É escolher

Passos e Portas não nos caíram em cima da cabeça por misteriosas avarias divinas. Há uma história muito simples de contar da sua chegada ao poder, a qual não mereceria especial atenção não se desse o caso de estarmos perante o maior logro eleitoralista de que há registo em democracia (se existe outro maior, venha ele), logro esse que passou por afundar o País custasse o que custasse. Eis que voltaram a violar o seu pacto eleitoral feito de juras e promessas aos cidadãos e à sociedade com este anúncio de mais empobrecimento sob o título DEO. Aos actos devemos somar as inenarráveis declarações onde fica claro que a estratégia de comunicação do Governo é manter um permanente nevoeiro de guerra. As contradições entre os membros do Executivo, e dos governantes consigo próprios – que já nem são mensais ou semanais, podem ser diárias e até horárias – cumprem a função de confundir e anestesiar imprensa e opinião pública.

Demos um saltinho a meados de 2010. Estava a todo o vapor o plano para reeleger Cavaco e, logo de seguida, derrubar um Governo minoritário a ser queimado em altas labaredas tanto pela direita como pela esquerda no meio da maior crise económica internacional em 80 anos e da maior crise política e financeira da União Europeia desde o começo do euro. Na comunicação social a exploração dos “escândalos” socráticos era intensa, feroz e maníaca. Ernâni Lopes, já consciente de estar no fim do seu tempo de vida, junta-se ao Crespo, Medina Carreira e João Duque para deixar o seu último contributo para a Grei, uma síntese holística a caber num A4. Quem tiver estômago para ver, ou rever, este programa poderá satisfazer uma curiosidade cheia de significado e contar quantas vezes os participantes chamaram “aldrabões” a Sócrates, Vieira da Silva e tutti quanti. E qual o motivo para a adjectivação chula? Aparentemente, os socialistas eram aldrabões porque tinham ideias diferentes das deles, e juntamente com essas ideias apresentavam outras contas e outros cálculos. Vejam só, haver quem discorde da gente séria em matérias de economia e política… Que falta de respeito dos xuxas, essa máfia.

Com o máximo de consideração que a pessoa e a sua memória me merecem enquanto concidadão, temos de perguntar o que diria hoje Ernâni Lopes tanto do grupo que ajudou a chegar ao pote como da figura que fez neste programa. Por exemplo, ninguém teria imaginado que a Ferreira Leite viesse a ser um dos principais rostos da oposição a Passos, pelo que talvez ele também fizesse uma qualquer mea culpa. E independentemente dos factores subjectivos que estivessem a influenciar as intenções do famoso economista nessa fase crucial da sua existência, o facto é que a retórica por ele assumida foi a mesma que já antes e depois a direita utilizou no tiro ao carácter de Sócrates e de quem o apoiasse, ou tão-só que não o atacasse, mesmo que fosse um mija na escada qualquer.

Vem nisto uma conclusão óbvia: Passos e Portas são apenas o topo do icebergue de uma direita decadente, rapace e traidora – ou simplesmente muito estúpida, é escolher.

7 thoughts on “É escolher”

  1. O Hernâni, já doente condenado e em jeito de despedida do mundo, quis espantar-amedrontar os portugueses com uma lição professoral-doutoral-sapiencial segundo o pensamento retrógrado dos burros seus pares de mesa. Estes ficaram embasbacados com esta apresentação para-científica da nova descoberta do “Bem” e das “Ideias”.
    Para tal, sob a alçada doentia dos preconceitos rasteiros da direita retrógrada e ávida de manjedoura, elaborou uns mapas manhosos onde inscreveu todas as ideias-feitas, e propaladas sistematicamente pelos media na altura, contra o governo Sócrates. Com uma arenga sofística sobre tais ideias pré-concebidas e colocadas em mapas, para olho ver credível, tenta vender todas as baixas insinuações e ataques de carácter propaladas diariamente pelos crespos.
    Aquele truque das alíneas do “onde está – pôr”, tudo o que está escrito nelas, coincide na perfeição com os slogans-mensagens a que os portugueses eram submetidos diariamente horas seguidas por outros pantomineiros idênticos: o preconceito precedeu a farsa.
    À luz do que já passou entretanto e hoje se sabe da gente que esta gente vendia como séria, como contraponto aos facilitistas, vulgares, moles, golpistas, videirinhos, ignorantes, mandriões e aldrabões, o que devemos pensar das três almas podres ainda vivas já que do morto, esse, doutoral, quis deixar patente aos vindouros que antes de ser já era um morto.

  2. O que me choca nestes homens é o afunilamento primário e patético da problemática própria de uma sociedade, reduzindo tudo a uma questão de economia. Assim como se a governação de uma “casa” se reduzisse à contabilidade do “deve e haver”. As “gerações futuras” que tanto preocupam estes quatro “contabilistas” ficarão garantidas se herdarem um “deve e haver” certinho, embora tenham diante de si um país sem escola, sem trabalho (emigra-se para as sociedades que mexem), sem saúde, sem segurança social, sem modernização, sem investigação científica, sem pontes nem estradas (para quê estradas e pontes?). Enfim, um país sem perspectivas de futuro. Para quê, afinal, um país com futuro ( pensam mas não dizem) se aprendemos ao longo de nove séculos que o “nosso reino não é deste mundo”? Pois é, estes quatro “contabilistas” são quatro ilustrissimos sacripantas, que beberam tudo o que sentem e sabem nos sermões dominicais lá da santa terreola. Se aquela coisa que se diz jornalista confrontasse os três convidados com o desacerto gigantesco do “deve e haver” dos EUA ou do Japão, que responderiam?

  3. Augusto, explica lá de que forma Sócrates sabotou a candidatura de Alegre. Terá sido por não aparecer mais vezes ao lado de quem dizia que ele estava ao serviço da direita, e que, portanto, até agradecia a distância? Ou será que Sócrates andou a rasgar cartazes do Alegre pela calada da noite? Ou terá Sócrates conseguido avariar um ou dois megafones e o bardo terá tido de recorrer apenas ao seu vozeirão para se fazer ouvir?

    Explica lá, tu que sabes.

  4. augusto, para já ainda vais fazendo rir a malta que te lê, quando isso acabar vai-te acontecer o mesmo que ao Lisboa men, passas a ser ignorado…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.