Todos os artigos de Valupi

Dois lagartos

Daqui a umas horas vai começar um ciclo que, para quem gosta de futebol e calhe ter mais de 25 anos de sócio do Sporting como aqui o pilas, será visceralmente penoso. Isto porque Jesus deixou claro durante a semana que o seu pensamento continua a estar ocupado pelo Benfica, a sua eterna casa. Ao reclamar que Vitória ainda não mudou a táctica do seu antecessor, poderíamos até achar por instantes que Jesus estaria armado em Mourinho, lançando feitiços verbais para desorientar o adversário. Mas logo de seguida abate-se inclemente sobre nós a realidade de estarmos a falar de Jesus, uma autêntica melancia: verde por fora, vermelho por dentro e uma máquina a cuspir pevides. O que está em causa é que ele quer continuar a mandar na equipa que abandonou por causa de uns peaners. Como bom chefe de família, não admite que a sua ex refaça a vida amorosa nem mesmo quando ela foi abandonada.

Ao lado, temos um presidente que para o contratar, a jóia da coroa dos rivais e assim elogio aos mesmos, tratou de forma irracional e vil um seu colega de profissão que tinha acabado de triunfar no clube e era favorito dos adeptos. Nada que o dinheiro não remedeie, mas essa redução de um clube como o Sporting à mais escabrosa ausência de valores aristocráticos transforma a agremiação numa mercearia onde os seus recursos humanos não têm mais dignidade do que as batatas. Estamos perante um louco perigoso, como a sua conduta foi exibindo de forma crescente desde que a Juve Leo o empurrou para o actual poleiro.

Esta dupla de cromos poderá ter sucesso desportivo, pois tudo é possível dado ser tudo em parte aleatório. Porém, o mais provável é a racionalidade das coisas simples impor a sua lei. Ora, é simples de constatar que dois lagartos assustam menos os adversários do que a sombra de um leão.

Três cabeças pensam pior do que uma

Afinal, os cartazes que nos levaram para 2010 e 2011, e onde as fotos são de pessoas que nada têm a ver com as mensagens, foram criados por alguém que não o Edson, informou o PS. A ser verdade, tal implica que a campanha tem pelo menos dois directores criativos. E porquê? Para quê?

Ter dois directores criativos implica ter um coordenador de ambos com um qualquer estatuto, conforme a sua área de especialidade. Se for criativa, configura-se como chief creative officer. Se for da pesquisa, como estratega. Se for do lado do cliente, como o cliente. No caso, o cliente é António Costa.

É provável que a trapalhice em que a comunicação do PS se tornou não tenha qualquer influência negativa nos resultados eleitorais. Está o País a banhos e os incríveis disparates do marketing socialista são acolhidos dentro do espírito festivo da silly season. Aliás, até podem despertar simpatia no eleitorado flutuante, porque revelam fraquezas inócuas.

Mas lá que Costa parece querer desafiar o destino, surpreendendo tudo e todos com a sua inépcia estratégica, isso fica como uma das revelações deste ciclo eleitoral.

Um cartaz genial, se

mw-860

A comunicação social está a fazer um enorme favor ao PS colocando este cartaz nas parangonas. Assim de repente, diria estarmos perante um dos melhores trabalhos do Edson – caso tenha sido intencional. Agora só falta Costa marcar uma conferência de imprensa para se pronunciar sobre ele. Iria ter paletes de jornalistas à sua frente e o País inteiro à escuta.

Para dizer o quê? Podia ser algo parecido com isto:

"Muito obrigado pela vossa presença. Como foi rapidamente descoberto pela comunicação social, fizemos um cartaz onde assumimos que num Governo socialista pelo menos uma pessoa foi para o desemprego. Contudo, queremos dar-vos uma informação mais completa: não foi só em 2010 que isso aconteceu. Já tinha acontecido em 2009. E até em 2008, à tardinha. Aliás, permitam-me ser completamente transparente: temos informações fidedignas de que a partir de 12 de Março de 2005 se registarem casos de desemprego em Portugal, vários, muitos. Estamos neste momento a estudar o período de 28 de Outubro de 1995 a 25 de Outubro de 1999, e também o de 9 de Junho de 1983 a 6 de Novembro de 1985. Todos os dados apurados serão tornados públicos. Quanto ao período de 23 de Janeiro de 1978 a 29 de agosto de 1978, iremos pedir ajuda à Torre do Tombo para conseguir perceber o que aconteceu.

