Já é oficial: somos uma sociedade pós-pornográfica

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O caminho para chegarmos a este estado em que a pornografia passou a ser mais um género lúdico de apelo universal – e já não uma transgressão, ainda menos uma perversão, e acabando por nem sequer servir para ser uma afirmação – começou com a pílula. Finalmente, um método anticoncepcional quase infalível, e de aplicação pelas mulheres no que se distinguia dos preservativos também pela responsabilidade individual, aparecia na História. A sexualidade saltava para fora do território da reprodução e passava a ser mais um dispositivo ao serviço da socialização e da expressão pessoal. Este é o período da “revolução sexual”, mas o qual esteve envolto em muitos outros terramotos ideológicos, políticos e culturais que marcam a década de 60. Nos anos 70 e 80, as revistas femininas continuaram o processo de forma ainda mais poderosa, porque depurada e insidiosa – ou seja, legitimada publicamente. Nelas, a sexualidade passou a ser apresentada como apenas uma outra técnica nos novos lavores da mulher moderna. Praticar com impecável eficácia um fellatio, ter como normal e desejável o sexo anal, brincar com alguns códigos e adereços sado-maso, alinhar na fantasia lésbica do seu namorado ou marido, chegar ao ponto de contemplar o adultério como um recurso que tanto lhe poderia servir para melhorar a auto-estima como até para salvar o seu casamento, eis o que se desenhava como a revista e aumentada missão da senhora informada. Esses artigos são notáveis e bondosos pela sua amoralidade e frieza pragmática, algo que o embrulho retórico hedonista não consegue nem pretende esconder. Tratava-se de um discurso que ensinava as mulheres a manipularem a sexualidade masculina por via da adaptação. O subtexto era: dá ao teu homem o que ele procura nas putas.

Nos anos 80 e começos de 90 foi a indústria da música que deu o grande passo seguinte. Não será exagero se reduzirmos este factor a um só nome, Maddona. É um ciclo que pode igualmente ser reduzido a duas balizas: o lançamento do álbum Like a virgin, em 1984, e o lançamento do livro Sex, em 1992. O seu alvo foi sempre uma serôdia e doentia moralidade cristã política e culturalmente poderosa nos EUA, em especial, e por todo o Ocidente, em geral. Inúmeros são os pontos de vista, e as camadas, que a super-mega-hiper-artista oferece para análise, mas nesta paupérrima reflexão que aqui vou fazendo apenas me interessa realçar o fio que liga o princípio ao fim. Em 85, uma canção que celebra a pulsão sexual animal, e a penetração, como via para a libertação feminina varre o mundo e vende milhões. Em 92, um livro onde se simulam actos sexuais em estética sado-maso chic surge como uma natural – logo, normal – exibição da criatividade de Madonna. Que se devia ter seguido a seguir calhando seguir-se pela mesma lógica, a lógica de que o sexo vende? Um filme pornográfico, com o glamour da sua marca a definir a estética e a própria Maddona a dar o corpo ao manifesto. Não o chegou a fazer, nem o poderia ter feito, mas o tempo tinha chegado para que tal viesse a ser um recurso industrial ao serviço das celebridades.

Mas antes, a TV. Em 1998 surge o Sex and the City, uma série televisiva que mostrava os critérios sexuais de 4 personagens femininas tipificadas. Num certo e óbvio sentido, estávamos perante a simples transposição dos artigos das revistas femininas dos anos 70 e 80 num veículo de ficção, artigos esses que foram sendo cada vez mais sexualmente explícitos nas matérias e nos conselhos dados às leitoras. O discurso televisivo ganhava em envolvimento e credibilidade face ao papel, apresentando a sexualidade como essa área do relacionamento onde homens e mulheres podiam – e deviam – ser politicamente iguais em direitos. Assim, era perfeitamente aceitável que uma mulher usasse um homem como um mero objecto sexual, ou outra mulher, algo que os homens lhes faziam desde sempre. A exaltação do prazer sexual feminino por si mesmo, que a série erigia em bandeira ideológica, terá sido uma das principais influências para a reinvenção do até então duplamente marginal negócio de vibradores e dildos. Quando a Philips começou a vender “massajadores íntimos” ficou claro que o conceito de “produto doméstico” tinha sido levado para territórios impensáveis uns poucos anos antes.

O grande salto para o triunfo da pornografia como mecanismo capitalista massificado precisou do concomitante triunfo da Internet. A partir de meados dos anos 90, o consumo de pornografia passava a ser instantâneo, ubíquo, privado, ilimitado e, para a enorme maioria, à borla. Este foi o ecossistema perfeito para o início da utilização de pornografia real por estrelas mediáticas convencionais. Quem inaugurou o ciclo foi a Pamela Anderson, uma actriz sem qualquer talento que estaria condenada a uma carreira efémera. O seu “escândalo” inovava face à matriz que já vinha dos começos de Hollywood nisso de não consistir apenas num boato, numa fotografia manhosa ou num generoso decote, agora era possível oferecer ao público um vídeo onde se documentavam actos sexuais. Sim, a Pamela Anderson tinha vida sexual, pára tudo! E ela continuava a aparecer na televisão depois de já sabermos que fez aquelas coisas, incrível! Foi uma lição que encontrou em Paris Hilton a discípula destinada a superar a mestra. Em 2003, uma rapariga da alta sociedade norte-americana põe a Internet em ebulição – logo, por extensão, toda a comunicação social global – ao mostrar que é capaz de fazer aquelas coisas que, parece, toda a gente faz. O brilhantismo do plano está em ter previsto que esse “escândalo” seria tão-só o começo de uma carreira fulgurante como estrela mediática e empresária que tem gerado dezenas, ou centenas, de milhões de dólares. E a partir daqui estava estabelecido o nexo causal entre a exposição pornográfica e o sucesso mediático e social para audiências generalistas; como Kim Kardashian demonstrou em 2007, por exemplo.

