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Isto é Seguro

"Os portugueses estão sobrecarregados de impostos. Fizemos as contas. Não aumentaremos os impostos."

"Repito: Não aumentarei a carga fiscal", declarou António José Seguro a meio do seu discurso na Convenção "Novo Rumo para Portugal" do PS na antiga Feira Industrial de Lisboa (FIL).

"Será a primeira vez que um Governo empossado neste século não aumentará a carga fiscal em Portugal", disse, numa alusão aos executivos liderados por Durão Barroso, de José Sócrates e de Pedro Passos Coelho.


Maio de 2014

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"Nós calculámos e estimámos e eu posso garantir-vos: Não será necessário em Portugal cortar mais salários nem despedir gente para poder cumprir um programa de saneamento financeiro", afirmou Pedro Passos Coelho, no encerramento do fórum de discussão "Mais Sociedade", no Centro de Congressos de Lisboa.

O PSD quis "vasculhar tudo" para ter contas bem feitas e, "relativamente a tudo aquilo que o Governo não elucidou bem", procurou "estimar", preferindo fazê-lo "por excesso do que por defeito", referiu.


Abril de 2011

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O secretário-geral do PSD, Miguel Relvas, afirmou hoje que "não haverá aumento de impostos" com os sociais-democratas no Governo e o programa eleitoral "demonstra-o" de "forma clara".


Maio de 2011

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Foi Seguro quem escolheu apresentar-se ao eleitorado socialista como o regenerador moral do partido, o probo exemplar que vinha mandatado pelo destino para resgatar das trevas socráticas a dignidade perdida. Por isso, uma das suas primeiras promessas foi a de obrigar a malandragem que conhecia de ginjeira a assinar códigos de honra e compromissos de ética. Era necessário uma purga, ou então que lhe entregassem papéis assinados para ele arquivar e ir consultando. Trata-se de uma promessa a cumprir numa data a divulgar, há que ter a santa paciência.

Só que isso ainda era pouco, ou apenas o começo do seu magnífico caminho. Seguro passou a anunciar ao eleitorado nacional que com ele uma nova era na política nacional estava a nascer. Algo nunca visto, “uma nova forma de fazer política”, a qual consiste na “transparência” e em “só prometer o que pode cumprir”. Donde, para trás, e para o lado, ficam todos aqueles que, sem transparência, prometem o que não podem e/ou não querem cumprir. Vai daí, estabelecida a sua superioridade – aliás, a sua transcendência – face à cambada que o antecedeu, sentiu-se confiante para começar a fazer promessas às sacadas. Aproveitando umas eleições europeias, no meio de 80 promessas, veio dizer que pretende chefiar o primeiro Governo do século XXI que não irá subir os impostos. Portanto, mais um feito histórico no horizonte. Este homem não brinca em serviço, é sempre a aviar páginas na Wikipedia e canhenhos encadernados.

Ora, deixa cá ver. O século ainda mal começou, mas prontos. Depois, talvez não arrisque muito quem prometa não aumentar impostos se suceder no Governo a quem fez o maior aumento de impostos de que há registo em Portugal e conseguiu esmagar fiscalmente toda a sociedade. Digamos que não será a promessa mais ousada que se poderia fazer neste momento. O que supera em interesse o restante, no entanto, é esta necessidade de Seguro se conceber como um ser de excepção. Tão excepcional, mas tão excepcional, que nem precisa de dar provas de o ser, basta fazer anúncios. E ainda tem o topete, se não for a inconsciência, de reclamar ser esta “uma nova forma de fazer política”.

Será uma nova forma de fazer política, acabamos por conceder, se olharmos para o passado do PS. Não se encontra mais nenhum secretário-geral tão vácuo de carisma e estofo ideológico como este. Um secretário-geral que se imagina melhor do que o partido. Isto é Seguro.

No que imita o País

O cabeça de lista do PS às eleições Europeias, Francisco Assis, acusou o número um da coligação PSD/CDS de ter uma "obsessão patológica por José Sócrates".

A acusação - durante um debate emitido na Económico TV - surgiu enquanto Paulo Rangel dava como exemplo do despesismo socialista "os estádios do Euro pelos quais Sócrates foi responsável enquanto ministro do Governo de António Guterres".

Fonte

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Algo se passa no reino desta Dinamarca chamada Partido Socialista que, no mínimo, causa perplexidade. Para mim, que não sou militante nem simpatizante, o motivo de interesse é estritamente cívico. Sendo o PS um dos garantes da integridade e qualidade da nossa democracia, assistir ao modo como se boicota a si mesmo é alarmante. É que (ainda) não existe outra organização partidária para cumprir o seu papel.

