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A batalha que tem sido perdida

No Fórum TSF falou-se hoje de Justiça. Nele, o presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público apresentou as suas queixas relativas a carências diversas, uma delas sendo a falta de gabinetes suficientes para os procuradores, promessa que vem de 2008 e não foi até agora cumprida. A presidente da Associação Sindical dos Juízes apontou à necessidade de um acordo de regime que acabe com a instabilidade causada pela mudança de políticas a cada legislatura ou mudança de ciclo político. Deu como exemplo dos problemas correntes a falta de salas em número suficiente para se realizarem julgamentos, entre outras carências relativas a instalações.

Mesmo que se admita como especialmente complexo e custoso atribuir à Justiça todos os recursos humanos há décadas solicitados para o cumprimento dos seus diversos serviços ao Estado, o que de si é já estranho face à reduzida dimensão orçamental do OGE do que está em causa e aos benefícios financeiros e económicos potenciais que gera ter uma Justiça muito mais rápida e eficaz, causa-me dilacerante confusão que seja possível privar magistrados de salas e saletas. Aqui, sim, e sem precisar de fazer qualquer conta, estamos perante um custo irrisório. Como é possível que a comunidade permaneça passiva, alheada, perante tamanho dano que diariamente é feito no património e existência de milhares ou milhões de pessoas?

De facto, sempre me espantou que nenhum partido – nenhum de nenhum, actuais ou desaparecidos – tivesse assumido essa bandeira programática e se tivesse chegado à frente com um plano que dissesse algo tão simples como isto: vamos, como País, tomar a decisão colectiva de dotar a nossa Justiça de todos os meios que ela considere necessários para fazer o melhor trabalho possível. E, depois, passaremos a exigir a todos os agentes de Justiça que façam o melhor trabalho possível. Os que não o fizerem, saem para dar lugar a outros.

A quem é que interessa manter uma Justiça sem os mínimos para poder cumprir a sua missão num plano de excelência, o único adequado às exigências de uma democracia? A resposta está na História, e conduz a um enigma. Historicamente, esta Justiça medíocre e má tem servido, nos últimos anos, como a arma mais forte para uma direita decadente que actualmente domina os principais órgãos do Estado. Desde 2004 que a judicialização da política é uma constante do quotidiano mediático e tem só uma direcção: contra o PS. Aparentemente, é possível manter o segredo de Justiça nos casos onde os envolvidos sejam do PSD, mas impossível calhando serem do PS. Nestes, dá-se uma exploração selvagem, com órgãos de comunicação social especializados em campanhas negras e uma complacência geral, e até aproveitamento, por parte da restante imprensa. O benefício é duplo: atinge-se o PS sem que este tenha possibilidade de defesa e canaliza-se a pulsão populista contra um, ou mais do que um, bode expiatório.

E eis o enigma: por que razão o PS prefere comer e calar? Será que os socialistas se sabem culpados, incapazes de esconder que não passam de uma agremiação criminosa cuja finalidade é roubar o Estado, tal como os talibãs direitolas não se cansam de repetir de hora a hora? Que impede o PS, para mais por causa da sua vocação republicana, de se atirar para a frente da batalha? Porque se trata de uma batalha. De vida ou de morte cívica.

Descubra as diferenças

Quanto mais tarde [o empréstimo] regressar aos cofres do Tesouro mais o Estado recebe em juros. É dinheiro que está a render.


Antigo vendedor do BES
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A aldrabice explicada

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Lesionado do BES - Se não tem dinheiro para ir lá, eu organizarei uma subscrição pública para os ajudar a recorrer ao tribunal.

Lesado do GES - O senhor compromete-se, o senhor compromete-se, perante a opinião pública?

Lesionado do BES - A ajudá-lo a ir para tribunal?! Sim senhor, sim senhor! Disso pode ter a certeza.


A tanga completa

Assunto arrumado, diz o arrumador

As eleições de 4 de outubro são, provavelmente, as mais importantes dos últimos 20 anos, depois de termos sobrevivido a um resgate de violência tão extrema como nunca tínhamos enfrentado. Importa pouco, com franqueza, voltar hoje à discussão do "de quem é a culpa". Esse foi assunto arrumado em 2011. O passado é importante apenas, e não é coisa pouca, como referência de aprendizagem para que os erros não se repitam. Mas aquilo que se vai jogar daqui a menos de uma semana é o futuro, o nosso futuro. Como crescer economicamente e criar emprego, como garantir a sustentabilidade da Segurança Social e as reformas futuras, como assegurar que ninguém que precise de cuidados de saúde ou queira estudar fique para trás, como atestar que quem carece de aceder à justiça não fica à porta de um tribunal. É isto que interessa.


Nuno Saraiva

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O meu foco no Nuno Saraiva não advém do interesse pela sua personalidade, antes de vê-lo como representativo de uma larga fatia da classe jornalística, por um lado, e de constatar a importância que esta figura adquire ao ser editorialista do DN e comentador político em várias órgãos de comunicação social, fazendo o pleno: imprensa escrita, imprensa radiofónica e imprensa televisiva. O que ele transmite reflecte um drama interior, esse esforço para utilizar o seu poder mediático em ordem a influenciar os acontecimentos políticos.

