O burlesco e as burlas

Convém não deixar sem reparo dois episódios burlescos ainda da campanha para as europeias. Porque o burlesco é uma forma privilegiada de acesso ao sentido da vida, quiçá aos mecanismos que governam o universo.

O primeiro veio da Marisa Matias. Esta bravíssima lutadora contra a opressão capitalista lembrou-se de propor a inclusão do surf nos currículos escolares. Se a ideia já era maravilhosa em si mesma, só por ter sido concebida e vocalizada em público, o racional aduzido tem o poder de um furação de categoria 5:

Não é muito compreensível que, com tanta costa, com tantos quilómetros de praia, seja muito difícil que as escolas cheguem, por exemplo, à prática de surf e a outras práticas associadas.

Não é muito compreensível?!… Mas, minha rica senhora, não é nada de nadinha de nada compreensível. Será até o maior atentado contra o sistema educativo em Portugal ter esses quilómetros de costa e de praias ao abandono só porque há uns malucos que preferem ensinar os putos dentro das escolas. Quão melhor para o destino científico e profissional deste jardim justamente e não por acaso à beira-mar plantado que os professores, a começar pelos de Bragança para que fique o exemplo, peguem nas suas pranchas, ou canas de pesca, no mínimo no bronzeador e nas raquetas, e se dirijam decididos para a costa. A miudagem não teria outro remédio senão segui-los ou chumbariam por faltas caso preferissem ficar nas escolas a estudar. Só por esta proposta, deveria ser criado 1 lugar vitalício para o BE num parlamento à escolha, nacional ou internacional.

O segundo episódio foi uma oferta do Lobo Xavier. A propósito de uma oportunidade irresistível para dar largas à sua pulsão para caluniar Sócrates, despejando lúbrica e alarvemente o seu ódio, saiu-se com esta pérola:

Se realmente o PS acha que esta é altura de recuperar a figura do engenheiro Sócrates, então essa é a altura de também eu voltar à política ativa.

Ou seja, nada mais na política activa levaria o Lobo Xavier a querer agir a não ser o demónio, Sócrates. Qual cidadania, qual democracia cristã, qual bem comum, qual defesa da sociedade face ao Estado, qual luta pela liberdade, qual quê e qual caralho. Só o Sócrates tem o magnetismo, a força, o encanto suficientes para levarem um passarão do calibre do Lobo Xavier, um dos mais bem sucedidos cavalheiros de indústria cá no burgo, a largar o conforto do seu remanso e os corredores alcatifados das suas actividades profissionais para se dirigir a um almoço da tal candidatura que ficou em estado comatoso no passado domingo.

Encontrar um elogio mais sincero, e mais desvairado, do que este que Lobo Xavier involuntariamente fez a Sócrates não será possível. Nunca mais.

23 thoughts on “O burlesco e as burlas”

  1. adivinha só quem era da comissão de honra do candidato que apresentou este pugrama?

    “Dinamizar a prática de desportos no rio (vela, canoagem, remo, mergulho, windsurf, paddle surf, etc.), propostos pelo município como actividades desportivas curriculares do ensino obrigatório. Pretende-se, em consequência da localização privilegiada da Freguesia, proporcionar a carta de marinheiro aos estudantes da freguesia maiores de 14 anos.”

    deixo o link para não teres muito trabalho
    http://www.viverbemembelem.com/category/ideias/

  2. com a politica da marisa matias,os miudos do interior,eram todos chumbados por faltas.esta caça miseravel ao voto, não tem limite.val,tu és um autentico farol,nada te escapa,que passe à frente dos teus olhos.ontem na quadratura do circulo,o dia não permitia que costa tocassse neste assunto,mas não deve ficar esquecido.eu ouvi esta declaração de lobo xavier na radio, e pensei: este “lobista” ao serviço de varios interesses,está borrado de medo com as sondagens,que na minha modesta opinião os deviam ser piores do que o resultado nas urnas .o xavier dos fretes ao capital,como não teve coragem para dizer a verdade,relançou o mote acusando os portugueses de falta de memoria ao permitir a entrada de socrates na campanha.ele tem razaõ se os portugueses a tivessem bem viva,não votavam em partidos que teve como lideres,cavaco silva,marcelo,meneses,marques mendes,e como seus militantes o presumivel assassino da ex companheira do tomé feteira, e dos ladroes do bpn,com dias loureiro à cabeça.tendo como beneficiario dos “bons resultados anuais” do bpn o nosso querido presidente. por culpa do mais que incompetente josé seguro,a narrativa contra socrates rendeu votos e por isso vai pagar com juros essa sua falta de solidariedade.

