidente. O silêncio da esquerda pura e verdadeira vai pelo mesmo caminho, com o sectarismo a impedir o mínimo reconhecimento da vantagem para os interesses dos mais desfavorecidos de ter os socialistas a governar face ao que PSD e CDS fazem. A novidade está no que aconteceu dentro do PS, cujo actual secretário-geral poderia ter feito o debate sobre o passado recente logo que assumiu a liderança. Aliás, se ele fosse mesmo o que pretende ser, o anjo da transparência e da ética, teria levado a voto interno a sua visão crítica da obra do líder que pretendia substituir. Nada disso se passou, criando uma perversão que explodiu agora de forma degradante e violenta só porque se sente em risco de perder o lugar.

António Costa, há dias, criticou o “voluntarismo” das políticas de Sócrates na Educação. Para ele, o conflito com os professores devia ter sido evitado. Não se alongou no assunto, não se sabendo o que pensa da qualidade dos professores e da temática da avaliação. Nem se percebe se está a expressar uma convicção de fundo ou um utilitarismo cínico. Eis uma questão apaixonante, que levaria a horas, dias e meses de discussão. Claro que a tentativa de mudar a cultura disfuncional dos professores poderia ter sido evitada, e com isso até talvez se conseguisse repetir a maioria absoluta em 2009. Mas precisamente porque não foi evitada é que alguns, e bem mais do que umas centenas, estão orgulhosos do que Maria de Lurdes Rodrigues tentou fazer. Que Costa não fosse por esse caminho, é normal. Fica-lhe bem reconhecer que é mais prudente ou menos ousado, mais calculista ou menos apaixonado, do que Sócrates. Que abrir essa discussão, ou outra qualquer ligada a políticas concretas de Sócrates, fosse do desagrado daqueles que aprovam a governação anterior, é a tal ideia que define como acéfalo ou caluniador aquele que a reproduz.

Assim como vimos num célebre embate entre José Gomes Ferreira e Paulo Campos, onde todas as suspeições sobre as PPP estiveram em discussão aberta com o principal alvo das pulhices a dar o peito às balas, é o caluniador que não tem interesse em discutir a matéria da calúnia (Gomes Ferreira prometeu voltar à carga com Paulo Campos, mas tal nunca aconteceu). E, nos raros casos em que o aceite fazer, a sua intenção é a de continuar a caluniar, mesmo quando é exposto como caluniador. Lógica igual é norma nas comissões de inquérito parlamentar, réplica das tácticas de baixa política usadas no hemiciclo onde o que está em causa é boicotar uma qualquer investigação objectivante e impedir a retirada de conclusões intelectualmente honestas.

Nunca falha: quem tem medo do passado é o pulha.

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Seguro, o passaroco desasado

Resistir à tentação de responder à chungaria provocadora que Seguro ininterruptamente despeja é a melhor atitude para Costa e restante equipa. Essa contenção tem revelado em toda a sua glória a qualidade política, cívica, e até humana, daqueles que querem fazer do PS uma extensão da direita decadente que traiu e afundou Portugal. O episódio da Isaura Martinho, tão degradante que chega a causar vergonha alheia, foi legitimado pelos tenentes de Seguro, explicitamente, e pelo fundador da “nova forma de fazer política”, implicitamente. Depois disto, já não há desculpas para ninguém e a História fará o seu caminho.

Porém, o silêncio de Costa, quando se quebrar, terá de libertar um verbo implacável – sob pena de se estar a repetir a cobardia de Seguro, o tal passaroco à solta depois de 3 anos em auto-anulação dentro de uma gaiola, como o próprio fez questão de anunciar publicamente. É que a gravidade dos dislates nascidos da raiva de Seguro não pára de aumentar.

