Francisco Assis e Alberto Martins, cheguem aqui, faxavor

António José Seguro acusou, este domingo, António Costa de ter aberto, com o desafio à sua liderança, um "gravíssimo precedente" no PS e na vida democrática do partido. E recuperou o argumento de que agora "qualquer um pode fazer o mesmo".

Falando ao início da tarde, na Comissão Nacional do PS, que está a decorrer em Ermesinde, Seguro afirmou (de acordo com relatos de pessoas presentes na sala) que "o secretário-geral socialista está ferido na sua credibilidade", por haver quem considere que não tem condições para ganhar eleições.

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Seguro tem toda a razão. Havia no PS um acordo tácito, uma convenção, ou um dogma, que instituía a obrigatoriedade de só se concorrer contra um secretário-geral depois de ele disputar umas legislativas. Era assim que alguns explicavam o inexplicável recuo de Costa em 2013, depois de ter dado abundantes sinais de querer disputar a liderança. Um ano passou e Costa mudou de ideias. Porque um ano passou e a situação política nacional degradou-se ainda mais pela fraqueza, atestada nas eleições europeias, do PS. Tempos extraordinários pedem decisões extraordinárias, terá sido a lógica seguida desta vez.

Seguro podia ter optado por defender o partido e a comunidade, de caminho prestigiando a sua pessoa, caso tivesse aceitado com coragem e lhaneza ir de imediato para um congresso onde a disputa interna se resolvesse de vez e o partido saísse unido para os desafios de 2015 e 2016. Foi precisamente o oposto que preferiu fazer, de resto em coerência com o modo como chegou ao poleiro. A torrente de acusações escabrosas e difamatórias a que se tem dedicado desde que Costa anunciou que desta vez era mesmo a sério criou um clima de violência que está na origem do episódio no final da reunião da Comissão Nacional, em Ermesinde. Seguro, imitando a direita decadente, cavalga a cultura do ódio com a armadura refulgente da sonsice.

Veja-se a citação acima. Alguém que declara estar ferido na sua “credibilidade” – ainda por cima, dando-se o caso de não ter nenhuma para ser tocada, quanto mais ferida – está em concomitância a declarar que não pretende fazer acordos nem prisioneiros, que está disposto a uma guerra de terra queimada e destruição total. Assim, calhando Seguro ganhar as primárias e continuar como secretário-geral, qualquer resultado abaixo da maioria absoluta nas legislativas será sempre motivo para culpar António Costa e aqueles que a ele se juntaram neste momento. Deixou de haver espaço no partido para estes dois lados da contenda, é o corolário da atitude de Seguro e dos seus. O radicalismo de Seguro vem de uma soberba que a sua auto-elevação a purificador do PS e da política nacional anunciavam transparentemente muito antes de 2011. E, como se lê nos manuais de psicologia e de política, quem se imagina melhor do que os grupos a que pertence, e que manipula, acaba invariavelmente por espalhar violência à sua volta.

Donde, uma pergunta de arrebimbomalho: que estão Francisco Assis e Alberto Martins a fazer ao lado desta desprezível personagem?

4 thoughts on “Francisco Assis e Alberto Martins, cheguem aqui, faxavor”

  1. “… que estão Francisco Assis e Alberto Martins a fazer ao lado desta desprezível personagem? ”

    o assis está onde sempre esteve, solidariedade passiva e descomprometida, à espera que a coisa se resolva sem salpicos. tem lugar garantido em bruxelas para os próximos anos e herda os apoios políticos do seguro para o próximo tacho. o martins num sei, se calhar é lento do côco e ainda não chegou lá.

  2. Assis tem garantia por quatro anos na Europa dourada… Alberto, provavelmente estará tão comprometido como Seguro num acordo ( informal e secreto, quê só verá a luz do dia quando Seguro desaparecer) que terá sido feito (provavelmente) com o PSD e Cavaco, o ano passado… A. Martins foi um dos negociadores…. Só assim consigo explicar o posicionamento de alguém que para mim é um personagem sério ( aorta nem tanto…)

  3. Algo está muito apodrecido em boa metade do PS. Posso estar enganado, mas não consigo deixar de pensar que meio PS já não acredita na construção/aprofundamento do Estado Social e só por indecisão não se passaram, com Constâncio, Jaime Gama, Amado e muitos outros para o lado da Merkel & ca.

  4. Um tipo com a mania das teorias da conspiração e fã do John le Carré diria que o “chefe” é toupeira do outro chefe. São assim uma espécie de “homem duplicado” um do outro, apesar do aspirante ser ainda mais fraquinho…

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