Um caso de consciência

Cavaco seria um notável caso de estudo, ou estudo de caso, da duplicidade moral em pessoas com autoridade pública, mas num grau em que se atinge expressão esquizóide, calhando haver alguém nesta terrinha com coragem para o elaborar. Não havendo, resta pegar no que está espalhado por aí. E com esta ressalva: há uma lógica cristalina na aparente bipolaridade patológica de Cavaco, uma lógica que consiste em atacar o PS e ajudar o PSD.

Na passada terça-feira, repetiu uma mensagem que lhe temos ouvido com insistência no último ano – e sob diversas variações ao longo dos anos em que se tem apresentado como o político acima da “politiquice” e, portanto, acima e distante de todos os outros políticos:

O Presidente da República, Cavaco Silva, considerou hoje que é nas empresas que está "o grande pilar da recuperação do país" e não nos "faits divers", porque "intrigas, agressividades, crispações, e insultos entre agentes políticos" não promovem o crescimento económico.

Fonte

Com este Governo, há finalmente um Presidente da República que espalha harmonia e pacificação. Os propósitos não poderiam ser melhores, esforçando-se o Chefe de Estado por elevar a qualidade do debate político. Cavaco é o nosso supremo guia, apontando a meta no horizonte para a qual todas as acções de todos os políticos devem convergir: o crescimento económico; isto é, levar o pão a casa de quem trabalha, em vez de se andar a perder tempo e energia em palavrório que não puxa carroça e ainda deixa as cabeças muito confusas e com ideias perigosas. Quem não aprovar estes sábios conselhos do Professor, lídimo representante da gente séria, não poderá ser bom chefe de família e talvez deva ser barrado à entrada do Estádio da Luz, escusado será lembrar.

Certo. Aliás, se não existissem partidos nem nunca o Sócrates tinha levado esta merda à bancarrota com os aeroportos e TGVs que andou para aí a construir à maluca, mais aquela cena do apartamento comprado à máfia russa com dinheiros das PPP. O Medina Carreira era primeiro-ministro vitalício desde 1975 e reinaria a felicidade e a opulência (embora não necessariamente por esta ordem). Certíssimo. Então, como explicar o que o mesmo Presidente da República andou a dizer e a fazer antes de 5 de Junho de 2011?

Cavaco regista duas espectaculares inovações que os 30 anos de actividade presidencial anteriores à sua entrada no Palácio de Belém não foram capazes de produzir: a Inventona de Belém e o discurso da tomada de posse do seu 2º mandato. No primeiro episódio, estamos perante uma tentativa de perversão e manipulação de dois actos eleitorais, legislativas e autárquicas, levado a cabo por um órgão de comunicação social e a Casa Civil, ambos contando com o apoio explícito de Cavaco. No segundo, estamos perante um comício no Parlamento onde se pediu a demissão do Governo pela rua. A forma como a sociedade portuguesa reagiu a estas afrontas ao Estado de direito, à República e à democracia é bem o nosso mais nítido retrato enquanto comunidade que não se respeita a si própria. Deixemos, pois, essas misérias e vejamos dois outros exemplos já esquecidos:

Cavaco duro como nunca para Governo e empresários2009

Cavaco Silva não acredita que o Governo desconhecia negócio entre PT e TVI2010

A notícia de 2009, em clima de pré-campanha eleitoral, exibe um Presidente da República a dizer que o Governo oculta a realidade, falsifica estatísticas, decide sem ponderação, gasta dinheiro público em projectos inúteis e ruinosos, favorece os amigos, é volúvel ao poder económico e age sem ética e sem verdade. Não seriam estas razões suficientes para dissolver a Assembleia da República? E se estas não chegavam, quais seriam as suficientes? Ver ministros socialistas a atropelar peões com carros do Estado e a fugir rindo às gargalhadas? Bacanais em S. Bento? Canibalismo nos aviões que levavam Sócrates para a Venezuela?

A notícia de 2010, já em plena crise das dívidas soberanas e com um Governo minoritário a ser queimado vivo até chegarem as presidenciais, dá-nos um Presidente da República a comentar um episódio nascido de uma operação de escutas ilegais que apanhou um primeiro-ministro em conversas privadas e cujos magistrados responsáveis, de imediato, espalharam (ou deixaram que se espalhasse) esses conteúdos por jornalistas para darem origem a uma das maiores campanhas de difamação e calúnias que já ocorreram em Portugal – apenas o prelúdio e clima, afinal, para uma tentativa de golpada por via judicial. Cavaco, que tinha em cima do acontecimento contribuído para essa campanha, volta à carga no momento em que o País se afundava na caos da crise europeia. Para ele, existiu mesmo um negócio que teria nascido do desejo do Governo socialista e que passava por obrigar a PT a comprar a TVI. Subtexto: estava em causa conseguir calar Moura Guedes e o seu magnífico trabalho jornalístico sobre o Freeport. Ou seja, Cavaco confirma a tese do atentado ao Estado de direito mas continua a considerar insuficientes essas evidências para dissolver o Parlamento. Falar de suspeitas e calúnias como se fossem factos, espalhar aos quatro ventos que o Governo socialista é um antro de corruptos, sim, isso é possível e faz sentido. Cumprir a Constituição, supostamente em causa face à dimensão das suspeições verbalizadas, não dava jeito porque o seu calendário era outro.

Quanto a “intrigas, agressividades, crispações, e insultos entre agentes políticos” estamos conversados. Nunca se viu e nunca se fez o que se viu ser feito por Cavaco do alto da Presidência da República Portuguesa, estatuto e situação absolutamente agravantes para as suas aleivosias. Poderá este não ser um caso de consultório, nem de tribunal, nem sequer chegar a ser um caso de estudo, mas para sempre ficará como um caso de consciência. A minha consciência, e talvez a tua.

3 thoughts on “Um caso de consciência”

  1. Razão tinha Brederode Santos-“O homem saiu de Boliqueime, mas Boliqueime nunca saiu dele”.
    Um pulha!
    Apenas e tão só, um pulha.

  2. achei um piadão ao texto, concordo com tudo e inclusive a minha consciência arde de vigor. mas também pergunto: o que podemos fazer? o que pode o povo fazer senão escolher, a seu tempo, melhor? há gente que é paga e bem paga para exercer a profissão de político, ou seja, há gente que é remunerada para cuidar do bem comum.

    é, portanto, à consciência desses que este texto faz mais sentido. e quem me dera que lhes fosse sentido! temos sempre a tendência de exaltar o que faz este ou aquele deputado quando o faz para nosso bem. obrigação deles, são pagos para isso, não são irmãs de caridade à moda do avô do Lobo Antunes!

    as irmãs de caridade
    têm um buraco no cu
    que lhes fez o padre cura
    com a chave do baú

    trabalhem deputados malandros! cuidem do país ainda que isso implique derrubar o governo e o presidente da república! já chega de discursos brilharetes! façam alguma coisa contra os ensaios económicos porque um país não se mede ao PIB!

  3. Com aquela inocência própria dos patetas, o presidente do grupo parlamentar do PS afirmou esta manhã (25 de Abril!) que o Cavaco-presidente da republica, no seu discurso criticou o governo! Este anjinho ainda não se deu conta de que Cavaco faz o discurso que lhe convem para cada ocasião. Depois, o que fica “preto no branco” é o apoio total a esta governação, não permitindo que ninguém se afaste do caminho traçado depois do derrube do anterior governo. Porra! a estupidez devia pagar imposto. Este ilder parlamentar, de Sócrates e Seguro, é bem a imagem do PS que se deixou reduzir a pó pelos cavaquistas e ladrões de bancos.

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