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Exactissimamente

Na leitura antiga da ordem internacional, que era vigente antes do globalismo anárquico em que nos encontramos, a declaração do Estado Islâmico sobre a sua ambição terrorista seria lida como uma declaração de guerra. A fixação no caminho único da política orçamental europeia em curso seria então pelo menos acrescentada com a rubrica da imprevista exigência de resposta à declaração de guerra.


O Estado Islâmico

O poder da assinatura

No reino da publicidade, os redactores ocupam um lugar à parte. São aqueles que têm a tarefa mais fácil, ou mais confortável, ou até mais alucinada. Acham que o poder do verbo cria mundos; no mínimo, move montanhas. Daí, numa ilustre tradição entretanto perdida neste século com a chegada da Internet e sua imparável fragmentação e efemeridade comunicacional, os copywriters gostarem tanto das assinaturas (ou seja, dos slogans, taglines, straplines, etc., numa nomenclatura algo difusa e geograficamente distinta). Tal como se entende pelo referente, uma assinatura publicitária é uma frase com um número de palavras variável (uma, pelo menos) que passa a acompanhar o logótipo da marca em causa, ou que pode ser destacada como mensagem principal em certos meios e contextos (tornado-se título ou headline, mas também remate de um bloco de texto, de uma locução ou filme). Pretende-se, pois, única e pilar de uma certa identidade, ou voz, dessa marca pelo tempo em que for usada.

A assinatura é sempre um exercício de síntese extremada. Obedece às mesmas regras da criação de provérbios e máximas, dependendo da sua capacidade para serem sugestivas e memoráveis o sucesso que terão. Sucesso que, no seu grau mais elevado, é medido pela sua inscrição na cultura popular; não podendo haver orgulho maior do que ver uma assinatura tornar-se parte da herança histórica de uma dada sociedade. É um misto de vaidade literária, sociológica e antropológica. Por outro lado, cada assinatura é uma narrativa cuja história final se concretiza na relação que o leitor fizer entre as palavras e a marca respectiva. Isso quer dizer que a narrativa depende de mínimos de coerência lógica para ser operativa. Se uma companhia de aviação escolhesse como assinatura “Não temos medo dos acidentes aéreos” é provável que o resultado imediato fosse verem as suas vendas cair a pique. E se uma empresa de telecomunicações tivesse como assinatura “Tudo o que disser poderá ser usado contra si”, provavelmente o negócio teria dificuldades em correr bem. Algumas assinatura são casos de popularidade global, como o “Just do it” da Nike, outras entraram para o panteão dos provérbios, como “An apple a day makes the doctor away“, ou são imagens imortais, como “A diamond is forever“. Em Portugal, ainda é frequente tropeçar no “Queres dinheiro? Vai ao Totta” e derivados, apesar de terem passado décadas sobre o fim da sua comunicação. De O’Neill ficou-nos um provérbio, “Há mar e mar, há ir e voltar”. Ary dos Santos criou a pérola “Cerveja Sagres, a sede que se deseja”. E até Pessoa é recorrentemente lembrado como publicitário graças à assinatura “Primerio estranha-se, depois entranha-se” para a Coca-Cola.

Estas características das assinaturas merecem atenção à luz do fiasco em que se tornou a comunicação do PS nesta campanha. Precisamente quando há dificuldades cognitivas em relação a uma qualquer realidade numa dada audiência, no público-alvo para usar a gíria técnica do marketing, é que as entidades interessadas em difundir mensagens têm de recorrer ao poder de síntese de forma a passar informações relevantes e promover as acções desejadas. No caso, a realidade é o programa do PS que vai a votos nestas legislativas, e a acção é a obtenção do maior número possível de votos. Nesse contexto, e ao contrário da opinião de alguns provincianos, o cartaz é uma peça da maior utilidade e eficácia. Porque obriga a excluir e seleccionar. Obriga a descer ao nível da desorientação e desatenção daqueles a quem se dirige. Eis a sua arte, conseguir que uma ideia atravesse um campo de minas cercado de snipers e a ser bombardeado por artilharia e pela aviação. A ambição do cartaz, o qual funciona com as mesmas características em meio digital, não precisa de ir mais além, basta-lhe ser ouvido interiormente por aquele com quem se quer falar.

No caso do PS, e esquecendo a sucessão de problemas, temos como assinatura o “Alternativa de confiança”. Desafio qualquer um a dar a sua opinião sobre a sua eficácia e a fazer uma assinatura melhor. No final, apresentarei a minha sugestão.

