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Costa concorda com Passos?

Creio que será a primeira vez que tal acontece: um jornal de referência assume criticar editorialmente a judicialização da política feita pela direita. Aconteceu pelo teclado do Nuno Saraiva – Baixa política – e desconfio que tal apenas tenha sido possível porque as declarações de Paulo Rangel remetem para o grau extremo da judicialização da política: a politização da Justiça.

Saraiva tem sido um incansável anti-socrático ao longo dos anos, isto na fase anterior à sua recente ida a Évora, pelo que essa prática intensa acrescenta-lhe mérito na sua actual denúncia. Mas, quer-se dizer, chega um bocadinho atrasada, né? É que esta estratégia de diabolizar o PS como agremiação criminosa, num vale tudo que até mete golpadas mediático-judiciais, começou em 2004. E contínua imparável, como este episódio do Rangel comprova.

Há algo de bizarro, ridículo e patético na passividade com que o País convive com uma prática política que consiste apenas em caluniar como corruptos os adversários. Isto é feito pela indústria da calúnia e pela elite do PSD e CDS com efeitos imediatos na opinião pública. Quem perdesse uma parte preciosa da sua vida a ouvir as gravações do que os deputados da direita disseram no Parlamento ao longo das três últimas legislaturas, concluiria que 70% consistiu em variações desta ideia: “Os socialistas são ladrões”.

Sintomaticamente, até o Saraiva acaba por desvalorizar, senão mesmo apagar, o aspecto mais grave nas declarações de Rangel. Que é isto:

De visita à feira agrícola AGRIVAL, em Penafiel, e questionado pelos jornalistas sobre as declarações de Rangel, Passos preferiu generalizar, negando-se a falar de casos concretos. “Os portugueses avaliam a justiça de uma forma mais positiva do que no passado”. Sobre Rangel, vê nele um “observador atento”. Passos disse ainda que “há hoje uma avaliação mais positiva do funcionamento dos órgãos judiciais”, rematando: “Não há uma sociedade de confiança sem que a justiça funcione”.

Ou seja, Passos concorda com Rangel. Sem qualquer surpresa, pois, vindo do homem que anunciou pretender criminalizar governantes socialistas por razões políticas, que escolheu para ministra da Justiça aquele ser que decretou “o fim da impunidade”, e que atacou um cidadão arguido sem acusação formada como se já estivesse julgado e condenado com trânsito em julgado. Se puxarem por ele, repetirá ipsis verbis a cassete dos pulhas, onde Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento não podem faltar como alvos preferidos. Hoje mesmo, voltou a difamar o PS fazendo associações que colam aos socialistas a marca da corrupção.

Não há nenhum enigma sobre as razões que levam esta direita portuguesa a apostar todas as fichas na chicana, na calúnia e no culto do ódio. Isso faz-se em Portugal como em qualquer outro país, nesta época como em qualquer outra. Faz-se quando não existe um escol dirigente e o poder partidário fica nas mãos dos arrivistas. O grande enigma, neste momento, é António Costa. A ausência de resposta às declarações de um primeiro-ministro que marca a ferro e fogo o PS como sendo um bando dos piores criminosos que já surgiram na História portuguesa, pela escala e vilania dos seus actos, é inexplicável.

O PS, ao optar por sofrer estes ataques calado, está a consentir. Foi a opção de Seguro, pelas razões conhecidas. Parece ser agora a de um partido que perdeu o respeito por si próprio e por quem representa.

Revolution through evolution

Predicting who will murder his wife or his family
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Want a better relationship and a better sex life?
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Women more likely than men to initiate divorces, but not non-marital breakups
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Romantic opportunities appear to influence women’s sexual identities, but not men’s
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TV’s subliminal influence on women’s perception of pregnancy and birth
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Unmarried women: Politically cohesive, more concerned about women’s status
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Older adults possess important forms of expertise
Continuar a lerRevolution through evolution

Nem o Estado social, caramba

De par com a opção entre a inovação e o empobrecimento como modelos de desenvolvimento, a segunda opção de fundo que se coloca nestas eleições centra-se na defesa da segurança social, do Serviço Nacional de Saúde e da escola pública, garantias de uma sociedade decente assente no valor supremo da dignidade da pessoa humana.

DEFENDER OS SERVIÇOS PÚBLICOS, CONTRA A SUA PRIVATIZAÇÃO

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Num tempo em que a União Europeia está assolada por uma ideologia da austeridade, e num país onde a democracia foi instaurada pelo 25 de Abril, a bandeira do Estado social é a causa principal para separar a esquerda desta direita fanática e decadente, por um lado, e para unir toda a esquerda num ideal comum, por outro. Todavia, e apesar de contar com um primeiro-ministro e respectivo Governo que deram copiosos exemplos de ódio a um modelo político que uniu e desenvolveu Portugal ao longo de quatro décadas, o PS nem esse posicionamento consegue assumir com eficácia, como a campanha e esta carta expõem espectacularmente.