Atente-se no exemplo acima. Francisco Assis, lúcida e corajosa cabeça socialista (concorde-se ou não com ele), coloca no plano psicológico a diabolização de Sócrates feita pela direita. Com isso conseguiu produzir um comentário que é quase simpático para quem está a recorrer a uma das mais poderosas armas de condicionamento popular: o medo. O medo é tão mais eficaz quanto se alimente de uma condenação injustificada, de preferência injustificável, a ser repetida acriticamente por muitos. Foi e é assim com todas as formas de ostracismo, xenofobia, racismo, segregação, discriminação e linchamentos populares. E há uma oceânica literatura antropológica, sociológica, política e histórica a explicitar as estruturas e mecanismos ancestrais, ou modernos, que lhe conferem eficácia intemporal. Há boas razões para ter medo do que se desconhece, do que se estranha. Ter medo começa por ser uma actividade da inteligência, o resultado de sermos racionalmente conscientes. No senso comum, essa é a fonte da prudência. Na ciência, esse efeito origina o aperfeiçoamento do método. Na sociedade, os canalhas aproveitam para promover o ódio. Na política, os trastes enchem a pança de riso.

Será fácil apontar nomes de figuras públicas, ligadas à política e à comunicação social, para quem Sócrates se tornou a ocasião de manifestarem exuberantemente facetas psicóticas. Moura Guedes, Zé Manel, Helena Matos, Pacheco Pereira, Cintra Torres, Alberto Gonçalves, Judite de Sousa, estou a falar de vossemeçês, entre tantos outros. Mas quando assistimos ao quotidiano parlamentar fica claro que não há patologia porra nenhuma no bombardeamento imparável contra Sócrates. Talvez até nem haja registo de um único dia nesta legislatura sem que algum deputado do PSD ou CDS tenha enchido a boca com o nome da besta negra. Aquilo a que assistimos é antes ao plano de continuar a aplicar a mesma receita. Uma receita de incrível sucesso, pois ter conseguido colocar um desqualificado como Passos Coelho a governar Portugal num dos momentos mais difíceis da sua História é um feito equiparável a conseguir ir à Lua num Fiat 600.

Logo após as eleições de Junho de 2011, era claro, era óbvio, qual devia ter sido a estratégia do PS. Fiscalizar a aplicação do Memorando, denunciar qualquer desvio ao acordo que prejudicasse os portugueses e, sem demora nem vacilações, desmontar a gigantesca campanha negra que tinha dado o poder ao PSD e CDS. Infelizmente, a realidade decidiu introduzir na situação política nacional uma personagem absurda que se prestou a validar toda e qualquer deturpação, todo e qualquer achincalho que foram despejados para cima de Sócrates e de quem exerceu responsabilidades governativas a seu lado – portanto, para cima do PS. O problema maior nesse processo não está no que venha a ser o destino político desses alvos, algo que só a eles diz respeito. O que está em causa do ponto de vista cívico é que me importa, e trata-se da qualidade da nossa democracia. Chegar ao topo do poder em Portugal através do pior da baixa política, já para não falar das golpadas mediáticas e justicialistas, não defende os meus interesses nem os interesses das pessoas a quem quero bem.

O PS está num dos piores períodos da sua existência, no que imita o País. Ao mesmo tempo, está cheio de talentos com provas dadas e promessas que justificam a melhor esperança. No que imita o País.

O estilo faz o homem

Rangel promove Aliança Portugal como “vacina” contra “vírus socialista”

Rangel diz que os socialistas são uma doença. Está em campanha eleitoral. Daqui por uns tempos, após as eleições, e calhando, concederá que talvez se tenha excedido um poucochinho nas palavras. Porque estava em campanha, entendem? É normal, em campanha. Não é para levar a sério, percebem? Isto é só política… São coisas que se dizem no entusiasmo do convívio e na excitação das luzes. É na reinação, é só para os picar. Até porque ele tem muitos amigos socialistas, muitos, inclusive primos. Encontra-os em casamentos, baptizados, chegam a almoçar juntos. E, claro, são colegas. Colegas disto, o “fazer política”.