Vamos deixar sem análise o fim do tabu em relação à exposição de vulvas, o qual começa em 1992 no Basic Instinct com a Sharon Stone e que, 10 ou 15 anos depois, era uma enevoada miragem face à estratégia de promoção tablóide a que figuras como Britney Spears, Paris Hilton e Lindsay Lohan recorriam. E entremos na razão de ser deste lençol, a imagem da Miley Cyrus a chupar um pénis de plástico num concerto. Não apenas isso, ela igualmente pediu para ser tocada nos órgãos sexuais pela assistência, entre outras avarias erótico-cénicas. Quem é esta miúda, nascida no ano em que o Sex veio à luz? Para começar, é uma artista com um plano simples de explicar e difícil de alcançar: tornar-se numa estrela global recorrendo apenas a equipas e técnicas de marketing. O páreo é difícil se a compararmos com o fenómeno mais recente na categoria, Lady Gaga. Esta aproxima-se da Maddona em talento artístico, qualidade da produção dos seus conteúdos mediáticos e criatividade simbólica. A Miley não tem nada disso e, pelos vistos, não está interessada sequer em simular que pode vir a ter. A estratégia da sua editora, ou do seu agente, ou de ambos, passou por a colocar no mercado como uma cantora que iria assumir os códigos pornográficos de uma forma nunca antes vista em contexto generalista. Se bem o pensaram, melhor o estão a fazer, ganhando probabilidade a ideia de que, algures onde a legislação o permita ou a sua violação não onere demasiado, se veja a Miley a substituir o plástico pela epiderme de algum varão. E pronto, ’tá feito – mas desta vez num palco, em directo e para uma audiência de adolescentes e algumas, muitas, crianças.

Ver a pornografia a ser usada como a principal linguagem de aparato artístico no mercado da música ligeira juvenil equivale, então, a ver a pornografia destituída de qualquer censura moral ou etária. Nesse sentido, a pornografia acabou enquanto território de interditos religiosos, morais ou sociais e foi assimilada pela indústria do entretenimento. Que tal tenha acontecido pelo corpo de uma actriz que há dois anos ainda era uma estrela da Disney não é bizarro, é um espectáculo. Mais um.

9 thoughts on “Já é oficial: somos uma sociedade pós-pornográfica”

  1. pôrra, que texto maravilhoso, que riqueza, e nem foi preciso mostrares a pila nem os pêlos do peito. :-)

    a pós-pornografia é aquele estado de banalização do sexo e da energia poderosa que é a sexual. é por isso que anda meio mundo, ou bem mais, acho que deve ser bem mais, cerebralmente contaminado: passam a energia sexual banalizada uns aos outros. e nela vão coisas péssimas porque é uma descarga. e o sexo deve servir, não para esvaziar, para encher!
    estas é que são putas caras, carago! :-)

  2. Pornografia?! O qué? Não me digam que é aquela coisa de umas gajas nuas a gemer muito e gajos anormais em posições incríveis e com histórias elaboradissimas, de coisa mão, mão na coisa, coisa na coisa e vice-versa, excursão aos antípodas e desperdício de matéria orgânica.
    Afinal, é a documentação em suporte vário das coisas que se fazem em muitas casas, no remanso das alcovas, por gente que veste fino e vai à missa, ou não é?

  3. a intimidade é sempre, ou pelo menos é suposto que assim seja, pornográfica.
    o sexo como espectáculo, como negócio, é a evidência evidentísssima do falhanço do Homem relativamente ao progresso naquilo que é essencial.

  4. Ora aí está Olinda, a utilização da pornografia como negócio é que é obscena. Será o Kama Sutra, os baixos-relevos de Khajuraho, a História d’O, A Filosofia da Alcova, as tabuinhas de Pompeia, O Trópico de Câncer… pornográficos, e isto para não entrarmos na pintura onde os exemplos abundam?
    A desbragada exploração do sexo é que incomoda. Quantos filmes, sériezinhas e documentários se pelam pela exibição de uns seios, um rabiosque mais ou menos interessante ou uma nudez a despropósito só para carrearem audiências. Não é de rir até às lágrimas, ver uma casta esposa, no fim dum acto sexual vibrante de sonoridade e movimentos olhar para o parceiro com o lençol encostado ao queixo?! Não será uma falta de siso sustentarem uma família disfuncional como os Kardashian?

  5. Ai se isto fosse no tempo das 3 Marias portuguesas, até elas ficavam encabuladas.
    Só no meu tempo era aquela coisa!

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