Saltemos para a nossa opção. Então, porquê o ano de 2010? É que nós queremos falar do que se passava nessa altura, pois tal explica o que veio a acontecer nas eleições de 2011 e ao longo desta legislatura. Como sabem, em 2010 existia um Governo socialista em Portugal que não tinha maioria. As razões para tal remetem para a recusa dos partidos com assento parlamentar em viabilizar essa maioria, e também para a decisão do Presidente da República em viabilizar esse Governo minoritário. Perguntem-lhes se ainda acham que agiram a pensar no interesse nacional, que nós continuamos cheios de curiosidade em conhecer as suas respostas. 2010 é também o ano em que rebenta a crise das dívidas soberanas. Para se avaliar da novidade desse acontecimento, desafio os senhores jornalistas a encontrar uma declaração - basta uma, ou mesmo metade de uma - que tenha sido feita por algum político do PSD ou do CDS a prever tal ocorrência. Vou dar-vos 10 minutos para pesquisarem na Internet ou na vossa memória. Também podem ligar para casa ou pedirem a ajuda do público. Só o 50-50 é que não está disponível. Como? Não se encontra nada? Pois.

Ora, em 2010, o então primeiro-ministro e secretário-geral do PS fez uma comunicação ao País por altura do Natal. Vou recordar uma passagem desse discurso, isto é rápido:

Um dos efeitos da crise global, que acabou por condicionar todo este ano de 2010, foi a séria crise de confiança que se abateu nos mercados financeiros sobre as dívidas soberanas dos países do Euro. Esta situação, sem precedentes na União Europeia, levou à subida injustificada dos juros, e afectou todas as economias europeias. Basta, aliás, ver o que passa lá fora para se compreender a dimensão europeia desta crise que a todos afecta embora a alguns países de forma mais intensa.

A verdade é que todos os governos europeus tiveram este ano de fazer ajustamentos nas suas estratégias e tiveram de adoptar medidas difíceis e exigentes, de modo a antecipar a redução dos seus défices como forma de contribuir para a recuperação da confiança nos mercados financeiros.

O Governo português tomou as medidas necessárias para enfrentar esta situação. Com confiança, com sentido de responsabilidade e com determinação. Definiu metas ambiciosas para 2010 e 2011 que vamos cumprir. O que está em causa é da maior importância. O que está em causa é o financiamento da nossa economia, a protecção do emprego, a credibilidade do Estado português e o próprio modelo social em que queremos viver.

Pronto, pronto, enganei-vos. Não foi assim tão rápido... mas valeu bem a pena, certo? Para vos compensar, prometo terminar já. Lembrando que em 2009, 2010 e metade de 2011 vimos aqueles que viriam a ganhar as eleições a protestarem contra a austeridade e a prometerem que assim que chegassem ao poder iriam acabar com os sacrifícios impostos às pessoas, que iriam aliviar o peso fiscal e concentrarem-se em emagrecer um Estado balofo e despesista. Pergunto aos senhores jornalistas: para quem teve o azar de perder o emprego em 2010, o melhor que lhe poderia acontecer a seguir era ter de suportar estes trafulhas que se serviram das dificuldades do País para o afundar e empobrecer ainda mais apenas por fanatismo e revanchismo?... Hã?... Não querem dizer nada?... Estão a pensar?... Tudo bem. Mas votam, não votam? Ok, então. Acho que podemos terminar."

Puritanismo jurídico, diz o caluniador

Existe uma indústria da calúnia porque existe a produção de calúnias a troco de dinheiro. E para gerar dinheiro, directa e indirectamente. É o mercado a funcionar, a todo o vapor. Nenhuma alma disputa a evidência de o Correio da Manhã, o Sol e o Observador, para citar os meios mais cabeludos, terem na calúnia uma parte principal da sua filosofia e logística editorial. Mas há outros meios de mais difícil discernimento. Veja-se o que acontece no Público. No tempo do Zé Manel, era igualmente uma máquina poderosa de produção de calúnias. Agora, ninguém diria isso da actual linha editorial. Parece um jornal sério, daqueles interessados em contribuir para o bem comum através da sua especificidade como órgão de imprensa. Nem sequer dá para perceber se têm alguma inclinação partidária, o que pode ser recomendável. Porém, este mesmo jornal paga (e quanto?) ao João Miguel Tavares para produzir calúnias a um ritmo semanal, ou lá próximo. Exagero? Leia-se o parágrafo:

O resultado deste puritanismo jurídico, que de certa forma entende que uma justiça digna não deve negociar com criminosos, é aquele que se vê: um país com altos níveis de corrupção e inúmeras investigações, mas sem corruptos presos. Basta pegar no popular caso Sócrates e ver o modo como a investigação parece andar aos círculos. As justificações de Sócrates para tamanha ostentação de riqueza são totalmente implausíveis, mas não é por acaso que a sua defesa afirma obsessivamente que não sabe de que crime está o seu cliente acusado – nos casos de corrupção, os indícios podem ser gritantes, mas prová-los é uma tarefa hercúlea, dada a sofisticação e complexidade dos processos envolvidos.