Acredito que este jornalista se reja apenas pelos ditames da sua consciência. É a partir dessa independência percebida, ou imaginada, que questiono a sua honestidade intelectual. Na passagem citada, começamos por uma ideia sem qualquer possibilidade de aferição. Dizer que as eleições de 2015 são as mais importantes dos últimos 20 anos vale menos do que dizer que as eleições de 2011, onde se elegeu um Governo cuja agenda secreta era o empobrecimento furioso e o desmantelamento do Estado social, foram as mais importantes dos últimos não sei quantos anos. Porquê? Porque, sem esse fanatismo permitido pelo logro eleitoralista, a austeridade não teria sido tão destrutiva e a recuperação teria começado mais cedo e com mais força. A mesma lógica vale para as eleições de 2009, pois foi o seu resultado e desfecho que levou a que entrássemos na maior convulsão europeia desde a criação do euro – ficando à mercê de todos os golpes, externos e internos – sem possibilidade de defesa dado que o Governo era minoritário e estava a ser boicotado pela oposição e pelo Presidente da República. Ou seja, caso em 2009 tivéssemos conseguido alcançar um Governo com maioria, provavelmente – muito e muito provavelmente – não teria havido resgate. Assim, o seu ênfase nas eleições de 2015 é falacioso e retórico, estando ao serviço do que vai dizer a seguir.

A seguir, voltamos à sua cassete: que não se fale mais do passado. Quer-se dizer, ele pode falar do passado. Para dizer que já chega. Já chega porque ficou lá para trás, em 2011. Está tão afastado que, maravilha das maravilhas, nem sequer conseguimos identificar culpados. A culpa desapareceu como desaparecem os desgostos de amor, carcomida pelo tempo. Aproveitam-se só algumas lições que o articulista não chega a articular, talvez porque remetam para um fulano preso sem acusação está quase a fazer 1 ano e os seus diabólicos comboios, mais os aeroportos, e as escolas, e os computadores. Erros que este Saraiva não quer que se repitam e que, com sorte, um dia revelará ao público quais foram caso a malta se porte bem. Sem capacidade de disfarce fica o seu pedido para não falarmos do que fez a direita para ir ao pote dando em troca o seu silêncio sobre que ele acha que fez o PS para chegarmos à “bancarrota”. O laranjal alinha neste negócio, como se regista depois de terem visto a bala de prata “Sócrates” ter explodido na cara de Passos no 1º debate com Costa.

Esta conversa do “calem-se acerca das eleições passadas” é equivalente à situação de termos de escolher entre dois cirurgiões para fazer a operação “mais importante dos últimos 20 anos”, seja a nós próprios ou a quem amemos. Entre os candidatos que nos tentam convencer a contratar os seus serviços, aparece um fulano que é conhecido por ter falsificado o seu diploma. Ele diz que se licenciou em Medicina, e que se especializou em cirurgia, mas é sabido que nem o 12º ano conseguiu acabar. Se pedirmos conselhos ao Saraiva dos conselhos eleitorais, e a outros que tais, receberemos como resposta que isso do passado desse senhor não importa nada dado que a operação em causa vai acontecer no futuro e diz respeito ao futuro. Ora, continuará o Saraiva que sabe mesmo o que é que interessa para o povinho, o futuro não tem nada a ver com o passado. Se tivesse, isso seria uma grande confusão; e não estamos em condições de alimentar essas confusões, como é notório.

A única coisa que o PS sabia com certeza absoluta no dia 6 de Junho de 2011 era que as próximas eleições legislativas, ocorressem quando ocorressem, trariam de volta a acusação da “bancarrota” e o odioso pelas medidas do Memorando. Logo, a única estratégia condizente com esse cenário, ainda por cima a nascer de uma necessidade de fazer justiça perante a gravidade da traição ocorrida no chumbo do PEC, seria ir marcando o Governo implacavelmente em tudo o que fosse adesão ideológica e prática à austeridade como castigo e engenharia social. Incrivelmente, este Governo não só deu caudalosos exemplos onde se exibiu revanchista e alemão como tomou medidas que, factualmente, foram a concretização de um plano escondido para transferir riqueza do Estado, dos trabalhadores e dos cidadãos para a oligarquia. O aumento da pobreza e das desigualdades era o resultado intencionalmente procurado. Mas, paradoxalmente, chegamos a 2015 com a esquerda cúmplice da direita a fazer tiro ao PS e com a direita que afundou Portugal encoberta pela comunicação social e sem precisar de sequer ter programa. Resta um PS vítima de si próprio, pois, como Churchill poderia explicar a Costa, não há desafios e ameaças maiores do que a capacidade de uma liderança que esteja disposta a nunca se render.

É isto, Saraiva, que realmente interessa. Pelo menos, a quem se interesse por viver num país onde a pulhice não seja consentida, muito menos premiada.

A premissa do caluniador

A mim o que me espanta é que esta discussão parte da premissa - que a meu ver, essa sim, é completamente chocante e faz-me perder a esperança na Pátria - de que havia alternativa. Mas quando a Troika veio, a Troika veio porque não podia deixar de vir. A Troika veio porque o País estava à beira da bancarrota e não ia ter dinheiro para pagar salários e reformas na próxima semana e no próximo mês.