Na entrevista à Renascença, Seguro atacou o próprio partido que dirige usando o mesmíssimo argumento que a direita passou a usar quando se viu o desastre dos números além-Troika a surgirem, logo nos inícios de 2012: “Este é o Memorando de Sócrates, o PS é que negociou e assinou o Memorando, nós não tivemos nada a ver com ele e apenas estamos no Governo a cumprir ordens porque somos muito bons rapazes.” Até esse período, para os direitolas, o Memorando era o que de melhor poderia ter acontecido neste país, pois vinha aí a estranja pôr ordem na porqueira. Catroga ululante garantia ter sido ele quem tinha imposto o que de mais importante ia ser assinado e Passos assumia que entre o seu programa de governo e o Memorando havia menos diferenças do que entre dois gémeos monozigóticos. Aliás, acrescentava Passos na sua fúria demiúrgica, se havia algo a censurar era não se ter ido ainda mais longe e muito mais longe. Coisa que de imediato ele se encarregou de mostrar em que consistia. Ora, foi esta cassete que Seguro foi buscar e que faz sua. Como não é provável que algum jornalista o obrigue a explicar o que teria feito em 2011 com um acordo que evitava o resgate chumbado no Parlamento e com um Presidente da República a pedir à rua para derrubar o Governo, espero que ao menos Costa não tenha nenhum laivo de misericórdia nesta linha de fronteira onde não pode haver qualquer cedência. Se Seguro quer validar a retórica canalha da direita sobre a crise de 2008 a 2011, não pode ficar pedra sobre pedra até se tirarem daí todas as consequências para o futuro do PS.

Também nessa entrevista – para além da imagem ridícula, se não for já doentia, que dá de si como líder – Seguro acusa Costa de ser o responsável pela violência que sobre o mesmo Costa se tinha abatido por iniciativa dos apoiantes de Seguro. Esta faceta passivo-agressiva, vinda do propalado rei da transparência e da ética, não merece especial comentário. Por ser aquilo que grotescamente é. Merece só que não seja esquecida – nunca mais enquanto o passaroco almejar ter poder político.

No reino da estupidez

Paulo Bento descarta operar uma revolução no onze da Seleção Nacional para o jogo com os EUA, embora reconheça estar obrigado a introduzir alterações por força das lesões de Fábio Coentrão e Hugo Almeida e da expulsão de Pepe.

«Vamos ter que fazer alterações, e são várias. Estamos a falar de duas lesões e de uma expulsão. Reformular tudo o que diz respeito aos nossos processos seria, na minha opinião, o maior erro que poderíamos cometer.»

«Normalmente, é na adversidade que vemos quem somos. Teremos de ter a capacidade de lutar por esse objetivo e estou perfeitamente convicto que o faremos».


«Reformular tudo seria um erro» – Paulo Bento

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"O meu sentimento, hoje, é o mesmo do jogo na Suécia, quando vos transmiti [aos jornalistas] o orgulho e satisfação em estar na seleção nacional e a gratidão aos jogadores pelo que têm feito. Sei da minha responsabilidade e sei que em abril cheguei a um acordo com a FPF, que não tinha só a ver com os resultados no Mundial, mas também com os objetivos para o Euro 2016. Perante este facto, aconteça o que acontecer amanhã [contra o Gana], não me demito do cargo", vincou.


Paulo Bento recusa demitir-se e fica até ao Euro 2016

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Para o jogo com os EUA, Bento admitiu fazer alterações por razões de força maior, vá lá. Limitou-se a fazer aquelas a que estava obrigado, tentando mudar o mínimo possível o padrão de jogo da equipa. Depois, veio o jogo. Num golpe de sorte, há uma bola que é desviada por um americano directamente para os pés de Nani que estava em frente da baliza. Achando que ainda não era suficiente, o destino obrigou o guarda-redes dos EUA a mandar-se para o chão antes do remate, assim deixando a baliza toda aberta. Bento continuou igual a si próprio a ver a banda passar. E a banda passou. Só por lesão aceitou pôr em jogo o William Carvalho, que veio finalmente dar um meio-campo à equipa e que apenas falhou um passe, e só por desespero aceitou pôr em jogo o Varela, que marcou um golo com pés e cabeça. Portugal merecia ter perdido por tantos golos quantas as ocasiões flagrantes dos EUA.

