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Da meia-verdade à meia-estratégia

Junker contou que Portugal, Espanha e Irlanda afastaram do acordo com a Grécia a temática da reestruturação, pois estão os três num ciclo eleitoral e tal seria visto como uma derrota para as suas posições a favor da austeridade à alemã. Esta declaração do presidente da Comissão Europeia apenas sela com voz testemunhal o que já se sabia desde que o Syriza chegou ao poder. Qualquer alívio dado aos gregos espelharia a cumplicidade dos Governos português e espanhol, em especial estes, com a estratégia do empobrecimento violento e irracional seguida na Europa como resposta falhada à crise das dívidas soberanas. Na praia lusitana, de uma forma tão estouvada que ameaça tornar-se num caso de psiquiatria, Cavaco Silva tem assumido o papel de carrasco oficial da Grécia, desdobrando-se em declarações onde aparece como castigador implacável das pretensões de Tsipras e do povo grego. A actual direita chafurda neste ódio soberbo e parolo.

Para Passos é decisivo continuar a mentir e a praticar uma duplicidade obscenamente hipócrita, lá fora boicotando a resolução da tragédia grega e cá dentro dizendo que foi ele que salvou a Grécia com uma ideia da sua cachimónia lançada como quem não quer a coisa para cima da mesa das negociações. Esta palhaçada pode ser feita, e resulta, porque estamos em Portugal. É a política reduzida à gestão de eleitores com uma idade mental de 7 anos, embrulhados num ecossistema mediático onde um populismo de precisão é cultivado na indústria da calúnia com extrema eficácia. Mas por isto mesmo tem relevância o modo como Passos reagiu a Junker. Ele não o desmentiu, antes confirmou ser verdade o que ficou dito. E lançou-se para mais uma tanga só possível porque não existe imprensa por cá: substituiu a lógica eleitoral pela suposta lógica da confiança, onde a Grécia teria primeiro de ser avaliada adentro deste acordo antes de se tocar no assunto da reestruturação.

Há várias formas de analisar o episódio, mas vou escolher aquela que passa pelo editorial não assinado do PúblicoA “meia verdade” e “meio mal-entendido” – em ordem a matar dois ou três coelhos (salvo seja) com o mesmo texto. Nele, o autor trata com bonomia e superficialidade a mentira de Passos, não retirando daí nenhuma ilação ou consequência. Não mostra preocupação com a dimensão moral das sistemáticas mentiras do primeiro-ministro e, o que é ainda mais grave, ignora a dimensão política do que está em jogo. É que há votos para perder no caso de a opinião pública interiorizar que a coligação PSD-CDS concebe a política como mera luta do poder pelo poder, dispondo-se a contribuir para o sofrimento de milhões de europeus habitantes na Grécia se preciso for para salvarem as suas regalias e benesses. Este editorial bonacheirão, ou sonolento, não se pode sequer enquadrar numa qualquer agenda política, antes ficando como transparência para um estado de depressão colectiva.

O PS também não se pronunciou sobre a troca de galhardetes entre Junker, Passos e Cavaco. O facto de ter calhado em cima da discussão final para as listas de deputados não é uma justificação válida, sequer uma atenuante. Os socialistas têm uma estratégia de oposição espantosa, é o que é – ou talvez não passe de uma “meia-estratégia”, deixando-nos com a boca aberta de espanto ao vermos como desperdiçam oportunidades atrás de oportunidades para definirem a sua diferença cultural face à decadência reinante.

Os para quês da política

O caso Augusto Santos Silva-TVI parece estar agora definitivamente encerrado, após se ter acrescentado à rescisão do contrato a antecipação do fim das presenças do comentador no espaço “Os Porquês da Política” na TVI24 – as previstas edições até ao fim de Julho já não terão lugar. Ocasião favorável a um balanço como mero espectador, nada mais sabendo para além daquilo que é público.

