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Dupond et Dupont

O caluniador pago pelo Público teria de vir apoiar o caluniador Rangel – No país dos sonsos – ou o mundo estaria para acabar. Começo por elogiar-lhe o título, no que vejo um lampejo de salutar autocrítica. De seguida, faço uma confissão. Confesso ter pensado que ia ser desta. Quando o prolixo caluniador prometeu ir contar “verdades” acerca das agruras sofridas pelo “ar democrático” e pela “decência” nos anos em que Sócrates governou, fiquei num estado de grande agitação na expectativa do que viria aí. Afinal, conseguir estabelecer que Sócrates atentou contra a democracia é quase tão valioso como inventar que atentou contra o Estado de direito.

E era isto, e nada mais do que isto, o que o caluniador tinha para apresentar aos leitores:

– Sócrates andou a enfiar o nariz nas redacções e a berrar com jornalistas.

Não se identificam as redacções nem os jornalistas. Temos de admitir estarem envolvidos pelo menos duas redacções e dois jornalistas, posto que se usa o plural. Será legítimo concebermos que se trata de um jornalista por redacção? E que devemos interpretar por “meter o nariz”? Meteu-o todo, e à bruta, ou só a pontinha, com delicadeza? Quanto ao “berrar”, dá ideia de ser mais fácil de perceber. Fica é a dúvida sobre o que terão feito esses jornalistas com os berros recebidos. Por exemplo, o Henrique Monteiro está fartinho de contar como, uma solitária vez, esteve ao telefone com Sócrates por mais de uma hora. E que Sócrates se fartou de berrar. Cá está, comprova-se que o caluniador conta a verdade, pelo menos metade dela. O Monteiro chegou a ir para uma Comissão de Inquérito parlamentar queixar-se dessa conversa que foi obrigado a manter com o então primeiro-ministro. Curiosamente, este Monteiro nunca explicou por que razão aceitou estar ao telefone com personagem tão desagradável, ainda menos explicou em que é que esse telefonema o inibiu na sua liberdade como jornalista ou cidadão. Dá ideia que em nada. Dá até ideia que lhe deu, e continua a dar, apreciadas vantagens por ter tido a sorte de haver um primeiro-ministro com tão pouco para fazer que até tinha tempo para estar a falar consigo como se fossem conhecidos e o assunto em causa tivesse importância. Mas, portanto, e voltando ao caluniador pago pelo Público que intitula um texto seu com a expressão “No país dos sonsos”, fique em acta que o sustento objectivo para atacar como antidemocrático um governante é uma reles converseta de calhandreira. A partir daí, compõe o ramalhete das pulhices, chegando ao ponto de repetir que “a partidarização da justiça existiu mesmo”. É um bravo, este caluniador.

Entra em cena o mano Costa, com É ou não é? É, João Miguel, mas o ponto era outro; alma gémea, embora dizigótica, do tal João Miguel. Veio a correr porque falaram dele e, claro, não poderia deixar passar a oportunidade para também falar de si. Pelo meio, e para o que aqui nos ocupa, concordou com o caluniador pago pelo Público. Sim, Sócrates meteu o nariz nas redacções. Por três vez o mano Costa repete essa informação, a qual associa a uma difusa síndrome do foro respiratório. Donde, só por muito má vontade é que poderemos duvidar do que estes dois cromos do antisocratismo militante nos estão a dizer, dado que eles são especialistas no mafarrico. O nariz de Sócrates, entre 2005 e 2011, enfiava-se nas redacções. E era isto. Muito provavelmente, só isto. Se fosse num convento, poderíamos perguntar às freiras o que faziam com ele lá dentro. Como estamos a falar de jornalistas, um grupo sócio-profissional com dificuldades no acesso à imprensa, talvez tenhamos de reler as notícias desse período à procura das mensagens cifradas que algum tenha conseguido enviar em ordem a descobrirmos os terrores por que passaram sob a ameaça desse narigão hirto e soberbo.

Entretanto, adorava saber quanto é que se ganha na indústria da calúnia. Um gajo despacha um texto destes em meia hora, a vilipendiar um fulano qualquer com base em moléculas de oxigénio e apêndices faciais, e saca quanto ao Belmiro e ao militante do nº1 do PSD? Existirá uma tabela por grau de pulhice e prémios de produtividade? É que abrindo vagas, estou interessado. Foda-se, já que não há moral, toca a comermos todos.

Imprensa Pepperoni

Na cena da entrega de uma pizza na residência de Sócrates, há um aspecto que ainda não vi tratado. Para além do ridículo risível, e do voyeurismo predador, aquilo a que assistimos consistiu numa acção espontânea e concertada dos jornalistas presentes para sequestrarem e manipularem a pessoa que calhou terem apanhado pela frente. Como se vê na versão completa do episódio, os jornalistas nunca disseram ao funcionário da Telepizza qual era a razão para o aparato mediático. Em vez disso, começaram a explorar a crescente desorientação do indivíduo e chegaram ao ponto de o instigar a agir como se fosse voluntário de uma experiência destinada a ser transmitida em directo para todo o País desfrutar. A perfeita sincronia de todos os jornalistas (mas eram mesmo jornalistas?) tinha como objectivo captar material nascido da resposta emocional que eles antecipavam pudesse ocorrer assim que o sujeito da sua experiência descobrisse quem era o fulano a quem tinha ido entregar a pizza de extra-queijo + pepperoni.