A delação premiada

Não é absolutamente maravilhoso este naco de prosa? O seu autor começa por se declarar avesso ao “puritanismo jurídico”. Isto, por si só, e como dizem os ingleses, c’est tout un programme. Ele quer as coisas um bom bocado mais porcalhonas, e parte logo para o ensino através do exemplo. Começa por estabelecer que Portugal é um país com altos níveis de corrupção, mas não perde uma caloria a dizer onde foi buscar essa ideia. Talvez porque ele próprio não saiba explicar, é a minha explicação. De seguida, fala de Sócrates. Estou disposto a pagar para ver uma infografia com o mapa das referências a Sócrates feitas por este caluniador profissional ao longo da sua carreira. Só que não largo mais do que 10 euros, estão avisados. Pois aqui ele anuncia-se conhecedor do estado da investigação, sugerindo que anda aos círculos, e apressa-se a iluminar o fenómeno. Então, é assim: as justificações de Sócrates, as quais estarão na posse do caluniador, não passam de tretas, e toda a gente sabe disso de ouvido, não é preciso investigar seja o que for, só que provar em tribunal a corrupção que já está provada pelos indícios é que é o caralho – não fosse tão difícil e a “Operação Marquês” seria uma auto-estrada sempre a direito, em vez de uma rotunda engarrafada, com ponto de partida na sua própria cachimónia e ponto de chegada a uma fogueira magnífica no Terreiro do Paço.

A promoção aberta da delação por um talibã da direita decadente, não passando aqui de manha doentia para voltar a carimbar o cidadão Sócrates como criminoso sem que a Justiça o tenha feito nem se sabendo se o vai fazer, transporta-nos para o auge da caça às bruxas nos Estados Unidos de Joseph McCarthy e Edgar Hoover. Este último, entre muitas outras vilanias, usou o FBI para instituir um sistema em que recolhia suspeitas sobre professores que pertencessem a escolas públicas. O motivo tinha de ser a ameaça genérica por conotação comunista. Depois, esses nomes eram entregues secretamente aos governadores dos Estados e estes faziam-nos chegar às instituições de ensino respectivas. Aí, os visados eram levados a abandonar as posições ou eram liminarmente despedidos. A forma como os responsáveis por esta completa e monstruosa violação do Estado de direito racionalizaram as suas decisões e práticas não se distingue do espírito posto em caracteres pelo caluniador remunerado pelo Público: as garantias e direitos individuais não passam de “puritanismo jurídico” face à oportunidade de destruir o bom nome e a segurança de pessoas atacadas arbitrariamente sem que a comunidade venha meter o bedelho na razia.

Sim, Sócrates poderá ter cometido crimes. Sei lá eu. Para já, sei que é inocente até prova em contrário. E também sei que cometeu gravíssimos disparates na esfera da sua privacidade, os quais têm consequências políticas como se vê. Mas tenha ou não tenha sido agente de ilegalidades, isso é indiferente para esta consciência de ser um dos cúmulos da degradação comunitária ver os caluniadores serem premiados com espaço mediático e dinheiro por órgãos de comunicação social que usufruem das benesses da Constituição. Ao menos que ficassem lá pelo esgoto onde vão molhar o pão.

Abrilada

«Estamos hoje a lutar mais por Abril e pela liberdade do que em tantos anos se fez com muitos outros governos, e isso devemos à vontade dos portugueses», reivindicou Pedro Passos Coelho, na cerimónia de apresentação do programa eleitoral da coligação PSD/CDS-PP, num hotel de cinco estrelas no Parque das Nações, em Lisboa.


Fonte

__

O gozo de Passos com a política e o regime é indisfarçável. Ele avacalha com gosto em público sempre que pode, o pândego, celebrando impunemente a sua natureza de eterno jota do laranjal. Daí também a sua oralidade macarrónica, onde se misturam expressões vernaculares de tasca com construções sintáxicas de novo rico.