Uma certeza absoluta provisória

Tirando Sócrates, não existe mais ninguém em Portugal que defenda a tese de que ele foi preso para impedir o PS de ganhar as legislativas. Nem figuras com acesso à comunicação social profissional, nem essas mesmas figuras usando redes sociais. Nem o bravo do Garcia Pereira. Acho que nem sequer o João Araújo, calhando ser empurrado pela Tânia Laranjo contra uma parede, diria tal. E de cada vez que Sócrates a repete, pois já a disse várias vezes, cresce a impaciência, o desinteresse, o desprezo na maralha que produz opinião.

Realmente, como acreditar em tal? Primeiro, é inconcebível que Rosário Teixeira e Carlos Alexandre sequer se permitissem sonhar com isso. Inconcebível neste sentido de ser algo que ultrapassa o bom senso com que todos somos dotados. Depois, Sócrates ficou ferido na sua credibilidade com a exposição de parte da sua vida privada no que à dimensão financeira diz respeito. Ferido neste sentido em que nem mesmo a manutenção da sua inocência no plano judicial o iliba de uma censura moral variável consoante o ódio ou a estima que cada um lhe tenha. A tese é estrambólica e o denunciante é parte interessada, não cola.

Ora, a menos que Sócrates tenha enlouquecido, ele consegue perceber que o efeito das suas palavras não tem sido o de lhe aumentar os fãs. Ao seu grito de exasperada revolta responde uma comunidade onde até o seu partido reage esfingicamente, como se não fosse nada com ele. Como se fosse apenas mais um caso de Justiça, como outro qualquer. Daí a repetição automática, vítrea, do estribilho “à Justiça o que é da Justiça” – embora ninguém esteja a questionar esse princípio. Uma das raríssimas vozes simpáticas para com a sua situação, a de Miguel Sousa Tavares, chegou ao ponto de lhe pedir para se calar. Foi em Junho, aquando da declaração de recusa da pulseira electrónica, e o Miguel recordou na segunda-feira passada as suas próprias palavras, congratulando-se por ver o seu conselho a ser seguido. Deu azar.

Pois bem, Sócrates enlouqueceu? Se sim, os seus advogados também. E todo e qualquer um que se espante com a facilidade com que se abre um processo sem provas contra um ex-primeiro-ministro em cima de umas eleições, sabendo-se que a sua constituição como arguido iria inevitavelmente condicionar esse período eleitoral e os respectivos resultados. Sabendo-se que a sua prisão seria um choque histórico que deixaria o PS limitado na sua acção política. Porém, Sócrates pode apenas estar a mentir. Como tantos criminosos antes dele fizeram e depois dele farão. Nesse caso, o Ministério Público vai apresentar provas da corrupção, da lavagem de dinheiro e da fraude fiscal. E, como a corrupção terá de ter envolvido mais cúmplices no Governo, o processo ainda vai levar muito tempo pois ainda terão de ser apanhados pela ramona e, consequentemente, seria um disparate ver a Justiça libertar Sócrates pois ele desataria imediatamente a correr para destruir pistas e evidências espalhadas um pouco por todo lado. Pelo menos, é esse o filme que nos têm vendido desde Novembro de 2014, com trailer em Julho desse ano.

Concluindo e resumindo, não se podendo ter a certeza se Sócrates enlouqueceu ou se está a mentir, de uma outra coisa temos a certeza absoluta, mesmo que provisória: o único resultado relevante vindo a público até hoje, depois de não sei quantos meses de investigações, escutas, interrogatórios e devassa da privacidade dos arguidos e terceiros, é o de estarmos perante uma prisão política. Isto é, uma prisão cuja dimensão política surge como elemento principal pelo seu aproveitamento desvairado em prejuízo do PS.

Milhões

Judite - Embora o valor que se tenha falado, enfim, que se andou aí a falar, fosse um valor de milhões, e não de 600 mil euros...

Marcelo - Por isso é que a notícia dizia que era um começo de pagamento...