O que é o Estado social? Quem tem mais de 50 anos saberá responder de ginjeira, pois viveu em consciência a sua falta, esse sonho. Quem tem menos de 50 anos saberá cada vez menos, e pior, à medida que descermos na escala etária. Resultado: há uma imensa minoria que precisa de ser educada a respeito do que significa, e do que oferece, a democratização e qualificação dos serviços do Estado nas áreas da saúde, da educação e do apoio social. Isto é, há um trabalho de politização para fazer, se não for de mera educação ao nível da cultura geral, a respeito do conceito, história e futuro do Estado social.

Na carta onde o líder socialista nos fala das suas intenções para a defesa dos serviços públicos, alguém decidiu que seria indicado abrir o texto com o parágrafo que cito acima. Trata-se de um naco de prosa notável. Notável pela dificuldade na sua assimilação, pois começa por desviar as atenções para uma opção anterior, aqui irrelevante, e depois coloca a referência ao Estado social num cenário sem dramatismo político, onde não há vilões a ameaçarem a sua existência. O endosso para o “valor supremo da dignidade da pessoa humana” limpa a questão de pathos ideológico e partidário, convocando referentes que sugerem a doutrina católica ou, no mínimo, a herança cristã. O segundo parágrafo continua neste registo simpático, enciclopédico, esterilizado. Será preciso chegar a meio do texto para encontrar a mensagem que devia ser a primeira a comandar a carga: esta direita pretende desviar o máximo de recursos que puder do Estado social para o tecido empresarial privado, tal como ocorria no Portugal do Estado Novo. Isso é demonstrável com declarações, decisões e números. Mas a carta prefere o paleio para jornalistas que não toca a reunir entre as hostes.

Face ao que está em causa nesta reengenharia social do regime e da comunidade que os fanáticos só não levarão a cabo se não puderem, a passividade e desorientação do PS, incapaz até nisto de mostrar força, é algo que ninguém de ninguém teria há um ano previsto que viria a acontecer. Inacreditável.

No país do CM

O Correio da Manhã está em campanha para condicionar Rui Rangel – Rui Rangel já criticou publicamente a investigação – pretendendo o esgoto a céu aberto uma de duas coisas: ou que Rangel recuse o processo ou que Rangel recuse conceder qualquer valimento às teses da defesa.

Esta é uma oportunidade para dizer que o pasquim tem razão do ponto de vista da independência percebida. Rangel já se pronunciou sobre o caso e fê-lo de forma crítica para a Justiça. Não tendo o seu carácter ficado comprometido, qualquer decisão sua, caso venha a julgar o recurso, não conseguirá escapar à conspurcação mediática que os trastes estão a fazer.

O CM não se limita a agir com soberba impunidade, aproveitando todas as oportunidades para se impor como poder fáctico acima das instituições da República, sejam partidos, Justiça ou Parlamento. A forma como neste jornal se persegue Sócrates – portanto, o PS; logo, a democracia – despejando dados da investigação, verdadeiros ou falsos, a seguir a cada declaração pública de Sócrates, e fazendo contínuos editoriais onde a sua culpabilidade é dada como certeza absoluta, não suscita mais do que um ou outro protesto, e só daqueles para desabafar. Acontece que este jornal tem uma cobertura muito maior do que a da sua tiragem, onde já é líder. Este jornalismo “popular” é lido em inúmeros locais públicos, canalizando o apelo populista contra os políticos – nascido da crise, da iliteracia e do envelhecimento – para os alvos socialistas, cujo maior símbolo e troféu de caça é Sócrates. O povinho não está interessado nos amanhãs do Jerónimo, o povinho acha é que a condenação de Sócrates e restante malandragem já devia ter sido despachada ontem.

Mas para quê estar a perder tempo com este assunto se nem sequer o PS está preocupado? Bom, é porque o que está em causa não diz só respeito, nem fundamentalmente, ao PS. Um país com medo do CM pode ser algo que agrade ao PSD e ao CDS, os beneficiários políticos das canalhices. Não me parece é que passar a vida com medo destes pulhas valha a pena.

Falando de inovação, onde está ela?

Esta é a primeira opção de fundo que temos de fazer nestas eleições. A minha escolha é clara e é essa que vos proponho. Defendo um modelo de desenvolvimento assente no investimento no conhecimento e na inovação e no combate à precariedade e ao empobrecimento.

Até amanhã, os meus melhores cumprimentos.

António Costa

O CONHECIMENTO E A INOVAÇÃO SÃO A CHAVE DO DESENVOLVIMENTO

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À terceira carta de Costa, começaram a ficar cabeludos os erros de comunicação que, também aqui, estão a ser cometidos na campanha socialista. Neste caso, estamos perante uma temática de nicho. Qual a percentagem de eleitores que dorme mal à noite por causa do que o actual Governo faz ou deixa de fazer em relação ao “conhecimento” e à “inovação”? O desempregado pensa nisso? O aposentado pensa nisso? O leitor do Correio da Manhã pensa nisso? Mesmo entre os licenciados, quantos pensaram alguma vez nisso? E mais: entre os que colocam no topo da sua hierarquia de prioridades e valores políticos o investimento em ciência e a inovação, quantos desses estarão indecisos? A estar alguém, neste grupo tão intelectualmente qualificado e tão abundantemente informado, será em relação a quê ou a quem? Aqui chegados, o problema da indecisão nestas andanças não parece fazer sentido.