Pode alegar-se que o episódio é aceitável, normal, engraçado. Afinal, tratava-se apenas de uma singela pizza, das pequenas. E do puto que as entrega, um zé-ninguém. Um ser que está quase ao nível de um arrumador de rua, carne para o canhão da comunicação social profissional. Pode defender-se que não se fez mal nenhum ao animal humano capturado na ocorrência. Se calhar ele até gostou, terá sido inundado com mensagens dos amigos e família com parabéns e convites para isto e aquilo. No local de trabalho, passará a ser uma vedeta. Outras pizzarias poderão fazer-lhe propostas de trabalho, a actual poderá lutar pelas sua permanência. Talvez venha a incluir a história no seu currículo profissional. Talvez participe num próximo Big Brother qualquer, agora que é famoso. Ou venha a fundar a sua própria marca de pizzas; a “Pizzas do Marquês”, por exemplo. No entanto, aquilo a que assistimos foi um espectacular abuso que fica como metonímia da impunidade com que se viola a privacidade e a intimidade ao serviço da comunicação social e suas agendas, tanto as comerciais como as políticas.

No final desta histórica reportagem, após a entrega gorada, irrompeu por flutuação quântica um meta-diálogo:

Esgoto a céu abertoE o senhor vai voltar agora? Vai dar essa informação à gerência da sua cadeia?
Arguido de massa finaDa minha cadeia?! Não, que eu não estou preso…

Nada mais lógico: a encomenda de comida feita por um prisioneiro domiciliário ser-lhe entregue por um funcionário da cadeia. Porém, este jornalismo extra-queijo arrisca provocar um curto-circuito semântico junto dos cidadãos alienados que ignorem estarem a soldo de uma superestrutura dedicada a acabar com a corrupção através do aumento de vendas dos pasquins e da destruição do PS, como era o caso daquele indocumentado rapaz telepizzeiro. Tenham cuidado, não se engasguem com o salame.

Revolution through evolution

Single mothers much more likely to live in poverty than single fathers, study finds
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Covert and overt forms of sexism are equally damaging to working women
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Men who buy sex have much in common with sexually coercive men
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Does having a bias actually sell newspapers?
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To Email or Not to Email? For Those in Love, It’s Better Than Leaving a Voice Message
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Risk of financial crisis higher than previously estimated
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Laughter, then love: Study explores why humor is important in romantic attraction
Continuar a lerRevolution through evolution

Ajudemos o Ministério Público, coitadinhos

As intervenções de Paulo Sá e Cunha a respeito do caso Sócrates, na sua vertente jurídica, são exemplares. Como presidente da Associação dos Advogados Penalistas, reúne os atributos de especialista em Direito penal e a missão de promover a excelência nessa prática, por parte de todos os agentes de Justiça envolvidos, a partir dos interesses e direitos dos arguidos.

Ontem esteve na TVI24 a debater com Maria José Morgado e João Paulo Batalha o caso. Este excerto – “Lume brando” do MP durante todo este tempo “terá sido mal ponderando” – corresponde ao que de mais importante foi dito nessa conversa (na minha opinião e dentro do que apanhei, que não foi tudo). Nele se faz referência ao episódio de Julho de 2014, quando na revista Sábado foi publicado o que, na sua parte principal, se viria a confirmar em finais de Novembro com a detenção e prisão de Sócrates.

O Paulo coloca aquela que tem de ser uma interrogação crucial neste processo: quem é que violou o segredo de Justiça naquela data e daquela forma? E, por inerência, quem é que não se importou com as consequências disso para a investigação? Ainda não havia advogados de defesa para servirem de bodes expiatórios, nem qualquer outra notícia anterior a permitir uma especulação divinamente certeira. Para nos aproximarmos dessa resposta temos de cruzar diferentes elementos:

– A condição de absoluto sigilo em que o processo estava envolvido.
– O meio escolhido para a divulgação.
– A data da publicação.
– O histórico das violações do segredo de justiça seguintes.
– A lógica das violações do segredo de justiça na “Operação Marquês”.

A resposta, a mim, parece óbvia. Escrevi logo sobre isso assim que aconteceu e fui recordando essa especialíssima pulhice ao longo do tempo. Ao Paulo Sá e Cunha também parece fácil chegar a uma resposta, ou quiçá. Aliás, é pena que o excerto que a TVI disponibilizou tenha terminado sem mostrar os segundos seguintes, onde vemos uma Maria José Morgado completamente aos papéis e rapidamente a disparar noutra direcção para fugir do assunto.

E tu, que responderias?

Cala-te tu, pá

No Eixo do Mal, o bronco do Luís Pedro Nunes estava feliz da vida com a saída da prisão em Évora e o regresso a Lisboa de Sócrates. A sua alegria tinha um racional, este de a alteração na medida de coação prejudicar António Costa e a campanha do PS, tanto pelo desvio das atenções como pelo que se espera que Sócrates venha a dizer assim que começar a falar com jornalistas. Nos órgãos oficiosos da campanha PaF, o Observador e o Expresso, a construção dos títulos e o tom dos textos transmitia a mesma certeza, Sócrates vinha raivoso para fazer mal a Costa. Igualmente foi posto a correr que entre esses dois socialistas as relações tinham esfriado e azedado, estando aí mais combustível para a explosão. Marcelo, no meio de uma acção de campanha onde apelou ao voto no PCP, repetiu a mesma cassete de poder Sócrates prejudicar, mesmo impedir, a vitória dos socialistas nas eleições caso resolva abrir a boca. Chegam estes exemplos para aterrarmos numa conclusão: mais do que um gozo antecipado com eventuais desgraças na campanha do PS, o que a direita está realmente a pedir, recorrendo à psicologia inversa, é que Sócrates fique em silêncio até às eleições.