Fonte

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Ontem, a Judite lançou o tema do apartamento de Sócrates vendido a Makhdoom Ali Khan pelo lado da suspeição a respeito do comprador. Marcelo não se entusiasmou com isso, pois era chão sem uvas, e rapidamente estava a expressar a sua preocupação com a eventualidade de a acusação ficar fragilizada caso Sócrates usasse o dinheiro recebido para pagar os empréstimos concedidos por Santos Silva. A atitude da Judite, do princípio ao fim, foi de ostensivo gozo, transmitindo a mensagem de considerar a versão dos empréstimos uma mentira e, quiçá, não se importando nada que este paquistanês passasse a vedeta do Correio da Manhã e do Sol. E conseguiram juntos chegar ao ponto que o diálogo citado documenta. Uma profissional da comunicação social, presumo que com carteira de jornalista, e um prestigiado professor e consultor de Direito, uma das mais famosas e influentes personalidades públicas e políticas, foram para uma estação de TV líder de audiências, num dos programas com maior popularidade na televisão portuguesa, espalhar como facto que Sócrates deve milhões a Santos Silva. A partir de que informações? Não as da defesa do arguido, as quais nunca admitiram tal, nem as das declarações de Sócrates. Terão acesso ao processo e andaram a somar as parcelas? Se não têm, como se permitem tomar partido abertamente pelo lado da calúnia?

Não é especialmente custoso o exercício de perceber as vantagens para a direita de terem em diferentes graus de cumplicidade, variando ao longo do tempo e consoante os órgãos em causa e suas direcções respectivas, o grupo Renascença, o grupo Impresa, o grupo Cofina, a Newshold, a Media Capital e a Sonae, a que se veio juntar o Observador. Que sobra no ecossistema mediático nacional? E, do que sobra, que pode ser associado aos interesses do PS, fossem eles quais fossem? Nada de nadinha de nada. Já quanto aos interesses da direita, que se resumem a ter acesso ao poder, a luta consiste em desgastar e apoucar o PS, protegendo PSD e CDS. É só isto, é básico, e faz-se através do afastamento do debate político tomado como confronto de projectos de governação, substituído pela promoção da perseguição e ostracismo moral. Daí a existência de uma indústria da calúnia, com produção diária ao longo dos anos, e também a cultura do ódio, cujas raízes antropológicas fazem parte da matriz conservadora (seja esta de direita ou de esquerda) e que atingiram um nível de violência mediática nunca antes visto de 2008 a 2011.

O caso de Marcelo é paradigmático do radical desequilíbrio entre as agendas de direita e do PS, cenário instituído como normal desde os anos 90. De notar que a esquerda pura e verdadeira tem sido muito bem tratada pela direita, dado terem o mesmo inimigo em comum. O PCP está satisfeitíssimo da vida com o papel de capitalista maioritário e GNR das manifestações dos trabalhadores e do povinho, garantindo que elas ocorrem com soviética organização e respeito estalinista pela integridade das montras dos burgueses. O BE, enquanto durou a fantasia, tinha as suas vedetas mediáticas como coqueluches dos espaços de informação política, onde deram o seu melhor não no ataque à direita mas ao PS, alinhando invariavelmente com a estratégia laranja do derrube de Sócrates pela via moral. Ora, o lugar que Marcelo ocupa subsome este mapa de regiões centrais e limítrofes, pontos baixos e altos, zonas férteis e agrestes. Ele é a prova falante de que é possível vender como espaço de opinião política um formato de entretenimento, ao mesmo tempo que se vende como entretenimento o que é propaganda política. Na prática, existe há 15 anos um tempo de antena semanal, no horário nobre da TV portuguesa, sem rival sequer aproximado pela base. E devido aos dotes superlativos de comunicador, a forma como a política é reduzida à psicologia de café e à intriga telenovelesca favorece com estupenda eficácia a dissolução do político no moral. Também isto é populismo, sofisticado e pronto a mastigar por uma audiência universal.

Quantos milhões acham Judite e Marcelo que Sócrates deve a Santos Silva? Não quantificaram, até porque deixar o número no ar permite que a imaginação de cada um o leve para onde lhe apetecer, mas não erraremos por muito se dissermos que para eles Sócrates deve tantos milhões quantos o Correio da Manhã decidir. Qualquer coisa como 30, ou 17, ou 25. Tanto faz. Milhões. Se deve, gastou. Ou talvez nem precise de ter gastado. Pode dever por antecipação. Deve só porque eles estão numa conta do Santos Silva. E tudo o que pertença a Santos Silva está destinado a ser emprestado a Sócrates. Ou só naquela conta, como parece suspeitar a acusação. E, se estão naquela conta, então esse dinheiro é de Sócrates. E Sócrates, afinal, não deve nada, está só a fingir para ver se escapa ao chicote. Eis a única explicação possível para esta coisa tão estranha de ver amigos ricos a emprestar dinheiro a amigos, transmitem Marcelo e Judite aos outros milhões. Os milhões que dão sentido ao quotidiano político, e decidem o seu voto ou a sua abstenção, acreditando em quem tão sistemática e divertidamente espezinha a honra de vários concidadãos e de um partido.