Estas peças sofrem de uma insanável contradição: apresentando-se como “cartas”, o que suporia um registo coloquial e envolvente, são na prática textos de tempo de antena, apenas servindo para oferecer aos jornalistas um press release do qual se farão uns resumos e uns títulos. Não está ninguém do lado de lá das palavras a tentar falar com uma audiência de eleitores, quanto mais de indecisos. O alvo são jornalistas e o código é convencional, onde as fórmulas são redondas e ocas. Repare-se como termina a carta, proclamando uma “escolha clara” que ninguém, mesmo que leia a missiva 100 vezes, conseguirá consubstanciar em algo tangível.

Um texto pensado para ter impacto político que construísse o argumentário capaz de desfazer uma eventual indecisão nesta temática a favor do voto no PS abriria com a passagem onde se faz referência ao período de 2005 a 2008 e aos investimentos anteriores a 2011. E depois continuaria aí até meio ou nos dois terços seguintes. Porque esse é o currículo do PS, a obra feita, demonstrável nas suas intenções e resultados. Esse é o poder de fogo a usar contra uma pulsão que, a coberto do estado de emergência financeira, tem raízes num ultramontanismo larvar na direita portuguesa. Em vez disso, a carta fica-se por um discurso genérico, por exemplos abstractos e por redundâncias. É material para colóquios inúteis e plateias bocejantes.

O narrador destas cartas escreve num registo que mistura a simulação de uma oralidade, introduzindo pontos de exclamação e reticências, com a pose pedagógica, colocando interrogações metodológicas, maiêuticas. Estamos a ouvir um professor, não um político. Mas o problema maior ainda é o azar de o professor ser chato.

Sporting Clube Os “Belenenses”

Já pensava que o jogo ia a prolongamento e até estava a preparar duas substituições a pensar nisso. Sofremos o 3-1 quando já não esperava."


Jesus

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Jesus regressou do intervalo com passada vigorosa. A câmara apanhou-o à saída do túnel. Vinha sozinho, altivo, peito cheio. Estava a 50 minutos de voltar a provar que o Sporting era ele. Porque ele era o futebol. Sem se ver, o comentador da RTP, companheiro do narrador, garantia que estava quase. E deu uma razão do foro estatístico. Estando o Sporting a vencer ao intervalo a tal equipa com que tinha perdido por 3 a 1 há 10 anos, igualmente nesse jogo tendo ido para intervalo a vencer, não seria possível que a história se repetisse. Tais coisas não acontecem, declarou com sentida confiança. Independentemente do que agora possamos achar acerca do valor do seu raciocínio, gostava de lhe deixar uma palavrinha de apreço. Para quem passou o jogo todo, em tom fúnebre, a fazer variações sobre dois temas, sendo o primeiro a ideia de que “estar a ganhar é melhor do que estar a perder” e o segundo a outra ideia de que “estar a perder é pior do que estar empatado”, as suas considerações no começo da 2ª parte foram um tour de force admirável, tanto pela extensão como pela profundidade.

Jesus é o tipo de treinador que dá por si a não esperar que a equipa adversária marque. E isto estando ela a jogar com 11 jogadores, em casa e com talento igual ou superior à equipa que calhe estar a treinar. Essa consciência poderá ser a mesma que o leva a esperar que a sua equipa também não marque, como assumiu ao dizer que pensava ir para prolongamento. Como se chegará a tal estado de compreensão dos mistérios do jogo da bola? Duvido que seja possível descobrir os processos mentais do fenómeno. Mas podemos reflectir sobre as suas consequências. Por exemplo, tivesse ele esperado o contrário, que o CSKA ainda marcasse enquanto o árbitro não desse os 90 minutos por terminados, se calhar teria feito qualquer coisa para evitar tal desfecho. Umas substituições. Ou umas mudanças tácticas. Ou umas trocas posicionais. Ou uma reza. Só que isso, lá está, implicava ter outro tipo de treinador a treinar o Sporting, não este tipo. O tipo que ganhou por milagre ao Tondela e empatou com o Paços de Ferreira em Alvalade.

O meu clube está a dar-me uma lição de sportinguismo só comparável à que recebi quando o Jorge Gonçalves tomou conta daquilo. Tenho um presidente que dialoga, via Facebook, em registo demente com o director de comunicação do Benfica. Um presidente grunho que só descansou quando foi buscar um treinador grunho. Não foi para este circo de aberrações que se fundou o Sporting, desconfio. Pelo que ser sportinguista não se concilia com o desejo que o clube vença nessas condições. Seria o mesmo que aplaudir um jogador que simula uma falta para obter uma grande penalidade ou levar à expulsão do adversário. Pura e simplesmente, só na miséria moral é que tais pulhices são celebradas. Ser do Sporting não pode corresponder a deixar de ser da cidade – deve ser exactamente o oposto, onde o desportivismo seja uma manifestação do melhor da civilização.

