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Shame on you, Mr. Guterres

Ontem lancei o desafio, gorado, para se descobrir o que faltava na capa do Correio da Manhã desta segunda-feira. Em falta estava uma referência, por mínima que fosse, à ida de Guterres a casa de Sócrates, ocorrida no domingo. Horas depois, na RTP, Octávio Ribeiro – sem contraditório de nenhum dos presentes, nem sequer do Miguel por não ter sido eficaz, e vendo a sua prática ser consagrada por um professor da Católica – justificava a perseguição a Sócrates (portanto, ao PS) com o princípio do direito de informar. O público, no que diz respeito a Sócrates, tem interesse em saber o que come, com quem tem ou não tem relações sexuais e qual o preço dos ténis que usa, entre outros tópicos populares. Vai daí o Octávio manda a sua equipa de investigação investigar. Se essa equipa, no afã de servir o público, tiver o contributo de algum indivíduo com acesso a processos judiciais onde essas informações constem total, parcial ou indiciariamente, tanto melhor. Tanto melhor porque se poupa tempo, e tempo é dinheiro. Se as informações resultarem de escutas, perfeito, pois até dará para publicar os diálogos e tudo, um produto sempre com muita procura por parte do público. A questão de saber se alguém está a cometer crimes ao violar o segredo de justiça, por um lado, e ao violar a privacidade dos cidadãos, pelo outro, já não preocupa Octávio dado colidir com o sacrossanto direito de informar. Informar o que ele quiser de quem ele quiser. Hoje, Sócrates. Amanhã, logo se vê. Será de acordo com a sua interpretação do interesse do público, pois claro.

É neste quadro que a omissão a Guterres fica como uma janela para espreitarmos para dentro da cabeça de um pulha. Aos pulhas faz muita confusão esta coisa de estarem a ver o Guterres a ter a coragem de ser visto como alguém que se diz amigo do monstro. Ainda por cima, um amigo que não se importa de furar a barreira dos jornalistas pizzeiros para entrar dentro das instalações onde o monstro está a planear as suas futuras monstruosidades. E logo o Guterres, que aborrecimento, o tal fulano que desistiu de ser o próximo Presidente da República, dado como vencedor antecipado, e que anda por aí com uma carreira internacional tão prestigiante que até corre o risco de vir a ser o próximo secretário-geral da ONU. Será que Guterres não vê que poderá deitar tudo a perder com estas provocações ao interesse do público, calhando chegar a Nova Iorque a notícia das suas más companhias? Será que ao Guterres não bastaram as duas visitas a Évora, quando até uma já teria sido de mais, era ainda preciso mais esta em Lisboa? Ou será que, como dirá um dia destes o caluniador pago pelo Público, Guterres está é a tentar que o monstro não o envolva na roubalheira dos milhões, ou, segunda e última hipótese, está a tentar que o monstro se cale até às eleições para não prejudicar Costa, tento lá ido a mando deste? São estas as questões que afligem um pulha que se preze, daqueles pulhas com responsabilidades perante o público. Foi por isso que o Octávio resolveu evitar que os leitores do esgoto a céu aberto ficassem tão confusos como ele. Informar é uma coisa, andar para aí a lançar a confusão, isso é outra coisa. E o Octávio não alinha em confusões, as coisas querem-se simples. Aliás, quão mais simples, mais o público fica informado acerca da realidade. Então, resolveu colocar na primeira página que “Sócrates conta com o apoio de Lígia”, o que é uma informação não só interessante, mesmo importante, como também, e acima de tudo, simples. Infelizmente, Guterres parece ter gosto em complicar o que o Correio da Manhã trabalha diariamente para tornar acessível ao público.

Contamos contigo, Octávio

A vontade de fazer um debate na televisão pública, a 3 semanas das legislativas, usando como lançamento uma calúnia imunda contra o PS e contra o sistema de Justiça não é má à partida. À partida parece apenas oportunismo indecente, pretendendo-se entrar no circo onde se explora sensacionalisticamente o tema Sócrates, mas ainda assim poderá dar origem a um acrescento de salubridade no espaço público. Para tal, o senhor Rangel deve participar, nem que seja à força, e depois desenvolver o que apenas deixou como aperitivo, provocação. O que falta é o naco substantivo onde ele se apoia para justificar o alarme público que lança para cima dos cidadãos: a suspeita, proclamada por um dos mais importantes políticos portugueses, de que há magistrados que se deixaram, ou deixam, corromper por políticos, e que os políticos corruptores são do PS.

Na ausência de Rangel, Passos Coelho, que concordou com ele na ocasião, também serve. Se nenhum dos dois puder, vamos ter de nos contentar com o Octávio Ribeiro. Mas então que não se deixe sair o homem do estúdio enquanto não provar pelo menos uma das caudalosas calúnias que irá bolçar em palco.

