Cineterapia

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The Act of Killing_Joshua Oppenheimer
a imagem que falta
L’image Manquante_Rithy Panh

Num feliz acaso, tem sido possível nas últimas semanas estar em Lisboa e ver estes dois documentários em ecrãs que lhes fazem justiça. São como o lado côncavo e convexo de uma mesma realidade, a violência política extrema que culmina com uma desumanização absoluta e com assassinatos em massa. E são dois exercícios artísticos de uma originalidade que nos envolve radicalmente e conduz-nos ao espanto.

Ao filme de Joshua Oppenheimer não basta ser visto para se acreditar no que mostra. Ficamos do princípio ao fim incrédulos, literalmente de boca aberta, com o que nos aparece à frente. Trata-se de uma das mais poderosas experiências mediáticas dos últimos anos, e é preciso ter muita memória, e muita erudição, para ir buscar algo que se compare.

O filme de Rithy Panh assume o registo biográfico e faz dele o trampolim para se elevar a uma visão de alcance histórico. A solução cinematográfica para dramatizar a violência “que falta” alia a elegância estética com a tristeza pungente de um testemunho de viva voz. A eficácia desta forma serve liricamente o conteúdo da mensagem, elevando-a a uma dimensão universal.

Que têm em comum as mortes de civis indonésios comunistas, ou supostos comunistas, na Indonésia, com as mortes de civis cambojanos às mãos de comunistas, ou supostos comunistas, no Camboja? Ideologicamente, nessa superfície dos rótulos, são fenómenos que estão no extremo oposto. Quanto à tipologia dos crimes, assemelham-se, ambos podendo configurar genocídios pelo número de mortos causados. Dado o grau máximo de violência dos casos documentados, os filmes são registos antropológicos e filosóficos antes e depois de o serem políticos e sociais, exibindo de modo complementar um mesmo olhar sobre a natureza humana.

Os assassinos estão entre nós porque nós somos os assassinos. Estes documentários são duas lições magistrais sobre essa verdade de todos os tempos e lugares.

5 thoughts on “Cineterapia”

  1. Ola,

    Não vi o segundo, mas vi o primeiro e recomendo vivamente. E’ dificil compreender como é que o realizador procedeu (uma grande parte dos actores et dos técnicos que contribuiram não puderam ser mencionados no genérico para não se sujeitarem a represalias…).

    Seja como fôr é o que ele consegue é inacreditavel : põe os protagonistas dos massacres, hoje anciãos respeitados e celebrados como herois nacionais, apos uma vida durante a qual gozaram de total impunidade (“a lei é feita pelos vencedores”, declara um deles), a representar teatralmente as atrocidades que cometeram sem manifestar qualquer tipo de remorso, ou sequer um pingo de consciência da gravidade dos actos. So um deles consegue alcançar um começo de consciencialização, la para o fim do documentario, apos desempenhar ele mesmo o papel de uma das suas vitimas…

    Um filme inquietante sob todos os pontos de vista. Apetece falar da “banalidade do mal”. So que neste caso não estamos a falar de burocratas cegos às consequências de actos em aparência banais, estamos a falar directamente de bestas sanguinarias que acham normal, ou mesmo divertido, terem cometido as piores atrocidades, inclusivamente sobre velhos, mulheres, crianças. Mais, integraram estes comportamentos como parte daquilo que lhes da, ainda hoje, um estatuto social privilegiado.

    Uma ilustração surpreendente, e inquietante, do “teatro da crueldade” de A. Artaud.

    Não esperem sair de la risonhos e optimistas, mas não deixem de ir ver. A sério, não se vão arrepender.

    Boas

  2. não vi nada, a não ser agora, e fiquei a pensar, vou pensando, no ser assassino como um direito inerente ao ser humano e daí a antropologia e a filosofia. muito interessante.

  3. fas model sp 602, .22lr, acção simples, 5 munições, acção de recuo, 1050 g, 285mm, 135 mm, 142mm, ajustável, 220mm, lingueta de segurança no lado esquerdo da carcaça, segurança da corrediça, atrás do guarda-mato, aço oxidado, de competição com descanso de mão ajustável.

    (acabei de te foder os miolos, ignatz) :-)

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