Triunfo e apoteose da cultura dos afectos

No último dia de campanha para as europeias assistimos a uma coreografia que espelha luminosamente a complexidade do PS como ecléctico e fulcral partido do regime democrático a viver uma original crise de liderança. Começou dias antes com a manifestação das tensões entre Seguro e Sócrates a propósito da sua presença no almoço da Trindade e na descida do Chiado. Assis impôs publicamente a sua participação, calando os tenentes de Seguro. Entretanto, Soares recusa o convite de última hora para também estar presente. Chegado o dia, Sócrates desiste da arruada, apenas vai ao bife. Mas de lá parte ao encontro de Soares para que se soubesse a quem dava a sua lealdade e de que lado estava a razão, enquanto Seguro calcorreava a Rua do Carmo. Nisto, aparece Maria Barroso “por acaso” no Rossio para oscular Seguro. Eis o que o chefe de família anticongressos encontrou para dizer a respeito:

Para o líder do PS, Maria de Jesus Barroso "é uma distinta socialista e além disso é uma amiga muito querida, uma amiga muito pessoal, que quis vir dar um beijinho e um abraço".

"Naturalmente que isso é um gesto de uma grande importância política mas para mim é também um gesto muito pessoal", acrescentou António José Seguro.

Um gesto muito pessoal, é disto que Seguro gosta e é a isso – “um imenso magma de afectividade”, para citar alguém conhecido – que ambiciona reduzir o partido. Emoções à flor da pele, afectos capitosos, sentimentos embriagantes, este é o seu terreno de eleição (pun intended). É a famigerada “cultura dos afectos” com que Seguro se apresentou aos militantes socialistas em 2011, os quais estariam, ficava em subtexto, numa grave carência de abracinhos e beijinhos depois de 6 anos de frieza socrática.

Em Fevereiro de 2013, a “cultura dos afectos” teve um dos seus momentos mais altos. Seguro conseguiu que Soares falasse com Alegre através do seu telemóvel. De imediato correu esbaforido em direcção aos jornalistas para contar o que achava que se tinha passado:

António José Seguro confirmou à Lusa ter presenciado e contribuído para o reatar de relações entre os dois históricos do PS, que se afastaram depois de terem sido adversários nas eleições para a presidência da República, em 2005.

"Eu tive o privilégio enorme de ter presenciado esse momento, que é um momento que reforça o Partido Socialista e que nos dá exemplos para as novas gerações seguirem", afirmou António José Seguro à agência Lusa, à margem de uma visita à Feira do Fumeiro de Vinhais, em Trás-os-Montes.

A reconciliação de Mário Soares e Manuel Alegre, que o Expresso hoje noticia, foi para o secretário-geral do PS "um momento com um grande significado político, mas particularmente com um grande significado pessoal, uma grande emoção".

"Foi um momento que eu conservarei para sempre na minha vida", sublinhou.

Questionado sobre se este momento contribui para a união do PS que vem sendo reclamada pelo socialista António Costa, António José Seguro respondeu que o PS "é um partido com uma grande história e é um partido ainda com mais futuro do que a história que tem".

"E este exemplo que Mário Soares e Manuel Alegre deram é um exemplo que tem um grande significado político, que ultrapassa qualquer conjuntura e isso, para mim, teve um grande significado para além de político - uma vez que sou secretário geral do PS - mas um grande significado pessoal", reiterou.

Seguro acrescentou que "a emoção" que viveu com a reconciliação dos dois históricos socialistas "só acontece em momentos extraordinários e aquele foi um momento extraordinário" que, afirmou, conservará "para o resto da vida".

Qual Paz de Vestfália, qual Tratado de Versailhes, qual Rendição do Japão, qual quê. Seguro abdicaria de ter estado presente em qualquer um desses acontecimentos menores pela emoção de ter posto Soares e Alegre a falarem pelo seu telemóvel. Que emoção. Que significado pessoal. Particularmente, insiste para que os nabos dos jornalistas não deixem escapar, com um grande significado pessoal. E a política não são as pessoas? Acaso passará pela cabeça de alguém, ainda por cima socialista, que as pessoas passem para segundo lugar quando elas estão primeiro? E haverá pessoas sem sentimentos, afectos e emoções? Haver há, são os socráticos, mas tirando esses encontra-se mais algum exemplar? Não? Então, prontos.

Um líder partidário com assento parlamentar que dá vazão livre aos seus fluxos afectivos não se embaraça nada quando o confrontam com moções de censura de partidos terceiros. Primeiro, reage com emoção, porque é isso a transparência, e as emoções transparentes formam a base para uma nova forma de fazer política. Só depois se raciocina, mas sem nunca pôr em causa a expressão de uma nova emoção. Isto leva a que se possa posteriormente votar a favor daquilo que gere emoções negativas, ou contraditórias, assim ficando demonstrada a plasticidade e superioridade deste modelo de liderança.

Naquela noite em que Seguro entrou num elevador candidato a líder do PS, ainda o cadáver do anterior fumegava, e desceu pouco depois já a conseguir controlar um bocadinho mais os afectos, contou aos jornalistas que andava há 31 anos a servir o partido. Portanto… como dizer… se calhar estava na altura de variar a ementa e ser ele a servir-se do partido, né? Não, ele não o disse assim. Isto somos nós a pensar, armados em espertos. Não espantaria é que 31 anos à espera de qualquer coisa tenha um grande significado político, mas particularmente um grande significado pessoal, uma grande emoção.

