Aquila non capit muscas

Vítor Gonçalves é um daqueles jornalistas com grande influência (no caso, podendo entrevistar os protagonistas políticos na televisão pública) que não esconde as suas preferências ou aversões partidárias. Ou talvez seja mais correcto dizer que não as consegue esconder, dado que o homem é um bom bocado tosco. Ontem, resolveu ir entrevistar Costa como se fosse o advogado da direita a interrogar um arguido em tribunal. Aquilo que Passos não tinha conseguido fazer, ou onde tinha levado porrada, este Gonçalves propôs-se pegar nisso e fingir que estava a fazer jornalismo. Mas não estava, quis fazer política. Mais uma vez. E logo na RTP.

Costa vinha de uma noite triunfal. Talvez por isso, ou apesar disso, não se conseguiu controlar. Ao detectar que não estava numa entrevista imparcial mas num debate com um adversário, respondeu com indignação. E essa indignação ficou-se pela expressão da agressividade. Em consequência, o jornalista reagiu defensivamente à agressividade e aumentou os automatismos respectivos do conflito emocional em que se enredaram. Acabou por ser Costa quem perdeu, nem que fosse por ter lançado um osso aos direitolas famélicos que voltaram a ter o que roer durante um bocadinho. Mas a sua falha merece análise, pois se liga também com a sua vitória no debate com Passos.

A melhor forma de lidar com uma situação como aquela criada pelo Gonçalves teria sido o recurso à bonomia implacável. A bonomia tem um duplo benefício: gera simpatia na audiência e aumenta os recursos cognitivos, permitindo reacções e opções mais criativas, tanto no discurso verbal como no não-verbal. Inversamente, a reacção defensiva agressiva diminui o campo das opções por se concentrar na imposição da força. Mostrar que as perguntas do jornalista obedeciam a uma lógica concorrencial e não jornalística poderia, através da ironia e do sarcasmo dirigido à acção mas não ao agente, ser feito de forma implacável no aproveitamento das mesmas para transmitir as ideias do programa socialista. Caso o jornalista insistisse na sua agenda, e ele insistiria pois não levava outra, a sucessiva desmontagem da sua má-fé geraria um crescendo de fragilização para o entrevistador e de autoridade para o entrevistado.

A ligação do ontem com o anteontem está na ponderação do que deu a vitória unânime a Costa sobre Passos: a percepção de que esteve ao ataque. Costa atacou, Passos defendeu-se (ou nem sequer se defendeu pois alguns dos ataques não tinham defesa possível). Até quando Passos atacou (Sócratesx12) foi Costa que ganhou um assalto mais importante do que a própria batalha. Isto funcionou porque o páreo era entre iguais, primeiro, e porque os ataques eram legítimos, sendo esta a razão principal. Se algo aqui fez de errado, foi tão-só por não ter ido ainda mais longe, pois quanto ao tom, ao modo e ao conteúdo, Costa esteve perfeito na forma como se superiorizou ao concorrente.

Alguém poderia explicar ao actual secretário-geral socialista que ele tem uma comunidade inteira à espera que se indigne com o que se deve indignar e pelas boas razões para estar indignado. Quando entra nesse registo, até a sua torturada dicção parece desaparecer e a sua imagem de chefe combativo transmite somaticamente convicção e segurança, a tal confiança que promete ao eleitorado. Uma confiança que nasce quando se mostra que se tem coragem, força e habilidade para lutar. Um debate – portanto, uma campanha – não é uma disputa académica ou um julgamento judicial, nem sequer o eleitorado quer ser esclarecido acerca do programa seja de quem for. Se quiser, que os leia, pense neles e discuta com os amigos ou no café. O que está em causa nas eleições é a escolha do líder e a percepção do voto que antecede e gera o voto nas urnas. Tal voto antes do voto é aferido imediatamente a cada presença dos concorrentes, por maioria de razão quando se confrontam presencialmente.

Durante anos, com o alto patrocínio do Presidente da República, fez-se uma campanha contra dois Governos sob a égide da mentira. O primeiro-ministro de então era um super-mentiroso sem carência de se mostrar em quê e os governantes socialistas mentiam em tudo o que diziam, até mesmo quando referiam dados de instituições internacionais, também a mentir caso lhes desse para apresentarem uma visão positiva fosse do que fosse. O tal Presidente do “falar verdade aos portugueses”, o partido da “Política de Verdade” e das “gorduras do Estado”, os partidos restantes à direita e à esquerda abraçados no coro “Sócrates é mentiroso”, a comunicação social em uníssono e fúria, todos se aliaram para derrubar quem fez o que pôde para evitar males maiores à população por causa de tempos históricos extraordinários em todo o Mundo e na Europa. Com isso, os paladinos da verdade colocaram no poder quem fez da mentira o meio e o fim da sua estratégia. Nunca houve um Governo assim, onde todo o edifício da acção executiva, de facto, assenta em mentiras passadas e presentes. Só não se pode dizer que assenta em mentiras futuras porque esta gente nem programa tem. Eis o sedimento onde se funda a derrota de Passos. E daí a perplexidade por não se ter feito a campanha neste terreno, aquele onde Costa mostrou ser capaz de voltar a dar esperança ao seu partido e ao País.