Revolution through evolution

Stomach is the way to a woman’s heart, too
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Male doctors are more likely to have legal action taken against them
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Out-of-home activities may promote older persons’ physical activity
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Parents’ math anxiety can undermine children’s math achievement
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Work, pedal, and be happy
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Trans fats, but not saturated fats like butter, linked to greater risk of early death and heart disease
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Research examines relationship between autism and creativity
Continuar a lerRevolution through evolution

Jurisconsultos, precisam-se

“Quando o valor da credibilidade do id quod e a consistência da conexão causal entre o que se conhece e o que não se apurou de uma forma direta atinge um determinado grau que permite ao julgador inferir este último elemento, com o grau de probabilidade exigível em processo penal, a presunção de inocência resulta ilidida por uma presunção de significado contrário, pelo que não é possível dizer que a utilização deste meio de prova atenta contra a presunção de inocência ou contra o princípio in dubio pro reo. O que sucede é que a presunção de inocência é superada por uma presunção de sinal oposto prevalecente, não havendo lugar a uma situação de dúvida que deva ser resolvida a favor do réu”


ACÓRDÃO Nº 391/2015

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Sócrates esgotou os recursos dentro da Justiça portuguesa, acumulando derrotas atrás de derrotas. Mas há algo que vai ressaltando como valioso para a comunidade das sucessivas avaliações e decisões judiciais adentro do seu processo, assim ela se interesse. Uma delas, espectacular para um leigo em Direito como eu, está na citação acima. Nela estabelece-se que o critério subjectivo do julgador supera, sem carência de demonstração, a presunção de inocência – na prática invertendo o ónus da prova. Ou seja, é possível prender e condenar sem provas, anuncia o Tribunal Constitucional recordando a letra do Código Penal.

Nesta lógica, ganham outro sentido as actividades caluniosas de que Sócrates é vítima desde 2004. Afinal, no fundo de cada caluniador está um ser bondoso que se limita a inferir culpabilidades com o grau de probabilidade exigível nos respectivos domínios de actividade. Se for num tribunal, o processo penal. Se for num jornal, o processo jornalístico. Se for num partido, o processo político. Se for num táxi, o processo rodoviário. A probabilidade admite variados graus, tantos quantas as cabeças, é o espírito da jurisprudência produzida.

Sim, a aplicação da Justiça é sempre, em última instância, o resultado de uma qualquer subjectividade, a qual começa na Lei e na sua abstracção. É preciso adequar o texto ao facto, e essa operação é realizada por uma consciência humana, não por uma máquina ou um deus. Estamos no domínio da linguagem, a Justiça não passando de mais uma história que contamos uns aos outros. É abundante, por comparação com o rigor matemático, a plasticidade dos critérios de interpretação das leis e da racionalidade da sua aplicação aos casos concretos. Daí sempre terem existido queixas contra os sistemas de Justiça, os quais são inevitavelmente imperfeitos quanto aos seus códigos e aos seus resultados. Mais razões, no entanto, para exigirmos esclarecimentos àqueles a quem entregamos o poder judicial. É que não são eles o Soberano, apenas órgãos da nossa soberania.

Neste contexto, chamo a atenção para o ponto “1.4.3. Da questão 5)” no acórdão citado acima, onde o Tribunal Constitucional cita uma passagem de um acórdão do Tribunal da Relação também em resultado de um recurso de Sócrates. A linguagem arrevesada, barroca, por vezes gongórica, que é típica destes documentos, nasce da procura de uma fundamentação inequívoca, por um lado, mas também se pretende como gíria cifrada que transmita autoridade inquestionável, por outro. Este o quadro mental que poderá explicar algumas das perversões que fazem parte do anedotário judicial, como o recurso a provérbios e expressões populares para apoiar, ou quiçá demonstrar, teses que se pretendem validadas nas ciências jurídicas. Será a celebração da impunidade de quem ocupa uma posição de poder que se sabe, ou imagina, intocável. Na passagem da Relação, subentende-se uma voz que está em despique com uma entidade que descreve como matreira, no caso os advogados de Sócrates, esforçando-se o autor por exibir uma autocongratulação por não ter caído na suposta esparrela lançada. Mesmo para quem não domine a complexidade jurídica do que está em causa, e mesmo admitindo que especialistas no assunto não chegassem a consenso, o que um leitor leigo ainda assim pode inferir é a fragilidade, talvez relatividade, dos argumentos usados na justificação. Ao ponto de se chegar a admitir que o anterior acórdão da Relação, objecto do qual versa essa passagem do segundo acórdão da Relação, não foi “explícito” o suficiente quanto ao busílis da matéria. Como diz que disse? Os juízes da Relação podem não ser explícitos nos acórdãos que assinam? E não há consequências?