Rangel, em 2010, numa sessão plenária do Parlamento Europeu, denunciou Portugal. O seu país, garantiu aos eurodeputados e demais imprensa internacional, já não era um Estado de direito. Fundamento para tão extraordinária como gravosa acusação? Mário Crespo, um obsessivo caluniador, tinha visto uma das suas caluniosamente obsessivas crónicas ser vetada pelo director do jornal onde eram semanalmente bolçadas. Daqui Rangel concluiu que a liberdade de expressão já não existia na terra onde cresceu viçoso. Mais acrescentou que Sócrates tinha um plano para dominar jornais, estações de televisão e estações de rádio. Em particular, clamou exaltado em Estrasburgo, havia que obrigar Sócrates a justificar-se pelo que tinham feito ao coitado do Mário Crespo. Quatro anos passados, não sei se algum ilustre membro da imprensa voltou a perguntar a Rangel se continua a acreditar que Sócrates tinha esse diabólico plano, ou se continua convicto de que a liberdade de expressão ainda não recuperou do que aconteceu à crónica do Crespo. Mas de uma coisa podemos ter a certeza: para Rangel é perfeitamente legítimo atacar e denegrir o seu país – e no estrangeiro – se vir nisso algum ganho partidário. Porquê? Porque isso é o “fazer política”, compreendem? Vale tudo para ocupar o poder, inclusive mentir, caluniar e trair. É tão simples.

Rangel será uma excelente pessoa. É um doutor da política, tem ideias, garante o Pedro Marques Lopes. E é um cidadão sério, incorruptível, não tenho a menor dúvida. Isto de reduzir a democracia a uma arruaça onde se atiçam as pulsões irracionais e violentas que levam a ver os adversários como inimigos a perseguir, escorrraçar e abater? Bom, não passa de uma escola, de um estilo. É o estilo de Miguel Relvas, o tal que pediu para todos os familiares de Sócrates exibirem a sua vergonha pelo funesto laço de sangue. É o estilo de Pacheco Pereira, o tal que se encafuou numa saleta da Assembleia da República para cheirar as cuecas de Sócrates. É o estilo de Ferreira Leite, a tal que se assustava ao pensar que Sócrates pudesse ficar no Parlamento como deputado. É o estilo de Cavaco Silva, o tal que só teve palavras de rancor logo após ter vencido as eleições de 2011. É o estilo da JSD, a tal que fez cartazes a chamar mentiroso a um político e governante e que o pretende pôr em tribunal. É o estilo de Passos e Portas, os tais que trataram, e tratam, os portugueses como gado para abate.

É o estilo ideal para um país de broncos, chanfrados dos cornos e pulhas. Como se vê.

Sonsice 4.0

À entrada de um café, um homem de 27 anos explicava a Seguro que os dois anos de mar tinham sido antecedidos por um trabalho na CELPI, a fábrica de celulose. “Eu gostava era de trabalhar na fábrica onde estava”, reconheceu. Ao lado estava o primo, que ao acabar de estudar fôra também parar às traineiras.

“Vamos trabalhar para que as pessoas possam trabalhar onde gostarem”, garantiu Seguro ao pescador. E explicou como: "O PS tem um programa de reindustrialização do país denominado 4.0. Esse nosso programa abrange todos os sectores de atividade. Queremos criar mais oportunidades de trabalho", acrescentou o líder do PS.

Líder do PS promete “trabalhar” para que se possa trabalhar onde se gosta

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Esta pode bem ser a frase da campanha, ou de uma carreira. Seguro, o chefe de família que só promete o que jura poder cumprir, promete “trabalhar para que as pessoas possam trabalhar onde gostarem.” Minha nossa senhora… (e penso na minha vizinha do 4º andar, uma senhora séria como só ela). Depois de limpar as ruas dos vagabundos, ou em concomitância, Seguro avançará directamente para o estádio seguinte ao do pleno emprego: bulir a gosto. Tens emprego, e estás bem pago, o horário é jeitoso, e o patrão um bacano, mas ainda não é bem aquilo que gostas de fazer porque, enfim, os colegas, ou a vista, ou a distância, ou os restaurantes da zona, ou o lugar para arrumar, ou aquela certeza de que nasceste para ser artista, ou director-geral, ou moinante, estão a deixar-te inquieto e com uma sensação desconfortável? Calma, cidadão, porque Seguro vai estar a trabalhar no teu problema, a trabalhar para seres um profissional estupidamente feliz no espaço de uma legislatura.

Moralistas, demagogos, populistas e sonsos de calibre variado, aprendam com um mestre.

O salazarismo está bem e não irá desaparecer tão cedo

Ainda em 2005 aparecia aí aquele que viria a ser primeiro-ministro, em cartazes espalhados pelo país, a prometer 150 mil empregos», lembra João Ferreira.

O cabeça de lista da CDU às eleições europeias continua: «também sabemos que, quando ele deixou o Governo, havia mais 250 mil desempregados do que aqueles que ele encontrou».