Aparentemente, o que causou a decisão para terminar com a ligação de 3 anos estará relacionado com as seguintes palavras, saídas do seu teclado a 18 de Junho:

Ora bem, o horário dos meus 'Porquês da política' na TVI24 deixou de estar condicionado apenas pelo futebol. Ontem andou em bolandas e na semana passada foi interrompido abruptamente a meio por razões que manifestamente nada têm a ver com essa distinta atividade humana. É, pois, tempo, antes que se faça tarde, para aplicar os ensinamentos de Popper e avançar umas tantas conjeturas, à espera de refutação. Assim, as frequentes mudanças de horário, muitas delas clandestinas, ocorrem:
1. Porque sim.
2. Porque esse é mesmo o verdadeiro poder da bola: condicionar tudo o resto mesmo quando não existe.
3. Porque a TVI já estará farta de comentadores inscritos em partidos políticos e, como já lá tem fartura que chegue de inscritos no PSD, não precisa de um inscrito no PS.
4. Porque eu digo disparates e ninguém me vê e todas as informações em contrário que recebo da própria TVI24 são mentiras piedosas que, como tudo na vida, também um dia terão de ter o seu fim.
5. Porque a minha voz se está a tornar muito incómoda neste clima de sufoco que vivemos.

Esta não foi a primeira vez que se queixou em voz alta das alterações de horário, mesmo interrupção do seu espaço, por causa do futebol. Mas como se lê nas palavras citadas, o actual desabafo indica que outros conteúdos para além do futebol estiveram na origem de mais perturbações que o prejudicaram mediaticamente. Daí a virulência do seu protesto, presume-se sem esforço, construído com a intenção de politizar as ocorrências disfuncionais através de uma suspeição: a TVI estaria a afastar comentadores do PS para favorecer os do PSD neste preciso contexto eleitoral. Convenhamos, é uma acusação de arrebimbomalho para quem está a ser remunerado por aqueles cuja deontologia, até a honra, acaba de ser posta em causa.

Qual poderia ter sido a resposta da TVI? Uma qualquer. Aquilo é deles. Optaram por despedir sem nada explicar, secos e frios. Isto despertou em Santos Silva uma reacção furiosa, onde se declarou vítima de censura e carimbou como cobardes os responsáveis da estação, embora não tenha nomeado a quem se dirigia. Ao mesmo tempo, apelou abertamente a que terceiros assumissem as suas dores, tentando amplificar e espalhar a sua indignação. Reptos esses entremeados com alusões desafiadoras a alguns aspectos da correspondência entre ele e alguém da TVI responsável pelo processo. Chegou ao ponto de contar ter recebido vários convites de uma outra estação, os quais teria então recusado dado pretender cumprir o contrato com a TVI. Em suma, deu parte de fraco. E fracassou na intenção de angariar aliados que lhe dessem o gosto de uma vitória moral.

Ver Santos Silva a fraquejar tem tanto de raro como de espectacular. Só encontro um exemplo parecido, mutatis mutandis, quando lhe deu para se justificar a propósito da expressão “malhar na direita”, verbalizada em 2009; a qual ganhou notoriedade por ser inspiradora, por um lado, e por se constituir como munição que essa mesma direita não iria desperdiçar, por outro. Apenas recordando um episódio desse tempo, na própria RTP se fez grosseira manipulação com ela – colocando a gravação da sua expressão captada numa reunião partidária sobre imagens suas captadas na Assembleia da República – num registo sistemático de apelo ao ódio contra os governantes socialistas e o PS que nem uma maioria no Parlamento conseguiu evitar numa estação pública. Pois Santos Silva, por mais de uma vez ao longo dos anos, sentiu necessidade de se desculpar, recorrendo a uma explicação do foro semântico tão pueril e tão falha de convicção que acaba a despertar compaixão. Azar o nosso, dado que estamos perante uma das figuras mais acutilantes e sugestivas do socialismo democrático em Portugal.