Com esta dupla de taralhoucos no clube, o meu sportinguismo passa-se para o Belenenses. Uma equipa que teve a bela ideia de criar um plantel só com jogadores portugueses, assim mostrando que o nacionalismo pode ser bondoso e estar ao serviço do espectáculo. E é uma equipa que está a ser treinada por um verdadeiro leão, perfeitamente em sintonia simbólica com o conceito de um Belenenses 100% português que, com sorte, poderá trazer uma festa para o Restelo como há décadas não se vê. Eis o meu actual Sporting.

Força, Sá Pinto!
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A retórica é nossa amiga, mas tem de ser da boa

Na segunda carta de Costa aos indecisos – DEVEMOS CONFIAR NO FUTURO DE PORTUGAL! – há uma passagem deliciosa. Ocorre após um relambório de clichés acerca do potencial do País, e consiste nesta meta-interrogação:

Porque havemos de nos resignar a que tudo isto seja apenas retórica?

A pergunta é surpreendente a diversos níveis na economia do texto. Primeiro, porque não havia nenhum indício de que estivéssemos perante conteúdos a merecerem o carimbo de retóricos. As perguntas que antecedem a meta-interrogação fluem como partes do argumento que dá título à carta, cujos dois primeiros parágrafos cristalizam na afirmação “Temos boas razões para acreditar no nosso futuro comum“. A pergunta obriga a introduzir o conceito de “retórica”, que é complexo e ambíguo, para reavaliar o que foi lido até então. Ainda por cima, a palavra surge em itálico, aumentando a equivocidade do que já era equívoco. Num outro nível, porque para além da reinterpretação à luz do prisma da retórica, a meta-interrogação coloca o verbo “resignar” como fulcro semântico do desafio lançado ao leitor. Donde caiu essa sombra da resignação, por um lado, e por que raio a resignação nos obriga a ficar encarcerados na retórica, por outro? Não se explica, o que implica estar o autor a pressupor que o contexto alusivo à resignação é óbvio. Mas não é, muito pelo contrário. Finalmente, a meta-interrogação dá imediatamente lugar a mais um alguidar de clichés folclóricos, autêntica retórica de feira, que não resisto a citar:

Há 600 anos partimos à descoberta. É altura de descobrir e valorizar as Índias e Brasis que temos em nós.

A menos que seja Nóvoa quem está a servir de ghostwriter, não se entende qual seja o propósito de um exercício que volta a não dar respostas aos problemas que, supostamente, estão a gerar indecisão no eleitorado. Esta 2ª carta dialoga superficial e lateralmente com a situação política e resume-se ao discurso impotente de repetir ser necessário fazer alguma coisa sem que em momento algum se diga o que é. A carta termina, de novo, prometendo para a próxima o começo da apresentação da solução. Causa perplexidade a inépcia deste registo complicativo e inócuo.

Contudo, dada a miséria reinante nesta campanha, onde o Governo faz propaganda e os seus partidos apoiantes fazem chicana, e onde PCP e BE não ambicionam mais do que continuarem no Parlamento e o LIVRE/Tempo de Avançar deve estar ainda a pensar no que nos quer dizer, esta iniciativa do PS é a coisinha melhor que temos para ir discutindo a 5 semanas e meia das eleições.

Στρατηγός

A imoralidade de pretender duplicar o tempo de antena da coligação com a participação simultânea de Passos e Portas nos debates é tão evidente que o assunto se esgota assim que se coloca. Nem seria preciso estar a ir buscar o exemplo das europeias ou as declarações de Telmo Correia. Pelo que a questão que realmente importa não pode ser essa, a dimensão deontológica, mas sim a questão política.

Ao se reconhecer que a coligação tem interesse em se confrontar o menos possível com os líderes da oposição, recorrendo à manha de tentar incluir Portas só para boicotar esse confronto, que faria um general na posse dessa certeza ou intuição? Não cairia na armadilha e aceitaria a presença de Portas.

Tal como Fernando Medina verbalizou – «Se o ridículo matasse, vocês estavam arrasados antes das eleições» – a situação de ver Passos e Portas lado a lado seria fatalmente ridícula. O flanco ficaria todo aberto para serem causticados durante o debate, do princípio ao fim – onde a audiência seria lembrada de que aqueles dois até para aceitarem debater a sua responsabilidade nos problemas do País tiveram de voltar a violar as regras da decência e do respeito democrático. Seria um sem fim de achincalhos possíveis e cristalinamente justos, sem hipótese de fuga nem de defesa.

Claro, para tal ter ocorrido seria preciso existir um general a comandar a campanha do PS.

