Creio que será a primeira vez que tal acontece: um jornal de referência assume criticar editorialmente a judicialização da política feita pela direita. Aconteceu pelo teclado do Nuno Saraiva – Baixa política – e desconfio que tal apenas tenha sido possível porque as declarações de Paulo Rangel remetem para o grau extremo da judicialização da política: a politização da Justiça.
Saraiva tem sido um incansável anti-socrático ao longo dos anos, isto na fase anterior à sua recente ida a Évora, pelo que essa prática intensa acrescenta-lhe mérito na sua actual denúncia. Mas, quer-se dizer, chega um bocadinho atrasada, né? É que esta estratégia de diabolizar o PS como agremiação criminosa, num vale tudo que até mete golpadas mediático-judiciais, começou em 2004. E contínua imparável, como este episódio do Rangel comprova.
Há algo de bizarro, ridículo e patético na passividade com que o País convive com uma prática política que consiste apenas em caluniar como corruptos os adversários. Isto é feito pela indústria da calúnia e pela elite do PSD e CDS com efeitos imediatos na opinião pública. Quem perdesse uma parte preciosa da sua vida a ouvir as gravações do que os deputados da direita disseram no Parlamento ao longo das três últimas legislaturas, concluiria que 70% consistiu em variações desta ideia: “Os socialistas são ladrões”.
Sintomaticamente, até o Saraiva acaba por desvalorizar, senão mesmo apagar, o aspecto mais grave nas declarações de Rangel. Que é isto:
De visita à feira agrícola AGRIVAL, em Penafiel, e questionado pelos jornalistas sobre as declarações de Rangel, Passos preferiu generalizar, negando-se a falar de casos concretos. “Os portugueses avaliam a justiça de uma forma mais positiva do que no passado”. Sobre Rangel, vê nele um “observador atento”. Passos disse ainda que “há hoje uma avaliação mais positiva do funcionamento dos órgãos judiciais”, rematando: “Não há uma sociedade de confiança sem que a justiça funcione”.
Ou seja, Passos concorda com Rangel. Sem qualquer surpresa, pois, vindo do homem que anunciou pretender criminalizar governantes socialistas por razões políticas, que escolheu para ministra da Justiça aquele ser que decretou “o fim da impunidade”, e que atacou um cidadão arguido sem acusação formada como se já estivesse julgado e condenado com trânsito em julgado. Se puxarem por ele, repetirá ipsis verbis a cassete dos pulhas, onde Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento não podem faltar como alvos preferidos. Hoje mesmo, voltou a difamar o PS fazendo associações que colam aos socialistas a marca da corrupção.
Não há nenhum enigma sobre as razões que levam esta direita portuguesa a apostar todas as fichas na chicana, na calúnia e no culto do ódio. Isso faz-se em Portugal como em qualquer outro país, nesta época como em qualquer outra. Faz-se quando não existe um escol dirigente e o poder partidário fica nas mãos dos arrivistas. O grande enigma, neste momento, é António Costa. A ausência de resposta às declarações de um primeiro-ministro que marca a ferro e fogo o PS como sendo um bando dos piores criminosos que já surgiram na História portuguesa, pela escala e vilania dos seus actos, é inexplicável.
O PS, ao optar por sofrer estes ataques calado, está a consentir. Foi a opção de Seguro, pelas razões conhecidas. Parece ser agora a de um partido que perdeu o respeito por si próprio e por quem representa.