Nosso o azar ao constatarmos que o legado do seu saber e experiência, tanto como académico como político, a que se junta uma paixão pelo debate, não esteja a servir da melhor maneira a melhor das causas. Ter a sua tribuna numa TV será agradável para a sua natural vaidade, e útil à comunidade, vai sem discussão. Mas é também poucochinho, convencional e preguiçoso. É-o porque estamos a falar de Augusto Santos Silva, um dos mais próximos de Sócrates ao longo de toda a governação anterior. O seu papel nesta fase da política nacional poderia ser outro que apenas esse de ficar satisfeito por dizer umas coisas para militante socialista concordar. Poderia, outrossim, ser o da peleja directa, olhos nos olhos, contra os populistas, os demagogos, os hipócritas e os cínicos. Ou poderia ser o de Platão do regime, teorizando a prisão de Sócrates e o seu processo por corrupção da religião vigente e da juventude. Tudo actividades que requerem outro cenário alheio ao conforto de um estúdio de televisão e seu jornalista simpático. Aliás, é para mim um absurdo – ou talvez faça todo o sentido – ter-se Jorge Coelho a debitar vacuidades na “Quadratura do Círculo” quando só Santos Silva ou Pedro Silva Pereira mereceriam lá estar para, finalmente, se atingir algum equilíbrio naquele histórico triângulo do comentarismo político.

Santos Silva sentiu-se ultrajado pelo tratamento despótico, ou desprezativo, recebido na TVI. Respondeu a partir do orgulho com que concebe o seu estatuto, procurando fazer da rejeição algo que não conseguiu demonstrar. Creio que nessa tempestade emocional se esqueceu dos para quês da política. A política é para a comunidade. E a comunidade, mesmo que não o saiba, precisa que o brilhantismo e coragem deste augusto cidadão venha em nosso socorro.

Ao cuidado do 19-1

The research team warns that a tendency to overclaim, especially in self-perceived experts, may actually discourage individuals from educating themselves in precisely those areas in which they consider themselves knowledgeable - leading to potentially disastrous outcomes.

For example, failure to recognize or admit one's knowledge gaps in the realm of finance or medicine could easily lead to uninformed decisions with devastating consequences for individuals.

"Continuing to explore when and why individuals overclaim may prove important in battling that great menace - not ignorance, but the illusion of knowledge," the research team concludes.


Self-proclaimed experts more vulnerable to the illusion of knowledge

Aquele momento em que

Aquele momento em que estou a ouvir Clara Ferreira Alves, no Eixo do Mal, despejar a mais funda indignação contra quem trouxe a doença de Laura Ferreira para o combate político a propósito da viagem a Cabo Verde, sem nunca nomear o alvo ou alvos do seu nojo, e depois a ouvi-la recusar-se comentar o tratamento da mesma situação de doença na biografia de Passos Coelho lançada em período eleitoral, por fim a ouvi-la passados minutos a dizer que Passos é um político que cultiva a imagem de português de classe média para obter ganhos eleitorais, é um momento de iluminação sobre a dinâmica das emoções na deformação cognitiva.

Não só o que está em causa não remete para a decisão pessoal de aparecer em público com sinais visíveis do tratamento oncológico, como o que está em causa ficou ainda mais reforçado com a exploração hipócrita que os direitolas fizeram da denúncia de objectiva manipulação política. Porque se fez, faz e fará aproveitamento político da doença do cônjuge do primeiro-ministro. Quem trouxe a doença para a esfera mediática, logo política pelo contexto das suas responsabilidades, foi Passos Coelho. E quem decide fazer uma parangona com a sua mulher rodeada de três ministros não está a dar uma informação acerca da pessoa Laura e do modo como lida com a sua doença. Há nisto uma outra doença, moral, que torna o espaço público infecto e que atinge até aqueles que pareciam imunes.

Maria de Belém, não em Belém

Em 2010 manifestei a minha convicção de ser Maria de Belém uma candidata presidencial muito melhor do que Alegre para tentar derrotar Cavaco. Muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito, muito melhor. E só parei de repetir “muito” na frase anterior por cansaço, não por ter chegado ao fim dessa ideia. Melhor do que Alegre porque qualquer cidadão maior de 35 anos, sem cadastro criminal ou até com ele, o seria. E melhor do que qualquer outro candidato na área socialista porque não havia mais nenhum candidato na área socialista. Assim, teria bastado a Maria de Belém ter aparecido, dizer o óbvio e, com isso, talvez garantisse uma segunda volta pois iria buscar votos ao centro e às mulheres. Se lá chegasse, logo se veria como terminar a faena.