Bom, o homem tem razão. Passou a vida a privar intimamente com a oligarquia e a ser levado ao colo. Chegou ao poder à conta de uma traição ao País, de mentir como se não houvesse amanhã e de uma crise internacional cuja magnitude não se conhecia há 70 anos. A cultura da hipocrisia e do cinismo, o tal “saber fazer política” da escola da direita decadente, não tem segredos para ele. E está do lado certo. As coisas estão garantidas, aconteça o que acontecer.

Tratar-nos como borregos é uma festa. De Abril a Abril.

Ai, a tola

São muito poucas as figuras públicas que se tenham pronunciado sobre o caso Augusto Santos Silva-TVI/Sérgio Figueiredo, no meu conhecimento. Ainda menos aquelas que botaram faladura depois do seu epílogo. Mas deviam ser mais, porque Santos Silva tudo fez para transportar o episódio para a rua e solicitou apoio. Do outro lado, Sérgio Figueiredo resistiu com discrição durante semanas ao bombardeamento, até que explodiu por escrito num jornal. Aparentemente, não haverá novos desenvolvimentos, ficando a réplica à réplica sem tréplica.

Nuno Santos – Censura é outra coisa – puxa as orelhas ao Augusto, dizendo-lhe que ele já tinha idade, e estatuto, para ter juízo. A sua opinião, todavia, peca por ser demasiado simpática, quase neutra. E isso acaba por não fazer justiça a um dos políticos mais importantes em Portugal pelo seu percurso como cidadão, responsabilidades governativas assumidas e características intelectuais. Há que praticar nesta ocasião aquele talento que mais admiro em Santos Silva enquanto interventor no debate político, a lucidez implacável.

Acalentei a esperança de que a prometida resposta ao esclarecimento do Sérgio fosse uma ocasião para Santos Silva dar um exemplo de grandeza numa situação onde tinha tropeçado em si próprio com estardalhaço. Ainda bem que não apostei, pois o que saiu foi não só mesquinho como até grave dada a pessoa em causa. Eis os factos:

– O Sérgio testemunhou por escrito que, antes de ter ficado ofendido com as declarações públicas de Santos Silva, tinha aceitado participar num evento de lançamento do seu livro, primeiro, e que tinha interesse em falar ao vivo e privadamente nessa oportunidade ou noutra acerca das queixas que lhe tinham sido enviadas por escrito pelo comentador, depois. Santos Silva não o desmentiu quanto a estas declarações, o que implica estarmos perante a chave do problema. O relato do Sérgio fica carimbado como exacto, posto que ele narra a sua experiência: recebeu um email, respondeu apaziguando o seu interlocutor e propondo uma conversa face a face, para depois se dar conta que, entretanto, esse mesmo interlocutor já tinha escalado o problema para um nível que ultrapassava a esfera daquela comunicação privada e exigia uma resposta institucional da TVI. Isto é simples de perceber.

– Santos Silva atacou o esclarecimento com nova bateria de insultos e ofensas, alegando que a publicação no Facebook das suspeitas de perseguição política era legítima tanto por ter sido feita antes de receber o convite para a conversa como por se tratar de “hipóteses verosímeis e assentes na observação de factos“. Assim, temos a seguinte sequência de eventos: às 9.24, está a mandar um email ao responsável da estação onde se queixa de um problema; às 9.32, está a anunciar ao mundo que a estação para quem trabalha a troco de dinheiro o persegue por razões políticas; às 12.48, recebe as palavras que o Sérgio tornou públicas e concorda com o pedido para uma conversa a dois ou três. Que fez a seguir? Deixou pendurada no Facebook a insinuação que lhe apeteceu espalhar de manhã e nada mais explicou a respeito. Isto é também simples de perceber, mas acumula com ser grave.

É grave que Santos Silva não pareça dar-se conta da puerilidade da sua argumentação falaciosa. Obviamente, a posição de Sérgio Figueiredo na questão é a de um director que pretende exercer o seu poder sobre a grelha pela qual responde à sua administração. Ao mesmo tempo, tem de gerir as consequências psicológicas, emocionais, nas vedetas afectadas pelas suas decisões. É o que fica patente nas palavras que dirige a Santos Silva antes de saber que o jogo tinha mudado de regras. Quem sabe o que resultaria dessa conversa, caso o princípio da confiança não tivesse sido rompido? Talvez algo tão simples como se acordar em mudar “Os porquês da política” para um dia da semana onde ficasse mais resguardado do império do futebol, por exemplo. O que não poderia ficar sem resposta, precisamente por se tratar de uma grave insinuação, era uma declaração pública onde se punha em causa a honra dos responsáveis da estação, fossem quem fossem posto que não se nomeava ninguém na calúnia. Para mais, uma acusação que não se retirou ou contextualizou apesar da promessa de um encontro para se resolver o conflito de interesses.