E de facto, pois será a passividade de Sócrates o que melhor serve os interesses da coligação. Termos um Sócrates calado implicaria que ele aceitava manter-se como o bombo da festa da indústria da calúnia, a qual continuaria sem oposição a declarar que o ex-primeiro-ministro é um criminoso e que o actual primeiro-ministro é um santo. Mas mais, eventuais declarações de Sócrates sobre a situação política, e sobre esta legislatura que agora termina, poderão fazer mossa é na direita. Sócrates mantém a capacidade de empolgar faixas de militantes e simpatizantes socialistas que estão completamente baralhados com as posturas de Seguro e de Costa em relação ao secretário-geral que os antecedeu.

Há uma correlação inevitável e fundamental entre a avaliação moral e a adesão política. Daí a importância eleitoral da “Operação Marquês”, onde está muito mais em jogo do que apenas a investigação judicial a um indivíduo. Pelo estatuto de Sócrates, ele representa, mesmo na esfera da sua privacidade, um símbolo vivo do que é o PS. Tudo fazer para o apresentar como culpado de qualquer crime é, acto contínuo, estar a envolver o partido nessa criminalidade. Eis a hipótese de ele ser substantivamente um preso político que formalmente não passa de um político preso.

Viriato Soromenho Marques, uma aborrecida figura que rivaliza em pedantice e aversão a Sócrates com Carrilho, também pediu para que o homem se cale – Gerir o silêncio – encerrando o texto com a citação mais famosa do Tractatus e de todo o Wittgenstein: “Sobre aquilo de que não se pode falar, deve manter-se o silêncio.” O que é que ele, Soromenho, quer dizer com isto? Não sei, desconfio que nada. Será apenas um insulto básico na forma tentada. Sei, contudo, que a releitura da proposição número 1 – a que abre o tratado e que, portanto, é simétrica da última recomendada a Sócrates – seria de grande proveito para o Soromenho. Reza assim:

Die Welt ist alles, was der Fall ist.

Que é como quem diz, o mundo de cada um é o que lhe acontece. No mundo do processo judicial de Sócrates muito tem acontecido sobre o qual não apenas se pode falar, também se deve falar. Manter o silêncio nessas matérias poderá ser do agrado do Soromenho e que tais, entende-se. Pois têm bom remédio, que se calem.

O último a rir

Há um lado humorístico na “Operação Marquês” e seus desenvolvimentos judiciais. Começa pela lógica da suposta corrupção, onde os corruptos em causa terão achado que o melhor era inventarem um esquema barroco e asinino para enviarem dinheiro uns aos outros, e culmina no suposto perigo de fuga e perturbação do inquérito, fórmulas que poderão não passar de justificações totalmente arbitrárias que em nada respeitam os direitos dos arguidos.

Quanto ao esquema – e continuando eu a admitir que Sócrates poderá acabar por ser considerado culpado havendo provas para tal mas que por agora e até ver é plenamente inocente – a estupidez fica como a única lei a ser respeitada nessa história. Vai assim: um primeiro-ministro consegue fazer cúmplices todos os membros do seu Governo, os quais aprovam em Conselho de Ministros a medida ou medidas que permitirão a corrupção final através de uma câmara municipal, também aqui havendo um número indeterminado de cúmplices activos e passivos, directos e indirectos. Tudo isto para que o tal primeiro-ministro consiga sacar 12 milhões de euros, ficando no ar a interrogação acerca do valor total pago pelo corruptor, posto que haverá dezenas de envolvidos a precisarem de ser pagos. Depois da coisa feita, o primeiro-ministro corrupto descobre que o melhor para os seus interesses e segurança não é deixar o balúrdio lá fora à sua espera, talvez em Porto Rico ou numas ilhas mais exóticas, mas antes conseguir trazer a narta para Portugal através de figurões do Grupo Lena e do seu melhor amigo. E cá chegada, passar o tempo a pedir-lhe às mijinhas autorização para gastá-la. Faz isto algum sentido na cabeça de alguém que não esteja possuído pelo ódio? Se fizer, então também é de admitir que esse não terá sido o primeiro e único acto corrupto levado a cabo por tal criminoso. Quem se entrega à corrupção desmiolada que faz tese no Ministério Públio, por maioria de razão terá entrado noutros esquemas que lhe terão dado quantias aproximadas, semelhantes ou até maiores. Onde estará esse dinheiro? Foi gasto em sapatos e relógios? Ainda chegará o dia em que se fará justiça acerca do Freeport? E quanto à licenciatura num domingo por fax e à paneleiragem, não daria para aproveitar os recursos do Ministério Público agora reunidos e resolver também esses assuntos pendentes?