Comunas e liberalóides, a mesma luta

Apresentámos as listas e bem podemos dizer:
Gente de verdade, trabalho, honestidade e competência
Gente de confiança
Gente séria
Por um Portugal com futuro

Jerónimo de Sousa

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Foi com estas mesmas palavras – “Candidatos da CDU – Gente de verdade, trabalho, honestidade e competência” – que no website do PCP se deu título à transcrição de mais um discurso canónico dos comunistas portugueses. Pergunta: que ideologia sustenta esta identidade? Quantas propostas políticas diferentes, até antagónicas, podem, sem recearem qualquer incoerência, reclamar a exaltação dos mesmos valores? As ideologias de cariz religioso chafurdam nesse terreno. Ferreira Leite foi a eleições em 2009 com esta cassete, apoiada na indústria da calúnia e num Presidente da República que por pouco não mandou os elementos da Casa Civil pegarem em armas contra o Governo. Salazar não tinha outra mensagem, eficaz junto desse país miserável que pretendia manter atrofiado e amordaçado. O proclamação da posse da verdade, do culto da honestidade e da prova da seriedade correspondem invariavelmente ao exercício demagógico mais básico – e implicam um fanatismo, genuíno ou artificial, que esconde uma pulsão ditatorial. Como dizia o Agostinho da Silva, quem tem a verdade numa mão, tem sempre uma pedra na outra para atirar a quem a recuse.

O PCP é apreciado, até protegido, pela direita não só pela utilidade de terem um inimigo em comum. É também por causa deste conservadorismo monolítico e senescente, o qual transforma o PCP na mais previsível das entidades políticas em Portugal. A direita aprecia as vantagens de terem estes seríssimos pastores a cuidar daqueles coitados que de outra forma poderiam andar por aí à solta a provocar chatices. A organização e dinâmica social dos comunistas à portuguesa rivaliza, ou supera, a das religiões tradicionais, comungando igualmente de mecanismos messiânicos e apocalípticos que permitem manter um estado de subordinação e impotência sem com isso terem de se confrontar com os sucessivos fracassos. Para os comunistas, o povo é deles, incluindo aquela parte muito maioritária que nunca votou nem votará no PCP. Então, como poderiam os resultados das eleições, ainda para mais num regime que não reconhecem como legítimo, perturbar o sentimento de posse que a ciência da História lhes concedeu? Realmente, isto da propriedade privada é um descanso.

Assim como os comunistas portugueses convivem tranquilamente com o simulacro de pretenderem derrotar o capitalismo, estando agora especializados na gestão de autarquias a sul do Tejo e na manutenção de uma quota de mercado na Assembleia da República, assim os nossos liberais à portuguesa convivem felizes da vida com um Governo que fez da traição, da mentira e da opressão fiscal o seu modus operandi. O simulacro de liberalismo em que tropeçamos na actual direita imita a cegueira comuna quanto à complexidade do real. Os seus argumentos dão-se à repetição fanática porque não passam de abstracções onde a noção de “Estado” é diabolizada só porque alguma coisa teria de ser diabolizada para aquelas mioleiras conseguirem dar sentido ao que os rodeia. Na posse dessa chave hermenêutica que tudo explica através dos conceitos de subtracção e abandono, a qual não requer uma idade mental superior aos 12 anos para ser assimilada, partem para a cruzada contra o “socialismo” que farejam em proporções moleculares. Mas o que pretendem mesmo é ter os seus amiguinhos, e primos, confortavelmente instalados no Estado.

Comunas e liberalóides no país de Pedro&Paulo, a mesma luta.

Isto na psiquiatria tem nome

Mais: um dos médicos que integraram o júri do concurso de 2000, Luís Cunha Ribeiro, actual presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, viveu desde 2004 num apartamento de Lalanda e Castro. E onde fica esse apartamento? No prédio Heron Castilho, popularizado pelo engenheiro José Sócrates, que foi empregado de Lalanda e Castro na Octapharma entre 2012 e 2014 — e de onde Luís Cunha Ribeiro terá saído já depois da prisão do ex-primeiro-ministro. Questionado pela TVI, Cunha Ribeiro, apesar de ocupar presentemente funções públicas, não apresentou qualquer informação acerca do seu contrato de arrendamento. Talvez Paulo Lalanda e Castro nos queira esclarecer a todos quanto a isso, já que entende que as considerações que sobre ele faço são tão injustas e tão imerecidas.


A questão do plasma português

Nem toda a força é virtude, mas toda a virtude é força

Costa escreveu a primeira de várias cartas dirigidas aos “eleitores indecisos” – PORQUE VOS ESCREVO? – e há que louvar a iniciativa. Todavia, logo de seguida temos de interrogá-la – quem são os eleitores indecisos, e estão indecisos acerca do quê? Colocada nesta amplitude a questão, chegaríamos a variegados tipos de indecisão. Pelo que se diz neste primeiro exercício, o próprio Costa não parece ter uma ideia clara acerca das indecisões que importa desfazer. Isto porque o texto é burocrático e difuso, circunscrevendo os problemas a que pretende responder sem entrar neles. E não respondendo a ninguém sobre coisa alguma. Termina apelando a que o leitor volte no dia seguinte para descobrir se encontra alguma coisa que lhe sirva. Vai bem com o cartaz da fé nascente.