João Miguel TavaresGoverno Sombra – 20 de Setembro – minutos 33-37

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O caluniador pago pelo Público também recebe da TSF e da TVI (aqui pela versão televisiva do “Governo Sombra”, imagino). Especialmente por causa da presença do Ricardo Araújo Pereira, o programa com a moderação do Carlos Vaz Marques tem sido um sucesso desde o seu início em 2008. A sua influência crescente resulta da adesão da audiência a cada um dos protagonistas. E também por existir na TSF e, desde 2012, na TVI, assim se validando socialmente pela força dos meios de comunicação onde aparecem as opiniões políticas que lá vão sendo expressas. Nesse sentido, ele funciona principalmente como dinamizador da perseguição a Sócrates e ao PS, dadas as personalidades envolvidas e a “independência” do moderador que alinha nas agendas dos artistas.

Acontece-me acreditar que o caluniador pago pelo Público realmente esteja a pensar que alguém do PS, a começar em Costa, tenha estado a alegar que não foi o Governo socialista a entidade que em 2011 tratou institucionalmente de fazer o pedido de resgate. E que a discussão girava à volta dessa alucinação lançada por Passos e PSD por não terem mais nada a que se agarrar. Acredito plenamente. Se aconteceu ao Pedro Marques Lopes pensar o mesmo, por maioria absoluta de razão pode acontecer a um direitola talibã. Mas como explicar que o Pedro Mexia, sofisticado intelecto cujo sofisticado currículo até exibe uma tradução do sofisticado Bresson, repita a cassete do laranjal? Com base em que declarações, e de quem, é que se pode manter esta distorção do que está em causa?

O Ricardo não gastou uma caloria a defender a questão real e limitou-se ao disparate para despachar, assim apoiando os seus colegas de programa no servicinho. O Carlos, idem. E deste modo se fez mais um tempo de antena em período eleitoral. Ora, e voltando à premissa do caluniador, temos de lhe dar razão: quando um Governo sombra, composto de pós-reaças e pseudo-revolucionários, se junta para afundar Portugal a partir do Parlamento, é óbvio que deixa de haver alternativa. Isso acontece porque, apesar de tentar, nem o PS sozinho consegue aguentar o peso de tanto sectarismo e de tanta gana de ir ao pote.

Galamba Fan Club

Antes do debate radiofónico entre Passos e Costa, o Público revelou uma carta que nada acrescentava à discussão da responsabilidade sobre a vinda da Troika. Nessa carta, o Pedro comunicava a Sócrates que o PSD se juntaria ao Governo e ao PS para que o resgate se consumasse com apoio político maioritário. Ora, não é nessa dimensão institucional após o chumbo do PEC que a questão releva para as eleições de 2015. Contudo, os direitolas ficaram à beira de um ataque de nervos, tendo de imediato atacado o jornal por ter publicado algo que lhes aparecia como negativo para a imagem de Passos. Este o contexto para o debate João Galamba e Nuno Magalhães frente-a-frente onde, mais uma vez, se vê a direita e a comunicação social aliadas num apagamento feroz acerca do que levou à necessidade do Memorando.

Começando pelo Augusto Madureira, observe-se como ele interrompe o João, logo ao princípio quando este estava a listar as declarações de Passos na celebração efusiva do Memorando, para dizer isto: “Mas não era primeiro-ministro…“. Foi o que lhe ocorreu, e é mentira. Já como primeiro-ministro, Passos voltou a fazer uma colagem completa entre o programa do PSD e o Memorando, entre o empobrecimento que a Troika impunha e a violência que ele se propunha cumprir indo até mais longe, custasse o que custasse. Donde, como explicar esta rasteira, a qual baralhou o Galamba ao ponto de ele não ter desmentido o Madureira? Quem lhe pediu a defesa do actual primeiro-ministro, ainda para mais recorrendo a uma mentira para proteger um mentiroso?

Minutos depois, o Nuno Magalhães repetia o filme “Apocalipse Bancarrota” e acrescentava novas cenas: para além de não haver dinheiro para pagar salários e pensões, também estávamos a duas semanas de não termos vintém nos multibancos, garantiu. Foi aqui que o Madureira resolveu dar o seu contributo, não fosse o Magalhães ainda dizer que estivemos a poucos dias de levar com um asteróide em cima, dizendo “É a imagem da Grécia, não é?“, recebendo como resposta do Magalhães uma pergunta exaltada: “Claro que é a imagem da Grécia, mas… mas… mas tem dúvidas?!…” Resposta solícita e servil do jornalista: “Não, estou só a sublinhar…” Estava a sublinhar, o bacano, não fosse alguém lá em casa não estar a perceber.

O Galamba, como sempre, tratou de dar nome aos bois. À sua frente tinha um jornalista com opiniões pessoais interessantes sobre a política nacional, e mesmo sobre a História de Portugal, abraçado a um político satisfeitinho da vida por fazer o enésimo número de vendedor de atoalhados na Feira da Malveira. Desta praga de sonsos e hipócritas, pelo menos, não podemos acusar a Troika nem carecemos de investigar quem os chamou. Já cá estavam há séculos e séculos e vamos ter de levar com eles até ao fim dos tempos.