Desta perplexidade vêm as outras. Então, o primeiro-ministro super-corrupto, mais os super-construtores corruptos, sabendo todos que os inimigos eram mais do que muitos à espera de uma oportunidade para meterem as polícias e a Justiça nisto, não se acautelaram, não destruíram as provas, não apagaram as pistas? Será que estavam à espera de serem apanhados para finalmente se dignarem pensar em escapar? Como é que um arguido com a notoriedade e importância de Sócrates poderia perturbar o inquérito ou a aquisição de prova? Quer isso dizer que ele conseguiria fugir à vigilância policial, a mesma que o espiou durante tanto tempo sem ele saber? Que andaria pela rua embuçado, assaltando a Judiciária e fugindo pelos telhados? Iria almoçar outra vez com Pinto Monteiro, só para os jornalistas voltarem a noticiar o evento e assim os procuradores e juízes tremerem de medo?

Quanto ao perigo de fuga, isso é o mais hilariante. O homem que podia ter ficado em Paris, ou no cu do mundo, a rebolar-se no luxo dos milhões que desviou, veio entregar-se ao Rosário e ao Alexandre. Depois disso, que já chegaria para esclarecer o assunto, ainda pensaria em fugir? Iria fugir agora, quando o MP nem sequer o consegue acusar? Aliás, se Sócrates fugisse isso era só o melhor que poderia acontecer à acusação, à direita, e aos que o odeiam na esquerda e dentro do PS.

Acontece que ele não fugiu. Pelo contrário, parece é estar a dirigir-se para a frente da batalha.

Consolidação dos indícios de pulhice

Na RTP Informação, ao lado do seboso Zé Manel, o João Marcelino terminou a sua participação no falatório revelando que as pessoas como ele, leia-se “jornalistas”, têm acesso a muitas informações que o povinho nem sonha existirem. E que andam para aí a correr uns zunzuns a respeito de umas coisas, umas conversas, que envolvem Sócrates e figuras importantes do PS, as quais a virem a público nesta altura seria o bom e o bonito. Vamos lá ver, deixou num misto de interrogação e profecia, se os magistrados as conseguem guardar.

Não é uma maravilha a cultura da pulhice? Marcelino apela a que se guarde o que ele atesta já estar a circular sabe-se lá por onde. Ou melhor, sabe-se: por entre as pessoas bem informadas, como ele. Pelo que está, no fundo, é a congratular-se por pertencer ao grupo dos privilegiados, aqueles que adivinham que os magistrados da “Operação Marquês” vão continuar a despejar dados sigilosos acerca do processo sempre que lhes apeteça.

Desde o princípio do caso que os jornalistas anti-socráticos vêm salivando de gula na antecipação do envolvimento de outros notáveis socialistas. As presas mais apetecidas serão Paulo Campos, Pedro Silva Pereira e Vieira da Silva, mas qualquer um que tenha tido relações de proximidade com Sócrates serve. Calhando aparecer um nome que também esteja ligado à actual equipa de Costa, isso será ouro sobre azul. E a probabilidade para tal é altíssima. A função das escutas é essa mesmo, a de violar a privacidade de forma a que o alvo fique sujeito às interpretações de terceiros acerca do sentido do que disse, e ainda a de o alvo ver esses registos a escaparem-lhe do controlo e poderem ser explorados sem limite – e isto envolvendo todas as pessoas com quem tenha efectuado contactos, sejam quais forem as circunstâncias nessas ocasiões. Foi o que se fez no “Face Oculta”, tendo-se usado conversas sem indícios criminais para tentar uma golpada judicial em cima das eleições de 2009. Não fosse a integridade e coragem de Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento, ter-se-ia aberto um processo judicial só com diálogos ambíguos e pícaros, captados ilicitamente, como base material para atacar um primeiro-ministro e um partido.

O Marcelino, portanto, aposta na partilha com o público desses tais registos. Será depois do debate com Passos, caso Costa saia de lá vencedor? Será na última semana da campanha, para a porqueira ser a maior possível? O Dâmaso deve saber. A esta hora já tem o título pronto e tudo.

Segredo para não enjoar nestas eleições

As cartas de Costa aos indecisos tiveram o seu epílogo com HÁ OUTRO CAMINHO, HÁ UM CAMINHO MELHOR. É uma síntese das ideias e propostas apresentadas nas anteriores 7 cartas. E continua a exibir surpreendentes erros de comunicação.

A favor, está a iniciativa ela própria, a suposta tentativa de falar para indecisos, e o esforço para resumi-la na última missiva. Corresponde ao contínuo trabalho de elaboração e depuração do programa eleitoral, ambiciosa tentativa de oferecer credibilidade técnica para as principais promessas a agitar em campanha. Contra, está o registo complicativo, verboso, convencional e serôdio de uma comunicação que não pretendeu mais do que ocupar calendário com peças destinadas a jornalistas. E que igualmente ficam como as cábulas e chavões que Costa irá repetir nos debates.