E é gravíssimo que Santos Silva continue, apesar das evidências, a cavalgar a acusação da censura por motivos políticos partidários. Quando alguém, para mais académico, ainda por cima político, coloca no plano das “hipóteses verosímeis e assentes na observação de factos” tal suspeita, a pergunta imediata é esta: a que período diz respeito essa observação de factos? A partir do seu pressuposto A – “a TVI ofende tão flagrantemente as obrigações de pluralismo no comentário político no canal generalista” – somos forçados a concluir que será desde que Santos Silva se tornou espectador da TVI, posto que sempre assim foi por lá, quando não pior e muitíssimo pior; bem antes, portanto, de ter aceitado colaborar com essa estação nada plural, e sobretudo nos restantes dias até à data em que foi colaborador satisfeito. Qual a razão para só agora termos acesso ao que ele foi pensando em segredo da estação que servia com as suas competências e zelo profissional? A resposta está no pressuposto B, o seu espaço ter vindo a ser perturbado. Conclusão: não fosse ter sofrido esse aborrecimento continuaríamos sem topar o seu profundo repúdio democrático para com a casa onde ia buscar um dinheirinho jeitoso, protagonismo mediático e influência política. Gravíssimo.

Santos Silva abdica com gosto das palavras mansas. Esse é o único ponto, no meio desta infeliz situação, em que estou completamente de acordo com ele.

Revolution through evolution

Ethics of tomorrow? Should androids have the right to have children?
.
Mum’s the word: Maternal language has strong effect on children’s social skills
.
Musical tastes offer a window into how you think
.
Connection found between audience reaction, candidate debate success
.
Majority rule: Why conformity can actually be a good thing
.
Perfectionism linked to burnout at work, school and sports, research finds
.
Why Alfred Hitchcock Grabs Your Attention
Continuar a lerRevolution through evolution

Prender primeiro e investigar depois não é algo que pertença à política ou deva incomodar um político, defende Ana Gomes

"Em Portugal, só o Sócrates é que pensa que é um preso político. Ninguém mais sustenta que ele é um preso político, ele está acusado por crimes económicos, corrupção, branqueamento de capitais. E a Justiça portuguesa tem que fazer o seu trabalho", enfatizou a eurodeputada socialista, mesmo assumindo como "negativo" que "não se tenha investigado primeiro e prendido depois".


Ana Gomes diz que “só Sócrates pensa que é um preso político”

O que fez Sócrates?

Rui Tavares foi a banhos deixando um texto que, na aparência, se destina a qualquer um – O que faria Aristóteles? Está construído para ser pedagógico, ou propedêutico, e nem os salpicos de erudição criam qualquer obstáculo ao leitor comum. O seu resumo, ao meu gosto, podia ser este: os fanáticos e os sectários são imbecis. A sua imbecilidade consiste em reduzirem a complexidade do mundo a dualismos antagónicos e, portanto, redutores, grosseiros e nefastos. Quem é que poderá discordar deste argumento? Só um retinto imbecil.

O artifício do Rui passou por ir buscar Aristóteles e discorrer como se estivesse perante uma turma do 10º de escolaridade. Nada mais adequado ao país e ao tempo que são os nossos. Mas surge a inevitável pergunta: a quem é que essa carinhosa, e caridosa, lição se destina mesmo, ou primeiro, ou principalmente? Aposto os 10 euros que tenho no bolso como o Garcia a quem a carta gostaria de chegar se imagina como “a esquerda pura e verdadeira”; ou seja, PCP, BE e satélites ou cópias. Isto porque o PS não carece de lições acerca da complexidade do real nem é estranho à cultura da negociação e do convívio com a alteridade. Daí o texto finalizar pondo em raciocínios igualmente básicos, quase infantis, a noção de que para diferentes forças políticas se unirem não precisam, concomitantemente, de perder a sua identidade e o seu projecto. Pelo contrário, são essas respectivas diferenças que, no contexto de um acordo, estarão a dinamizar e a enriquecer o labor político que daí nasça. Sim, estamos perante um registo ingénuo; só que de uma ingenuidade intencional, por isso potente e criativa.