  3. Escola de surf vai lindamente com o slogan “de pé”. Embora, na minha opinião, lhes tenha custado muitos votos entre os praticantes de bodyboard.

  4. Valupi,
    tenho lido algumas coisas suas neste blogue. Você escreve bem, isso é inegável. Mistura também um estilo acintoso/sarcástico o que dá a sensação ao leitor de estar perante opiniões muito sofisticadas, próprias dos mais dotados, aqueles que vêem o que os simples não veêm.

    Mas ainda bem que escreveu isto:

    “Será até o maior atentado contra o sistema educativo em Portugal ter esses quilómetros de costa e de praias ao abandono só porque há uns malucos que preferem ensinar os putos dentro das escolas.”

    Porque mostra que também tem muito de bronco, de simples e de fórum da tsf… ou pior: de ministro Crato. Pois… Conhece o desposto escolar? Bom, este governo quase acabou com ele, talvez porque partilhe consigo a ideia de que os miúdos se ensinam nos muros das escolas. E cada um nas suas. Os da Amadora que joguem futebol se quiserem, e porque é o que podem fazer na escola, os do Colégio Saleziano (ou que raio é aquilo em Campo de Ourique) já podem aprender a nadar porque têm uma piscina dentro dos muros da escola. É isto.

    Mas apreender a nadar não é tão vital como apreender a ler e a escrever? É, num país desenvolvido. Mas no nosso os do costume que fiquem analfabetos, e sonhem em ser Cristianos Ronaldos até chegarem a um beco sem saída.

    Sim, é perfeitamente compreensivel e desejável que os professores tenham horas para o desporto escolar e que este inclua actividades básicas como a vela, o surf, a natação ou a orientação. É caro? Bom depende das prioridades e da concepção social da escola pública. No meu tempo tive natação pela escola pública, foi no tempo de José Socrates e de Maria de Lurdes Rodrigues.

    Digo isto eu, que não votei na Marisa Matias, nem sou eleitor do BE.

  5. Eu, que sou ligeiramente mais antigo que esse tempo, também tive natação e orientação na escola pública. Tive contacto com vários desportos através do Desporto Escolar. Precisamente por se aproveitarem as infraestruturas ou condições naturais próximas e não se ver a escola como um espaço delimitado por uma cerca, fora da qual não se passam actividades curriculares.

  6. Valupi, conheço um caso de uma sede de concelho, junto ao mar, no Algarve, onde foi construído um complexo de piscinas que está fechado por não haver dinheiro para manter o edifício. Não me vais com certeza dizer que o dinheiro não teria sido melhor empregue a estabelecer acordos com as várias escolas de Surf da zona para que os miúdos do concelho tenham aulas de modalidades desportivas aquáticas…
    Há também escolas em Lisboa que têm acordos com as entidades que exploram as Piscinas Municipais para que os miúdos tenham natação.
    O desporto escolar público em Portugal é uma anedota (há privados que apostam com muita força nessas vertentes), e aproveitar os recursos que temos para fazer ensino desportivo no exterior não é algo assim tão descabido. Os do interior não praticarão surf, com certeza, mas poderão praticar canoagem, btt, escalada, fazer orientação…

  7. Burlesco , não foi a proposta da Marisa Matias feita em Peniche.

    Burlesco é a guerra de Alecrim e Manjerona, em que hoje o Partido Socialista está mergulhado.

  8. manel, vais ter de apurar esse gosto para o registo sarcástico, isto caso pretendas continuar a perder o teu precioso tempo a ler o que escrevo.