Não é necessário suspeitar de uma conspiração política ou corporativa para considerar que o processo de Sócrates está inquinado por irregularidades. É o próprio sistema de Justiça que permite que tal aconteça, consigo ou com qualquer outro que seja apanhado nas suas malhas. Pelo que o enfoque neste caso tem como finalidade suprema a melhoria da Justiça e da Cidade. É possível que nada do que se tem passado leve a alterações ou correcções. Basta que Sócrates seja considerado culpado de alguma ilegalidade para a opinião pública e seus pastores aceitarem como legítima a actuação das autoridades desde o princípio do processo. Não há quase ninguém na sociedade que tente proteger Sócrates enquanto cidadão inocente até prova em contrário, e muitos jamais aceitariam que pudesse sair disto inocente. Como nos veio dizer o Tribunal Constitucional, o id quod triunfa sobre o pro reo.

Socorro, isto é mau demais

De férias no Algarve, António Costa foi ontem dar uma volta pelo Festival da Sardinha, em Portimão, e teve de comentar, pela primeira vez em público, a polémica dos cartazes do PS que ditaram a substituição do diretor de campanha do partido (entrou Duarte Cordeiro, saiu Ascenso Simões).
Interpelado pela RTP, respondeu assim quando lhe perguntaram se tinha ou não visto os cartazes antes de serem afixados. "Não, não vi." E depois acrescentou: "Mas também seria inútil, a minha vocação não é ser técnico de marketing." "O meu forte não é a propaganda política, aquilo que gosto mesmo de fazer é concretizar na vida das pessoas os valores e as politicas. Técnico de marketing não é a minha vocação", insistiu.
Segundo afirmou, "as pessoas talvez tenham olhado mais para as caras dos cartazes do que para os programas e não tenham dado conta daquilo que a coligação de direita se propõe fazer no país se tivesse a oportunidade de continuar no governo".


Mas afinal Costa viu ou não os cartazes do PS? “Não, não vi”

Se o Aspirina B fosse teu

Para quem passa parte dos seus dias a olhar para comentários – e isto intensamente ao longo de 10 anos, fora o resto como mero espectador desde que comecei a frequentar locais de interacção digital nos finais dos anos 90 – assistir ao que aconteceu ao Aspirina B quanto à qualidade e tipologia do que aparece nas caixas de comentários não tem qualquer surpresa. Como por várias vezes aqui fui recordando no tempo longo, logo quando este blogue foi criado na sequência do fim do BdE, em 2005, havia um sentimento de fim de ciclo. A novidade mediática dos blogues, surgida em 1999 em Portugal e com impacto a partir de 2001, tinha-se esgotado. E estava quase a chegar o Facebook, algo que iria enterrar de vez a blogosfera como rede sociologicamente relevante. Claro, muitos outros blogues que persistem apareceram por essa altura, e em 2006, mas foram cantos do cisne. Muita gente se cansou, outros cresceram, outros adoeceram, outros morreram, e quase todos das primeiras e segundas levas deram por si a ter muito mais e melhor para fazer. Porém, os blogues resistentes, e com caixas de comentários abertas, continuaram a oferecer um poiso para o diálogo, a galhofa e o disparate.

Entretanto, o contínuo alargamento do acesso à Internet prosseguiu e trouxe cada vez mais participantes com menos estudos e literacia. Portanto, mais susceptíveis a usarem os espaços de interacção disfuncionalmente. O facto de também se registar uma mudança demográfica, acabando os actuais blogues por congregaram participantes de uma faixa etária acima dos 50 e já não conseguindo interessar a quem tenha menos de 40, igualmente explica algumas das características patológicas comuns a blogues e órgãos de comunicação social com canais digitais. A degradação e desinteresse do que lá fica é evidente, apenas tendo eventual valor de um ponto de vista científico, como sintoma e espelho de outras dimensões que transcendem aqueles contextos que enformam os comentários.