Este Mundial é um desastre desportivo e profissional que se prepara, pelos vistos, para ficar sem responsáveis. Se assim acontecer, e pese a irrelevância da questão quando comparada com os problemas económicos e sociais que atingem a população, será mais uma machadada na dignidade deste país. Claro, tratando-se do mesmo país que aceita ter como Presidente da República um fulano que diz ao seu homólogo alemão que aprendemos “a lição dos últimos anos”, e também do mesmo país que aceita ter como primeiro-ministro quem enganou todo o eleitorado para assim poder empobrecer quase todos os portugueses, é caso para perguntar se este não será, afinal, o país onde Paulo Bento deve ser declarado seleccionador vitalício e mandar logo a seguir ao jogo com o Gana os jogadores que estão no Brasil para um estágio de preparação do Mundial de 2018.

Francisco Assis e Alberto Martins, cheguem aqui, faxavor

António José Seguro acusou, este domingo, António Costa de ter aberto, com o desafio à sua liderança, um "gravíssimo precedente" no PS e na vida democrática do partido. E recuperou o argumento de que agora "qualquer um pode fazer o mesmo".

Falando ao início da tarde, na Comissão Nacional do PS, que está a decorrer em Ermesinde, Seguro afirmou (de acordo com relatos de pessoas presentes na sala) que "o secretário-geral socialista está ferido na sua credibilidade", por haver quem considere que não tem condições para ganhar eleições.

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Seguro tem toda a razão. Havia no PS um acordo tácito, uma convenção, ou um dogma, que instituía a obrigatoriedade de só se concorrer contra um secretário-geral depois de ele disputar umas legislativas. Era assim que alguns explicavam o inexplicável recuo de Costa em 2013, depois de ter dado abundantes sinais de querer disputar a liderança. Um ano passou e Costa mudou de ideias. Porque um ano passou e a situação política nacional degradou-se ainda mais pela fraqueza, atestada nas eleições europeias, do PS. Tempos extraordinários pedem decisões extraordinárias, terá sido a lógica seguida desta vez.

Seguro podia ter optado por defender o partido e a comunidade, de caminho prestigiando a sua pessoa, caso tivesse aceitado com coragem e lhaneza ir de imediato para um congresso onde a disputa interna se resolvesse de vez e o partido saísse unido para os desafios de 2015 e 2016. Foi precisamente o oposto que preferiu fazer, de resto em coerência com o modo como chegou ao poleiro. A torrente de acusações escabrosas e difamatórias a que se tem dedicado desde que Costa anunciou que desta vez era mesmo a sério criou um clima de violência que está na origem do episódio no final da reunião da Comissão Nacional, em Ermesinde. Seguro, imitando a direita decadente, cavalga a cultura do ódio com a armadura refulgente da sonsice.

Veja-se a citação acima. Alguém que declara estar ferido na sua “credibilidade” – ainda por cima, dando-se o caso de não ter nenhuma para ser tocada, quanto mais ferida – está em concomitância a declarar que não pretende fazer acordos nem prisioneiros, que está disposto a uma guerra de terra queimada e destruição total. Assim, calhando Seguro ganhar as primárias e continuar como secretário-geral, qualquer resultado abaixo da maioria absoluta nas legislativas será sempre motivo para culpar António Costa e aqueles que a ele se juntaram neste momento. Deixou de haver espaço no partido para estes dois lados da contenda, é o corolário da atitude de Seguro e dos seus. O radicalismo de Seguro vem de uma soberba que a sua auto-elevação a purificador do PS e da política nacional anunciavam transparentemente muito antes de 2011. E, como se lê nos manuais de psicologia e de política, quem se imagina melhor do que os grupos a que pertence, e que manipula, acaba invariavelmente por espalhar violência à sua volta.