Europeias: CDU lembra promessas não cumpridas de Sócrates

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Pois é, andam para aí esses mentirosos do PS a fazer promessas só para enganar os camponeses, os operários e os marinheiros. Com que então, 150 mil empregos que era canja criar em 2005 e, chega-se a 2011, népias, é ao contrário. Que filhas da puta, estes mentirosos do PS. Razão teve o PCP em votar ao lado de Passos e Portas para correr com eles. É que não se admite que não tenham criado os 150 mil empregos quando era tão fácil, caso quisessem, ter criado 1 milhão e 500 mil empregos em 6 meses ou menos.

Por exemplo, aquando do início da crise mundial em 2008, o que se deveria ter feito de imediato era uma reforma agrária à maneira. Estás desempregado? Toma lá uma sachola e volta com umas batatas ou uns repolhos. Outro, rápido. Estás desempregado? Apresenta-te na cooperativa “Unidos do Bernardino” amanhã às 9 da matina. Toma lá a senha para poderes entrar. Outro, vá. Rápido, camaradas, estamos a criar empregos!

O mesmo empreendedorismo revolucionário para a crise das dívidas soberanas em 2010. Não há dinheiro? Camaradas, ala aos bancos que eles estão cheios de carcanhol roubado aos trabalhadores. Se não chegar, começamos a imprimir Jerónimos nas rotativas do Avante. Vamos mostrar ao imperialismo que não precisamos do seu dinheiro sujo!

Um dia alguém irá gastar uma tese de doutoramento, ou apenas de mestrado, a exibir a perfeita sintonia matricial entre os comunistas e os reaccionários portugueses. Dois grupos que, juntos, vão conseguir comemorar 100 anos de um salazarismo que nunca desapareceu nem se sabe quando, ou se, irá desaparecer.

Revolution through evolution

War and Peace (of Mind): Mindfulness training for military could help them deal with stress
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Bullying May Have Long-Term Health Consequences
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Letting It Go: Take Responsibility, Make Amends and Forgive Yourself
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Use of Air Conditioners Increases Nighttime Temperatures, Escalates Demand for Air Conditioning
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Will the Real Godzilla Please Show Up?
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The Brain: Key to a Better Computer
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Sense of Obligation Leads to Trusting Strangers

Também nós, Troika, e ainda mais do que tu

Fonte da Comissão Europeia, ouvida em Bruxelas, admitiu que a proximidade de eleições legislativas, no próximo ano, envolve riscos, na medida em que qualquer eleição envolve riscos, mas este responsável da troika, disse esperar que um futuro Governo, seja qual for tenha na memória os compromissos assumidos.

O funcionário da comissão acrescentou também que com o fim do programa o país recupera a soberania, frisando que se trata apenas da soberania suficiente para tomar as decisões certas, ou seja, a soberania para adotar determinadas decisões, sem as especificar.

«Se não forem implementadas certas medidas, os mercados muito rapidamente tomarão a soberania de volta», afirmou a fonte já citada.


“Troika”: CE espera que haja memória em Portugal

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Esta fonte é o Durão Barroso, mesmo que na ocasião tenha usado um outro corpo como avatar. Barroso, dizem por aí, é português. Seja ou não, pelo menos sabemos que é presidente da Comissão Europeia. Ora, a dita Comissão é suposto representar “os interesses da União Europeia no seu conjunto“. Vamos admitir que sim. Nesse caso, a União Europeia no seu conjunto está-nos a dizer que:

– A democracia é fonte de riscos.
– O actual Governo comprometeu-se com objectivos variados para um futuro indeterminado.
– O fim do Memorando não corresponde à recuperação da soberania, nem nada que se pareça – apenas nos será dada uma soberania limitada e já com um destino traçado: servir para tomar “decisões certas“; isto é, acatar certas decisões a definir por alguém que não os portugueses ou o seu Governo.
– A soberania, afinal, deixou de existir. O que existe é a vontade dos mercados, os quais, se bem tratados, deixarão que os seus capatazes simulem serem governantes. Caso não gostem do que os portugueses queiram fazer no seu país, “muito rapidamente tomarão a soberania de volta.

Não creio que se consiga ser mais explícito acerca da situação política na Europa e em Portugal. Este, de resto, é o mesmíssimo discurso de Passos, Portas e Cavaco. O método é o da chantagem aberta, impante. Democracia? A Comissão Europeia não aconselha. Constituição? O Governo português alerta para a sua malignidade. Os mercados, essa não-entidade, são dados no discurso como o bicho-papão, o fantasma que nos virá aterrorizar caso queiramos continuar a habitar num país soberano. Mais vale nem sequer lutar, porque nunca ninguém venceu sozinho o Império Romano, berra a guarda pretoriana.