Farão um mau serviço ao PS – portanto, à democracia portuguesa – aqueles militantes e simpatizantes socialistas que abdiquem do seu sentido crítico. Se o perderem, mais nada nem ninguém lhes valerá no processo de formação do voto e sequente representação. À esquerda do PS, o sentido crítico é algo que só existe pela metade. É o reino do maniqueísmo, a tirania dos iluminados, onde a liberdade de pensamento e acção é o inimigo. Vigora um racismo ideológico que luta por todos os meios contra a alteridade. À direita do PS, o sentido crítico está transformado num circo de aberrações. Serve para produzir espectáculos grotescos, onde se mente e calunia à grande, à descarada, à fartazana, à doida e à portuguesinha. Passos e Portas são dois tristes trastes que resistem imaculados dado o estado de anemia e anomia do país que reelegeu Cavaco depois do que ele se mostrou capaz de fazer a partir da Presidência. Só no PS, e em independentes, se encontram os últimos resistentes contra a decadência triunfante.

Acho absolutamente escandaloso que em lado algum nestas cartas apareça uma proposta, sequer uma palavra, sobre a Justiça. Nada. Nada a respeito da morosidade fatal da nossa Justiça civil, que destrói riqueza e vidas. Nada a respeito do fecho dos tribunais encerrados pelo actual Governo. Nada a respeito das forças populistas que pressionam a Justiça para cometer injustiças em nome da luta contra a corrupção. E nada a respeito das estratégias e tácticas mediático-judiciais usadas pela direita contra o PS. Obviamente, e agravado por se tratar do partido esteio do regime, este absentismo que descura a defesa do Estado de direito e a qualidade da democracia não merece o meu voto. Os melhores têm mais responsabilidades, é a minha filosofia política de bolso.

Vai acontecer a Costa o que acontece aos treinadores da bola. Se ganhar com maioria absoluta, dirão que foi genial, que tudo o que fez e não fez, disse e não disse, nasceu de um talento divino. Se ganhar com maioria relativa, mas ainda assim com mais deputados do que a Coligação, dirão que não era possível ir além, que muito ele fez nas tão difíceis circunstâncias. Se ganhar com mais votos mas menos deputados do que a Coligação, só então os militantes e simpatizantes se atreverão a criticar esta merda de campanha. Se tiver menos votos do que a Coligação, sairá de cena como um dos maiores barretes na história da política nacional.

Para o nosso bem, dado que as coisas são como são, Costa deveria ganhar com maioria absoluta. Só que em caso algum a sua vitória, qualquer que seja, deverá ter como preço a anulação do sentido crítico que é a essência mesma da democracia. Se este for o nosso horizonte, como aconselham os marinheiros no mar alto, não enjoaremos a bordo. Seja qual for o resultado das eleições.

Obrigado, TVI

A TVI elaborou a lista dos 30 portugueses com mais poder em Portugal. Sérgio Figueiredo, ao promover a iniciativa, realçou que o poder não é discutido cá pela terrinha, daí o mérito e urgência da análise que iríamos finalmente poder fazer a respeito de tão magna questão. Acontece que depois o que saiu foi uma lista onde até a Cristina Ferreira, o Toni Carreira, o Ronaldo, o Mourinho, o Jorge Mendes e o Horta Osório têm lugar. A que se acrescenta um mistério: na redacção da TVI sabe-se que o poder de uns artistas de variedades e do pontapé na bola, mais o de um estrangeirado, é superior ao da Cofina ou do mero CM. De facto, o Sérgio tem razão. Existem em Portugal sérias dificuldades cognitivas na abordagem deste assunto, mesmo quando tratado por um grupo de cromos na matéria como devem ser os jornalistas da TVI.

Pois a montanha pariu um cavalo de raça. A conversa ocorrida entre João Cravinho e José Miguel Júdice, onde discutem a escolha, é imperdível. Cravinho passou o tempo todo a dizer ao José Alberto Carvalho que a lista devia entrar numa outra lista, a lista das coisas mais ridículas do ano de 2015, pelo menos, tamanha a grandeza dos disparates. Júdice aproveitou para deixar aquela que será a melhor explicação até agora conhecida no espaço público para o fenómeno de perversão da Justiça a que estamos a assistir. Dando como exemplo a disfunção de Carlos Alexandre, que deixou de se comportar como juiz dos direitos e garantias e passou a assumir o papel de super-polícia, fez o diagnóstico sistémico da reacção corporativa que está a unir as magistraturas do ministério público e a judicial numa aliança que gera um desequilíbrio cujo resultado não é a melhoria da Justiça mas antes o culto do magistrado justiceiro.

Esta interpretação, para além da sua razoabilidade e verosimilhança, permite abordar o problema sem necessidade de recorrer a teorias da conspiração, sejam corporativas ou partidárias. Permite até colocar a questão técnica relativa às condições psicológicas daqueles a quem se entrega tanto poder. Por exemplo, o Carlos Alexandre poderá ser alguém impecavelmente íntegro do ponto de vista legal e moral e ainda um exemplo sobre-humano de entrega ao trabalho. Todavia, basta que ele se arrogue a liberdade de abdicar da defesa dos arguidos até ao limite da Lei para já merecer o afastamento compulsivo. Onde é que estes tópicos se discutem? À porta fechada, lá nas catacumbas ou casamatas do edifício judicial, daí a relevância das palavras de Júdice. Se não me falha a memória, desde a última vez que estive a estudar o assunto na Wikipédia, a Justiça ainda é um dos pilares da vida comunitária e dos regimes democráticos, pelo que, se calhar, às tantas, vai na volta, até será algo sobre o qual os cidadãos deverão ter o melhor e mais exaustivo conhecimento que for possível obter.