Revolution through evolution

Grieving Before Conception May Be a Risk Factor for Infant Mortality
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You’re not irrational, you’re just quantum probabilistic
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Birds reveal the evolutionary importance of love
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Why middle class people are more likely to play music, paint and act revealed
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Being Sigmund Freud … and giving oneself excellent advice because of it
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When ‘Healthy’ Eating Becomes a Health Risk
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From Vulcan Salute to Papal Blessing – Ulnar Nerve Damage Caused Original Benediction Sign

A República deste juiz

O humor cáustico do juiz, "por vezes de ir às canelas", custa a digerir. Quando inquiria Ricardo Salgado, que se queixara de lhe terem ficado com um relógio suíço de milhares de euros nas buscas à residência, Carlos Alexandre perguntou: "Que horas são?" O primeiro a responder foi o antigo patrão do BES. "Está a ver? Afinal, ninguém lhe tirou o relógio", atirou o magistrado, segundo as nossas fontes.

A inédita história do juiz Carlos Alexandre

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Será verdade? Este episódio é contado como uma anedota que apela à simpatia e aplauso do leitor. O malandro do ricalhaço aparece gozado pelo representante dos pobrezinhos e remediados a propósito de um dos seus vícios, um relógio de luxo. Nem sequer podemos saber se aconteceu mesmo, pois é relatado na terceira pessoa sem que ela se identifique. Mas fica como exemplo paradigmático do espírito de todo o artigo.

Um artigo que exalta nesta figura uma tipologia salazarista, populista e justiceira. E que deixa nas entrelinhas que ele, o juiz Carlos Alexandre, é mesmo fonte de violações ao segredo de justiça em locais tão populares como cafés de Mação, entre umas imperiais e uns tremoços.

Está perfeitamente adaptado a Portugal, no entanto. Um país onde discutir a Justiça se tornou tabu político. E onde há quem esteja a lucrar, em dinheiro e poder, com essa cobardia do regime e da comunidade.

Catarina, a maior – mas ainda não a grande

Catarina Martins tem sido a surpresa mais agradável nesta campanha até agora. O seu desempenho nos debates revela alguém que se preparou com exemplar profissionalismo, por um lado, e alguém intelectualmente dotado para as exigências da política, pelo outro. Conhecimento das matérias, controlo emocional, força argumentativa, domínio da expressão e acutilância dialógica, um ramalhete de virtudes que lhe deu vitórias claras e empates simpáticos com os machos alfa da concorrência.

Sem dúvida que o seu traquejo de actriz é uma vantagem preciosa, pois em parte a política é um teatro onde está em causa representar papéis simbólicos perante uma audiência que vai inventando títulos para a peça a que está assistindo. Porém, tal serviria de pouco, ou serviria apenas para a equiparar com os políticos mais tarimbados, caso lhe faltasse o principal ingrediente do seu sucesso: uma inteligência viva, capaz de reagir com rapidez às falácias despejadas automaticamente por aldrabões do calibre de Portas e Passos.

Onde ela não se mostrou tão eficaz foi contra António Costa, pois aí o seu sectarismo limita a sua inteligência. Enfim, quem sabe até onde poderia chegar sem essa amarra tribal?

Quem tem medo do passado?

Para além de ter obrigado a direita a coligar-se, e de ser o alvo preferido e prioritário do PCP e do BE, o PS tem contra si a indústria da calúnia, a judicialização da política na sua forma mais grave (prisão de Sócrates e respectiva exploração das peripécias do processo e das violações do segredo de justiça) e ainda a imprensa “de referência”. Neste último caso, a intensidade e qualidade dos ataques varia de órgão para órgão. A soma das parcelas, todavia, exibe uma unanimidade sem excepção: o PS é culpado pelo resgate. E a partir desta conclusão chega-se a um acordo: não vamos castigar, sequer denunciar, o que a direita fez para se alçar ao poder em 2011. Este acordo, finalmente, provoca uma atitude: permitir que PSD e CDS apareçam nestas eleições sem programa e sem serem responsabilizados pelo que fizeram ao País. Tanta energia reunida contra um só partido exibe a sua insubstituível força como pilar do regime democrático. É por ser política e culturalmente valioso que o PS é atacado, não por ser irrelevante.

Veja-se o que faz Nuno Saraiva – Tiros no pé – na tentativa de influenciar o PS a deixar cair o tema da vinda da Troika. Em mais um texto do género, porque estamos perante um género, o autor conta a seguinte história: sim, o PSD quis a Troika para enganar o eleitorado, mas quem fez a merda foi o PS porque a Troika tinha de vir. Chega ao ponto de repetir a cassete do laranjal – “O governo do PS, culpado da condução do país à quase bancarrota, foi responsável pela vinda dos credores.” – sem carecer de explicar seja o que for a respeito e contradizendo-se imediatamente a seguir ao falar do chumbo do PEC. O que lhe interessa é manter o registo panfletário onde distribui moralismo editorialista e carimbos avulsos por essa cambada, os políticos. Mas tudo isto com uma especial intenção, a de procurar anular a discussão sobre a crise política de Março de 2011, e ainda o que lhe antecedeu e o que lhe sucedeu.

Não é preciso ser bué da esperto para perceber a lógica desta pressão. Ao não contrapormos uma nova leitura desse passado, estamos a aceitar a leitura vencedora. Essa narrativa permite que a retórica da culpa e da diabolização seja tão eficaz que um Governo metodologicamente mentiroso vai para eleições sem programa e sem medo do que o eleitorado possa pensar a seu respeito. E isto porque há quem esteja constantemente a trabalhar para que o eleitorado se convença de que houve uma “bancarrota” causada pelo “TGV” e pelas “auto-estradas”, mais as “fundações” e a loucura de um louco.

