Estou convicto de que mais de 80% dos socialistas parecem achar que a política não depende das circunstâncias e das possibilidades reais, mas apenas das vontades. A sua ideia é que a política deve comandar totalmente a economia e esta deve estar ao serviço dos desígnios daquela, ou seja, não deve ser limitada pela realidade, pelo contrário, deve impor-se-lhe.
É por isso que quando se lhes diz que não há dinheiro, respondem que sim, que há! O dinheiro aplicado hoje é - respondem - investimento com retorno no futuro (andamos nestes anos a ver esse retorno, e de que maneira...). Dizem também uma frase arrogante que cala qualquer ignaro: "um país não se gere como se fosse uma casa", o que tem o mesmo valor substancial de um carro não se conduz como um avião, embora tanto um como o outro precisem de ser conduzidos.
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Uma das principais noções de Economia – especificamente, macroeconomia – é a de que as decisões individuais obedecem a uma lógica diferente das decisões colectivas. Individualmente, se uma pessoa decidir gastar menos irá conseguir poupar mais. Socialmente, se todos os indivíduos decidirem gastar cada vez menos a economia entra em colapso pois deixa de haver trocas comerciais, consumo, produção e emprego. Logo, a economia de um Estado não se rege pelas regras válidas para a economia das famílias. Mas estes princípios básicos não atrapalham o Monteiro dos carros e dos aviões, o qual passa o tempo a avisar o povo para fugir dos socialistas perdulários e irresponsáveis.
Os socialistas, explica pedagogicamente, são uma espécie de loucos. Como doidos que são, têm alergia à “realidade”. Na “realidade”, a economia é que manda na política, revela-nos o Monteiro, e os socialistas insistem na sua maluquice de ser a política a ter de mandar na economia. Este cromo, que já foi director do Expresso e que já brilhou numa comissão de inquérito onde foi fazer queixinhas de Sócrates por causa de um telefonema que durou mais de uma hora, considera que as circunstâncias económicas são a verdade e que as decisões políticas que ponham em causa essa verdade devem ser denunciadas como lunáticas. Tudo bem, os broncos também têm direito à liberdade de expressão. Só é pena que o Monteiro não emigre para um país onde esteja em vigor esse modelo apolítico. Nesse poiso onde a economia seja lei e a política uma fantochada – onde, portanto, não exista um Estado de direito nem uma representação democrática mas apenas o soberano mercado – o Monteiro dos telefonemas seria feliz. Poderia, finalmente, ver-se livre dos socialistas.