Ninguém faz ideia do que vai acontecer ao projecto político que Rui Tavares encabeça nas eleições de Outubro. Ninguém sabe se a eleição de eventuais deputados possibilitará qualquer influência na futura governação. Ninguém sabe se, calhando não elegerem ninguém, voltam à carga em eleições futuras ou se desagregam. O que sei é que não parece haver grande vantagem em ter como espaço de crescimento o eleitorado do PS. Crescer através do enfraquecimento do PS não resolve o bloqueio do sistema à esquerda, prolonga-o. Para o LIVRE/Tempo de Avançar ser essa pedrada no charco infecto dos sectarismos esquerdistas e esquerdolas será preciso ir buscar votos ao PCP e ao BE, ou à abstenção, ou a ambos os campos. A primeira via não parece viável, pois não se vê qualquer estratégia, sequer táctica, nesse sentido. A segunda via também não tem sido trabalhada em termos de propaganda, embora haja sementes inerentes ao projecto que permitam esse florescimento como agregador de votos outrora perdidos para a desilusão e o cansaço. E a terceira via seria a mais lógica, posto que são dois alvos complementares para quem se anuncia capaz de fazer alianças com o PS para governar à esquerda, dependendo da prévia existência de qualquer uma das opções anteriores para ser percorrida. Neste quadro, o simpático e estival texto que nos levou até Aristóteles pode significar qualquer coisa, incluindo não significar nada para além do cumprimento do dever editorial de preencher o espaço com um número mínimo de caracteres. Esperemos pelos fogachos da campanha eleitoral e aí tudo ficará esclarecido.

Há uma ironia, se não for uma vocação, na remissão para Aristóteles, todavia. É que se o confronto entre a democracia ateniense e a democracia contemporânea não pode ser realizado para efeitos de avaliação comparativa, tão diferentes os sistemas, os regimes e as sociedades em causa, podemos sem embaraço reconhecer em Aristóteles um defensor de soluções governativas ao centro das ideologias e forças políticas em disputa pelo poder – de resto, tal como exige a tradição sapiencial grega e seu culto do equilíbrio. Não só, podemos até ver na teoria política aristotélica uma concepção onde uma classe média burguesa – tomada aqui na sua acepção de pequenos proprietários de terra e de unidades produtivas ou prestadoras de serviços – representa a perfeição da vida comunitária. O centrão, pois, seria o espaço natural para Aristóteles caso viesse parar às nossas democracias, precisamente por ser ao centro que a complexidade é maior, implicando um inevitável poder negocial para atender ao conjunto dos problemas assumidos na governação. Por contraposição, uma qualquer visão extremista pressupõe a destruição, ou abandono, de partes da comunidade de forma a anular aquelas diferenças que não se admitem na violência e alucinação sectária. Esta é a história de todos os despotismos, antigos e modernos. Para quem já anunciou que se pretende colocar no meio da esquerda, fica a dúvida acerca da relatividade e transitividade desse ponto central, o terceiro aristotélico. É que, vai na volta, só com Aristóteles não nos safamos.

__

Michael Sandel é professor de Filosofia em Harvard. Nestes 20 minutos, que passam a correr, também pede ajuda a Aristóteles para nos dar uma lição acerca do que é, ou pode vir a ser, a democracia. Se alguém pensa que a neurose do desgosto por causa da qualidade dos políticos e do mau ambiente da política é um mal português, então é porque nunca saiu à rua. Desde há séculos e séculos, a começar nos gregos, e intensamente a partir da Revolução Francesa, que os sentimentos de frustração e indignação acompanham o desenvolvimento histórico das democracias onde quer que elas se estabeleçam.

Como nos tenta explicar Sandel, esse problema não se resolve fugindo da vida política e cívica. É ao contrário. Porque, e disso sabia muito bem o mestre do mestre de Aristóteles, se calha sermos seres com inteligência, então se calhar o que o Universo inteiro quer que façamos com ela é usá-la. Cada vez melhor.

Lixo

"Segunda volta faria subir taxas de juro. Nós não podemos prolongar esta campanha por mais três semanas. Os custos seriam muito elevados para o País e seriam sentidos pelas empresas, pelas famílias, pelos trabalhadores, desde logo, pela via da contenção do crédito e pela subida das taxas de juro."

"No próximo domingo vai ser escolhido aquele que deve estar muito atento às injustiças na distribuição dos sacrifícios que nesta fase de crise são pedidos aos portugueses, como é o caso dos servidores da função pública. Merecem da nossa parte o maior respeito e a maior consideração.»


Cavaco, Janeiro de 2011

*

Segundo Carlos Moedas, que é um dos principais conselheiros do presidente do PSD, Pedro Passos Coelho, os mercados "olham para uma nova equipa de gestão como uma boa notícia", porque "há muito tempo não dão credibilidade ao Governo português".