Passos com medo de Costa

Esta peça do Bernardo Ferrão – Sai um memofante para o PS – é um exemplo não só descarado como divertido do que é o spin. Este amigo vem repetir o sofisma a que Passos se agarrou para responder à denúncia de Costa: quem é o responsável pela vinda da Troika é quem a chamou no plano institucional, o Governo socialista. Lembremo-nos das declarações de Teixeira dos Santos, Sócrates e Soares, despeja no limite da gargalhada o Ferrão. E, de facto, quem é que as pode esquecer? Quem é que pode esquecer uma das piores decisões políticas de toda a história da democracia em Portugal? Só mesmo a direita e a esquerda pura e verdadeira, a tal patriótica coligação que preferiu afundar o País com o chumbo do PEC IV, a que se seguiu a maior fraude eleitoralista de que temos memória – e podes trazer, ou tomar, o Memofante que quiseres, ó Bernardo, que não se encontra outra maior, sequer parecida.

Ora, estamos perante um cómico de vocação. O caramelo, durante a governação socialista, trabalhava na SIC como “repórter”. A sua única função era perseguir Sócrates e aproveitar as oportunidades onde o então primeiro-ministro respondia aos jornalistas para o insultar e achincalhar. Isso era feito com alguma habilidade para não dar origem a um protesto formal do PS ou do Governo, o que acabaria com a brincadeira. Porém, o sentido das suas questões, e o modo como as colocava, fazia parte de uma encenação que de jornalismo nada tinha, só de chicana. Entretanto, tal como acontece na progressão dos bófias nos filmes americanos, deixou de andar pelas ruas e passou para o escritório. Com o laranjal a tomar conta disto, já não há cá gozações com a gente séria e trabalhadora, sacrificada, que nos governa com heroísmo. Pelo que o Ferrão aparece agora como comentador político, só para malhar na oposição, e presta-se a estes serviços.

O serviço consiste no seguinte: perante a ameaça de que Costa volte à carga com o episódio em que o PSD de Passos preferiu ir logo ao pote em vez de atender ao interesse nacional, e até ao internacional, há que tentar afastar esse tema do próximo debate entre os dois. E porquê? Porque é um terreno onde Passos não tem defesa possível, seja pelos seus actos como pelas suas palavras. E porque é a origem, no espaço e no tempo, da inacreditável deturpação das eleições de 2011, com as consequências inerentes. As suas mentiras, de forma objectiva e trágica, começam com o chumbo do PEC IV. Sobrando algum Memofante para o palhaço de serviço, será até possível repescar as mentiras de Relvas, Passos e Cavaco em cima do vulcão, a jurarem que não tinham sido avisados do acordo entre Portugal e a Europa, e que, por isso, o iam chumbar. No entanto, Cavaco sabia e Passos chegou a reunir-se com Sócrates antes de as medidas serem anunciadas, onde consta que este lhe garantiu poder formar um Governo de coligação com ele ou irem para eleições logo a seguir à aprovação do PEC. A dimensão da velhacaria e perfídia a que chegou a direita nessa golpada só é rivalizada pelo espantoso silêncio que se faz nestas eleições a respeito desses dias de traição.

No excerto abaixo aparece tudo explicado. A hipocrisia do argumentário do PSD para chumbar o PEC e a verdadeira razão que levou Marco António Costa a chantagear Passos – é que o PSD acreditava que Sócrates, caso tivesse o PEC IV aprovado, conseguiria evitar o resgate. Se o conseguisse, o PSD não voltaria ao poder tão cedo.

Recorda lá, no teu pasquim, esta parte da história, Bernardo:

O presidente da Comissão Europeia comunicou privadamente ao líder do PSD que discordava por completo da estratégia do partido depois de Passos Coelho ter anunciado que era intenção dos sociais-democratas chumbar as medidas de austeridade do Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) IV, apresentado pelo executivo em Bruxelas em Março. Nos argumentos de Durão Barroso, o pedido de ajuda português era inevitável e devia ser accionado pelo governo de José Sócrates ainda antes do Verão, quando os empréstimos de Junho tivessem de ser pagos pela República. Para o presidente da Comissão Europeia, o PSD poderia abster-se no parlamento na votação do PEC, não se comprometendo com qualquer medida que vinculasse o partido para 2012 e 2013. O congelamento das pensões, por exemplo – o ponto mais controverso para Passos Coelho – só teria efeitos práticos a partir do próximo ano. Viabilizando o PEC e pré-anunciando um chumbo ao Orçamento de 2012, Passos Coelho conseguiria, na opinião de Barroso, evitar um crise política nesta fase, ganhar tempo para que fosse o actual governo a fazer o pedido de ajuda externa e conquistar capital político na opinião pública para precipitar posteriormente eleições.

“Mas Passos Coelho estava a ser pressionado internamente”, disse ao i fonte próxima do presidente da Comissão Europeia, “e respondeu que não havia garantias de que o governo fosse mesmo pedir ajuda”.

