A última trincheira

O Bloco Central voltou das férias e trouxe duas novidades: mudança de horário (irrelevante) e uma bacorada gigante do Pedro Marques Lopes (relevante). Aconteceu esta quando o respeitável, estimável e admirável Pedro considerou como uma das maiores falhas de Costa no debate com Passos o bate-boca sobre quem tinha sido responsável pela vinda da Troika. E manifestou a sua incredulidade por Costa estar a insistir nessa questão quando toda a gente sabe que foi o Governo socialista a fazer o pedido de resgate. A mesma lógica seguiu Passos no debate e rescaldo, agarrando-se à objectividade histórica para contra-atacar. E nos dias seguintes vimos os direitolas a repetirem a lengalenga.

Pois. Só que Costa não disse que foi o PSD quem chamou a Troika, como não poderia dizer sob pena de não poder continuar em campanha e ter de ir tratar-se. O que ele disse foi que o PSD quis a vinda da Troika, na intenção de a usar como aliada e disfarce para o programa de empobrecimento que escondeu do eleitorado em 2011. Basta rever o vídeo. No diálogo, e perante a insistência de Passos de que não tinha sido o PSD a pedir o resgate, Costa termina essa troca de palavras dizendo “Também…” – ou seja, e no contexto, é verdade que o Governo socialista é o responsável institucional pelo pedido que se viu obrigado a fazer, pois só o Governo é que o poderia fazer face à Lei, mas o PSD também é responsável no processo, tem uma responsabilidade política que pede avaliação política neste período eleitoral.

Do Pedro Marques Lopes, num absoluto contraste com o Pedro que nos traiu, não se pode dizer que sofra de desonestidade intelectual. Pelo que a única explicação para este teatro do absurdo tem de ser do foro cognitivo. É inevitável que os gostos, os afectos, os preconceitos condicionem a assimilação da informação, dando origem a uma versão deturpada da realidade de forma espontânea. Terá acontecido isso até a quem faz da interpretação de discursos e eventos políticos parte da sua vida profissional, naturalmente. Porém, igualmente se pode dizer que Costa poderá ainda trabalhar melhor esse tão importante argumento eleitoral.

A colagem da direita, especialmente do PSD, ao FMI, à Troika e ao Memorando foi feita com abundância de descaramento e racionalizações. Na altura, a invasão estrangeira vinha salvar a Pátria daquele que era insultado por dirigentes e notáveis do PSD como Hitler, Saddam e Drácula. O laranjal oferecia-se sedento e guloso para ser o capataz que iria meter na ordem os mandriões e esbanjadores. Uma das mais extraordinárias declarações nesse sentido foi feita pelo próprio Passos:

«É curioso que o programa eleitoral que nós apresentámos no ano passado e aquilo que é o nosso Programa do Governo não têm uma dissintonia muito grande com aquilo que veio a ser o memorando de entendimento celebrado entre Portugal, a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional», declarou Passos Coelho, durante uma sessão com militantes do PSD sobre a revisão do programa do partido, num hotel de Lisboa.

Depois de acrescentar que o diagnóstico da situação do país feito pelo PSD «não estava muito desviado da observação atenta especializada que o Banco Central Europeu, a Comissão Europeia e o Fundo Monetário Internacional tinham», Passos Coelho concluiu: «Quer dizer, há algum grau de identificação importante entre a opinião da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional e o que é a nossa convicção do que é preciso fazer».

Segundo o presidente do PSD, por esse motivo, «executar esse programa de entendimento não resulta assim de uma espécie de obrigação pesada que se cumpre apenas para se ter a noção de dever cumprido».

«Por isso, não fazemos a concretização daquele programa obrigados, como quem carrega uma cruz às costas.»

«Nós cumprimos aquele programa porque acreditamos que, no essencial, o que ele prescreve é necessário fazer em Portugal para vencermos a crise em que estamos mergulhados», reforçou.