Quem pretende fazer da confiança o valor agregador e inspirador de um projecto político devia estar consciente de que tal acordo conquista-se através de um exercício de força. Confiamos em quem tem força física, mental ou de carácter, mas só quando essas características são exibidas. Se alguém nos pedir para confiarmos em algo que não sabemos se tem, seja força nos braços para nos amparar ou força na vontade para nos proteger, é apenas por relação connosco próprios que eventualmente acedemos ao que nos pedem. Nesse caso, estamos a confiar na nossa intuição ou no mistério de tudo e de todos, não em quem apenas se limitou a convocar a nossa ingenuidade e coragem.

Para estas eleições, no caso de se estar a liderar o PS, ter força implica conseguir explicar ao eleitorado o que se passou para que Portugal tivesse de pedir um resgate de emergência. Foi mesmo por causa de erros na governação socialista, como diz a direita coadjuvada pelo silêncio cúmplice e sectário da esquerda? Se foi, que se assumam esses erros, pois há nisso força admirável. Mas se o partido tem outra explicação, que se refute como se de uma questão de vida ou de morte se tratasse a chicana do adversário, pois nisso igualmente há força, tão mais admirável quão mais convincente for a demonstração das razões próprias. No caso de se estar a liderar o PS, ou qualquer partido da oposição, ter força implica não perdoar à direita o logro eleitoralista de 2011, ainda menos a cultura do ódio que espalharam contra os portugueses assim que subiram ao poder no afã de serem mais alemães do que os finlandeses. Qualquer cedência nesta dimensão da nossa vida política e cívica será uma fatal manifestação de fraqueza. Ter força, para quem se propõe governar o País, implica conseguir exibir as consequências da política do empobrecimento cobardemente aplicada a coberto da invasão estrangeira. Essas consequências medem-se em famílias desfeitas, doenças sem tratamento por falta de dinheiro, doenças mentais por causa do desemprego e das carências, mortes prematuras. Se o empobrecimento efectuado, mais o tentado, não era inevitável, então quem escolheu essa via traiu milhões de cidadãos. Finalmente, quando se tem um ex-líder preso por suspeitas de corrupção, ter força começa por reconhecer que existe um estado de profunda desorientação entre os militantes e simpatizantes do partido a respeito da veracidade dessa suspeita, já para não falar na restante parte da comunidade que não se alimente de calúnias. Compete à liderança, seja ela qual for, tomar uma de duas opções: ou a de abandonar essa multidão à sua confusão desesperante ou a de os conduzir para um terreno onde consigam voltar a levantar a cabeça sem medo dos pulhas. E não é preciso qualquer pronúncia pelo desfecho do processo, bastaria ser convicto no reconhecimento da excepcionalidade do que está a acontecer. Qual destas escolhas será capaz de oferecer mais confiança?

Ainda há tempo para Costa exibir a sua força. Veremos o que os próximos dias trarão neste diálogo com os indecisos.

Est modus in rebus

Há semana e meia, deixei à consideração de quem quisesse participar na discussão o que fazer com a actual paisagem das caixas de comentários, onde 4 ou 5 indivíduos passam à volta de 20 horas por dia a debitarem merda desde há longos meses. O resultado são dezenas, por vezes centenas, de comentários sem interesse nenhum, salvo o interesse folclórico e zoológico. Por mim, tal destino das caixas de comentários não me surpreende nem incomoda, como expliquei. Aliás, até será defensável a ideia de que foram sempre assim, ou que são assim em todo o lado. Se o que acontece aqui no Aspirina, no que aos meus textos diz respeito, não passa de um passatempo, então o que se passa nos esconsos do blogue será ainda mais irrelevante. As caixas de comentários a quem as trabalha, é o lema que perfilho.

Esclareço que neste blogue cada autor faz o que quiser em relação aos comentários que receber, incluindo tendo a opção de recusar abrir a caixa ou de fechá-la a qualquer momento. A política comum é essa de não existirem regras iguais para todos. Este é um meio digital particular, tal qual um jardim de uma casa para onde os donos vão discursar e onde se colocam umas cadeiras que podem ser ocupadas por quem passa na rua. Não é por estarmos de portão aberto, e não se cobrar entrada, que o jardim deixou de ter proprietário ou que as visitas passaram a ter direito ao livro de reclamações.

Acontece que na conversa Se o Aspirina B fosse teu foram apresentadas boas razões para alterar as regras no que às minhas caixas diz respeito. Isto porque a divisão de opiniões, entre aqueles que apelaram a uma moderação e aqueles que saudaram a ausência da mesma, levou-me para a aceitação de que ambos os grupos tinham razões legítimas, primeiro, e que era possível conciliar os dois estilos de participação e seus tão variados gostos, depois. É essa a solução que venho anunciar.

Assim, a partir desta entrada, e valendo só para mim, instituo 24 horas de tolerância zero em cada caixa. Durante esse período, os comentários que não tiverem relação com as questões postas à discussão, ou que não passem de diálogos asininos e egocêntricos, serão apagados e os seus autores sujeitam-se a ficarem com os IPs sob moderação caso insistam em desrespeitar esta regra. Repare-se que continuarão a ter mais de 154 mil caixas de comentários abertas onde poderão despejar a estupidez, ou as hilariantes chalaças, que lhes der na gana (mas dentro de limites últimos que continuarão a existir, onde se incluem calúnias, apelos ao ódio e ameaças com alcance judicial). A intenção é permitir ao grupo que defende a moderação sentir que há um espaço protegido para se tentar outro tipo de interacções que não sejam disfuncionais e infantilóides. Não prevejo que esta medida gere, subitamente, discussões qualificadas nas catacumbas do Aspirina B, podendo até vir a ser a prova de que sem os palhaços não aparecem outro tipo de artistas, mas é justo tentar equilibrar as armas das facções em concorrência pelo espaço em branco.