No seu entender, "assim que os mercados incorporem a informação de que o PSD vai respeitar as metas do défice, e fará tudo o que for necessário para que se cumpram essas metas, até porque foi o PSD que sempre anda atrás do Governo para cortar, essas agências voltarão a dar credibilidade a Portugal".

"Com as reformas que o PSD vai implementar, eu digo-lhe que ainda vão subir o 'rating', não sei se nos próximos 6 meses, se nos próximos 12 meses - ainda não se sabe quando haverá um novo Governo", acrescentou.


Março de 2011

*

“As empresas de rating estão à espera do resultado das eleições”, alertou o primeiro-ministro.


Passos Coelho, Julho de 2015

O espaço vazio da política portuguesa

"O prolongamento, ou mesmo o agravamento, dos momentos difíceis não deve trazer consigo um inelutável aligeirar do controlo da constitucionalidade das normas. Pelo contrário, bem se compreende que, nos momentos de tensão e de dificuldades várias, a Lei fundamental assuma papel destacado, enquanto bitola delimitadora da margem de liberdade de que dispõe o legislador. E se a energia vinculativa de uma norma constitucional pode, em certos aspetos e com apertados critérios, esmorecer no confronto com um interesse público de relevância absolutamente indiscutível, ainda e sempre a criatividade do legislador terá de funcionar no quadro da Constituição."

Catarina Sarmento e Castro, juíza do Tribunal Constitucional, in Uma fundamental inaptidão (VIII, IX & X)

__

Desde 2008 que a direita portuguesa, liderada por Cavaco e PSD e tendo no CDS o cúmplice para todo o serviço, vê no ataque ao Estado de direito a sua mais potente arma política. As principais causas dessa histórica novidade encontram-se na mediocridades das suas lideranças, na ausência de um projecto político que tenha algum pensamento que interesse às populações, e no contexto de graves e prolongadas crises financeiras, económicas e sociais, as quais promovem o aumento do populismo antipolíticos e anti-elites a toda a extensão do espectro ideológico. Sobra-lhes apenas a vontade do poder pelo poder, instinto primordial, o que conduz a uma cultura onde a disputa eleitoral se limita ao processo de destruição moral dos adversários e às mentiras obscenas num registo de duplicidade sistemática – em vez da afirmação e defesa de uma ideia com alcance comunitário, a essência da democracia como procura das melhores soluções de governo.

A fórmula resulta porque à esquerda, inclusive dentro de partes do PS, existe uma cultura simétrica. Quem se der ao trabalho de ler a propaganda do PCP, desde o 25 de Novembro de 1975, vai encontrar uma matriz que tem sido repetida obsessivamente até à actualidade: o regime está nas mãos do imperialismo capitalista, esta democracia é uma fantochada, só a verdadeira esquerda poderá libertar o povo, o PS está a mando dos reaccionários. Esta cassete foi sendo repetida por qualquer partido que se considere à esquerda do PS, só variando, em muitos casos nada, no léxico da retórica. Por exemplo, Louçã fez um aggiornamento ao discurso comuna por intuição publicitária, mas não lhe alterou os paradigmas e sua inviolável lógica. Também para ele o PS era um instrumento da direita, o que fazia com que as décadas de democracia que tínhamos gozado desde o 25 de Abril não passassem de uma ilusão que Louçã, assim que destruísse o Largo do Rato às mãos de uma mole de professores furiosos, se encarregaria pessoalmente de substituir pela luz ofuscante e pura da “esquerda grande”. Resulta daqui que não é junto destes iluminados que devemos procurar bravos defensores do Estado de direito, posto que eles consideram que o actual regime é corrupto, a começar pela Constituição que não impõe a ditadura do proletariado. E assim se explica a aliança entre a direita decadente e os comunas, abraçados nessa perseguição aos socialistas, o inimigo comum perante o qual a violação do Estado de direito se impõe como uma necessidade da guerra. Quando PSD, CDS, PCP e BE se voltaram a unir para aprovarem na Assembleia da República o crime de enriquecimento ilícito, em Fevereiro de 2012, tratou-se da formalização parlamentar de uma prática política contínua cujo alvo invariável é o resistente PS, bastião da ilustre e corajosa tradição política que não cede ao populismo do tempo nem ao sectarismo.