Isto foi dito em 2012, nas vésperas de Gaspar descobrir que tinha errado na receita. Assim que no Governo se deram conta do buraco sem fundo em que se estavam a enterrar, mudaram radicalmente de estratégia de comunicação e passaram, maníaca e diariamente, a castigar o PS por ter “chamado a Troika” e ser quem “negociou o Memorando”. Ora, recordar esta história, que inclui o chumbo do PEC IV e a coligação negativa que deixou um Governo minoritário boicotado e a ser queimado num dos mais difíceis períodos internacionais de que há memória viva, tem máxima importância. A dimensão das mentiras que foram usadas por Cavaco, Passos e Portas resultaram no além-Troika cujas contas igualmente deveriam estar a ser exibidas.

Quantos vidas se degradaram – e perderam – por causa da traição cometida pela direita portuguesa em 2011? Como estaríamos em 2015 se o Memorando tivesse sido cumprido sem fanatismo ideológico e revanchismo partidário? E sabendo hoje o que sabemos que aconteceu durante os 4 anos, a acção do BCE e a baixa do petróleo, quem é que pode negar que o mais inteligente para os interesses da comunidade seria, indiscutivelmente, a aprovação do PEC IV, seguido de eleições ou de um Governo de coligação?

É por isto que o culto do medo e do ódio – e a sistemática diabolização de Sócrates, aquele que lutou até ao limite da sua resistência psíquica contra a vinda da Troika – é a última trincheira onde os pulhas ainda resistem depois da colossal destruição que causaram.

17 thoughts on “A última trincheira”

  1. A história de quem chamou a Troika vai ser contada por Sócrates em livro, assim espero, e com cópias autenticadas de documentos de Estado oficiais!
    Vai fazer parte da História de Portugal e hao-de ficar bem registados os nomes dos traidores e dos sendeiros. O nome destes últimos a História esquecerá porque o pior castigo que podem ter é o esquecimento. Para que havemos de cansar as gerações futuras com narrativas sobre gajos e gajas da qualidade do Relvas, do Marquês Mendes, ou de coisas ainda menos significantes a que chamavam jornaleiros ?

  2. adormeci a meio, deve ser efeito das microbolhas de reims, mas acordei a tempo de dizer que o assumpto foi discutido na devida altura, o chefe do governo se tinha demitido porque não queria governar com a troika e não faria sentido que um governo demissionário por esse motivo tivesse que os chamar e negociar a sua presença. na altura, se bem m’alembro pôs-se a hipótese de quem os mandou vir que os ature, claro que o cavacoise disse logo que isso não era atribuição de presidôncio e a malta do pote queria que os xuxas fossem carimbados com a desgraça induzida pela garotice. o sócras deveria ter-lhes feito um manguito, mas cedeu por imperativo patriótico em fim de mandato e nunca devidamente esclarecido. agora é mais difícil rebater a coisa, mas há muita coisa escrita que prova isso, mas o que interessa é correr com a cambada.

  3. «Quantos vidas se degradaram – e perderam – por causa da traição cometida pela direita portuguesa em 2011?»

    Então e a esquerda da esquerda? Não teve nada a ver com o assunto ?!

  4. Quando o Parlamento se reuniu para discutir o PEC IV imposto por Bruxelas, os dois partidos do centro direita (PSD e CDS-PP) e os da esquerda radical (PCP e Bloco de Esquerda), opuseram-se ferozmente ao pacote alternativo à Troika. O PEC IV tinha as mesmas medidas de austeridade que acabaram por ser incluídas no memorando de entendimento. Estava conseguido o objectivo que era derrubar Sócrates e estava aberta a porta para as primeiras mentiras de Passos que logo em 2011 garantiu que fez as contas e não seria preciso cortar salários nem fazer despedimentos para consolidar as finanças públicas portuguesas.

    http://www.tsf.pt/portugal/politica/interior/passos_coelho_diz_que_nao_sera_preciso_cortar_salarios_nem_fazer_despedimentos_1841270.html