Vem esta conversa a propósito de vários comentários de protesto que têm sido feitos nas últimas semanas, quiçá meses, a respeito da actual circunstância de termos por cá um grupo de taralhoucos que passa horas a despejar inanidades só porque se sente em casa e entre compinchas. Por mim, tudo bem, desde que não violem alguns mandamentos. Mas para outros tal poluição é incomodativa e gostariam que eles fossem babar-se e mudar as fraldas para outra freguesia. Creio que esta preferência pela salubridade das caixas é tão legítima como a deles pelas macacadas, daí convidar à seguinte experiência:

– Na caixa de comentários deste texto vamos falar a respeito do que cada participante gostaria que fossem as próprias caixas de comentários quanto ao modo da participação e, opcionalmente, também a respeito do próprio Aspirina B no seu conjunto, seja quanto a autores e/ou conteúdos.

– Quem aparecer a fugir ao tópico, ou para abandalhar o tópico (reservando-me o critério para definir o que seja tal), verá o seu comentário excluído. Se persistir, ficará com os comentários moderados.

Bute lá.

Quem tem medo da Internet?

A dimensão digital parece completamente afastada desta campanha. E se nada se fez até agora, não será no mês de Setembro que algo relevante venha a ser feito. Que saiba, mas corrijam-me se estiver enganado, nem os partidos parlamentares, nem os candidatos à estreia no hemiciclo, apresentam iniciativas que ultrapassem os formatos dos websites próprios e de campanha. Ao contínuo desenvolvimento, e consequente expansão, do meio digital tanto na esfera social como na psicológica, atingindo-se um estado de verdadeira ubiquidade com o acesso à Internet pelos telemóveis, corresponde nestas eleições uma regressão a 2005. Na blogosfera política lidamos com a sobrevivência de alguns dinossauros excelentíssimos sem qualquer relevância eleitoral, no Facebook os políticos fazem propaganda individualmente e no Twitter reina uma cacofonia ao serviço da diversão.

Em 2009, e, desvairadamente, em 2011, a direita apostou forte no meio digital. Neste último caso, havia a perspectiva de quase certa mudança de cor no poder e muitos queriam mostrar serviço e a própria cabeça para serem escolhidos na altura do acesso ao pote. Assim foi. Fernando Moreira de Sá deixou-nos um testemunho antológico do espírito da época, fazendo declarações em 2013 que conseguiram ser ao mesmo tempo credíveis e caluniosas a respeito da logística das campanhas negras na Web ao serviço do PSD. Num outro plano, Paulo Pinto Mascarenhas sonhava-se o pide que iria aprisionar e torturar autores blogosféricos que ele imaginasse ligados a Sócrates, ou que simplesmente assim pudessem ser embrulhados num título de jornal. Até o António Nogueira Leite se juntou à festa como caceteiro inesquecível, tamanha a excitação. Logo após o 5 de Junho, deu-se a desmobilização e muitos foram tratar da nova vida ou das ilusões perdidas. Ficaram os carolas. À esquerda também se deu uma desmobilização, fruto do curto-circuito chamado Seguro e do esgotamento das energias para o berreiro permanente da esquerda pura e verdadeira. As principais novidades neste espaço, protagonizadas por Rui Tavares e Joana Amaral Dias, igualmente parecem desaparecidas em combate. Esperava-se que com Costa viesse um sopro de inovação, pelo menos de dinamização, para os canais digitais socialistas, mas essa foi mais uma esperança gorada no que à sua liderança diz respeito.

Talvez os partidos estejam apenas a expressar uma conclusão pragmática: não compensa investir no ecossistema digital, pois o palco onde se ganha o voto é o da imprensa profissional, seja por via da difamação e calúnia (a direita conta com vários órgãos dedicados a essa especialidade), seja pela via da televisão, onde o páreo dos perfis à compita atinge o grau máximo de exposição. Mas igualmente esta demissão pode ser o resultado de uma cultura de desorganização inerente aos partidos, onde não se aproveitam os recursos humanos voluntários por via da militância e das simpatias – a que acresce uma eventual ignorância disciplinar acerca do universo digital, o qual implica um acréscimo de complexidade técnica, logística e semiótica face aos meios tradicionais. A estes factores ainda se juntam os receios de violação da segurança interna desses meios, algo que a direita portuguesa também explorou em 2009 e 2010, ao usar um doente mental que tinha feito parte do elenco dos autores do SIMplex para emporcalhar o espaço público. Finalmente, em vários círculos continua vigente a atitude de desprezo boçal contra a selva da Internet que Ricardo Costa expressa neste artigo – O Ai Jesus e os energúmenos – onde erra completamente o alvo e apenas está interessado em falar de um fulano de quem gosta muito.