Durão Barroso pressionou Passos Coelho para aprovar PEC IV

Quando a televisão nos trata muito bem

Aconteceu-me o mesmo que ao João Lopes: vi por acaso, achei que estava muito bem esgalhada e emocionei-me. Aliás, o próprio arco narrativo está construído num crescendo emocional duplamente perfeito, por corresponder à gradação do ciclo das idades e da gravidade dos casos. Ele dá conta do seu pensamento aqui: Uma reportagem realmente televisiva

A reportagem, em versão enriquecida pelo acrescento de explicações que podem ser consultadas em contexto durante o visionamento, está aqui: Os Tratadores

Grandes sucessos do avô cantigas

O economista Eduardo Catroga afirmou que a negociação do programa de ajuda externa a Portugal “foi essencialmente influenciada” pelo PSD e resultou em medidas melhores e que vão mais fundo do que o chamado PEC IV.

Fonte

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Catroga reafirma influência positiva do PSD no acordo com a “troika”

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O economista Eduardo Catroga afirmou hoje que o PSD terá autonomia, se for Governo, para substituir eventuais “medidas penalizadoras para os portugueses” do programa de ajuda externa a Portugal por outras que cumpram os mesmos objetivos.

Fonte

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Eduardo Catroga assume compromisso de que o PSD não vai subir o IVA

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«Tivemos uma reunião altamente frutuosa com a troika, que percebeu a nossa atitude diferenciadora, de defesa do Estado social. O PEC 4 ataca pensões, não falava em reduzir o gordo estado paralelo…»

Catroga

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Catroga garante que não haverá despedimentos na função pública se o PSD for Governo

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Eduardo Catroga critica a atitude do Governo que se «apresenta como vítima e como vencedor de uma negociação que foi sobretudo negociada pelo maior partido da oposição». «O PSD deu um grande contributo para este processo. Portugal vai ter uma grande oportunidade para fazer as medidas que se impõem, para dar esperança», disse ainda.

Fonte

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Eduardo Catroga insiste que os jovens licenciados deviam levar Sócrates a tribunal

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Repare: o Hitler tinha o povo atrás de si até à derrocada, até à fase final da guerra. Faz parte das características dos demagogos conseguirem arrastar multidões. José Sócrates, honra lhe seja feita, é um grande actor, um mentiroso compulsivo, que vive num mundo virtual em que só ele tem razão. Tem uma máquina de propaganda montada há seis anos, poderosa. E o PSD tem uma máquina artesanal no campo da comunicação.

Catroga

Revolution through evolution

Rudeness damages medical staff performance
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Adolescents more economically rational than young adults
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Facebook data suggests people from higher social class have fewer international friends
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Cocoa flavanols lower blood pressure and increase blood vessel function in healthy people
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How hashtags and @ symbols affect language on Twitter
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Female mice sing for sex
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When it comes to touch, to give is to receive
Continuar a lerRevolution through evolution

A última trincheira

O Bloco Central voltou das férias e trouxe duas novidades: mudança de horário (irrelevante) e uma bacorada gigante do Pedro Marques Lopes (relevante). Aconteceu esta quando o respeitável, estimável e admirável Pedro considerou como uma das maiores falhas de Costa no debate com Passos o bate-boca sobre quem tinha sido responsável pela vinda da Troika. E manifestou a sua incredulidade por Costa estar a insistir nessa questão quando toda a gente sabe que foi o Governo socialista a fazer o pedido de resgate. A mesma lógica seguiu Passos no debate e rescaldo, agarrando-se à objectividade histórica para contra-atacar. E nos dias seguintes vimos os direitolas a repetirem a lengalenga.

Pois. Só que Costa não disse que foi o PSD quem chamou a Troika, como não poderia dizer sob pena de não poder continuar em campanha e ter de ir tratar-se. O que ele disse foi que o PSD quis a vinda da Troika, na intenção de a usar como aliada e disfarce para o programa de empobrecimento que escondeu do eleitorado em 2011. Basta rever o vídeo. No diálogo, e perante a insistência de Passos de que não tinha sido o PSD a pedir o resgate, Costa termina essa troca de palavras dizendo “Também…” – ou seja, e no contexto, é verdade que o Governo socialista é o responsável institucional pelo pedido que se viu obrigado a fazer, pois só o Governo é que o poderia fazer face à Lei, mas o PSD também é responsável no processo, tem uma responsabilidade política que pede avaliação política neste período eleitoral.

Do Pedro Marques Lopes, num absoluto contraste com o Pedro que nos traiu, não se pode dizer que sofra de desonestidade intelectual. Pelo que a única explicação para este teatro do absurdo tem de ser do foro cognitivo. É inevitável que os gostos, os afectos, os preconceitos condicionem a assimilação da informação, dando origem a uma versão deturpada da realidade de forma espontânea. Terá acontecido isso até a quem faz da interpretação de discursos e eventos políticos parte da sua vida profissional, naturalmente. Porém, igualmente se pode dizer que Costa poderá ainda trabalhar melhor esse tão importante argumento eleitoral.