Agora, em 2015, temos o 2014 entalado entre a senhora e uma candidatura ao palácio que ostenta no apelido. É que lhe aconteceu o Seguro. Ao não ter compreendido o momento do partido quando Costa avançou a seguir às europeias, Maria de Belém revelou não possuir profundidade política suficiente para a Presidência da República que Portugal precisa de ter para resgatar essa instituição à degradação provocada por Cavaco.

Se avançar, assim dando a Seguro o gozo dessa vingançazinha, terá apenas um ponto a seu favor: não sofre da mania de grandeza que Sampaio da Nóvoa, com as melhores das intenções, cultiva de cada vez que abre a boca para se ouvir a si próprio.

O mentiroso de Massamá

O PSD é o tal partido que resolveu, a partir de 2008, ir a legislativas com uma estratégia que apostava tudo no ataque moral ao Governo e ao primeiro-ministro de então. Assim nasceu a “Política de Verdade”, em tandem com o cavacal “Falar verdade aos portugueses”; esta imperiosa necessidade presidencial entretanto desaparecida de cena a partir de 5 de Junho de 2011. Há alguma racionalidade nessas escolhas. Sócrates estava cercado de casos polémicos com dimensão judicial, a crise pré-dívidas soberanas estava a ser bem gerida e o PSD não tinha nenhuma ideia que valesse a pena discutir, a promoção de um sentimento de insegurança e ameaça primários favorecia um exercício opositor radicado na demagogia e no populismo, a calúnia é uma poderosa arma em democracia quando se controla a comunicação social. E a direita controla a comunicação social em Portugal. Pelo que seguiram por aí só para descobrirem que o eleitorado tinha outras preocupações. De 2010 a 2011, no contexto das dívidas soberanas e da ameaça de resgate, o ataque moral continuou em alta, mas a estratégia passou a ser outra: dizer em Portugal que as medidas de austeridade começadas em 2010 deviam acabar e ser substituídas por medidas contrárias, e dizer internacionalmente que essas mesmas medidas de austeridade não eram suficientes, que só com uma austeridade muito mais violenta o País se salvaria. Esta duplicidade está abundantemente documentada. E é a principal marca da cultura deste Governo, de Passos a Portas, de Maria Luís a Paula Teixeira da Cruz, até de Vítor Gaspar a Relvas.

As caudalosas mentiras geradas desde a campanha eleitoral, e a cada violação desse contrato no além-Troika, não provocam o mínimo protesto na base de apoio do PSD e CDS. Sim, são uns filhos-da-puta, mas são os filhos-da-puta deles, assim funciona desde sempre e para sempre a filiação tribal. Lobo Xavier, uma caixa de Petri do pensamento da oligarquia, é useiro e vezeiro a declarar que isto da política é mesmo assim, tem de se mentir. Se forem os outros a mentir, há que berrar e insultar o mais alto que se puder. Se forem os nossos, sorrimos satisfeitos. Esta concepção da política não tem nada de original ou endémico, ao contrário. É o que dá universal má fama aos políticos, a origem do “eles são todos iguais” e do “andam todos ao mesmo”. Mas serão? Por exemplo, as mentiras de Passos são comparáveis com as de Sócrates? Ou com as de outro político qualquer que a memória registe? É curioso constatar como aqueles que se entregaram, e entregam, à expressão do ódio como afirmação política não têm o menor interesse em listar as mentiras de Sócrates – sendo que algumas das mais famosas nem mentiras são, como a inevitável dos “150 mil empregos”. A verdade verdadinha é a de que Sócrates atravessou duas crises de uma magnitude histórica sem paralelo em 70 anos, e teve de ir tomando decisões impossíveis de prever em cada ciclo de campanha eleitoral, fosse o de 2005 ou de 2009. 2011 é uma outra história.

Em 2011, Sócrates sabia o que iria acontecer. E deixou para a posteridade, com rigor geométrico, as duas opções em compita. Ou era o PS a governar com o Memorando, fazendo os possíveis para desagravar as suas consequências negativas. Ou era a direita a governar com o Memorando, e este iria ser aproveitado para tentar uma revolução que desmantelasse o Estado social e alterasse profundamente as relações de poder entre o capital e os trabalhadores. Acontece que Passos e Portas também sabiam o que ia acontecer. Sabiam que não podia haver melhor escudo para a sua agenda secreta do que ter uma invasão estrangeira a servir de polícia mau – podendo ainda, caso as coisas corressem para o torto, deitar o odioso em cima dos socialistas, culpados a priori do que desse jeito. As mentiras que o PSD e o CDS debitaram na campanha, portanto, correspondem a um exercício de manipulação nunca antes visto em Portugal, à excepção do regime da ditadura. Recorde-se que Durão Barroso estava à frente da Comissão Europeia e António Borges estava à frente do FMI para a Europa. Barroso avisou Passos do desastre que seria chumbar o PEC IV e Borges apelou ao chumbo de forma fanática.