Infelizmente para este tipo de partidos ainda com o cérebro parado no século XX, a democracia não está a ficar menos digital, é ao contrário. Dando como inevitável o aforismo que diz nunca o poder ficar vazio, ao se ausentarem destes domínios deixam que se nivele por baixo a cidadania. É que a função dos partidos, para além da representação política e do cumprimento de programas de governação validados pelo voto, é também a de serem arquitectos da comunidade. A de serem líderes. Isto é, serem visionários e generosos, inteligentes e corajosos – e não só analogicamente.

Pedro, livra-nos do mal

Passos Coelho beijou, tirou selfies, comprou rifas e deu autógrafos. O primeiro-ministro foi “o cabeça de cartaz” na inauguração da Feira de S. Mateus, em Viseu. Foi recebido em euforia, mas há um ano, no mesmo local, a visita tinha sido feita com mais “receio”.

Nas quatro horas que levou a visitar a Feira Franca de Viseu, um dos certames mais antigos do país, o primeiro-ministro foi recebido com entusiasmo pelas centenas de visitantes que compareceram na inauguração de mais uma edição – a 623 – desta festa que dura 38 dias.

Logo na entrada principal, o primeiro-ministro foi recebido com palmas e muitas mulheres acotevelaram-se para conseguir dar um “beijinho ao Passos” e tirar uma fotografia. Uma recepção que deixou o primeiro-ministro motivado para a caminhada pela avenida principal.

Primeiro-ministro recebido como um “famoso” na Feira de S. Mateus

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O povo adora o Pedro. Porque ele é o nosso salvador. Salvou-nos da bancarrota. Salvou-nos dos socialistas. Salvou-nos da Troika. Salvou o Estado social. Salvou Abril. Até conseguiu salvar Portas de si próprio, o que talvez concorra para milagre caso chegue ao conhecimento da Santa Sé.

Em meados de Agosto, o Pedro irá, como todos os anos, para a Manta Rota. Que se lixem as eleições. Irá de calções e chinelos para a praia. Que se lixem as eleições. E suportará ser fotografado nesses preparos e intimidades só por uma razão: estar-se a lixar para as eleições. Não será a cobertura mediática ao minuto das cacholadas e das trincadelas nas sandes de atum que o vai desviar um milímetro desse profundo desprezo pelos actos eleitorais.

O Pedro, com a ajuda heróica da senhora da Cruz, meteu Sócrates no chilindró e está quase a declarar Portugal um país livre da corrupção, é só preciso esperar mais um bocadinho para encontrar os milhões do Vara e poderemos festejar rijamente. O tempo da impunidade acabou. Basta olhar para o juiz Carlos Alexandre e para o procurador Rosário Teixeira, a cara deles não engana. Aquela seriedade. A ladroagem que se cuide. Acabou. Vai tudo dentro a partir de agora. Esses Noronha e Monteiro andavam a proteger os facínoras mas a dupla já foi com os cães. O melhor para os xuxas será emigrar pois o seu modo de vida deixou de ser compatível com a cultura de respeito integral pela lei que o Pedro sempre cultivou muito antes de sonhar com estas andanças. Por cada socialista preso, há uma criança que sorri de alegria e de esperança num futuro com menos Estado e mais sociedade.

Estes 4 anos foram o que foram por culpa do PS. Se o PS não existisse, não teria sido necessário passar pelas chatices que passámos. Por exemplo, se o PS não existisse, nunca Portugal teria caído na bancarrota, nem teria feito auto-estradas onde só viajam moscas, nem teria construído o maldito TGV, o maldito aeroporto e os malditos Magalhães. O Pedro, um dias destes, sem pieguices, ainda terá de tratar desse problema.

O PS em cartaz

Embora António Costa tenha tido 1 ano para ir construindo percepções e preparar-se para aumentar a pressão na recta final, a máquina do partido só terá 4 semanas para tentar vencer as legislativas. Estamos a meio de Agosto e é como se o PS aqui chegasse sem qualquer capital estratégico acumulado. Tal como vários foram dizendo ao longo do tempo, Costa partiu tarde e andou mal. À alta qualidade da iniciativa que colocou Mário Centeno no palco com a categoria de futuro ministro de um futuro Governo PS não correspondeu a compreensão das necessidades do eleitorado de centro-esquerda e dos indecisos crónicos. Essa falha, porém, espelha traços de ambiguidade constantes em Costa ao longo dos anos, especialmente a disfuncional relação com o factor Sócrates.