Evidentemente, qualquer tipo de moderação está destinado a ser um exercício arbitrário e presunçoso. Irei cometer erros, nalguns casos voltando atrás, noutros despertando legítimas indignações que durarão até que o Inferne gele. Será o preço a pagar na falta de um melhor método para chegar ao mesmo fim.

Começa aqui e agora.

Tal como na Ágora

António Guerreiro será – provavelmente ou dentro dos meus limites como leitor distraído – o mais erudito, ecléctico e acutilante crítico português em Portugal. Crítico nesse sentido filosófico, e político, onde o aparato intelectual é usado intencionalmente para introduzir inteligência no espaço público. É ele que escolho para falar da onda de provincianismo que assola neste Agosto a opinião profissionalizada, onde as “redes sociais” aparecem diabolizadas ou fantasiadas. Eis os disparates que este sábio escreveu:

Mas é necessário dizer que todos os partidos e movimentos, não apenas o PS, estão hoje expostos à dimensão anacrónica e quase sempre patética da propaganda política através de cartazes de rua. E a prova está nesse exercício de paródia e carnavalização a que eles estão a ser submetidos nas chamadas “redes sociais” (muito especialmente no facebook). Os cartazes são de um tempo anterior às redes e apresentam-se com uma dimensão ridícula nesta nova ordem cibernética, exibem uma debilidade flagrante perante a nova configuração do espaço público e as formas tecnológicas e digitais de circulação da informação. Ao olharmos hoje para um cartaz, o que vemos irreversivelmente é um cartoon. Os políticos tornaram-se assim personagens de cartoon, ainda que essa condição não os impeça de ganhar eleições. A paródia é a nova política como obra de arte total e os cartazes não são mais do que um vestígio conspícuo da vasta operação paródica. Os partidos que se alternam no poder contratam profissionais da comunicação, esquecendo que os seus belos artefactos vão ser atacados por amadores da comunicação, por um vasto exército de hackers, que é a figura que adquiriu o “povo da rede”. A comunidade de hackers contra os engenheiros dos programas políticos: eis a feição da nova guerra civil em curso. A política está hoje confrontada com novas formas de entropia, já não a entropia como lei natural do sistema, mas uma entropia infernal. As formas tradicionais de crítica, como aquelas que os jornais praticam, começam a parecer inócuas quando comparadas com os efeitos da nova ordem cibernética. Por isso, o jornalismo mais não pode fazer do que recorrer à citação: “A personagem X e o acontecimento Y estão a causar um enorme furor nas redes sociais”. E esta maneira de citar é quase uma confissão de que, tal como os políticos, os jornais não sabem ainda muito bem qual o lugar que ocupam nesta nova ordem.

A nova ordem das redes

O título resume a atrevida tese: há uma nova ordem a condicionar tanto a política como a comunicação social. Qual é o problema com este fogacho? A chatice de o autor apenas conseguir dar uma solitária e inútil informação objectiva acerca das tais “redes sociais”, isso de ter nomeado uma delas como “facebook”. Nada mais nos diz a respeito do seu conhecimento do que se passa por lá, nessas poderosíssimas redes que conseguiram pôr em fanicos dois paradigmas centenários, o dos cartazes e o das notícias. O seu argumento, portanto, sustenta-se em pressupostos que não se oferecem à validação.

Começando pelo princípio, estava com a ideia de que os políticos foram invariavelmente personagens de cartoon. Desde que há políticos. Ou seja, ao longo de todo o século XX. E ao longo de todo o século XIX. E começando logo pelas comédias gregas, aparecidas um bocadinho antes da descoberta da electricidade. Pelo que estar a anunciar o advento da era da paródia talvez seja excesso de cafeína. E atalhando já para o fim, estar a descrever a livre escolha do jornalismo pela criação de um conteúdo que rotula de “redes sociais” como sintoma de um abalo nas redacções é caso para dizer ao António que deve largar o vinho. Quando nos blocos informativos se apresentam citações cuja fonte é o Facebook, ou o Twitter, não existe qualquer avaliação do alcance mediático dessas peças no seu ecossistema de origem. E há boas razões para tal, é que os números são irrelevantes. Pelo que são os jornalistas quem decide o que merece ser catalogado como “furor”, consagrando com a sua exposição nos meios de comunicação profissionais o que de outra forma não teria qualquer influência mensurável em termos demográficos. Os jornalistas, pois, imitam o Guerreiro naquilo que fica como uma construção fantasiosa para daí se obterem pretextos, contextos e subtextos ao serviço das agendas próprias.