Estamos perante 24 minutos de programa. O que dá à volta de 10 minutos para as declarações de Júdice. Nada mau. É que podia ser pior.

O Pedro não foge de nada, menina, muito menos de si próprio

Este excerto – “O erro de Rangel foi não ter sido nada subtil” – entre uma experiente e destacada jornalista e um muito experiente e muitíssimo destacado comentarista tem importância como sintagma e como sintoma.

Tudo se passa entre o minuto 1.44 e 1.50., quando a Clara disse isto: “O próprio primeiro-ministro fugiu à questão. Não particularizou, falou em termos gerais.” O Miguel anuiu e desenvolveu uma banalidade, por sinal errada. Falavam da colossal calúnia de Rangel, a qual envolveu dois Governos e todo o sistema de Justiça.

Acontece que Passos não fugiu à questão, porra nenhuma. Ele confirmou o sentido das declarações de Rangel na sua extensão máxima. E no dia seguinte acrescentou mais difamações do mesmo teor. Donde, como explicar a alucinação de Clara de Sousa? Acaso ela não leu o Observador ou o Expresso, por exemplo, os quais exploraram felizes mais esse achincalho? Ou terá ela dificuldade em perceber a língua portuguesa quando tropeça na frase “há hoje uma avaliação mais positiva do funcionamento dos órgãos judiciais”?

Costa resolveu nada dizer face a um primeiro-ministro que acusa o PS e seus ex-governantes de cometerem crimes tão diabólicos que até conseguem perverter as instituições da República, a começar pela Procuradoria, passando pelos tribunais e acabando na Assembleia, incapaz de fiscalizar e deter a bandidagem em várias das mais altas hierarquias do Estado. Porque é isto que está em causa quando se pergunta: Alguém acredita que um primeiro-ministro seria investigado se o PS fosse Governo? Quem não acredita, como Rangel e Passos, terá a sua explicação a dar sobre o modo como o PS no Governo consegue impedir tais aborrecimentos. Seria maravilhoso que algum jornalista desenvolvesse o assunto pelo menos com o Rangel – mas não vai acontecer, pois não existe imprensa em Portugal.

Entretanto, a imagem do PS como pardieiro de corruptos corre solta durante a campanha, agora com a chancela de um eurodeputado e do primeiro-ministro. Quer-se dizer, já não é só o CM, o Sol, o Observador, a Judite, o Zé Manel, a Moura Guedes, o mano Costa, o caluniador pago pelo Público e a Helena Matos a fazerem coro. Isto agora fia mais fino, mete um barítono no palco. A jornalista Ângela Silva sintetizou bem o espírito de pândega com que a direita se entrega a estes exercícios de conspurcação máxima do regime e do espaço público:

Um misto de gozo interior e medo de estar a pisar uma bomba, eis um resumo possível da reação do PSD às polémicas declarações de Paulo Rangel na Universidade de Verão do partido.

Fonte

Clara de Sousa, tal como esta Ângela, branqueou as declarações e atitude de Passos. São estes sintagmas de uma comunicação dominada pelo laranjal que correspondem ao sintoma de sermos uma comunidade que assiste apática ou incrédula à descoberta de não ter ninguém que a defenda da decadência.

Triste convergência

A sétima carta de Costa aos indecisos – NOVO IMPULSO À CONVERGÊNCIA COM A EUROPA – é a mais intragável de todas. O tema não é só de uma complexidade técnica apenas acessível a especialistas em questões europeias, saiu também embrulhado por um registo que será fatalmente uma de duas coisas, ou hipócrita ou cínico. O respeito que Costa me merece como servidor público impede-me de aceitar como possível a terceira hipótese: a de ser hipócrita e cínico.

Hipócrita, porque a influência que Portugal pode exercer com vista a uma alteração das políticas europeias é algo que está na dependência de factores que não controlamos, sendo que no melhor dos cenários essa influência seria sempre complementar de outras que teriam assumido a transformação. Daí aparecer a referência a um documento assinado entre o PS e PSOE de que ninguém fora da vida partidária socialista ao mais alto nível ouviu falar ou tem interesse por. Fazer dessa folha de couve a primeira pedra do templo diz bem da completa impotência de um Governo português para mudar seja o que for nas forças que actualmente dirigem a Europa.

Cínico, porque se simula ter algo relevante para apresentar ao eleitorado, ainda por cima alegando que se está preocupado com os “indecisos”, quando este texto espremido não dá alimento a qualquer dúvida ou aspiração. Desafio, como exemplo, qualquer um a explicar o que é que este parágrafo quer dizer:

Portugal ganhou sempre que soube ser proativo e estar no centro do aprofundamento do projeto europeu. Claro que isso nos exige um esforço acrescido relativamente aos “grandes”, aos não “periféricos”, aos “ricos”. Mas é mesmo esse esforço que temos de fazer e por isso tenho dito que, neste momento em que se vão travar debates cruciais sobre o futuro da UE, devemos mesmo qualificar o peso governativo dos assuntos europeus, sem obviamente perturbar a orgânica dos serviços e da sua articulação com a rede diplomática.