Nuno Saraiva termina o seu texto com um hino à estupidez, a nossa, declarando que discutir o passado impede que se fale do futuro, pelo que isso é muito mau para o PS. Entretanto, e pelas suas próprias palavras, caso seja a direita a querer discutir o passado para assim evitar ter de falar sobre o futuro, isso já lhe parece muito bem, inteligente, estratégico. Eis o seu contributo, de referência, para o estado de impunidade com que Passos e Portas se passeiam na comunicação social e na sociedade.

Ring a bell?

“The 1930s marked the rise of celebrity culture, in the era of talking movies, radio and new lifestyle magazines,” Stratigakos said. “People developed a strong desire to know what the private person was like behind the public facade. Hitler’s propagandists took advantage of the new celebrity culture and even helped to shape it.”

“Journalists seek out these behind-the-scenes stories because people demand it,” she said. “This still holds true today, and I believe that we need to be much more critical of the industries that focus on home or lifestyle news. They really do have influence.”


How Media ‘Fluff’ Helped Hitler Rise to Power

A arma secreta do PCP

Jerónimo

Estas eleições mostram um Jerónimo já fora de prazo. Continua essa simpatia que agrada a troianos e fenícios (mas não a gregos) e mantém a cassete a girar que garante ao PCP a sua quota-parte do mercado eleitoral. Porém, falta-lhe a energia suficiente para continuar a representar o papel de viril-operário-patriarca a conduzir o rebanho através do deserto até à terra prometida dos amanhãs que cantam. Basta apertar um bocadinho com ele para mostrar a sua caducidade, como ontem se viu no debate com Costa a propósito da temática da saída do euro. Perante a leitura do programa comunista, onde se anuncia que vão partir a loiça toda caso lhe ponham as mãos em cima, Jerónimo respondeu atabalhoadamente que está em causa um “processo”, não aquilo que o próprio programa estabelece como uma vontade política inequívoca e urgente. Costa poupou-o a sofrimentos atrozes e a questão foi tratada pela rama.

Calhando esse assunto ter sido discutido seriamente, teríamos visto que adentro do discurso do PCP há uma completa negação do projecto marxista original. Este, nos seus pressupostos filosóficos, tinha no conceito de “dialéctica” um instrumento político de vasto alcance. Servia para diferentes ocasiões, podendo ser usado com má-fé, encobrindo agendas avulsas, ou podia ser usado de boa-fé, tal como intentava Marx, onde seria um doador de sentido perante a desmesurada complexidade dos acontecimentos humanos. Assim, um partido verdadeiramente marxista poderia sem qualquer perda de identidade decidir dar um passo atrás, ou para o lado, em ordem a poder dar dois para a frente. Isso seria dialéctico, tal como dialéctica é a relação da semente com a árvore que gera o fruto, e a da árvore com o fruto que gera a semente – as diferentes mutações correspondendo a uma interdependência entre fases contrastantes, para ir buscar o exemplo clássico de Hegel. No plano político concreto, esta questão remete para a problemática das alianças do PCP com o PS. A forma como os comunistas portugueses racionalizam a sua recusa em serem parte de uma solução governativa partilhada com os socialistas nada exibe de leitura dialéctica da situação ou da realidade, bem pelo contrário. O PCP sacrifica esse mesmo “povo” que alega representar só para conservar o seu sectarismo que lhe permite continuar a imaginar-se sem pecado nem contaminação. Estamos no domínio do religioso, onde a pulsão maniqueísta organiza a identidade. Resultado: em Portugal a direita consegue fazer alianças para governar, a esquerda não. O que diria Marx ao Jerónimo acerca deste falhanço absoluto do ideal marxista?

Onde o PCP aparece em boa forma é no marketing. Esforça-se por empurrar os velhadas para fora do palco e em exibir o “homem novo” e as mulheres novas. Mulheres novas e boas como o milho ucraniano, com uma pose kgbiana fatal. Poderá não ser em direcção à sociedade sem classes, mas este caminho que a revolução está a tomar, a ser conduzido pelos donos da História com a sua histórica disciplina, vai dialéctica e materialmente levar à união entre os povos e as nações, numa enorme festa internacionalista destinada a vencermos, juntos, a batalha da produção.

É no que dá não querer falar do passado

Passos Coelho ganhou o debate. E é para isso que os debates servem, para que se possa dizer quem ganhou. Quando um debate acaba empatado, foi tempo perdido.

Ganhar um debate pode resultar de diferentes circunstâncias, não existindo nenhuma fórmula genérica. É do foro artístico e atlético, sendo que a sorte também conta. No caso, a sorte relativa à prestação do adversário.

Neste debate radiofónico, tivemos um Passos que transmitiu energia combativa, o que reforçou a assertividade e impacto dos seus ataques. Para além disso, ele obteve um importante triunfo ao ter conseguido colocar Costa numa posição de fragilidade na questão do corte dos mil milhões. Já sobre o aeroporto, é uma questão que apenas convence quem já estiver convencido, tamanha a sua complexidade processual.