20 thoughts on “Aquila non capit muscas”

  1. Como pode o Costa não perceber que um simples jornalista o está a provocar para ele sair do sério e descer ao nível de um vulgar interlocutor. Chama-se a isto um achincalhamento em directo e consentido. Costa não tem assessores? Normalmente no PS improvisa-se tudo nas campanhas eleitorais. Felizmente não tem sido assim na governação. Costa sabe que não pode distrair-se. Sabe ou devia saber que tem a comunicação social toda no seu encalço. Devia saber que é bem capaz de estar permanentemente sob escuta. Se não ligar a nada disto ainda arrisca perder. Se ganhar, que vá fazendo as contas aos biliões do buraco Banco Mau/ Novo Banco. E que se prepare para o bombardeio: “connosco (Passos/Portas) estava tudo sob controle”. Pois estava! Escondeu-se a bomba até à “saída limpa”.

  2. que título tão lindo, Val. também podia ser têm faltado as pérolas porque os porcos são muitos. e se a possibilidade de estratégia leal de Costa na campanha existir mesmo essa esperança de que falas é coisa ruim da caixa de pandora e, por isso, tem de ser castrada. está explicado. :-)

  3. Ele bateu-lhe e logo apareceu alguém a esfolá-lo. E porquê? Porque ele teve o desplante de desancar, e logo na TV, o inocente do Vítor Gonçalves que não merecia tal desacato e que no fim da entrevista até se apressou, sôfrego, a estender uma mão arrependida. Será que ele perdeu com o Vítor Gonçalves os votos que ganhou com o Passos Coelho, pergunto eu sem me rir?

  4. tem piada, os segurelhas dizem o mesmo. o costa quando levou a chapada, deveria ter oferecido o cu e tu poderias ir à merda com teorias da treta. mete na cabecinha que ninguém assiste a debates para ser esclarecido ou convertido à bonomia cristã, o piople quer é porrada e sangue. ganha quem der mais e como não estava lá o massamólas comeu o gonçalves para não armar em parvo

  5. um sabujo ao serviço da direita.foi por isso que o mandaram vir dos eua,por ser sabujo e mediocre como jornalista.teve o interlocutor que mereceu perante tanta filho da putice!

  6. o gajo que não sabia que era preciso descontar para a segurança social está na rtpinfo a mandar bitaites como reformar o sistema

  7. A Catarina está a dar uma COÇA no Passarolas, é uma autêntica CARRAÇA!
    Ele bem olha para o Bito Gonçalves a pedir socorro mas o Bito até está meio aparvalhado, eu diria anestesiado, pela Catarina !

    E depois da Segurança Social agora a DÍVIDA!
    Estás e levar nos cornos outra vez Passarolas!
    Ahahahah!

  8. “Eu preferia não me repetir, mas para não me repetir precisava que dissesse qualquer coisa de concreto” – catarina

  9. Mas que filho da phuta de sendeiro!
    A lata deste gajo apresentar-se ao povo SEM programa eleitoral e a pedir um cheques em branco depois da traição e da mentira de há 4 anos!
    Mas que LATA !

  10. E agora está um avençado a limpar a cagada, um microfone de aluguer a tentar atirar areia para os olhos dos incautos!
    A comunicação social está arregimentada para fazer a cabeça ao Povinho.
    FDP.

  11. Victor Gonçalves é um manholas, tosco, pacóvio, a quem a direita deu um lugar para estar com as costas quentes. Fez mal. O tipo não vale nada. Compreendo muito bem a irritação de António Costa e acho que ele fez bem em denunciar o estratagema da criatura. Tenho a certeza que muita gente achou bem. Estamos todos fartos de paninhos quentes com estes estupores manhosos, dissimulados.

  12. Ainda antes do debate com o mentiroso o perfil dos dois foi completamente esmiuçado por todo o lado. Virtudes e fragilidades. Nomeadamente até por quem esteve nos bastidores no debate de 2011. E até há pouco tempo a gerir crises com o Burro do Caralho no Sporting. Sobre Costa diz que é tenso e tem dificuldades em lidar com as críticas. O Vitor Gonçalves não vale os trocos. Também podia passar na SIC e tratar do projecto de economista do Gomes Ferreira.

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