Talvez a passagem mais interessante acabe por ser aquela em que o actual secretário-geral do PS se mostra amiguinho da direita decadente, aqui: “[…] se confiou que a redução das taxas de juro de que beneficiariam as economias periféricas permitiriam financiar os investimentos necessários, o que se traduziu num endividamento crescente, agravado, por vezes, por erros na escolha dos investimentos…” Endividamento crescente, erros na escolha dos investimentos e três pontinhos a convidarem o leitor a preencher o espaço em branco. É a cassete da década perdida, um dos grandes sucessos da campanha eleitoral em 2011. Ora, de quem e do quê está Costa a falar? Adoraria conhecer um desses investimentos errados de acordo com a sua opinião, pelo menos um. Quem nos poderá ajudar? Quem será aqui o intérprete oficial deste notável socialista capaz de identificar investimentos errados mas incapaz de permitir a avaliação do seu critério? Aposto que a Manela e o Pedro saberão responder sem qualquer hesitação.

Vejo-me obrigado a rever a minha posição inicial. Um líder que cultiva este grau de ambiguidade difamatória, nesta altura do campeonato, a respeito de questões tão polémicas e polarizadoras, está a escolher enfiar-se de cabeça tanto na hipocrisia como no cinismo. Triste e fatal convergência.

Dâmaso, sal e sede

Eduardo Dâmaso anda de cabeça perdida. Ontem saiu-se com este protesto:

Passos Coelho, na linha de Paulo Rangel, fez ontem uma exploração política do caso Sócrates. Sem dizer os nomes, criticou os políticos que alimentaram a promiscuidade entre bancos, governos e negócios. Que arranjaram maneira de dar ou pôr os bancos a dar dinheiro aos amigos. Quem não se lembrou logo de Sócrates, Vara e Santos Silva? A estratégia de trazer Sócrates para a campanha parece um pouco suicida. António Costa tem sabido blindar o PS ao desgaste do caso Sócrates e a ideia de que todos os socialistas são iguais na maldade é absurda. Para lá de parecer desesperada, coisa que raramente rende muitos votos.

Estratégia suicida

Continuando alarmado, hoje fez este:

Regressemos à desastrosa estratégia escolhida pelo PSD de trazer os casos de Sócrates para a campanha eleitoral. Para lá de ser incendiária, é desqualificadora de toda a política e de todos os políticos. Paulo Rangel colocou-se na patética posição de porta-voz de uma espécie de pureza originária, como se fosse essa a marca genética de todo o PSD. Não é, bem pelo contrário. Rangel manipulou a realidade histórica e política, pois sabe que tem dentro do partido pessoas que convivem muito mal com a independência e autonomia do poder judicial, a começar por alguns dos antigos setores cavaquistas e a acabar em Rui Rio, que a direção do PSD quer meter em Belém.

Ainda o PSD e Sócrates

Que se passa? Passa-se que o tiro de Rangel, em parte, saiu pela culatra. Ter o DN e o mano Costa a apontarem baterias contra a enésima calúnia da direita a respeito do PS deixou o caluniador-mor à beira de um ataque de nervos. Assim não, veio ele a correr berrar para o laranjal. Continuem o mais sonsos que puderem que nós tratamos aqui do trabalhinho diário de apascentar os borregos. Nada de chamar as atenções para o que realmente se está a passar: foi preciso termos uma Maioria, um Governo, um Presidente e uma Procuradora-Geral do PSD para se prender um ex-primeiro-ministro socialista, ex-secretário-geral do PS, num ano eleitoral e sem provas. Evidentemente, segue a lógica, isto com o PS não se passaria. Mas, às tantas, não se passaria porque com o PS não haveria qualquer possibilidade de interferência na Justiça, como a sucessão imparável de casos judiciais a envolverem Sócrates demonstrou ao longo dos anos em que teve poder político, poderão alguns pensar. Eis o receio do Dâmaso.

O louvor a Costa é também um primor. Ali para os lados do esgoto a céu aberto aprecia-se a passividade demonstrada, e dá-se um rebuçado como prémio: nem todos os socialistas são iguais na maldade, que absurdo; obviamente, há socialistas com muito mais maldade, muito mais ruins, do que outros, então não se vê logo?!

Dâmaso avisa que, caso se continue a estragar a operação Sócrates, ele até é menino para vir falar de uns fulanos do PSD “que convivem muito mal com a independência e autonomia do poder judicial”. Quem serão, não sabemos, dado que no CM nunca apareceram. Mas o Rio que se cuide. Ou se portam bem ou até essa vedeta leva nas orelhas.

Este Dâmaso não se atrapalha. O sal das calúnias conserva o País atrofiado e aumenta a sede por mais. Ai de quem lhe estragar o negócio.

Não são os números, são as imagens, estúpido

A sexta carta de Costa aos indecisos – EMPREGO, A CAUSA DAS CAUSAS – é melhor do que as anteriores. Abre com um registo personalizado, em vez dos registos genéricos e abstractizantes, e expressa uma emotividade que, por estar inserida na voz própria, se aceita genuína. O tema também ajuda, pois nada há para justificar, só para prometer. Ocasião para referir outra pecha transversal ao conjunto das cartas.