Para vencer este debate, na minha humilde e nada modesta opinião, Costa devia ter recomeçado a partir do ponto a que tinha chegado no debate anterior. Qualquer regresso a uma intensidade guerreira inferior seria sempre uma oportunidade para Passos parecer que tinha crescido; portanto, que tinha ganhado. Nessa lógica de continuar a partir do debate anterior, e fazer deste a segunda parte daquele, isso implicaria ser peremptório acerca do problema essencial da actual governação: ter nascido de uma mentira. Essa mentira ou será julgada nestas eleições ou fará com que se legitime como prática a repetir noutros actos eleitorais. Não a julgar, leva a que PSD e CDS possam manter a face quando justificam as suas outras mentiras, erros e abusos já no poder a partir da mentira original. É a actual narrativa da salvação da pátria, depois de ter sido a do castigo aos infiéis que viviam acima das suas possibilidades, depois de ter sido a perseguição aos bandidos que andaram a engordar o Estado à custa dos cidadãos.

O eleitorado que vai votar na Coligação não só não se importa com as mentiras do maior mentiroso da democracia até à data como inclusive valoriza essa capacidade para enganar os portugueses. É uma reacção tribal sem mistério. Mas há um conjunto de eleitores que ainda não definiu o seu voto. E, em parte fundamental, essa indecisão resulta de estarem num ecossistema mediático que reproduz e amplifica as mentiras e calúnias que têm sido as principais armas da direita portuguesa. Líder da oposição que não consiga fazer frente a esta opressão, que não consegue sequer furar o cerco, merece perder. E perdeu.

Uma questão de justiça

Na manhã desta quarta-feira, no Fórum TSF, Paulo Baldaia justificou a exclusão do tema da Justiça do elenco combinado para o último debate entre Passos e Costa recorrendo a esta explicação:

“[…] fica de fora dada a sua complexidade e o tempo que exigia para debate […]”

Estamos a falar de um debate com 90 minutos. E estamos a falar de um tema que, mesmo sem as gravíssimas ocorrências que o transformaram nos últimos anos numa das armas mais poderosos da cultura da calúnia a que a direita reduziu a sua praxis, seria sempre imprescindível numa campanha para as legislativas. Não o debater implica deixar sem avaliação a política deste Governo nessa área e, especialmente, a sórdida actuação da ministra da Justiça. Uma governante que alimentou e aumentou o clima de judicialização da política ao afirmar que só com o PSD e CDS no poder é que há uma actuação regular – leia-se, dentro da Lei – dos agentes de Justiça. Isto vai chegar às urnas sem que alguém na oposição seja capaz de dar nome aos bois. Miserável Portugal.

Equivalente em gravidade política, e incomparavelmente mais devastador em consequências económicas, sociais e individuais, é o problema da lentidão na justiça cível. Qualquer político que se assuma como candidato à participação num Governo tem a obrigação de tomar partido nesta matéria. Se nada disser, não merece o meu voto.

Costa tem aqui uma oportunidade para se lançar na conquista da maioria absoluta. Basta que rompa com o tabu, que apenas protege a direita, e que fale mesmo de Justiça neste último debate com Passos. De tais surpresas, de tal força, é que se faz o carisma.

Os idos de Março de 2011

Dizer que a discussão, entretanto transformada numa luta sem quartel, sobre a vinda da Troika é algo que não interessa, por ser passado e os eleitores precisarem é de quem lhes fale do futuro, só aproveita a quem receia perder com ela. Durante os últimos 3 anos, PSD e CDS não tiverem outra bandeira a que se agarrarem, causticando diariamente o PS pela sua “culpa” no resgate e no Memorando. Pelos vistos, durante esse tempo fez sentido falar do passado, o tal passado que Passos tinha jurado deixar enterrado em ordem a poder concentrar-se sem distracções na revolução liberal por via do brutal aumento de impostos. Para o cenário ser perfeito, também durante 3 anos existiu um secretário-geral do PS que apreciava ver o seu partido achincalhado de forma tão primária e odienta. Com esse espectáculo obtinha o gozo de se vingar sonsa e cobardemente dos “socráticos”, aqueles que não tinham reconhecido a sua grandeza e que nem uma secretaria de Estado lhe arranjaram (mas ele recusaria, pois tudo o que fosse abaixo de ministro não lhe servia no pé). Ora, bastou Costa, e pela primeira vez, ter respondido à altura da afronta de quem traiu o interesse nacional para que o laranjal entrasse em pânico. Daí a palavra de ordem dada nas hostes para se repetir à maluca a patética fuga às responsabilidades políticas ao tempo e durante o ciclo que assim foi imposto aos portugueses. Hoje, véspera do segundo debate entre Passos e Costa, aparece Portas a agitar o espantalho de umas declarações de Soares e há temor e tremor no seio dos talibãs por causa de mais um documento que documenta a golpada. Acontece que o que essa memória traz é a ilustração da tragédia que Sócrates e o seu Governo viveram depois de esforços homéricos para evitar que Portugal se afundasse na pior das duas únicas soluções possíveis.