Donde, uma pergunta de arrebimbomalho: que estão Francisco Assis e Alberto Martins a fazer ao lado desta desprezível personagem?

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6 dias para provar que é treinador

Os 6 dias mais importantes da carreira do Paulo Bento chegam hoje ao seu desfecho. Não serão os mais importantes quanto à subida ao palco principal da profissão, aconteceu no Sporting, nem ao estatuto de notável do desporto, aconteceu ao ser escolhido como seleccionador. Nestes dias depois da cabazada, e do desastre, contra a Alemanha, Bento teve a sua oportunidade de ouro para provar que é um treinador de futebol. Estamos a poucas horas de descobrir se sim ou sopas.

Já na parte final da sua carreira de jogador se ia dizendo que ele daria um bom treinador. As características que para tal apontavam pareciam nascer da influência coordenadora, ou disciplinadora, que ele mostrava no balneário e dentro do campo junto dos colegas. Se ele tinha esse efeito de calções, o que não faria de calças, era a tese. E, de facto, os anos à frente do Sporting exibiram essas características de uma certa forma. Uma certa forma de jogar sem ousadia, sem imaginação e sem beleza que lhe deram sucessivos títulos de campeão da 2ª Circular mas nenhum título nacional. Pelo meio, parecia haver filhos e enteados quando tocava a mostrar que seria mesmo o tal mauzão prometido pela imprensa no trato com os jogadores.

A Selecção pode ter melhorado com o Bento quando comparada com a tonteira de Queiroz, mas o seu futebol não tem ousadia, não tem imaginação e não tem beleza. Por pouco, falhava o apuramento para o Mundial apesar de ter jogadores consagrados nos mais competitivos campeonatos europeus. Não se fez nenhum trabalho de renovação nestes anos e deixou-se simplesmente envelhecer o que já era ineficaz. É uma Selecção que se dá ao luxo de não levar consigo Quaresma, um dos mais talentosos jogadores de sempre onde a equipa é mais fraca, no ataque. A lesão do Hugo Almeida só veio adensar a estupidez dessa decisão. E é uma Selecção que se dá ao luxo de deixar no banco William Carvalho, a revelação da época e cujo nome já está na lista de aquisições dos melhores clubes europeus. Olhando para o que o meio-campo (não) fez contra a Alemanha, o Nobel da estupidez 2014 deve ser de imediato entregue ao Bento sem que seja preciso esperar pelo fim do ano.

Portugal pode ganhar aos EUA, e até golear. Tudo é possível porque todos os resultados são aleatórios. Mas jogar bem não é uma questão de sorte, é o fruto da inteligência e da alegria. Esses factores vêm do treinador, nascem nos treinos e na cultura do grupo pelo efeito da liderança. Uma equipa que perca apesar de jogar bem continua a ser uma equipa vencedora, e os seus adeptos terão boas razões para bendizerem tamanha sorte. Já uma equipa que ganhe apesar de jogar mal apenas consegue espalhar cinismo e mesquinhez entre os seus apoiantes. Pelo que o Bento não irá provar que é treinador por uma eventual vitória sobre os EUA. A prova virá pela inteligência e pela alegria, precisamente aquilo pelo qual ele não tem ficado conhecido até hoje.

Sonsice endémica

Seguro parece reunir tudo o que há de pior num líder da oposição. Ora se alia durante três anos aos que fizeram do PS o bombo da sua festança de mentiras e violência, ora aparece eriçado a berrar e em bicos dos pés contra quem procura resgatar o partido da “anulação” a que ele, secretário-geral, o condenou. Ora apoia à maluca moções de censura de sectários cristalizados cujo conteúdo desconhece, ora está disposto a afrontar e degradar 40 anos de história do PS. Esta mistura de pusilanimidade e desvario não podia acabar bem, e resta só saber qual a extensão dos danos que vai causar no PS e no sistema político.

