Slater addicted

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A primeira vez que vi uma prova de surf foi, e por acaso, em 2013. A Fuel TV estava a transmitir as etapas do campeonato do mundo e tinha vários comentadores nacionais que iam botando faladura. A minha ignorância era tão grande que nem sequer estava familiarizado com o sistema de pontuação. E conseguia entender muito melhor um chinês fanhoso do que os nomes das manobras que deixavam tão excitados os comentadores. Mas já era um estupendo surfista desde 2011. Nesse ano, num Outubro com temperaturas dignas de Junho, comprei 5 lições de surf numa escola da Caparica. Consegui gastar 3, correspondendo a 6 horas de iniciação e a um total de menos de 1 minuto em que me aguentei na vertical sem cair, e este feito heróico numas ondas quase rasas. Foi o que me chegou e sobrou para ter a certeza de haver em mim um surfista que ainda iria dar muito que falar – dar muito que falar na minha rua, pois o plano seguinte consistia em comprar um fato de surf e passar a exibi-lo aos fins-de-semana para os vizinhos.

A prova era a Volcom Fiji Pro. Comecei a ver decorria a 2ª eliminatória, sendo essa a primeira para Kelly Slater dado que a vedeta tinha chegado atrasada ao evento. Como as segundas eliminatórias são constituídas pelos que não passaram na 1ª, era como se tivesse participado e não tivesse ganhado a sua bateria (a parte das eliminatórias onde se compete com 1 ou 2 surfistas para decidir a passagem). Não sei desde quando este nome se atravessava na minha desatenção, mas será correcto dizer que era desde sempre considerando que se trata da maior figura da história do surf. Conquistou em 1992 o primeiro dos seus 11 títulos mundiais, pelo que também eu chegava com atraso à romaria, um atraso de 21 aninhos. Não conseguiria reproduzir mais nenhum nome de surfistas actuais ou passados, estrangeiros ou portugueses, e mesmo sobre o Kelly desconhecia tudo para além do facto de existir e continuar a competir. O que não poderia desconhecer a partir de então era o entusiasmo com que a equipa da Fuel TV falava dele, o mesmo entusiasmo com que os fiéis de todas as religiões descrevem as epifanias respectivas. O homem não era só o rei da modalidade, era igualmente um semideus da linhagem de Posídon com incontáveis e indeléveis exibições dos seus poderes sobrenaturais. Ao mesmo tempo, essa intimidade tão antiga deixava escapar notas de cansaço, quase uma impaciência. Até quando é que teriam de continuar a prestar-lhe vassalagem, a pergunta corria subterrânea. Afinal, ele estava com 41 anos, quando a média dos restantes surfistas do campeonato mundial é de 30 para baixo. E sendo este desporto tão física e mentalmente exigente, que anda ali a fazer um quarentas?

Em Fiji, no ano passado, Slater passou aos quartos-de final com um 10 (a nota máxima para uma onda) e um 9.30. A seguir, passou às meias-finais com 20 (a pontuação máxima absoluta, resultado da soma de duas ondas pontuadas com 10). A seguir, passou à final derrotando a maior esperança actual do surf profissional, o espectacular John John Florence (nascido no ano em que Slater foi campeão do mundo pela 1ª vez). E na final derrotou aquele que viria a sagrar-se campeão mundial em 2013, Mick Fanning, de novo tendo uma onda pontuada com 10. Para mim, e embora não o considerasse capaz de imitar o que eu tinha feito na Caparica dois anos antes, estava encontrado o mestre espiritual perfeito para o século XXI. Que melhor pode haver nesta vida para além de apanhar uma onda e só ir à água quando ela nos permitiu obter a pontuação máxima? Trata-se apenas de um desporto, sim, mas também de uma filosófica metáfora que se corporiza na vontade de continuar a ganhar mesmo depois de já se ser uma lenda. Ganhar em equilíbrio e velocidade, mas não a mais, nem a menos. Metáforas e mais metáforas, como diria Mario Ruoppolo.

Kelly ficou em 2º lugar em 2013, perdendo a possibilidade de atingir o 12º título para o Mick por uns míseros 250 pontos entre mais de 34 000 acumulados ao longo do ano. Podemos até imaginar, não resistindo ao narcisismo nacionalista, que a pintura foi borrada em Peniche, onde o Golias foi derrubado por um puto logo na segunda eliminatória do Rip Curl Pro Portugal. Um puto português, para a humilhação ser ainda maior. As estatísticas mostram que o americano foi melhor do que o australiano em todos os parâmetros, menos na regularidade. Ontem começou o Fiji Pro 2014, mas sem ter havido competição. Slater chega na frente da classificação à quinta prova mundial e qualquer um a pode acompanhar pela Internet em directo. É à borla e é viciante. Metaforicamente.

8 thoughts on “Slater addicted”

  1. já eu, desisti quando perdi dois dentes na arrifana. :-) os surfistas a sério não fazem do surf um desporto – desporto é tudo o resto.

    mas melhor do que ver na televisão é ir até à ericeira. ou a viana.

  2. oh bimba! baleia não surfa, baleia faz ondas e depois quando voltares a fazer surf na banheira, atenção ao sabonete e à misturadora. capacete integral pode ser a solução.

  3. Também me confesso Slater addicted :)! Ao fim de 15 anos a ver surf no carro enquanto o namorado/marido estava na agua resolvi experimentar. (Mentira tentei uma vez com ele e claro foi um desastre.) Mas agora comprei 10 aulas e apanhei uma de pé logo e a adrenalina foi tal que estou completamente viciada, ao ponto de o deixar em casa a tome conta das nossas filhas para eu ir surfar ahahahah. Por enquanto ainda não é à borla mas é viciante!!

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