Na aparência, estas seriam condições óptimas para se fazer oposição. Mas com o PCP e o BE a concentrarem o seu poder de fogo no PS, um alvo que para além de estar muito mais próximo ainda se encontra imobilizado, e o PS com o inimigo não só dentro de casa como ao leme, vemos esta cena espantosa de serem aqueles que provocaram a vinda da Troika para terem o poder absoluto a gritarem vitória por estarem a conseguir empobrecer ainda mais os empobrecidos portugueses.

Pois é, Troika, seria maravilhoso haver memória em Portugal. Neste momento, é a amnésia que vai safando os teus algozes.

PSD, a chicana como modo de vida

"Faço um apelo, a todos e a todas, mas em especial àqueles que são da área socialista, de esquerda e de centro-esquerda, àqueles que estão a pensar votar no PS, que se lembrem como o País estava em 2011". Foi desta forma que o cabeça de lista do PSD piscou o olho ao eleitorado socialista durante uma conferência na Biblioteca Municipal de Palmela.

Tanto Paulo Rangel como Nuno Melo fizeram discursos empolados perante uma sala cheia e onde os seus nomes foram gritados a plenos pulmões com melodias futebolísticas adaptadas à política. O alvo dos discursos, claro está, foi o PS.

Rangel foi até buscar declarações de José Sócrates referentes a dezembro de 2011, quando, numa conferência com colegas da Sciences Po, disse que "pagar a dívida era brincadeira de criança (...) As dívidas gerem-se".

"Sócrates diz que as dívidas não se pagam, gerem-se. Ele gere as dívidas, os portugueses é que as pagaram nos últimos três anos", acusou o social-democrata. Rangel voltou a insistir que o PS quer "voltar ao despesismo e aos elefantes brancos" e disse pela primeira vez em campanha o que já havia dito ao DN: que "Francisco Assis tem um tom barroco". E acrescentou: "Tudo é verbo. Tudo é retórica".

Rangel apela a socialistas para votarem na coligação

Já é oficial: somos uma sociedade pós-pornográfica

M

O caminho para chegarmos a este estado em que a pornografia passou a ser mais um género lúdico de apelo universal – e já não uma transgressão, ainda menos uma perversão, e acabando por nem sequer servir para ser uma afirmação – começou com a pílula. Finalmente, um método anticoncepcional quase infalível, e de aplicação pelas mulheres no que se distinguia dos preservativos também pela responsabilidade individual, aparecia na História. A sexualidade saltava para fora do território da reprodução e passava a ser mais um dispositivo ao serviço da socialização e da expressão pessoal. Este é o período da “revolução sexual”, mas o qual esteve envolto em muitos outros terramotos ideológicos, políticos e culturais que marcam a década de 60. Nos anos 70 e 80, as revistas femininas continuaram o processo de forma ainda mais poderosa, porque depurada e insidiosa – ou seja, legitimada publicamente. Nelas, a sexualidade passou a ser apresentada como apenas uma outra técnica nos novos lavores da mulher moderna. Praticar com impecável eficácia um fellatio, ter como normal e desejável o sexo anal, brincar com alguns códigos e adereços sado-maso, alinhar na fantasia lésbica do seu namorado ou marido, chegar ao ponto de contemplar o adultério como um recurso que tanto lhe poderia servir para melhorar a auto-estima como até para salvar o seu casamento, eis o que se desenhava como a revista e aumentada missão da senhora informada. Esses artigos são notáveis e bondosos pela sua amoralidade e frieza pragmática, algo que o embrulho retórico hedonista não consegue nem pretende esconder. Tratava-se de um discurso que ensinava as mulheres a manipularem a sexualidade masculina por via da adaptação. O subtexto era: dá ao teu homem o que ele procura nas putas.

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Direita portuguesa, aquela máquina

Na parte extra do último Bloco Central foi tocado o assunto das declarações de Christopher de Beck sobre Carlos Costa. O primeiro disse que o segundo tratou, in illo tempore, dos assuntos pelos quais tinha tido a maçadoria de ir a tribunal dizer coisas. Pelo que fez questão de dizer ainda uma outra coisa, esta no meio da rua – algo que, em regimes onde vigore um Estado de direito e uma imprensa livre, tem óbvio e imediato interesse.