  5. O P. M. Lopes nunca escondeu a sua identificação com a direita
    mas, a direita inteligente! Depois, com a sua participação no
    “eixo do mal” onde está “bem” acompanhado acabou por ter mais
    um descuido ao não entender o que foi dito por António Costa !
    Em causa, está o roer da corda pelo trafulha Passos Láparo após
    José Sócrates ter gasto umas horas a explicar-lhe a situação em
    S.Bento … acho que isto não pode ser desmentido!
    Como o Valupi muito bem descreveu os estarolas sempre tiveram
    uma atitude dúplice, já o País enfrentava dificuldades no financia-
    mento e, sempre que podia um tal vice do PSD careca e de apelido
    leite gritava para todos os microfones que via o grande descontro-
    lo orçamental, isto em vésperas de leilões de dívida pública … claro
    que os juros subiam e de que maneira !
    Ainda hoje o feirante portas voltou à k7 da vinda da troika por ex-
    clusiva iniciativa do PS quando nada o justificava, não havia qual-
    quer críse financeira internacional o desenvolvimento era óptimo!!!

  6. Exactissimamente, ignatz.
    Ainda me recordo de Sócrates renitente em negociar o acordo porque estava demissionário e muitos notáveis socialistas, tal como indiciava a fala e posição de Sócrtates na altura, a comentarem que, “quem quis a troyka e deseja governar com ela o país que faça a respectiva negociação”.
    Realmente foi cavaco, aterrorizado, que trouxe logo à praça pública, quando Sócrates se interrogava a quem cabia negociar o acordo, que o “governo continuava em plena legalidade democrática para negociar o dito acordo”.
    Claro, também para “salvar” o BPN, leia-se para salvar a “massa” do ti balsemão e de toda a elite trafulha financeira do psd, incuindo a sua própria, estava sempre de acordo “de momento” para depois se servir do caso como catapulta de lapidação de Sócrates.

  7. PSD, CDS, Bloco de Esquerda, PCP, Presidente da Républica, Correio da Manhã, Sol, manos Costa,… podem fazer as piruetas que quiserem. Há documentos suficientes para demonstrar que José Sócrates foi único líder político português com comportamento responsável e patriótico na maior crise financeira mundial da nossa geração. Tentam disfarçar esse remorso com a dessava da sua vida privada mas é tarde para apagar a história.

  8. Caramba. Esta gaja precisa de um açaimo na bocarra. A BURRA está DESNORTEADA. Sofre do distúrbio da viúva ressequida do ex44. A gaja faz concorrência à isatell…

    E como se pode discutir sobre a Trampa e Trampa? A trampa só pode gerar trampa. Logo, discute-se o quê em sede de trampa? A sua consistência? Ou será que há interesse em computar as MOSCAS…?

  9. Claro que é preciso esclarecer o país com a questão da Troika ( para mim além da -direita , também as esquerdas, a verdadeira e patriótica e a do caviar tem muitas responsabilidades), mas há uma situação que hoje para mim foi clara .
    A “mensagem” da direita sobre as “maldades” de Sócrates está a ser eficaz. Isso foi evidente e sublinhado numa reportagem da SIC, feita na feira de Trancoso. Pessoal do campo e interior despovoado, lá dizia que se mantinha indeciso, não queria o PPC mas , PS, é que NÃO por causa dos problemas do Sócrates ( sopa no mel pra o repórter).
    Depois digam que não pode haver teorias da conspiração.
    A mensagem atingiu o alvo.

  10. Não é o Povinho das aldeias do Portugal do Interior Despovoado quem decide as eleições. Decidem 3 distritos urbanos: Lisboa, Porto, e Setúbal.

  11. «Não é o Povinho das aldeias do Portugal do Interior Despovoado quem decide as eleições. » dixit BURRA.

    PERCEBERAM? Os saloios do interior são assim tratados pela XUXA louca do dispensário. Qual quê? s bimbos do interior?! Os «rr´s» de Setúbal, esses sim, claro com a capital e o que quer ser capital…ai que interessante, esta nova melodia do pensamento da BURRA.