A colagem da direita, especialmente do PSD, ao FMI, à Troika e ao Memorando foi feita com abundância de descaramento e racionalizações. Na altura, a invasão estrangeira vinha salvar a Pátria daquele que era insultado por dirigentes e notáveis do PSD como Hitler, Saddam e Drácula. O laranjal oferecia-se sedento e guloso para ser o capataz que iria meter na ordem os mandriões e esbanjadores. Uma das mais extraordinárias declarações nesse sentido foi feita pelo próprio Passos:

«É curioso que o programa eleitoral que nós apresentámos no ano passado e aquilo que é o nosso Programa do Governo não têm uma dissintonia muito grande com aquilo que veio a ser o memorando de entendimento celebrado entre Portugal, a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional», declarou Passos Coelho, durante uma sessão com militantes do PSD sobre a revisão do programa do partido, num hotel de Lisboa.

Depois de acrescentar que o diagnóstico da situação do país feito pelo PSD «não estava muito desviado da observação atenta especializada que o Banco Central Europeu, a Comissão Europeia e o Fundo Monetário Internacional tinham», Passos Coelho concluiu: «Quer dizer, há algum grau de identificação importante entre a opinião da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional e o que é a nossa convicção do que é preciso fazer».

Segundo o presidente do PSD, por esse motivo, «executar esse programa de entendimento não resulta assim de uma espécie de obrigação pesada que se cumpre apenas para se ter a noção de dever cumprido».

«Por isso, não fazemos a concretização daquele programa obrigados, como quem carrega uma cruz às costas.»

«Nós cumprimos aquele programa porque acreditamos que, no essencial, o que ele prescreve é necessário fazer em Portugal para vencermos a crise em que estamos mergulhados», reforçou.

Isto foi dito em 2012, nas vésperas de Gaspar descobrir que tinha errado na receita. Assim que no Governo se deram conta do buraco sem fundo em que se estavam a enterrar, mudaram radicalmente de estratégia de comunicação e passaram, maníaca e diariamente, a castigar o PS por ter “chamado a Troika” e ser quem “negociou o Memorando”. Ora, recordar esta história, que inclui o chumbo do PEC IV e a coligação negativa que deixou um Governo minoritário boicotado e a ser queimado num dos mais difíceis períodos internacionais de que há memória viva, tem máxima importância. A dimensão das mentiras que foram usadas por Cavaco, Passos e Portas resultaram no além-Troika cujas contas igualmente deveriam estar a ser exibidas.

Quantos vidas se degradaram – e perderam – por causa da traição cometida pela direita portuguesa em 2011? Como estaríamos em 2015 se o Memorando tivesse sido cumprido sem fanatismo ideológico e revanchismo partidário? E sabendo hoje o que sabemos que aconteceu durante os 4 anos, a acção do BCE e a baixa do petróleo, quem é que pode negar que o mais inteligente para os interesses da comunidade seria, indiscutivelmente, a aprovação do PEC IV, seguido de eleições ou de um Governo de coligação?

É por isto que o culto do medo e do ódio – e a sistemática diabolização de Sócrates, aquele que lutou até ao limite da sua resistência psíquica contra a vinda da Troika – é a última trincheira onde os pulhas ainda resistem depois da colossal destruição que causaram.

Aquila non capit muscas

Vítor Gonçalves é um daqueles jornalistas com grande influência (no caso, podendo entrevistar os protagonistas políticos na televisão pública) que não esconde as suas preferências ou aversões partidárias. Ou talvez seja mais correcto dizer que não as consegue esconder, dado que o homem é um bom bocado tosco. Ontem, resolveu ir entrevistar Costa como se fosse o advogado da direita a interrogar um arguido em tribunal. Aquilo que Passos não tinha conseguido fazer, ou onde tinha levado porrada, este Gonçalves propôs-se pegar nisso e fingir que estava a fazer jornalismo. Mas não estava, quis fazer política. Mais uma vez. E logo na RTP.

Costa vinha de uma noite triunfal. Talvez por isso, ou apesar disso, não se conseguiu controlar. Ao detectar que não estava numa entrevista imparcial mas num debate com um adversário, respondeu com indignação. E essa indignação ficou-se pela expressão da agressividade. Em consequência, o jornalista reagiu defensivamente à agressividade e aumentou os automatismos respectivos do conflito emocional em que se enredaram. Acabou por ser Costa quem perdeu, nem que fosse por ter lançado um osso aos direitolas famélicos que voltaram a ter o que roer durante um bocadinho. Mas a sua falha merece análise, pois se liga também com a sua vitória no debate com Passos.

A melhor forma de lidar com uma situação como aquela criada pelo Gonçalves teria sido o recurso à bonomia implacável. A bonomia tem um duplo benefício: gera simpatia na audiência e aumenta os recursos cognitivos, permitindo reacções e opções mais criativas, tanto no discurso verbal como no não-verbal. Inversamente, a reacção defensiva agressiva diminui o campo das opções por se concentrar na imposição da força. Mostrar que as perguntas do jornalista obedeciam a uma lógica concorrencial e não jornalística poderia, através da ironia e do sarcasmo dirigido à acção mas não ao agente, ser feito de forma implacável no aproveitamento das mesmas para transmitir as ideias do programa socialista. Caso o jornalista insistisse na sua agenda, e ele insistiria pois não levava outra, a sucessiva desmontagem da sua má-fé geraria um crescendo de fragilização para o entrevistador e de autoridade para o entrevistado.