Pedro&Pedro enfatizaram a sua indignação pela cortina de silêncio que envolve o episódio, cortina que se transforma em alto e blindado muro quando contemplamos o modo como a imprensa portuguesa trata os escândalos da direita. Acerca do que se passou no BPN, BCP e BPP não há violações do segredo de Justiça, não há fugas de informação, não há historietas escabrosas, não há nomes a serem queimados publicamente. E ainda bem, porque é exactamente assim que devem decorrer os processos judiciais. Mas não é preciso ter mais de um neurónio, e nem precisa de estar em boas condições de funcionamento, para se imaginar o foguetório e arraial que a direita faria com os mesmos casos calhando terem envolvido personagens ligadas – nem que fosse por intermédio de um primo em décimo grau – ao PS. Afinal, a nossa direita conseguiu transformar Vítor Constâncio no bode expiatório da roubalheira do BPN, e esse feito é um exercício de avacalhamento e pulhice que engole o País inteiro.

É curioso constatar como a esquerda, com a sua leitura ideológica e não cívica, nestas décadas de democracia não tem contribuído em nada para a denúncia dos mecanismos que permitem que seja a oligarquia e a plutocracia a dominarem os poderes fácticos. E ainda mais curioso é ver a esquerda alinhada e ao serviço desta máquina quando o alvo é o PS. Recorde-se o que se fez – e fará – com Sócrates, a legião de profissionais da imprensa e de comentadores a trabalharem furiosamente para criarem um clima de opressão e perseguição que decidiu as eleições em 2011. Essa caça às bruxas foi um vendaval como nunca se tinha visto por cá. E qual era a base material que o sustentava? Quais foram os crimes de Sócrates? Que se descobriu depois de lhe terem virado a vida do avesso, mais a da sua família? Ou será que tantos jornalistas, tantos magistrados e tantos antisocráticos raivosos não conseguiram descobrir nada porque nada havia para ser descoberto?

Enfim, quem reelegeu Cavaco depois de o saber directamente envolvido no caso BPN, e após saber que se envolveu directamente numa tentativa de perversão de actos eleitorais, não merece um país melhor.

Revolution through evolution

Love makes you strong: Romantic relationships help neurotic people stabilize their personality
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Athletes respond better to female psychologists
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Teaching robots right from wrong
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Caring for Horses Eases Symptoms of Dementia
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A Cup of Coffee a Day May Keep Retinal Damage Away
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Chimpanzees Show Similar Personality Traits to Humans
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Perceived Age and Weight Discrimination Worse for Health Than Perceived Racism and Sexism

E novidades, não se arranja?

[...] eu não entraria de novo numa lista por convite porque não acredito na política por convite, até porque acho que tem feito muito mal à democracia portuguesa. [...]

[...] Nós estamos muito à esquerda do PS, estamos no meio da esquerda [...]

[... ] Sabemos que o sucesso do LIVRE pode contaminar positivamente os outros partidos. O que é que é preferível: terem o décimo deputado do PS ou o LIVRE eleger o seu deputado? Neste momento a disputa é essa. Mesmo para quem é eleitor do PS é muito mais importante ter com quem falar, um interlocutor sério, do que eleger o décimo candidato do aparelho, que foi posto na lista pelo líder. [...]

[...] Nós dizemos, ao contrário de outros partidos, se para impedir a direita de fazer o que está a fazer ao País for preciso ir para o Governo com o centro-esquerda é isso que faremos; de preferência gostaríamos que fosse mais gente connosco. [...]


Rui Tavares

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A entrevista do cabeça de lista do LIVRE às europeias merece ser lida. Não porque traga alguma novidade, mas por isso mesmo.

Não é novidade a fragilidade deste projecto e do seu líder. Uma fragilidade apelativa, romântica. Por aí, é um acrescento de salubridade na cidade, um respiro para desiludidos antigos e recentes com a esquerda portuguesa. Todavia, a construção da identidade do partido no espaço público está a ser feita exclusivamente pelo Rui quanto à notoriedade mediática, o que resulta no apanhado que seleccionei.

Quem deve o estrelato político ao BE, situação donde vem a nascer o LIVRE, diz que a “política por convite” faz muito mal à democracia. Então, porque aceitou o convite do Miguel Portas para a artimanha de desgastar o PS em 2009? Vai na volta, está arrependido.