A campanha do Governo/PAF mostra consistentemente que a disputa sobre a versão oficial do que aconteceu em Portugal para que fosse necessário pedir ajuda externa é de crucial importância eleitoral 4 anos depois. PSD e CDS, que traíram e mentiram, que venderam ao início a Troika como sendo um trio de salvadores e aliados, conseguiram a partir de 2012 inverter esse rumo e passar a culpar o PS pela sua chegada e consequências negativas. Conseguiram até apagar a responsabilidade nas alterações ao Memorando que este Governo negociou com vista a aumentar e alargar o empobrecimento. Esta cassete conta com o silêncio, se não for a cumplicidade, do BE e PCP que se uniram à direita para derrubar um Governo socialista e que apreciam todo o tipo de dano que se consiga infligir ao PS. Tendo em conta o domínio da direita na comunicação social, é uma narrativa que está blindada e se tornou omnipresente na sociedade. A ela começou por corresponder Seguro, o qual validou os ataques ao seu próprio partido por vingança contra Sócrates et alios. Até à disputa eleitoral com Costa, o apoio de Seguro à cassete direitola era feito de simpatia calada e passividade. Durante a campanha, o próprio e os seus tenentes despejaram os mesmíssimos ataques contra Costa que a direita lançava contra Sócrates e usando-o como espantalho. Também esse degradante espectáculo contribuiu para a cristalização da tanga laranja. Esperava-se que Costa pudesse introduzir nova narrativa, tal como Sócrates tinha tentado enquanto comentador televisivo, e alguns ensaios foram feitos nesse sentido. A prisão de Sócrates, num momento fulcral para a estratégia de Costa, interrompeu radicalmente esse eventual caminho. E não deixou nenhum no seu lugar no que à inscrição de 2011 no discurso do PS diz respeito.

Enquanto PSD e CDS prolongam, e levam ao seu paroxismo, a contradição discursiva como intencional método de confusão positiva – chegando ao ponto de embrulharem o leite e o mel que garantem estar à vista na pícara ironia do “Não é tempo de promessas” – o PS afundou-se numa outra contradição que gera confusão negativa: nada diz sobre aquilo onde se espera que diga tudo. Em particular, o eleitorado do centro e indecisos espera do PS um contributo para resolver o dilema moral que a direita tem martelado freneticamente nos últimos 3 anos e muito. Esse dilema pode verbalizar-se assim: ou o PS é um partido cuja elite dirigente é incompetente, louca e corrupta ou a história da direita está mal contada. Pelos vistos, e os casos judiciais crescentes a envolverem socialistas são o ouro sobre azul da estratégia de Passos e Portas, o próprio PS não pretende lutar contra a narrativa primária, mentirosa e traidora daqueles que forçaram Portugal a ter de escolher a pior solução para os seus problemas naquela circunstância nacional e internacional.

Costa criticou correctamente Seguro no capítulo da liderança e da projecção do PS na opinião pública. Também por isso, as sondagens têm revelado a espectacular magnitude do falhanço da sua liderança; e nem seria preciso o tiro de canhão contra a própria cabeça com a inexplicável balbúrdia na comunicação para se chegar à mesma conclusão. Nesta altura, todas as velinhas estão a ser postas no indicador que dá como expectável pelo eleitorado a mudança de primeiro-ministro após as legislativas. Igualmente se espera que os debates consolidem essa percepção, a qual terá efeitos na formação do voto em cima do acto eleitoral. O que levanta várias perguntas. Será que estas legislativas não vão servir para avaliar o que PSD e CDS fizeram ao País quando enganaram o eleitorado com a cobertura e apoio de Cavaco? Será que o PS não consegue perceber que ter Sócrates preso obriga o partido a responsabilizar-se politicamente por essa situação, e assumir algum tipo de vínculo institucional para o melhor ou para o pior, caso queira libertar o eleitorado do bombardeamento moral que o imobiliza e atrofia? Será que o PS já desistiu de alcançar a maioria e ainda não avisou os jornais? Ou será que a única coisa que resta para fazer na war room do Rato é concentrar os holofotes no rosto de Costa e escrever o menos possível à volta do boneco?

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