    Repara, a tua crítica teria também a minha assinatura por baixo se o episódio em causa estivesse relacionado com uma discussão a respeito dessas temáticas a que aludes: desporto, desporto escolar, actividades escolares. Por aí, não creio que passe pela cabeça de ninguém que se devam pôr limites ao que as escolas queiram, e possam, desenvolver. Porque os benefícios são óbvios.

    Ora, não era esse o âmbito das declarações da Marisa. Ela estava apenas numa acção de campanha para umas eleições europeias a fazer uma proposta estapafúrdia tanto pela sua irracionalidade como pela sua oportunidade. Acaso as pessoas iriam votar para decidir sobre essas matérias? E mesmo que o fossem, será que a formulação da questão estava correcta? Quantas escolas é que poderiam incluir o surf como actividade curricular? Qualquer uma? E porquê ser uma área curricular, e não apenas como ocupação dos tempos livres? Que tem isso a ver com a referida, pela Marisa, “economia do mar”, um chavão adorado pelo Cavaco e que ninguém sabe o que quer dizer? E se o argumento é o dos proventos que o surf traz para Portugal, então na mesma lógica, e por milhares de milhões de razões, também as escolas deviam começar a criar áreas curriculares para futuros empregados de mesa, arrumadores de quartos e motoristas de táxi e camionetas de passageiros, pois o turismo é uma das mais importantes fontes de entrada de dinheiro no País.

    Donde, na minha humilde mas nada modesta opinião, o que a senhora fez foi entregar-se a uma patética operação demagógica para tentar ir buscar votos aos surfistas.

  9. “E mesma lógica, e por milhares de milhões de razões, também as escolas deviam começar a criar áreas curriculares para futuros empregados de mesa, arrumadores de quartos e motoristas de táxi e camionetas de passageiros, pois o turismo é uma das mais importantes fontes de entrada de dinheiro no País.”

    Caro Valupi, os teus desejos são uma ordem desde o ano da graça de 2004 (Despacho conjunto n.o 453/2004).

    Também não votei BE, mas acho que a Marisa Matias tem razão. Considero que é necessário desenvolver e consolidar o Desporto Escolar na escola pública e levá-la a construir pontes com a comunidade envolvente, nomeadamente com a autarquia e rede empresarial local, de modo a facilitar a educação e formação integral das nossas crianças e jovens e, assim, diminuir o insucesso e abandono escolar.

  10. pois para mim é burlesco mesmo considerar que cabe às escolas o estímulo para o não abandono escolar. esse é o papel do lar. é que a educação não sai das escolas, sai de casa. a escola serve para acrescentar valor e não para dá-lo.

    e não faz sentido absolutamente algum falar em surf, um desporto absolutamente individual e solitário, e, por isso, fora dos parâmetros das competências que é expectável que as escolas desenvolvam!

  11. ó Silvia, vir para aqui com formação profissional para argumentar com extensões curriculares também é burlesco. isso é que é dar banhada. :-)

  12. Sílvia Barreto, pressupondo que leste o documento para que remetes, tens uma de duas opções: juntares-te ao manel, o qual fala de um outro assunto que não a demagogia eleitoral, ou juntares-te à Marisa, a qual só pretendia fazer demagogia.

  13. OK. Portanto, afinal de contas, o que é burlesco não é o que a Marisa Matias diz que, bem considerado, até pode ter alguma substância, mas antes a Marisa Matias propriamente dita. Ela é que é burlesca, por ter cão ou por não ter, simplesmente por ser a Marisa Matias e por ser o arquétipo do burlesco vista aqui do café Valupi. O que ela diz é relativamente secundario e não interessa nada para o caso.

    Da mesma maneira, o nosso querido Valupi é todo bom, nunca erra e é a pertinência em pessoa, mesmo quando profere as maiores atoardas…

    Back to basics, minha gente…

    Boas

  14. joão viegas, fala-nos sobre a substância do que a Marisa disse – mas só depois de bem considerado, bem entendido, pois não quero que fiques mal disposto ou te canses muito.

    Vá, coragem, tenta lá produzir um raciocínio.

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