Louçã sonhava-se o imperador da “esquerda grande”, essa fantasia húmida em que destruía sozinho o PS e, acto contínuo, o PCP viria derramar perfume nos seus pés. O Rui inventou um poiso bem à maneira, o “meio da esquerda”. Ou seja, o Rui posiciona-se ao centro, dando-se o caso de a semântica de “meio” ainda não ter sido alterada. E faz ele muito bem, pois é no centro que a inteligência se encontra com mais abundância. Resta só saber se esse centro fica “muito à esquerda” do PS ou se, afinal, quem quer tão ostensivamente marcar a sua distância ao PS não está igualmente afastado do centro da esquerda.

Grande parte da entrevista simula ter como intenção levar o eleitorado do PCP e do BE a questionarem o proveito de andarem a dar o seu voto a direcções que preferem o sectarismo cristalizado e fanático à real defesa dos interesses da esquerda. Porém, quando toca a fazer contas é o PS que aparece como o sempiterno alvo da verdadeira esquerda – ou, actualizando a fórmula, da esquerda muito à esquerda do PS – voltando o choradinho para serem os eleitores do PS a sacrificarem-se para o triunfo destes estupendos esquerdistas. Ainda por cima, o discurso contra o “aparelho” exala um fedor populista inaceitável em quem se apresenta como um democrata exemplar.

O Rui Tavares gostaria de ir para o Governo com o PS, o BE e o PCP. Aceitaria aparecer ao lado dos gajos do PS numa missão heróica, para salvar o País. Ok, mano. Mas tendo em conta que os comunistas podem esperar sentados mais uns séculos pela vitória do proletariado, e que Louçã nem daqui por uns séculos te irá perdoar, não achas que precisas de introduzir alguma novidade no discurso? Psst… não, atacar o PS não será uma novidade… Pois.

O Bloco, um erro ao serviço da pior direita

Um dos erros do Bloco foi ter subestimado a força que teve a direita na batalha do senso comum. A direita ganhou a batalha do senso comum. As pessoas passaram mesmo a acreditar que viveram acima das suas possibilidades.

[…]

Acho que o Bloco cometeu erros, pagou por esses erros, é assim em democracia e não vejo isso de forma dramática. Um deles foi não ter reunido com a troika (em 2011, quando se negociava o programa de assistência).

Marisa Matias

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A história do Bloco, depois de terem alcançado o incrível feito de superarem o PCP nas legislativas de 2009, parece feita de erros atrás de erros. Para quem se recordar do discurso de Louçã nessa noite eleitoral, não custa muito a descobrir a origem de tanto erro junto. É que a megalomania nunca foi boa conselheira.

Só é de lamentar que nessa cascata de erros o Bloco tenha sido bem mais do que apenas imbecil. Foi um activo e entusiasmado cúmplice da estratégia da mais violenta direita que apareceu em Portugal após a instauração do regime democrático. E continuam dispostos a repetir a façanha.

Como sabemos? Explica lá isso

Nos primeiros meses de 2011 - ou mais precisamente, desde o resgate irlandês em dezembro de 2010 - que José Sócrates esperou desesperado pela criação de algum mecanismo que afastasse Portugal de um resgate clássico. Fê-lo tarde e a más horas, como sabemos, e tendo gasto de mais e sem olhar à dívida, como sabemos ainda melhor. Fê-lo, em poucas palavras, numa posição de enorme fraqueza.

Ricardo Costa

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O Ricardo não é bronco como o Monteiro, mas igualmente se passeia pelo jornalismo de opinião sofrendo de bronquite crónica. Daí ter sucedido ao outro, para se manter um padrão do agrado do Balsemão, o militante nº 1 do PSD.

O Ricardo tem como um dos maiores prazeres da sua vida profissional, pelo menos dessa, poder tratar Sócrates como a fraude que ele diz que é. Embora não seja propriamente uma originalidade entre publicistas direitolas, essa pulsão até poderia ser útil. Porque sempre que se consegue demonstrar uma ideia que aumente o nosso conhecimento há um ganho evidente. E porque Sócrates não tem interesse apenas enquanto figura política com as suas idiossincrasias, ele exerceu cargos de liderança partidária e de governação. Logo, exibir as suas eventuais fraquezas intelectuais, os seus eventuais erros políticos e até as suas eventuais falhas de carácter corresponderia, em simultâneo, a fazer um juízo sobre os grupos, entidades e terceiros que o acompanharam e lhe deram o acesso ao poder. É muita gente junta que está em causa; várias dimensões e processos fulcrais na política nacional, portanto.