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PS – Como deve ter sido extraordinário para Seguro, no plano meramente emocional, ter lido as calorosas palavras que Soares lhe enviou numa carta aberta ao povo. Que gesto tão pessoal de um tipo a quem, outrora, até emprestava o telemóvel (igualmente pessoal, registe-se).

24 thoughts on “Triunfo e apoteose da cultura dos afectos”

  1. A chatice é que o cadáver parecia que fumegava. Mas agora queima que se farta.

    Quando não conseguimos encontrar dentro de nós o suplemento de alma e vitalidade que, esses sim, fazem a diferença entre um grande líder e um pequeno líder, só restam mesmo as emoções de grande significado político.

  2. É extraordinária e esclarecedora a leitura de Val.
    As emoções do líder Seguro não passam de manipulações grosseiras. É uma escola com inúmeros seguidores, e sacristias à mistura, capaz das maiores crueldades. Sempre, claro está, em nome da superioridade dos afectos e das emoções.
    De facto, se a inteligência emocional (emoção + razão) é um valor superior, já a esperteza emocional é uma forma nojenta de oportunismo e manipulação.

  3. Imagino que Soares tem confratrenizado imenso com o Alegre desde a histórica reconciliação mediada pelo telemóvel do triste.

  4. E o que interessa é notar quão valentes os militantes do PS, que agora apoiam António Costa, foram antes das eleições europeias. Como bem estamos recordados, todos eles nos deram a saber o desprezo que nutriam por Seguro e quão agravados estavam com as suas posições políticas. Podiam todos ter ficado confortavelmente calados, até participado nos eventos partidários dando a ilusão de unanimidade, aqui e ali engraxando mesmo o líder. Mas não, que isso teria sido, além de uma hipocrisia, uma cobardia. Como estamos bem recordados, houve revoltas no grupo parlamentar, insultos ditos abertamente, discordâncias assumidas com as consequências bem vincadas (oh, quantos se demitiram por discórdia com o atual líder). Mas não, foram uns corajosos que disseram em tempo útil o que lhes ia na alma (em algumas, que Seguro era próprio do III Reich). De modo nenhum esperaram que todos estivessem a bater em Seguro para irem lá dar também umas sapatadas.

    É mesmo de gente assim que o país precisa. Vamos ficar bem entregues.

  5. lixo de lisboa é o mau perder do partido comunista. só é pena que o costa ainda não tenha mandado despejar umas carradas de rsu para cobrir a biomerda da soeiro pereira gomes.

  6. Ola,

    Sou professora numa escola profissional de formação de porteiras em Linda-a-Pastora. Posso utilizar est post e mais um ou outro publicados neste blogue para “case studies” ?

    Agradeço a atenção

  7. a ana gomes esqueceu-se de enfiar o cavaco na lista dos crimes do sócras quando foi esta manhã à antena 1 regar o canteiro da separação de poderes.

    “É que se o PS tem que ter muito orgulho no que fez nos Governos de Sócrates de reforço da escola e saúde pública, aos investimentos na qualificação, na ciência e na tecnologia, nas energias renováveis, no Simplex, na reforma da Segurança Social, etc., também tem que assumir que cometeu erros. Da nacionalização do BPN deixando de fora a SLN, a PPP e ‘swaps’ absolutamente lesivos para o Estado como aqueles que foram negociados por Maria Luís Albuquerque, o falhanço de investigar e fazer punir responsáveis por negócios corruptos, e os submarinos são só um exemplo e até o próprio respaldo de Barroso para um segundo mandato na Comissão Europeia”

    http://www.rtp.pt/noticias/index.php?article=742230&tm=9&layout=123&visual=61

  8. “também tem que assumir que cometeu erros”

    O PS de Socrates, cometer erros ?!! Esta Ana Gomes não sabe mesmo o que diz. Esta completamente xéxé. Não tarda nada, vai afirmar que o PS perdeu as eleições em 2011…

    Boas

  9. Só não percebo é como, com o apoio do BE, do PCP, do PSD e de parte tão significativa do PS, o TóZero não convoca o congresso extraordinário já esta semana para resolver este imbróglio. Força Seguro, o País parece estar contigo! Ou só talvez os que têm medo que o PS acorde…

  10. Oh porra! Esqueci-me do irrevogável PP. Desculpa lá oh Portas mas estás quase a ser, além de irrevogável também irrelevante…

  11. ana gomes citou erros.foi mesmo por esses que perdeu as eleiçoes. esqueceu-se de outro erro que foi a sua escolha para deputada europeia!

  12. augusto, és lixo altamente toxico na cidade de lisboa.já faltou mais para ires com o joão lisboa para o aterro sanitario, cagar postas de pescada!

  13. oh biégas! o que é que querias mesmo dizer? se alegares ironia, calhou-te o carimbado da burrice asnática.

  14. :-)
    quem me dera que a cultura dos afectos vingasse nesta política – mas era dos afectos pelo país. cada vez que subissem ao trono haviam de cantar para cada português: eu sei que vou te amar.

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