A ligação do ontem com o anteontem está na ponderação do que deu a vitória unânime a Costa sobre Passos: a percepção de que esteve ao ataque. Costa atacou, Passos defendeu-se (ou nem sequer se defendeu pois alguns dos ataques não tinham defesa possível). Até quando Passos atacou (Sócratesx12) foi Costa que ganhou um assalto mais importante do que a própria batalha. Isto funcionou porque o páreo era entre iguais, primeiro, e porque os ataques eram legítimos, sendo esta a razão principal. Se algo aqui fez de errado, foi tão-só por não ter ido ainda mais longe, pois quanto ao tom, ao modo e ao conteúdo, Costa esteve perfeito na forma como se superiorizou ao concorrente.

Alguém poderia explicar ao actual secretário-geral socialista que ele tem uma comunidade inteira à espera que se indigne com o que se deve indignar e pelas boas razões para estar indignado. Quando entra nesse registo, até a sua torturada dicção parece desaparecer e a sua imagem de chefe combativo transmite somaticamente convicção e segurança, a tal confiança que promete ao eleitorado. Uma confiança que nasce quando se mostra que se tem coragem, força e habilidade para lutar. Um debate – portanto, uma campanha – não é uma disputa académica ou um julgamento judicial, nem sequer o eleitorado quer ser esclarecido acerca do programa seja de quem for. Se quiser, que os leia, pense neles e discuta com os amigos ou no café. O que está em causa nas eleições é a escolha do líder e a percepção do voto que antecede e gera o voto nas urnas. Tal voto antes do voto é aferido imediatamente a cada presença dos concorrentes, por maioria de razão quando se confrontam presencialmente.

Durante anos, com o alto patrocínio do Presidente da República, fez-se uma campanha contra dois Governos sob a égide da mentira. O primeiro-ministro de então era um super-mentiroso sem carência de se mostrar em quê e os governantes socialistas mentiam em tudo o que diziam, até mesmo quando referiam dados de instituições internacionais, também a mentir caso lhes desse para apresentarem uma visão positiva fosse do que fosse. O tal Presidente do “falar verdade aos portugueses”, o partido da “Política de Verdade” e das “gorduras do Estado”, os partidos restantes à direita e à esquerda abraçados no coro “Sócrates é mentiroso”, a comunicação social em uníssono e fúria, todos se aliaram para derrubar quem fez o que pôde para evitar males maiores à população por causa de tempos históricos extraordinários em todo o Mundo e na Europa. Com isso, os paladinos da verdade colocaram no poder quem fez da mentira o meio e o fim da sua estratégia. Nunca houve um Governo assim, onde todo o edifício da acção executiva, de facto, assenta em mentiras passadas e presentes. Só não se pode dizer que assenta em mentiras futuras porque esta gente nem programa tem. Eis o sedimento onde se funda a derrota de Passos. E daí a perplexidade por não se ter feito a campanha neste terreno, aquele onde Costa mostrou ser capaz de voltar a dar esperança ao seu partido e ao País.

Medina impecável a lidar com o tema Sócrates

Fernando Medina considera que as declarações de Sócrates, onde se diz vítima de uma conspiração para prejudicar o PS nestas eleições, nascem da situação anómala em que se encontra. Prender-se um ex-primeiro-ministro num ano eleitoral e deixá-lo mais de 9 meses numa cela sem o acusar de nada, nem nada explicando à sociedade, é anómalo seja qual for o ponto de vista.

É assim que um político deve falar da Justiça calhando uma personalidade do seu partido estar sob suspeita judicial: no confronto com os factos presentes, não com os futuros. Os factos futuros trarão uma acusação ou um arquivamento. No caso de trazerem uma acusação, logo se verá qual e como se sustenta. Por agora, o tempo é o de lidar com a prisão de um inocente e a exploração política que esse processo tem permitido.

Medina não se pronunciou sobre o desfecho do caso, o que seria irracional. Mas, no cumprimento da sua vocação e dever como político, denunciou a demora da Justiça que introduziu as perversões que se constatam diariamente. Em que outro caso judicial, na história da Justiça em Portugal, se viu existirem órgãos de informação, e jornalistas avulsos, em campanha permanente para a condenação na praça pública de um arguido – e isto ao longo de anos e anos, culminando nesta orgia mediático-justiceira da “Operação Marquês”?

Medina não o chegou a dizer, mas aposto que concordará: mesmo no cenário hipotético em que Sócrates venha a ser acusado e condenado seja lá do que for, o que se fez com ele continuará a merecer denúncia e castigo.

Troika-tintas

Pedro Passos Coelho, e o PSD, na altura na oposição, tiveram um papel activo na convocação da troika. A 31 de Março de 2011, quando Sócrates ainda rejeitava o pedido de empréstimo, Passos Coelho assinou uma carta oficial do PSD, que escreveu com Miguel Macedo, e foi entregue pelos serviços de protocolo, defendendo o pedido de "resgate". Destinatários: Sócrates e Cavaco Silva. No dia seguinte, 1 de Abril, os mesmos destinatários receberam outra carta de teor idêntico, desta vez subscrita pelo governador do Banco de Portugal, Carlos Costa. No dia 2, Paulo Portas, líder do CDS, declarou à agência Lusa o seu apoio à ideia: "Não faço parte dos que diabolizam o FMI."