Assim que chegou ao Governo, Passos estava com tanta confiança na devastação que se preparava para lançar que até prometeu nunca precisar de falar no passado. Ele era a encarnação dos amanhãs que cantam num musical do La Féria. Dizia à boca cheia que entre o Memorando e o programa do PSD não havia diferenças praticamente nenhumas e que, a haver, eram relativas à suavidade, à timidez, à falta de ambição da Troika. Este estado apaixonado durou só até ao começo de 2012, quando as contas mostraram que o País não ia lá com alucinados a tomarem conta dele. A partir daí, a cassete do PS culpado pelo Memorando que a direita, coitadinha, não assinou nem queria pôr em prática não teve um único dia de descanso.

Passos a mentir como nunca se viu a mais ninguém na política portuguesa a este nível, quiçá em todos, não será propriamente o mais grave. O mais grave é ver uma oposição que, por diferentes razões, não incomoda o senhor por causa disso. Malhas que a decadência tece.

Pacheco, mais uma vítima dos diabólicos socráticos

Pacheco Pereira apresentou ontem o livro “40 Anos de Políticas de Ciência e de Ensino Superior”, o qual tem Maria de Lurdes Rodrigues como um dos dois autores.

Se o apresentou foi porque alguém o convidou. Mas se aceitou apresentá-lo, então não erraremos por muito se admitirmos que tal decisão veio da sua cabeça.

A mesma cabeça que, há uns aninhos, repetiu furiosamente, ganhando do belo para o efeito, que Maria de Lurdes Rodrigues era cúmplice num Governo de criminosos. Criminosos que um dia iriam ser apanhados e expostos nas monstruosidades que andavam a fazer.

Pelos vistos, o Pacheco tinha razão. Sócrates está preso por suspeitas de corrupção, lançando o opróbrio sobre todos os membros dos Governos que chefiou, e a própria Maria de Lurdes foi condenada a a três anos e seis meses de prisão com pena suspensa, por prevaricação de titular de cargo político. Provavelmente, outros socráticos criminosos ainda serão apanhados, agora que a impunidade acabou. Temos o processo das PPP a correr à espera de oportunidade, temos os cartões de crédito dos governantes xuxas cheios de informações saborosas, há muita lenha para queimar no auto-de-fé que nos vai livrar do mal.

Como explicar o convívio e exposição pública do Pacheco com esta gente ou gente desta? Só vejo uma hipótese: está a ser chantageado por causa de alguma literatura mais lúbrica que guarda numa das suas centenas de prateleiras na Marmeleira.

Não (,) foi em vão

Continuamos envolvidos pelo nevoeiro da guerra. Não sabemos explicar as acções de Tsipras, nem nos dias antes do referendo nem depois. Não fazemos a menor ideia do que seja estar no seu lugar. Das pressões. Da complexidade. Dos riscos. Não sabemos o que vai acontecer. Não sabíamos que isto podia acontecer. Mas algo ficou iluminado, claro, transparente. A Europa de Schäuble e Merkel é a Europa do medo, da desigualdade e da irracionalidade. Contra ela levantou-se um povo soberano, democrata e corajoso. Essa triunfal manifestação de liberdade não será perdida, fica como exemplo. Horizonte de uma outra Europa que, paradoxalmente, também se constrói com estas crises, estes desesperos, este fracasso de tudo e de todos. Porque nos sentimos a participar em algo que é nosso. O que se passa na Grécia, em Bruxelas, na Alemanha, passa-se connosco. Estamos juntos. No começo de algo grandioso, magnífico, nunca antes tentado na História do Mundo. A Europa unida pela democracia para a liberdade.