Acontece que o nosso Estado de direito tem um terceiro atributo decisivo que pertence ao seu conceito e à sua nomenclatura, o ser democrático. Isso filia-o na vanguarda civilizacional das democracias liberais; ou seja, vivemos juntos sob o modelo de organização do poder político que melhor estrutura e equilibra, dentro da nossa experiência histórica, a liberdade individual com os constrangimentos comunitários. Não surpreende, portanto, que projectos políticos de cariz marxista e/ou revolucionários, ou fascistas, não se identifiquem com a democracia liberal. Mas é espantoso assistir ao cortejo de figuras portuguesas, algumas graúdas e outras apenas arraia-miúda, que alimentam diariamente a antinomia de se consideraram representantes de uma direita não decadente e, em simultâneo, colocam as suas paixões e interesses à frente do Estado de direito. Seja pela linhagem conservadora ou liberal, passando pela democracia-cristã e personalismo, é inconcebível a justaposição de uma matriz onde o respeito pela Lei é pilar sine qua non da liberdade com a exploração da judicialização da política e a perseguição mediática difamatória e caluniosa – já para não falar nos crimes insidiosos e alarmantes cometidos pelo caminho, como acontece na violação do segredo de justiça. Aliás, esses mesmos seriam, e serão, os mais assanhados na defesa oportunista e hipócrita do Estado de direito calhando algum dos seus ser vítima da milionésima parte do que infligem aos inimigos. Fariam um berreiro infernal, chegando alguns, dados ao radicalismo na defesa dos seus valores, a sacrificarem a sua hora de almoço para irem vestidos de branco protestarem junta da casa dos deputados. Sim, veríamos cenas maravilhosas como essas desses maravilhosos paladinos da liberdade que, no entretanto, se têm embevecido a contemplar os adversários a serem linchados na praça pública.

Uma sociedade envelhecida, inculta e com uma cidadania larvar, ou atrofiada, é pasto perfeito para estratégias políticas onde se cultive um populismo selecto e se tente canalizar o sofrimento, a frustração e a impotência para a diabolização de quem assusta esta direita cujo símbolo maior e perfeito é Cavaco. Reflectir sobre a importância do Estado de direito requer competências cognitivas e intelectuais um pouco mais sofisticadas do que aquelas necessárias para ler o Correio da Manhã ou aplaudir a anfibologia do Pedro. Quem utiliza a fragilidade e carências da comunidade para degradar o debate e o espaço público espera obter um ganho que só pode ser decadente posto que se limita a garantir o acesso ao poder sem passar pela legitimidade da vontade esclarecida do eleitorado. É o que a direita tem feito com a anuência, aqui, e a colaboração, ali, da esquerda. Razões para desistir? Não. Antes, a consciência calma e límpida de um espaço imenso que está por ocupar. Um espaço onde apetece morar ou, nessa impossibilidade, ir lá muitas vezes a passeio. O espaço da perene liberdade nascida do encontro de todos os que se queiram igualmente livres.

Lapidar

Na análise do putativo crime de enriquecimento injustificado, o Tribunal Constitucional veio, mais uma vez, recordar o princípio da presunção de inocência. Num Estado de Direito, é um princípio absoluto, que não consente exceções nem se pode conjugar entre o sim e o não. Se assim é no espaço público, deveria ser também um imperativo ético no espaço privado. Não deixou de me surpreender que um eventual candidato presidencial, Rui Rio, não se tivesse coibido de considerar Sócrates culpado, ainda que temesse que tal convicção pudesse estar viciada pela manipulação comunicacional.


Presunção de inocência

Revolution through evolution

Keep fears at bay by learning something new
.
Resolving social conflict is key to survival of bacterial communities
.
First evidence of farming in Mideast 23,000 years ago
.
Acupuncture Impacts Same Biologic Pathways in Rats that Pain Drugs Target in Humans
.
College social life can predict well-being at midlife
.
Online symptom-checkers are often wrong
.
Computer security tools for journalists lacking in a post-Snowden world

Pride

Nairobi, Kenya, Africa - Barack Obama Jr on his first visit to Kenya in 1987. In this Obama Family photo are: (bottom row, from left) half-sister Auma, her mother Kezia Obama, Obama's step-grandmother Sarah Hussein Onyango Obama and unknown; (top row, from left) unknown, Barack Obama, half-brother Abongo (Roy) Obama, and three unknowns.  (Credit Image: © Solo/ZUMAPRESS.com)
Nairobi, Kenya, Africa – Barack Obama Jr on his first visit to Kenya in 1987. In this Obama Family photo are: (bottom row, from left) half-sister Auma, her mother Kezia Obama, Obama’s step-grandmother Sarah Hussein Onyango Obama and unknown; (top row, from left) unknown, Barack Obama, half-brother Abongo (Roy) Obama, and three unknowns.
(Credit Image: © Solo/ZUMAPRESS.com)