Dois dias depois, a 4, os principais banqueiros portugueses à época (Ricardo Salgado, Carlos Santos Ferreira, Faria de Oliveira, Fernando Ulrich e Nuno Amado) reuniram-se com Carlos Costa, na sede do regulador, e, de seguida, dirigiram-se para o Ministério das Finanças, onde fizeram o mesmo pedido ao ministro Teixeira dos Santos.

A prova dos factos: afinal, quem chamou a troika em 2011?

És um infeliz, ó pá

O caluniador pago pelo Público saiu-se hoje com esta coisa:

Quando Mário Soares vai visitar José Sócrates três vezes em três dias consecutivos, não é certamente para averiguar se ele se está a adaptar bem às suas novas instalações – Soares está a desempenhar o velho papel de figura tutelar do Partido Socialista e a servir de ponte entre Sócrates e António Costa. Que é como quem diz: Soares está a fazer o que pode para que o animal feroz não saia da jaula antes das eleições de 4 de Outubro.

Fonte

Se esta cagada fosse apenas um pensamento a compor a paisagem interior do caluniador, e calhando tropeçar-se nela, o interesse não ultrapassaria a esfera psiquiátrica e zoológica. Como isto aparece na forma de um texto assumido como representativo do que um jornal dito de referência considera opinião de qualidade, o interesse passa a ser político por via da sua influência no espaço público.

Soares já vai na quinta visita a Sócrates, uma por dia desde domingo, segundo afiança o esgoto a céu aberto. O que se vê em Soares, especialmente desde a encefalite, é a galopante degradação das capacidades físicas e cognitivas. Qual a sua extensão e profundidade, isso não pode ser medido por leigos, muito menos pelo que nos chega através da comunicação social. Contudo, basta o encontro fortuito de dois neurónios no cérebro de um qualquer caluniador para se ter de concluir estarmos perante um idoso a passar por uma fase de agudo declínio que, previsivelmente, será irreversível. Para agravar a sua condição, acaba de perder Maria Barroso, o que também muito previsivelmente será causa para estados depressivos ou tão-só para uma tristeza e desamparo a pedir a companhia de quem o ama, estima e admira. Este o quadro onde a sua ligação a Sócrates se justifica, antes de tudo o resto concebível, pela dimensão afectiva e existencial a ligar essas duas personalidades.

Para o caluniador, Sócrates e Soares não podem ser considerados como vulgares pessoas a mostrarem naturais laços de amizade, companheirismo, até camaradagem e amparo mútuo. O caluniador, para ter estômago para o serviço, não os pode aceitar como seres humanos, como consciências e vontades livres. De um lado, temos o monstro. Do outro, a marioneta. O monstro quer sair da jaula para atacar, destruir, matar. A marioneta está ao serviço de Costa, o qual tem medo do monstro e, portanto, serve-se do velhinho para não sei quê. E isto resulta. Ou não. Para o caluniador é indiferente. Porque ele vai sempre voltar a escrever e a berrar que tinha razão, aconteça o que acontecer. A carreira de um caluniador profissional, como se vê, é um descanso por não carecer de responsabilização. Vale tudo.

O caso deste caluniador merece atenção dada a produção maníaca de calúnias a que se dedica no meio em causa. Não é o único, há uma legião de caluniadores iguais nessa indústria ao serviço do laranjal, mas basta que escrevam em pasquins para que o carimbo já esteja a ser posto na sua tola por eles próprios. Quando se vende veneno destes na imprensa que pretensamente se respeita como imprensa, há que reagir. O soez, cínico, raivoso ataque a Soares dá-nos a ver como a mera empatia que se tem por um estranho não é compatível com os mecanismos de produção do ódio com que se faz este tipo de chicana. Se fosse um caso isolado, não valeria a pena falar do infeliz. Como ele faz parte da máquina que anda há anos a emporcalhar o espaço público desfrutando de larga exposição mediática, ficar calado é ser cúmplice da transformação de Portugal num país infestado de pulhas.

Ironia e maiêutica para as 20.30

O melhor momento da Catarina, no debate de ontem, foi quando anunciou que tinha uma pergunta para fazer a Portas. E fez mesmo, ficando tranquilamente à espera de uma resposta que nunca veio. Portas engasgou-se, esperneou e tentou fugir por onde se conseguisse enfiar. Contou com a ajuda involuntária da Ana Lourenço que se colou ao desafio da Catarina e misturou o tema do corte dos 600 milhões. Apesar disso, o trunfo foi eficaz e vimos que nem Portas, mestre da frase de efeito e há décadas a virar frangos no campeonato da hipocrisia, conseguiu salvar a face da Coligação. Pura e simplesmente, não fizeram contas nem estão preocupados com isso. Há malta algures na Europa a fazê-las, eles apenas têm de vencer as eleições ou não perder por muitos de forma a voltarem a boicotar o próximo Governo socialista.