Discutir a vinda da Troika, portanto e evidentemente, é discutir questões relativas à responsabilidade patriótica em momentos de crise sistémica e ainda discutir a lealdade dos líderes políticos para com a comunidade. Não foi por acaso que, no discurso da tomada de posse para o seu segundo mandato, o tal discurso que correspondeu ao “Grândola, Vila Morena” para os direitolas, Cavaco nem de passagem refere o contexto europeu – tal como se esqueceu, possuído pelo rancor, de sequer fazer uma referência às Forças Armadas de que é o Comandante Supremo e que tinham operações de risco no estrangeiro. O seu ataque visou lançar no espaço público a ideia de que os problemas então vividos eram da exclusiva responsabilidade de um Governo, de um partido e de um homem. Logo, estava na altura de apeá-lo, e esse derrube devia começar pela rua. Isto foi dito no púlpito do Parlamento, transformando a Assembleia da República, nessa ocasião solene, num pavilhão polidesportivo onde se fez um comício de apoio à super-manifestação que teria lugar no sábado próximo. No dia a seguir a esta ordem dada pelo chefe da direita que nos calhou em desgraça, Sócrates reuniu com Passos, secretamente, para tentar salvar Portugal de uma ruína colossal evitável. O chorrilho de mentiras que se abateu depois na comunicação social não veio de Sócrates, nem do seu Governo, nem do PS. Essas mentiras foram usadas com frieza, calculismo, hipocrisia e cinismo numa escala nunca antes vista no rectângulo. A quem é que interessa deixar sem julgamento, sequer opinião, essa vergonha?

Se o descaramento obsceno dos políticos do PSD e CDS, que apenas cérebros de 5 anos de idade aceitam sem se indignarem, se percebe como o desespero final para evitarem o massacre, o papel dos jornalistas é mais complexo, quiçá intrigante. Veja-se o que escreveu o Pedro Santos Guerreiro – Fui eu que chamei a troika – onde encontramos esse registo típico das vedetas editorialistas do jornalismo “de referência”, uma mistela de factos, factóides, pontos de vista e narcisismo. A pose é a de quem se apresenta como árbitro, por estar acima, ou ao lado, do pugilato entre políticos. Todavia, o resultado não passa de mais um panfleto lançado para o meio da populaça na esperança de influenciar as claques.

PSG, sem se ter incomodado a demonstrar, dá como axiomas as seguintes hipóteses:

– “José Sócrates arruinou as contas públicas durante anos.”
– “Foi tudo empurrado para o futuro. Empurrado e agravado. Empurrado, agravado e escondido.”
– “Dizer que foi a Europa que nos mandou arruinar-nos é chamarmo-nos de estúpidos.”
– “Foi assim que, de PEC em PEC, chegámos a 2011.”
– “Muitos concordaram […] que a troika servisse para libertar a economia (e a sociedade) das redes de poder político-empresariais que a consumiam em proveito próprio.”

Aqui temos a continuação da diabolização de Sócrates, apresentado como um lunático. Sócrates “arruinou as contas públicas durante anos”, diz a vedeta, mas em que anos? Nos anos em que investiu em educação, energias renováveis, ciência, tecnologia, apoio à exportação, apoio ao investimento, direitos das minorias, reforma do Estado, reforma da Segurança Social, reformas na Saúde, redução da pobreza, e ainda conseguiu ter um défice abaixo dos 3%? Ou terá sido quando toda a oposição se uniu, com a conivência do Presidente da República, para deixar um Governo minoritário entalado entre a pressão da crise das dívidas soberanas e uma coligação negativa que estava apenas a fazer tempo para novas eleições, tendo passado um ano e meio a boicotar o País, agravando quanto puderam a situação das contas públicas?

Talvez o mais interessante ainda seja a referência às “redes de poder político-empresariais”. Do que se fala? E de quem? Já desapareceram? Continuam? Surgiram outras? Quem são? Que fazem? Cometeram crimes? Cometem? Quais? Como? Algum dia este jornalista, com tanto poder por vida do cargo que ocupa no órgão em causa, irá informar o público do que quer dizer com a expressão que, a ficar sem justificação, não passa de um fantasma agitado para fins de difamação e luta política?

O texto termina com uma referência a si próprio, recordando que tinha dito não sei quê não sei quando. O título concentra e amplifica o foco na sua pessoa. PSG veio dar um raspanete aos políticos que são uns malandros, os malandros. No entanto, apesar dessa sobranceria estilosa, não se consegue identificar em nenhuma linha, sequer no espaço em branco entre as letras, algum incómodo genuíno, sofrido, com a única causa da vinda da Troika: o chumbo do PEC IV. Trata-se da única causa em termos político-partidários, pois quanto a factores económicos nacionais e internacionais as causas remontam às cenas de um filho a bater na mãe para dar origem à fundação de Portugal.

Não faço ideia se Costa irá voltar a pegar no assunto no debate de amanhã. Apenas sei que o transtorno de toda a máquina da Coligação, onde se inclui o seu aparato mediático camuflado, mostra bem como estamos perante uma questão central para captar o voto dos indecisos. As mentiras de Passos e Portas radicam no que fizerem nos idos de Março de 2011. Os meses e anos seguintes foram a continuação dessa lógica inicial: valer tudo, até afundar o País, para ir ao pote o mais cedo que conseguissem.