Mas talvez o mais notável, ou o mais sintomático, ou tão-só o mais irritante, seja ver quem andou a bater palmas ao comício de Cavaco no Parlamento que sinaliza o começo da golpada final contra um Governo socialista, quem andou a sentar-se ao lado de Relvas quando este atacava a honra de Sócrates, quem andou a conspirar durante anos contra a direcção do partido que ia carimbando como corrupta, venha agora acusar Costa de falta de lealdade. L-E-A-L-D-A-D-E. Logo Costa, que lhe faz um desafio frontal, honesto e em nome dos superiores interesses do PS e da democracia. Costa, enfim, que ao não ter concorrido em 2011 foi quem ofereceu a Seguro a oportunidade para este se afirmar da forma mais fácil possível: bastaria ter feito um mínimo de oposição aos além-Troika que afundaram o País.

Portugal gosta de dar o poder político a sonsos, a avaliar pelo sucesso de Cavaco, Portas, Passos e Seguro. Se aparecer algum novo partido cujo programa tenha como ponto único combater esta epidemia de pulhice, vou a correr inscrever-me.

50 minutos preciosos

É das intervenções mais importantes que ocorreram na política portuguesa desde não sei quando à tarde. A entrevista de Maria João Avillez a Fernando Medina, se nenhuma outra utilidade tivesse, mostra que o PS tem ali um potencial secretário-geral da maior qualidade intelectual e política. Outro a juntar a um leque de vários talentos da nova geração socialista que, neste momento da história do partido, estão todos do lado de António Costa. No futuro do PS não haverá crises de má liderança, esse é um pesadelo do tempo presente.

A entrevista é igualmente de consumo obrigatório porque estará nela, provavelmente, a explicação mais clara até agora apresentada no espaço público sobre o diagnóstico da crise. Não se trata de ter sido proferida uma verdade, trata-se de se ter feito um argumento intelectualmente honesto. Como argumento que é, pode ser contrariado. Mas como a sua raiz nasce da honestidade da análise, exige igualmente um racionalização honesta por quem o quiser criticar. Isto leva a que os argumentos de baixa política ou se exibam ridículos nas suas deturpações primárias ou nem sequer apareçam por se reconhecerem como as inanidades que são.

Finalmente, a entrevista é de especial interesse pela pessoa da entrevistadora. Maria João Avillez, perto de fazer 70 anos, é uma típica representante da direita conservadora e da oligarquia. Nesta ocasião, ela faz o que sempre fez e fará: toma partido e camufla de intervenção jornalística o que é pura luta política. Sócrates é a sua obsessão, por via do tema “passado” que percorre a maior parte da entrevista. O que há aqui a realçar, por um lado, é o cardápio da atitude da senhora, o qual se resume à perseguição de um alvo odiado. As razões do ódio ficam imunes ao trabalho da inteligência, por isso a vemos a fugir sempre que as palavras de Medina a deixam encurralada e obrigada a contra-argumentar ou a assumir o seu erro de juízo. Contra-argumentar ela não consegue, assumir erros ainda menos, pelo que foge espavorida só para voltar a tentar ferir o adversário na próxima oportunidade. Nos minutos finais o espectáculo seja a ser literalmente patético, e hilariante, tamanho o descontrolo emocional causado pela raiva que transporta. Por outro lado, o elenco das retóricas baseadas na “culpa”, que é um automatismo antropológico universal nas contendas políticas, e que no caso português contemporâneo assumiu uma grandiosidade histórica pela força do carisma de Sócrates e do pânico que causou na direita, fica aqui com um documento anedótico para estudo ou divertimento. Ver as caras de repugnância da MJA, tanto ao colocar perguntas para as quais só admitia uma resposta como ao ouvir o que Medina tinha para lhe dizer, é desopilante. E trágico, bastando olhar para o que Seguro e os seus estão a fazer contra os próprios camaradas, copiando com zelo a cultura do ódio que tem moldado o debate politico em Portugal desde 2008.

Aqui fica uma caricatura da essência desta entrevista. E de tantas.