Peguemos no exemplo acima citado, típico do seu modus faciendi. O parágrafo termina com o inevitável tiro ao boneco: Sócrates é tão mau que se deixou arrastar até às últimas sem ter feito o que deveria ser feito. Mas em que consistia isso que não foi feito? Pelos vistos, tratar-se-ia de conseguir arranjar um “mecanismo” que “afastasse Portugal do resgate”, o qual, pelos vistos, até chegou mesmo a existir, pelos vistos, mas que, pelos vistos, não chegou a ser utilizado, pelos vistos.

Estamos perante um raciocínio muito denso, prenhe de interrogações, e ainda nem sequer saímos da última frase. Calhando ter o autor à nossa frente, e tendo ele uns 5 ou 10 minutos para gastar connosco, poderíamos descascar esta cebola. Começaríamos e acabaríamos pela pergunta mais óbvia: “Ricardo, para ti existiu mesmo um mecanismo que nos teria livrado do resgate? É que se existiu tal bicho, como se depreende das tuas palavras caso tenhas escrito em português, a quem é que não dava jeito que Portugal escapasse ao resgate? Conta lá, tu que sabes tanta coisa e és tão inteligente.”

Não o tendo por perto, talvez o recurso às frases que antecedem a última pudesse chegar para esclarecer as dúvidas, mas é o contrário que acontece. Lá, começamos por encontrar implícito o pressuposto de ser a Europa a ter de assumir a resolução dos problemas das dívidas soberanas, pois cada Estado afectado por si mesmo não dispõe dos recursos necessários para lidar com um problema sistémico, o que é um facto basilar. E igualmente encontramos a imagem de Sócrates à espera dessa mirífica união europeia. Logo a seguir, em modo non sequitur, o texto confere a Sócrates a capacidade para, por si próprio, sacar do tal mecanismo da cartola e resolver o problema na hora. Na ausência deste salto contraditório, está bem de ver, lá ficaria o Ricardo sem a sua chucha.

Então, parece que Sócrates andou a gastar de mais e não olhou à dívida quando poderia ter resolvido os problemas, é esta a famigerada cantilena que tem sido martelada pela direita sem descanso nos últimos 6 anos e que continuará pelos próximos 10, no mínimo. O que nunca encontrámos, em nenhum dos papagaios que repetem o estribilho, é a demonstração da sua honestidade intelectual. Quando e onde é que o Governo socialista devia ter gastado menos? Devia ter gastado menos em 2009, ao arrepio do que foi a resposta Europeia à crise de 2008? Mesmo admitindo que sim para efeitos de exercício, esses cortes a serem feitos obedeceriam a que critérios e seriam em que volume? Recordemos que Ferreira Leite, profeta da desgraça que nos avisou para as catástrofes que aí vinham a caminho por causa do inerente aumento da dívida no contexto do “abalozinho”, nunca colocou as suas consequências para o futuro próximo ou sequer de médio prazo. Os malefícios iriam atingir as gerações futuras, dizia ela. Dizia ela o que podia dizer, coitada da santa senhora, e ela não podia falar do que nem sequer imaginava que iria acontecer poucos meses depois das eleições de 2009: a hecatombe grega em 2010 que inicia o ciclo apenas europeu da crise mundial.

Ou será que o Ricardo está a dizer que após o início da crise das dívidas soberanas Sócrates continuou a gastar à tripa-forra? Foi isso que viu por entre todas as medidas de austeridade que foram tomadas por imposição europeia ao longo de 2010 e no princípio de 2011? Ou será que o mano Costa carimba como anos em que se gastou “de mais” aqueles que antecedem a crise mundial e os quais correspondem ao melhor período da economia nacional em muito e muito tempo, tendo-se registado uma redução do défice para menos de 3%? De que estará a falar? Talvez dos aeroportos e das linhas do TGV. Ou talvez do investimento em ciência e tecnologia, em educação e saúde, em energias renováveis e exportações, em apoios sociais a distribuir num país pobre apanhado em crises gigantescas.

À direita não interessa qualquer balanço objectivo do que foi a governação do PS até às crises nem do que foram os constrangimentos à governação adentro das crises. Não interessa porque os partidos da direita, com as actuais lideranças oportunistas e decadentes, apenas pretendem defender agendas próprias e usufruir do poder. Curiosamente, à esquerda o desinteresse é igual, não se encontrando no PCP e no BE qualquer defesa do que se fez em Portugal de 2005 a 2008. Este é o quadro cínico onde a política está reduzida ao sectarismo, assim gerando uma infindável guerra civil. Para quebrar esse ciclo infernal, teremos de encontrar um jornalismo cuja referência não seja o ego inflamado e à solta dos directores em bicos dos pés. E para encontrar esse jornalismo, os cidadãos têm de exigi-lo sob pena de nunca aparecer.