Venceu na vida, garante o Pedro

Ontem, durante a cerimónia de inauguração da queijaria Sabores do Dão, em Aguiar da Beira, Pedro Passos Coelho fez um elogio público a Manuel Dias Loureiro: "conheceu mundo, é um empresário bem-sucedido, viu muitas coisas por este mundo fora e sabe, como algumas pessoas em Portugal sabem também, que se nós queremos vencer na vida, se queremos ter uma economia desenvolvida, pujante, temos de ser exigentes, metódicos", afirmou.


2015

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“Aqueles que nos criticam hoje foram os mesmos que nacionalizaram o BPN. Não me venham falar de Dias Loureiro, não fui eu neste Governo nem o dr. Paulo Portas que nacionalizámos o BPN e que tornámos os portugueses, todos eles, lesados do BPN”, disse Pedro Passos Coelho.


2015

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O eventual envolvimento de Dias Loureiro em negócios que terão prejudicado o BPN está a ser investigado num processo autónomo à investigação que corre sobre o banco. O ex-conselheiro de Estado foi, ontem, constituído arguido devido à sua ligação ao chamado negócio de Porto Rico, o qual terá provocado um prejuízo de 40 milhões de euros ao BPN. Em causa podem estar crimes de burla e falsificação de documentos.
Depois de ter pedido ao procurador-geral da República, Pinto Monteiro, para ser ouvido no processo, Dias Loureiro acabou por ser interrogado pelo procurador Rosário Teixeira, durante o dia de ontem, no Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP). Tal como se previa, o antigo conselheiro de Estado foi confrontado com dois negócios em que teve intervenção enquanto quadro do BPN: da venda Redal, em Marrocos, e da compra da Biometrics, em Porto Rico. Mas, refira-se, caso esta investigação avance até julgamento, as declarações de Dias Loureiro prestadas ontem de nada valerão. O Ministério Público poderia ter levado o arguido ao juiz de instrução, mas optou por conduzir o interrogatório. Daí, a Dias Loureiro apenas ter sido aplicado o termo de identidade e residência (TIR) como medida de coacção.


2009

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Alguém conseguirá reproduzir uma qualquer opinião de Passos Coelho acerca do que aconteceu no BPN antes da nacionalização? Provavelmente, não terá nenhuma. Não estava na zona, logo não era nada com ele. E os processos judiciais respectivos continuam sem desfecho, podendo até acabarem com todos os arguidos inocentados, sabe-se lá, portanto nada se conhece com certeza judicial. No entanto, Passos tem duas opiniões muito claras acerca do que aconteceu após a nacionalização do BPN: a primeira é a de que, se fosse com ele, não teria feito tal coisa; a segunda é a de que, apesar de ser suspeito de crimes, e de ter mentido na Assembleia da República sob juramento, Dias Loureiro deve ser visto como um modelo a imitar pelos portugueses que queiram “vencer na vida”.

A nacionalização do BPN deu-se quando Sócrates era primeiro-ministro de um Governo maioritário, e a constituição de Dias Loureiro como arguido, sujeito apenas a termo de identidade e residência, quando Pinto Monteiro era o Procurador-Geral da República. Quem faz da política um exercício do ódio, e passa o tempo a dizer que Sócrates é criminoso e doido, como explicará para si próprio a decisão de nacionalizar o BPN, o banco do Cavaquistão? Sócrates estava a tentar proteger essa gente por pertencerem todos ao mesmo bando? Ou queria Sócrates proteger os amigos de Cavaco, na esperança de ainda poder ir morar num quarto alugado algures na Quinta da Coelha? Ou tudo não passou de uma questão ideológica, dado Sócrates ser socialista e o socialismo consistir em roubar os ricos através de nacionalizações selvagens e por selvagens? E que dizer de Pinto Monteiro, o tal fulano que corrompeu magistrados, ou que os ameaçou, ou as duas coisas, só para evitar que Sócrates fosse metido no chilindró mais cedo, será que também andou a mamar no BPN? Não será melhor perguntar ao Rosário Teixeira o que se passou nesse tempo em que a impunidade estava viçosa? E será que foi o Monteiro das tesouradas quem andou a proteger as dezenas ou centenas de processo ligados ao BPN da devassa do Correio da Manhã, daí não termos violações do segredo de justiça a envolverem essa gente séria?

De facto, Passos não governou durante os dias loucos em que rebentou a maior crise económica mundial em 70 anos. Não sabemos, pois, o que teria feito em circunstâncias iguais. Mas sabemos que a decisão de nacionalizar o BPN foi tomada num cenário em que se ignorava que o seu custo iria ser várias vezes superior, tendo a decisão recolhido aceitação na sociedade dadas as circunstâncias excepcionais de pânico que se viviam precisamente nessa altura. Usar esse episódio como arma política – o que a direita começou logo a fazer em cima do acontecimento, e que depois levou ao paroxismo quando conseguiu fazer de Vítor Constâncio o exclusivo alvo político e mediático no caso – pode entrar dentro dos manuais do “fazer política” à maneira do laranjal, mas é igualmente a expressão de uma cobardia moral. Igualmente, atacar Pinto Monteiro, e ainda Noronha do Nascimento, para explorar sordidamente os casos em que Sócrates tem sido envolvido, fica como a exibição de uma prática política onde as calúnias, o ódio e o medo são os principais instrumentos de luta pelo poder. É esse o ideal político e cívico que nos resta, o emporcalhamento sistemático dos adversários em vez da disputa pelos atributos de inteligência e coragem?