  12. mas então se o drácula já nem sequer lá mora, por ter sido destronado pelos caçadores, pode não se tratar apenas de um desvio na cognição mas dar-se o caso de paranóia. :-)

  13. Num post abaixo alguém perguntava se o PEC IV era algum poço de petróleo. Era melhor, era a chancela de apoio da Chancelerina alemã e da Europa a Portugal. E o que explica melhor quem chamou a Troika é um telefonema da Merkel ao Cavaco depois do chumbo do PEC IV. Outro user dizia que já não havia dinheiro para nada!? Como se não estivéssemos a falar dos juros do financiamento ou seja, da confiança dos mercados. O maior bem de qualquer economia.

    E também é bom lembrar que a sede ao pote desta direita não foi a única responsável. Mais à esquerda fizeram o mesmo. E não que eu não concorde com muita coisa que também se diz mais à esquerda. Como os problemas graves na estrutura do euro e multiplicados por 100 consoante os diferentes patamares das economias. Que também urge resolver. Inclusive a hegemonia alemã ou a maior crise de valores na Europa dos nossos tempos. A minha maior diferença para essa esquerda é que eu pessoalmente só acredito em fazê-lo no seio da EU e nunca do lado de fora. Já a esta direita nunca devia ter sido permitido sequer sequestrar autenticamente dois partidos políticos que também fazem parte da história da democracia portuguesa. Ao menos que estes liberais de pacotilha tivessem sido obrigados a criar o seu próprio partido. Porque se há coisa que esta crise provou é que ninguém precisa de mais Estado, mais regras e mais regulação. A selva do subprime americano e a forma como a Alemanha lidou com a crise das dívidas soberanas é que nos aqueceu o coração a todos.

    Muito sinceramente já não julgo importante estar sequer a perder muito tempo com quem desgovernou o país nos últimos anos. O único resultado possível das eleições é fazer com que nunca mais ouçamos falar do Coelho ou do Portas. Pelo menos como governantes. E até o Cavaco está aqui está em Boliqueime. De onde nunca devia ter saído. O país está farto de uma mão cheia de pantomineiros e jotinhas que nunca fizeram nada na vida e que só o PR segurou até ao fim do mandato. E logo num dos momentos mais críticos do nosso tempo e quando o país mais precisava de verdadeiras referências em todas as áreas. Falando só de coisas sérias, os dois indicadores de Costa na campanha, decréscimo de mais de uma década do PIB e a subida inevitável da Dívida, explicam muita coisa. Como vender o país à peça para não pagar os juros da Dívida.

    Claro que é fundamental voltar a lembrar quem traiu Portugal e trocou a ajustamento do PEC IV pela Troika e o backoffice do FMI. Ou inclusive quem quis além da Troika. E o ajustamento criminoso em Portugal já foi reconhecido por todas as instâncias internacionais. E basta ver a solução na terra que criou a crise. Keynes e Friedman. As próximas grande batalhas do país terão que ser travadas em Portugal mas sobretudo na Europa. Em Portugal, fazer de tudo para devolver a dignidade a muitos portugueses e continuar a promover o conhecimento para um país mais justo. E finalmente fazer ouvir a voz de mais uma economia do Sul numa Europa que pouco ou nada fez para travar a maior crise dos nossos tempos. Porque houve sempre quem ganhasse e muito. Como as guerras, só continuam enquanto há ganhadores. E sempre com esta Alemanha do rodinhas na linha da frente. Que o próprio ex-Chanceler Kohl já veio condenar. A EU tem que ter solução. De regresso aos seus valores fundadores e com novas lideranças. E são os europeus que o vão exigir. Portugal tem solução com os portugueses! Com todos os portugueses a trabalhar e a viver em Portugal.

  14. Jasmim, há um problema adicional nestas eleições. Sairam, emigrados, 300-400 mil eleitores de Portugal que, em condições normais, elegem 10 deputados. Muito provavelmente, 80% desses eleitores são votantes da esquerda e, nas condições em que estão, muito poucos irão votar. E, mesmo que fossem, o circulo da emigração não aumentou o número de deputados que elege. Vamos ver o impacto que isso terá no resultado final.

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