Um chicote tem muita serventia

Heródoto conta a seguinte história nas suas Histórias, livro IV. Os citas eram um povo que costumava cegar os seus escravos para que fossem mais fáceis de dominar e mais produtivos na recolha e transformação do leite. Uma vez, os homens citas abandonaram a sua terra para irem combater os medos durante 28 anos, muito longe dali. Ao finalmente voltarem a casa, encontraram um grande fosso e muitos jovens à sua espera para os impedir de entrar no território. Esses jovens eram os filhos nascidos das mulheres citas que haviam ficado e dos escravos cegos. Tinham nascido com a capacidade de ver e viam que eram iguais aos senhores que escravizaram os seus pais. Então, os citas lançaram-se contra eles com as suas armas de combate, lanças e arcos, mas os jovens lutaram ferozmente e conseguiram resistir. Até que um guerreiro cita se lembrou de pedir aos seus camaradas para abandonarem as armas e pegarem apenas nos chicotes usados nos cavalos. Disse: “Ao verem-nos com armas, pensam que são iguais a nós. Mas se nos virem apenas com chicotes, saberão que são escravos.” Assim fizeram e os jovens fugiram deles cheios de medo.

Este relato tem sido divulgado vezes sem conta dada a sua natureza exemplar. Também na escravidão moderna, especialmente na americana, o chicote era visto como algo mais do que apenas um instrumento de agressão física. Ele simbolizava a despersonalização do escravo, reduzido à sua condição animal. E hoje, em Portugal, é um muito bom dia para regressarmos a esta lição com mais de dois mil anos.

Porque hoje, em Portugal, celebramos o fim de uma ditadura que reduziu a existência dos meus avós e pais a algo congénere com a escravidão nisso de os ter obrigado a viver grande parte da sua vida sem liberdades e sem desenvolvimento económico e social. E porque hoje, em Portugal, temos no poder senhores que mentiram, caluniaram e ofenderam só para conseguirem estar na posição em que nos podem tratar a chicote. O chicote, devidamente escondido até às eleições de 2011, consiste no discurso e nas acções que nos reduzem a estróinas e madraços, culpados por toda e qualquer vilania que este Governo se lembre de fazer no seu grande projecto de garantir o futuro radioso, ou tão-só seguro e confortável, aos seus membros e apoiantes. É por isso que estes senhores, assim que já não precisaram do voto dos tansos que enganaram, de imediato nos mandaram emigrar, nos disseram para não sermos piegas perante o desemprego e o empobrecimento, rosnaram para comermos e calar pois eles, os nossos senhores, eram os nossos salvadores. As chicotadas eram para o nosso bem. Chicotadas para acabar com o regabofe no jardim à beira-mar plantado.

Pelos vistos, resulta sempre.

8 thoughts on “Um chicote tem muita serventia”

  1. não conhecia a história contada, só vivida. gostei muito de ler, de conhecê-la, e de pensar em como o chicote imperialista já não é dos americanos malvados mas antes dos europeus. é, sociologia corada de vergonha, a civilização a minguar.

  2. A história de Heródoto é arrepiante, tristemente exemplar. Mas chicote, 40 anos depois, será isso uma explicação para a “fuga” e para o “medo”?

  3. “Ao verem-nos com armas, pensam que são iguais a nós. Mas se nos virem apenas com chicotes, saberão que são escravos.”
    Uma pequenina alteração…
    “Ao verem-nos com dinheiro, pensam que são iguais a nós. Mas se nos virem apenas com chicotes, saberão que somos de um circo que é comandado por um palhaço.”

  4. Sabe-se que, o alegado p. ministro láparo não é tido
    como leitor dos clássicos gregos mas, deve ter sabido
    da “receita” pois, foi ele que disse, bastarem mais
    umas pancadas no lombo dos portugueses, para isto
    entrar nos eixos referindo-se ao défice!
    Segundo a direita, basta ganhar as eleições para ter
    carta branca e, tudo fazer ao contrário das promessas
    na campanha … são quatro anos de impunidade se,
    em Belém estiver um cavaco fora de validade!!!

  5. Parabéns Val, brilhante como sempre. E ainda fiquei a conhecer uma história de Heródoto e tudo. Também adorei o comentário do Carlos Sousa.
    A grande questão é sempre esta: entre a inteligência e a força bruta quem é que ganha sempre? Porque parece que há aí uns chicotes envolvidos.
    Agora se os escravos se comportam como escravos mesmo quando poderiam não o fazer, então merecem ser escravos, acho eu de que. E não se queixem.

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