Ironicamente, é Costa quem assina a frase “Há que saber ler os números, sobretudo os bons indicadores, de modo a evitar ilusões que nos afastem das prioridades certas“. De facto, o senhor está coberto de razão. Primeiro, porque são poucos os que sabem ler os números – sejam esses números quais forem, quanto mais os da economia. Depois, porque serão ainda menos os que conseguirão ler os bons indicadores de modo a evitar ilusões que nos afastem das prioridades certas – tarefa do camandro, homérica, a qual será inevitavelmente combatida por interpretações concorrentes. Quando se misturam indecisos nesta betoneira, o que sai é uma conclusão rudemente concreta: alguém terá de ajudar a malta a ler os números.

Espanta que estas peças não recorram a nenhum tipo de infografia, optando antes por deixar para um texto denso a despesa da assimilação de ideias com graus de complexidade sempre acima das capacidades do leitor médio. Tal leva a que apenas jornalistas, para fins de citação e resumo, consigam aproveitar a informação publicada. Os pobres coitados dos indecisos ficam obrigados ao estudo aturado das cartas apenas com os seus recursos de literacia à disposição. Ora, a infografia, enquanto disciplina de comunicação, tem como vocação criar acessos à complexidade da forma mais económica, tanto de esforço cognitivo como de tempo. Estar em 2015, a liderar a oposição, com elevadas probabilidades de vencer as eleições, e comunicar como se o ano fosse 1815 e nada existisse à disposição dos políticos senão papeis carregados de palavras é mais do que uma curiosidade. É assunto que merecia estudo.

Será que a este PS já chegou a boa-nova da invenção da Internet?

Justiça popular, pede Rangel

Acresce que nem todos terão percebido, mas o programa de ajustamento, com o seu tremendo rigor, criou um clima de exigência e de moralização na sociedade. E isso deu força aos cidadãos para reclamarem um comportamento exemplar e a punição de todos os abusos. E com isso, criou um ambiente e uma cultura favoráveis a uma actuação mais vigorosa das magistraturas. A par disso, a atitude de reserva e neutralidade do Primeiro-Ministro, o apego da Ministra da Justiça à autonomia da investigação e da independência judicial criaram um clima de desanuviamento. Insisto: a perseguição dos poderosos na política ou na finança não é obra do governo, mas o clima social, a disposição popular e atitude dos responsáveis políticos criam um ambiente favorável a um exercício são e pleno da justiça. Foi isto que disse e é isto que reitero.


Apenas mais um pulha na cultura da pulhice a que está reduzida a direita portuguesa

Haja alguém que faça chegar este pedido à Procuradora-Geral da República, faxavor

Ficámos a saber, por revelação do eurodeputado Paulo Rangel, que as investigações criminais sobre Ricardo Espírito Santo e sobre Sócrates existem por obra e graça do Governo PSD-CDS. Ora, como é suposto que, de acordo com a Constituição, a investigação criminal é conduzida de forma independente pelo Ministério Público sem ingerência governamental, impõe-se urgentemente que a Procuradora-Geral da República esclareça que não recebeu nenhuma instrução ou recomendação do Governo (Ministro da Justiça ou Primeiro-Ministro) sobre os dois casos.

De outro modo fica a pairar uma grave dúvida sobre o respeito da separação de poderes pelo atual Governo.


Dupla revelação

A austeridade dava um livro

Na quinta carta aos indecisos – VIRAR A PÁGINA DA AUSTERIDADE, RELANÇAR A ECONOMIA – a matéria prestava-se a uma lição magistral. Afinal, se há questão da actualidade política que provoca mais dúvidas, mesmo entre supostos peritos em economia, é essa da racionalidade das políticas austeritárias seguidas na Europa a partir de meados de 2010. Inevitáveis? Duvidoso. Eficazes? Ainda mais duvidoso. De quem é a culpa? A direita diz que é do PS. O PS, desde Junho de 2011, nada diz.

A metáfora usada neste texto para [não] contar a história da austeridade em Portugal consiste na expressão “virar a página”. Impossível ser mais transparente: há que deixar o passado no passado, na página anterior, e tratarmos do futuro. Já chega de escarafunchar no PEC IV e no Memorando. Passemos para uma nova fase. Avancemos libertos dessa canga e dessa ganga. Viremos a página, pedem os socialistas.

Este absentismo, esta auto-anulamento, tem consequências eleitorais. Ao abdicar de lutar pela sua narrativa acerca das circunstâncias que nos levaram para a forma mais radical da austeridade, onde à Troika se juntou um Governo de fanáticos pelo empobrecimento, o PS deixa que se sedimente a ideia de que austeridade é o justo castigo pelos pecados cometidos enquanto Sócrates governou. Com isso, perde a razão moral para criticar o Governo quando este alega que teve de tomar as medidas que tomou por causa dos erros que herdou e por causa da necessidade de salvar o País. Resultado: o tópico do “foram além da Troika” perde impacto, relevância e até sentido. E não só, as próprias medidas de recuperação económica, essa promessa de meter mais dinheiro no bolso da classe média, ficam sujeitas à acusação de serem o regresso ao tal passado que nos trouxe a bancarrota, a austeridade e o sacrifício do Pedro para nos salvar.

Esta carta é mais um clamoroso falhanço político e de comunicação. Se os seus eventuais leitores fossem interrogados no final da leitura acerca do que o PS pretende fazer para “virar a página da austeridade”, não haveria um único que conseguisse dar uma resposta satisfatória. Nem mesmo a olhar para a página.