Claro, poderá não acontecer. Esse é o desfecho mais provável dadas as incansáveis forças centrífugas e a entropia inerente à acção. Enquanto durar, porém, podemos contribuir. E podemos descobrir quem é que quer o quê. Em Portugal, aqueles que espumam da boca no culto do ódio contra os gregos querem o mesmo que Schäuble e Merkel. É simples. Vão a votos em breve. Em Portugal. É simples.

Ahahah!

"Devo dizer até que, curiosamente, a solução que acabou por desbloquear o ultimo problema que estava em aberto, que era justamente a solução quanto à utilização do fundo [de privatizações], partiu de uma ideia que eu próprio sugeri. Quer dizer que até tivemos, por acaso, uma intervenção que ajudou a desbloquear o problema", disse Passos Coelho, numa conferência de imprensa no final da cimeira da zona euro.

"Foi justamente uma ideia que eu sugeri e que verifico que acabou por ser utilizada pelos negociadores com o primeiro-ministro grego", Alexis Tsipras, indicou.


Passos diz que foi ideia sua que desbloqueou negociações

Revolution through evolution

In Tight Money Times, Parents Favor Daughters Over Sons
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Disgust dampens women’s sexual arousal more than fear
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Fewer women than men are shown online ads related to high-paying jobs
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Significant reduction in serious crimes after juvenile offenders given emotional awareness training
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Everyday access to nature improves quality of life in older adults
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Study Estimates Number of Deaths Attributed to Low Levels of Education
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Doctors Mock Patient, Get Caught on Tape

É o regime, estúpido

O “caso Sócrates” evoluiu para o “caso Regime”. Seja o que for que venha a acontecer, vai ser um terramoto. E neste momento está a ganhar a acusação.

No plano moral e político, Sócrates já está condenado. Seja porque a sua relação com o dinheiro de Santos Silva deixa uma imagem de pessoa sem perfil ético de estadista, tais as suspeições inerentes aos factos, seja porque as consequências do seu comportamento, ao permitir a situação em que se encontra, ficam como uma extraordinária e histórica manifestação de irresponsabilidade política e deslealdade cívica. Resta-lhe a batalha judicial.

No campo judicial, a acusação encontrou uma boa hipótese para explicar o enigma das transferências de dinheiro para a conta de Santos Silva. Ter conseguido meter Vara ao barulho é meio caminho andado para garantir que se vai chegar a tribunal e que as penas serão as mais altas possíveis. Se o sucateiro apanhou 17 anos, se o próprio Vara apanhou 5 anos de prisão efectiva e o tribunal não conseguiu provar que ele recebeu dinheiro do suposto corruptor, então para um imbróglio que mete um primeiro-ministro e a CGD, com conselhos de ministros pelo meio e centenas de milhões de euros enterrados nos Algarves, os 25 anos de pena máxima não chegarão e provavelmente teremos de dar essa alegria ao Pedro de mudar a Constituição para voltar a instituir a pena de morte ou, no mínimo, a prisão perpétua.

A hipótese é boa porque é simples, está ao nível das capacidades médias do leitor do Correio da Manhã. Vara é levado em 2006 para a CGD por Sócrates, facto. Lá dentro, começa logo a roubar. E cobra a percentagem usual da corrupção organizada, 7%. Como está ao serviço de Sócrates, não fica com o dinheiro. Ele apenas trata da papelada e vai sendo levado ao colo, acabando no BCP. É este o cenário posto em cima da mesa com a prisão preventiva de Vara. E o que ele configura é aquilo que Joana Marques Vidal cunhou cripticamente, em Fevereiro, como “rede que utiliza o aparelho de Estado para a corrupção”.

Ora bem. Se esta suspeita for provada, a dimensão do crime é alucinante. O PS correria o risco de desaparecer. O populismo atingiria o grau máximo de intensidade, dando origem a fenómenos sociais e políticos imprevisíveis. Ficaríamos dilacerados na interrogação de como havia sido possível tamanha miséria moral ter-nos acontecido. E, para piorar a desgraça, ainda seríamos obrigados a suportar o triunfalismo decadente dos pulhas. Existir um primeiro-ministro que se permita o tipo de aviltamento das instituições da República como está inerente à tese da acusação levará a que não fique pedra sobre pedra no ecossistema político.