O recurso de colocar uma pergunta ao adversário é muito pouco usado em Portugal em debates. Porém, nas devidas circunstâncias, como as de ontem, é poderosíssimo. O alvo, ao não ter resposta, e ao não querer assumir que não tem resposta, enterra-se nas areias movediças da falsidade e do ridículo. O costume é vermos políticos que têm uma concepção geométrica do que é vencer o debate: ser aquele que ocupa mais espaço dentro do espaço limitado pelo tempo. Daí a pulsão para se interromperem, falarem por cima uns dos outros e falarem sem parar, só para não dar a palavra ao adversário mesmo que aquilo que se esteja a dizer valha menos do que esferovite numa lixeira. Resultado: apenas convencem quem já está convencido e trabalham para as suas claques. Todavia, o que realmente altera percepções e convicções é ter uma concepção aritmética do debate, onde vencer é não só apresentar cálculos correctos como mostrar que o cálculo do adversário está errado. 2+2 não poderão nunca ser 5 ou 3, ainda menos 1000 ou 0. Pelo que tal será demonstrável, e ficará na consciência da audiência a questão: aquele que está a mostrar contas erradas não sabe fazê-las ou quer enganar-nos? Em qualquer dos casos, vitória inequívoca para quem consegue expor o erro no discurso do adversário.

Imaginemos que Costa, na primeira oportunidade para falar no debate desta noite, dizia o seguinte ou uma qualquer variante do mesmo:

Vou aproveitar parte do meu tempo para permitir a Passos Coelho responder a uma pergunta que milhões de portugueses lhe querem fazer: por que razão sentiu a necessidade de mentir, e mentir tanto que acabou por mentir em tudo, na campanha eleitoral de 2011? O senhor deve-nos essa explicação.

Qual poderia ser a resposta de Passos a este desafio de Costa? Se optasse por se mostrar ofendido, não desmontando o ataque, estaria apenas a aceitar a factualidade de ser mentiroso e ter chegado ao poder através de colossais mentiras. Se dissesse que não conhecia a “realidade” na altura em que disse isto e aquilo, estaria a acrescentar mais mentiras, podendo ser de imediato desmentido por Costa dada a profusão de declarações de Passos e altos responsáveis do PSD, incluindo do avô Catroga, onde juravam ter “as contas todas feitas” e terem sido eles a influenciar decisivamente o Memorando. Pelo que a sua única resposta possível seria não responder, levantar-se e sair.

Costa não o fará, para grande sorte de Passos. Azar o nosso.

It’s not rocket science

Nota

O texto que se segue foi encontrado numa caixa de comentários do Expresso, assim se provando que ainda há quem acredite na absoluta democratização da opinião, como ocorre nesses ambientes. Mas o mais extraordinário, logo a seguir à opinião ela própria abaixo exposta, será descobrir quem é George Rupp. Se a identidade que assim assina os comentários no jornal for a mesma da vida real (coisa da qual nunca se tem a certeza na dimensão digital, mas que aqui não suscita qualquer dúvida imediata ou seguinte, chegando ao ponto de incluir uma foto), então estamos só perante um dos mais prestigiados cientistas portugueses na área da Física. Fica como curiosidade que não desabona a ciência, antes a política.

Como se sabe, o PS não seguiu a estratégia de julgar a golpada que levou ao resgate de 2011 e fazer dessa condenação política e moral o esteio do combate ao longo da legislatura. Nem com Seguro nem com Costa, para grande surpresa daqueles que votaram neste nas primárias. Ao se calarem perante esses acontecimentos, os líderes socialistas tornaram-se cúmplices do vil discurso da culpa e do castigo. E ainda pior: deixaram de ter uma explicação a dar para os resultados positivos na economia que viriam inevitavelmente a registar-se, por mais pequenos que fossem, depois de termos batido no fundo ou em resultado da conjuntura internacional.

Talvez um dia alguém estude o assunto e ainda faça uns trocos com um livro.

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Discordo de Ricardo Costa. O debate entre António Costa e Pedro Passos Coelho vai ser de uma extrema importância, independentemente de Sócrates fazer ou não fazer declarações esta semana. Costa tem de perceber que esta será a sua única oportunidade de definitivamente acabar com a pouca credibilidade que PPC ainda possa ter junto dos mais desinformados. Mas terá de falar claro, nomeadamente sobre o que levou ao resgate em 2011, um assunto que inevitavelmente será abordado no debate. Por isso, além de denunciar todas as promessas quebradas de PPC e o falhanço da sua governação, que apenas foi salva do descalabro total pelas intervenções de Mario Draghi no BCE a partir do verão de 2012 e também por algumas decisões do nosso Tribunal Constitucional, é imprescindível falar verdade sobre os acontecimentos de 2010 e 2011.
É preciso desmontar o mito de o PS ter levado o país à bancarrota em 2011, mito esse que faz tábua rasa das graves responsabilidades do PSD na derrapagem das nossas taxas de juro nos mercados financeiros, através de repetidas declarações de Passos Coelho em 2010 sobre a necessidade de pedir ajuda financeira, ao mesmo tempo que minava internamente o governo minoritário e fez aumentar o défice através de exigências para deixar passar o orçamento do estado para 2011. Mas o culminar da estratégia de PPC de se apoderar do "pote" foi naturalmente o chumbo do PEC-IV e o consequente derrube do governo, com base em argumentos que ele próprio engoliu logo no dia seguinte, ao assegurar em Bruxelas que iria assumir todos os compromissos do PEC-IV:
Miguel Portas - O farsolas e o pote - 2011/03/25
António Costa não pode deixar de falar sobre esta farsa. Não se trata apenas de ganhar as eleições. É preciso repor a verdade, por respeito aos portugueses.