Deixa lá o Chico na santa paz, Ronaldo

O futebol não é causa de alienação política. Isso é um disparate desmentido pelos inúmeros casos de homens, e mulheres, que são tão apaixonados pela bola como pela comunidade que somos e queremos ser. Aqueles que apenas ligam ao futebol e se alheiam da cidade assim continuariam abstencionistas sem a rapaziada de calções a correr de um lado para o outro. Porque desculpas não faltam para a impotência e para a cobardia. E aqueles que adoram a política igualmente adoram um montão de outras coisas. Sem a existência do futebol, ou de qualquer outro desporto, continuariam com a vida cheia de vida.

Estabelecida a doutrina sobre esta matéria, avancemos para a manipulação política que Cristiano Ronaldo fez antes do jogo com a Alemanha:

Hoje, quando a nossa epopeia finalmente começar, seremos muito mais do que 10 milhões. Seremos ainda paixão, emoção, crença, determinação, perseverança. Seremos espírito de vitória. Seremos esperança. Todos juntos, de mãos dadas e corações unidos, a uma só voz. Porque, e parafraseando o Papa Francisco, ninguém vence sozinho, nem no campo nem na vida. Força Portugal!

Se calhar, ou muito provavelmente, nem foi ele o autor do texto, mas para o caso é irrelevante. O que importa denunciar é a utilização da religião para fins comerciais por uma celebridade com a influência deste jogador. Felizmente, as divindades católicas não acharam graça e trataram de o mostrar com quádrupla eloquência. Mas imaginemos que os acasos do jogo tinham resultado numa vitória de Portugal. Nessa situação, a mensagem onde se invoca um chefe de uma religião e o seu deus como caução, ou amuleto, seria amplificada ideologicamente após o jogo de forma completamente acrítica pela legião de jornalistas que vestem estouvadamente a camisola de adeptos. Talvez não viesse daí grande mal ao império português, pois bastaria uma derrota para a doença amainar, contudo o culto da irracionalidade teria conquistado mais uns bons hectares de terreno à inteligência.

Preocupado com estas magnas questões, e querendo ajudar o Ronaldo, ou quem lhe trata da imagem, a escolher umas citações que, essas sim, consigam motivar a Selecção e os adeptos, aqui vão três sugestões para o jogo com os americanos.

i)

Não é que eles não consigam ver a solução. É que eles não conseguem ver o problema.

Chesterton

ii)

Nasce-se incendiário e acaba-se bombeiro.

Pitigrilli

iii)

Quando não sabes para onde estás a ir, podes dar por ti num outro lugar qualquer.

Yogi Berra

É parafrasear como se não houvesse oitavos-de-final. E força nisso, Portugal!

Cúmulos da estupidez

O cúmulo da estupidez seria, tomando o futebol como exemplo, ver um jogador que acaba de agredir um adversário sem ter sido sancionado pelo árbitro a ir ter com esse mesmo adversário com o jogo parado para o provocar e agredir de forma intencional e violenta. Claro, um profissional de futebol raramente faria uma coisa dessas, precisamente por ser profissional. E então numa selecção tal seria praticamente impossível, porque ao estatuto de profissional ainda se acrescenta o de representante do Estado que o convoca.

Continuando no mundo do futebol, outro cúmulo da estupidez seria ver um seleccionador apresentar uma das selecções mais velhas numa competição mundial e repetir exactamente a mesma equipa com que disputou anos antes o Europeu. As duas situações, a idade dos jogadores e a repetição de tudo e de todos, exibem uma inteligência petrificada. E uma inteligência petrificada, que nem na Idade da Pedra teria sucesso, sempre foi uma das mais evidentes imagens do que é a estupidez. Obviamente, um treinador deste calibre nunca poderia ser o responsável por uma selecção com ambição e algum brio.

Eis dois exemplos, hipotéticos e pedagógicos, dos cúmulos a que pode chegar a estupidez em algo tão destituído de importância como é o futebol. O que não se poderá passar noutros lados, ui.