Acima de tudo, e este ponto revela a completa inexperiência do autor acerca do assunto que pretensamente estaria a analisar, uma das principais características do consumo de informação nas “redes sociais” reporta aos mecanismos de conformismo e esquecimento. A gozação com os políticos não equivale sequer à sátira, pois esta implica um mínimo de sofisticação intelectual, quanto mais a um protesto político. Precisamente ao contrário, o que os parodiantes digitais estão a expressar é a sua passividade e impotência perante os poderes fácticos – seja fruto da imaturidade, da iliteracia ou da frustração. O que eles pretendem é apenas a recompensa de se imaginarem parte da política-espectáculo. O prémio é aparecerem nos espaços de informação tradicionais, devidamente domesticados. A contínua e opressiva circulação de conteúdos, por sua vez, implica ser capaz de os esquecer cada vez mais rapidamente. O resultado é o esgotamento da atenção e o atrofiamento cognitivo. E a inevitável fuga.

Dizer que os cartazes políticos são anacrónicos do ponto de vista mediático e tecnológico é o equivalente a dizer-se que os sinais de trânsito deviam ser substituídos por avisos no telemóvel. Só porque todos temos telemóvel, seria a lógica. Ora, o que está em causa num cartaz, seja qual for o seu tamanho ou suporte físico, é o conteúdo, a mensagem, o grito. Os cartazes são bandeiras. E as bandeira simbolizam quem é o líder e o que quer. Acaso alguma vez se fará política sem líderes, sem bandeiras e sem mensagens? Se não, então o cartaz terá sempre o mesmo poder da liderança política que representa. Se transmitir o que interessar, as “redes sociais” serão o seu melhor aliado. Tal como na Ágora, sem tirar nem pôr.

Revolution through evolution

How others see our identity depends on moral traits, not memory

Tall, masculine men aged around 35 years old perceived to be most dominant

Modern parenting may hinder brain development, research suggests

Anxious? Depressed? Blame it on your middle-management position

Patients with immediate medical needs tend to perceive doctors as emotionless, study finds

Will the pronoun I become obsolete? A biological perspective

No short cuts: innovation work is about presence, ordinary labour

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A economia, segundo o sr. Araújo e o sr. Anacleto

Francisco Louçã e Ricardo Araújo Pereira partilham com os direitolas um gosto em comum, pelo menos um: adoram expor nos seus artigos, ou trazer à colação, uma peça da campanha do PS em 2005 onde se coloca como objectivo recuperar 150 mil empregos. O prazer lúbrico de uns e outros com a mensagem resultará de não se ter atingido esse número de novos empregos ao se chegar a Setembro de 2009. Daí o gozo. Imarcescível gozação, até para estas duas luminárias da esquerda que teclam com as dedinhos imaculadamente limpos.

Há aqui um mistério. Ou um enigma. Ou não. É que – assumindo a validade dos princípios de identidade, de não-contradição e do terceiro excluído – deveríamos ter no Louçã e no Ricardo dois dos mais fervorosos apoiantes dessa proposta política. Quando muito, o seu desagrado seria relativo à timidez da ambição. Ter uma força política a prometer usar os poderes governativos para aumentar o emprego leva a pensar que, muito provavelmente, estamos perante socialistas, no mínimo social-democratas daqueles à antiga. No entanto, a brilhante dupla acha que o falhanço dessa meta deve ser celebrado e transformado em arma de arremesso contra o partido que a formulou. A ambiguidade que espalham é a de que esse número não passou de uma mentira ou, pior, que nunca deveria ter sido publicitado.

Não sei quais são os conhecimentos de economia do Ricardo. Talvez sejam extraordinários, como é o seu humor. Já sobre o Louçã não há a mínima das dúvidas, é uma das carolas que mais pesca de economia na terriola. Porém, mesmo que o Ricardo não esteja em condições de começar já em Setembro como assistente numa faculdade de Economia, igualmente ninguém põe em causa a alta qualidade do seu tecido neuronal. Podem formar uma parelha de luxo no campo da intelligentsia. Pelo que estou disposto a subir a minha parada usual dos 10 euros e chegar-me à frente com 12 euros e 30 cêntimos. É esse o valor que lhes pagarei se o Louçã e o Ricardo responderem a estas 3 perguntas:

– Quantos dos 150 mil empregos indicados como meta foram alcançados nessa legislatura?

– Quais as razões que impediram esse objectivo?

– Sem os factores que impediram o objectivo, e mantendo-se a conjuntura económica como estava antes dessa influência, quantos empregos teriam sido criados até finais de 2009?

Entretanto, Costa voltou a conseguir abrir bocas de espanto ao aparecer com uma meta de 207 mil empregos a criar, só para no dia seguinte estar na prática a demarcar-se desse desígnio. O que começou por ser uma afirmação de coragem e uma mensagem finalmente relevante para o eleitorado, porque tangível e crucial, foi de imediato transformada numa mistela que apenas consegue aumentar a confusão acerca do que o PS pretende fazer com o Governo nas mãos. Salva-se o futuro aproveitamento que o sr. Araújo e o sr. Anacleto farão do episódio pelos anos afora.