George Rupp

Catarina leva Portas ao tapete

Portas, que se viu grego para saber o que dizer, que se refugiava em tábuas não largando os papéis, merece o que lhe aconteceu e merece pior. Haja quem continue este trabalho de salubridade política.

Ana Lourenço perdeu a paciência com Portas várias vezes. Pudera, os palhaços nunca souberam comportar-se à mesa.

Amanhã, Passos vai repetir a cassete. Está tudo à vista, é escolher onde e como se quer malhar.

Comunistas portugueses, espécie protegida

No sistema político português não há partido mais populista do que o PCP. O populismo é a anulação do debate democrático pela invocação de um argumento de autoridade onde se alega ter uma representatividade exclusiva da entidade “povo”. Tal pode ser feito indirectamente, como quando um partido ou agente político cavalga uma crise social e ataca moralmente a própria classe política para obter um ganho táctico (como o PSD, CDS e Cavaco nos anos de Sócrates, por exemplo), ou pode ser feito directamente, como no caso do PNR e do PCP, onde o corpo doutrinal, ou meramente retórico, estabelece a supremacia com base na reclamação da defesa do “povo” e suas configurações simbólicas e institucionais; como “Portugal”, a “Constituição”, o “patriotismo”, até a “democracia” entendida como “a democracia onde nós somos o poder”.

Jerónimo foi hoje ao Fórum TSF. Antes das perguntas dos participantes, saiu-lhe esta declaração: “Portugal tem um povo muito característico, que é uma das maiores riquezas que temos.” Poucos segundos depois dizia que temos de romper com a política que “durante décadas” levou o País à situação em que se encontra. Ora, deixa cá ver. O povo é “característico”, “muito” e uma “riqueza”, das “maiores”. Porém, aparentemente, essa riqueza de povo anda muito mal orientado, dado ter passado as últimas décadas a insistir em votar na direita em vez de dar o voto a quem o defende. A quem sabe quão rico, característico e, portanto, comunista, esse povo é. É isso, não é Jerónimo? Calma, escusas de responder. Saltemos para um assunto mais tangível.

A segunda pergunta que lhe chegou do povo ouvinte, ou talvez de um imperialista capitalista militante no PS, era dupla: sobre a saída do Euro, e sobre o financiamento às PME. Só se respondeu à primeira interrogação, sendo a segunda tão ou mais interessante para o público. A passagem começa ao minuto 14.20 e termina ao 20.03 – 5 minutos e 50 segundos em que Jerónimo diz tudo e o seu contrário, culminando numa sequência de raciocínios alucinante em que defende que a vontade popular não chega para que se realize a vontade popular. Só o Estado, desde que dominado pelo PCP, pode cumprir a vontade do povo.

Num outro nó cego maravilhoso, Jerónimo, para justificar a proposta do PCP para que Portugal saia do Euro, e mesmo da Comunidade Europeia, lembrou-se de agitar o espantalho da Grécia que ia sendo forçada a sair da moeda única por imposição da Alemanha; dramatizou mostrando o seu sincero desagrado pela maldade germânica, os brutos. Acontece que a Grécia não saiu – isto é, nem a Grécia, naquela situação económica e com aquele Governo, saiu – pelo que ficará como um mistério os mecanismos lógicos a operar no doce patriarca dos amanhãs que cantam. Onde não há mistério é na pulsão demagógica, pois o que fica do argumentário à volta da bandeira contra a Europa é que nem sequer o Jerónimo quer que alguma mudança drástica aconteça. O que ele pretende é que se inicie um “processo”, e depois, se bem conduzido, por malta operária à mistura com um ou dois marinheiros, e pelo tempo considerado necessário, algo que o Comité Central não terá dificuldade em estabelecer em nome do povo, então a coisa poderá resolver-se. Até lá, bute é malhar no PS, gozo do caraças.

O PCP anda há décadas a propor que Portugal abandone esse clube opressor onde nunca deveria ter entrado. Contudo, basta apertar um bocadinho com o seu secretário-geral para se ver como esse folclore comuna não passa de um forte medieval a desfazer-se, comido pelo salitre. Nesse sentido, os comunistas portugueses são uma espécie protegida. Protegida pelos jornalistas e pela direita.