E se a suspeita não vier a ser provada? Se, por alguma razão, seja ela qual for, a acusação não conseguir demonstrar que Vara e Sócrates cometeram os ilícitos na berlinda, então este processo terá constituído uma operação conspirativa para usar a Justiça com fins de assassinato político e condicionamento de actos eleitorais. Igualmente, um crime de uma dimensão alucinante.

A acusação está a ganhar porque há mesmo indícios de irregularidades, inegável, e porque se dá como muito mais provável que Vara e Sócrates tenham cedido à tentação criminosa, e não Rosário Teixeira e Carlos Alexandre. Todavia, da acusação estão a chegar constantes crimes, através das violações do segredo de justiça. Esses abusos, aqui entre nós que ninguém nos lê, são igualmente um indício de que o desfecho está em aberto. A acusação poderá estar embriagada de impunidade e soberba. Só uma coisa é certa: não se farão prisioneiros, vai ser uma guerra de aniquilação.

O que parece, é

Laura Passos Coelho tem o direito a apresentar-se em público como bem entender. Sim, sim, sim. Se quer continuar a acompanhar o seu marido em eventos políticos, sejam governativos ou partidários, isso é absolutamente legítimo. Se quer exibir algumas das consequências de estar a receber tratamento oncológico, seja o não ter cabelo, não há nada de censurável nisso. Aliás, até pode ser visto como valioso e indicado. Acabar com os estigmas à volta do cancro, dar um testemunho de coragem e fazer os possíveis para manter um estado psicossomaticamente favorável à eficácia da terapia e à sua resposta imunológica, eis algo que fica como inquestionavelmente bondoso. Só que a questão não é essa.

O que está em causa aparece paradigmaticamente concretizado na capa do CM de quarta-feira. Nela vemos que a notícia da doença da Laura foi escolhida como principal por via do impacto fotográfico obtido. Isto, por si só, tem significado político dado o contexto daquele jornal. Depois, o que a fotografia retrata é uma situação onde Passos Coelho divide o protagonismo com a sua mulher. Este acrescento é igualmente intencionalmente político, posto que a notícia verbalizava que era Laura quem “assumia” a “luta contra o cancro”, não o casal. Por fim, a foto ainda consegue mostrar mais dois ministros, faltando pouco para conseguir vincular o Governo todo ao problema de saúde da mulher do primeiro-ministro.

Haveria, há, inúmeras formas de noticiar a presença de Laura Coelho em eventos onde o seu marido esteja a fazer política. Os jornalistas que quiserem captar esses momentos não terão qualquer dificuldade em separar as águas. Donde vem a conclusão: se preferem misturar as dimensões, então essa misturada obedece a uma agenda política. Agenda política óbvia, ainda por cima.

Por mim, acrescento uma outra possibilidade. A de Laura ter plenamente consciente o efeito que está a provocar ao se deixar tratar como um trunfo eleitoral. Tal seria condizente com as opções tomadas no passado pelo casal, expondo-se voluntária e garbosamente como espécimes da classe média em tudo iguais ao povinho. Peças estas com um subtexto obscenamente eleitoral. E não haveria qualquer estranheza no plano psicológico, pois tal seria uma manifestação sentimental lógica, a de dar todo o apoio ao marido numa situação tão importante como as eleições legislativas. Acreditarei nesta hipótese até tomar conhecimento do repúdio da Laura e/ou do Pedro face à exploração política da doença tal como foi feita pelo CM, por exemplo. Um exemplo que ameaça repetir-se.

Antecipando o CM de amanhã

Vara tinha de ser detido nesta noite, em cima da entrevista ao mais forte candidato a primeiro-ministro, porque foi visto com o Google Maps aberto. A fuga estava iminente.

Adenda

Vara foi detido durante a tarde, mas a informação só foi divulgada após Costa ter saído dos estúdios da TVI. Desta forma, qualquer resultado positivo da sua prestação foi imediatamente diluído, abafado e esquecido. Bastaria que a notícia tivesse saído antes da sua entrevista para que este efeito de contaminação tivesse sido reduzido ao mínimo.