A economia, segundo o sr. Araújo e o sr. Anacleto

Francisco Louçã e Ricardo Araújo Pereira partilham com os direitolas um gosto em comum, pelo menos um: adoram expor nos seus artigos, ou trazer à colação, uma peça da campanha do PS em 2005 onde se coloca como objectivo recuperar 150 mil empregos. O prazer lúbrico de uns e outros com a mensagem resultará de não se ter atingido esse número de novos empregos ao se chegar a Setembro de 2009. Daí o gozo. Imarcescível gozação, até para estas duas luminárias da esquerda que teclam com as dedinhos imaculadamente limpos.

Há aqui um mistério. Ou um enigma. Ou não. É que – assumindo a validade dos princípios de identidade, de não-contradição e do terceiro excluído – deveríamos ter no Louçã e no Ricardo dois dos mais fervorosos apoiantes dessa proposta política. Quando muito, o seu desagrado seria relativo à timidez da ambição. Ter uma força política a prometer usar os poderes governativos para aumentar o emprego leva a pensar que, muito provavelmente, estamos perante socialistas, no mínimo social-democratas daqueles à antiga. No entanto, a brilhante dupla acha que o falhanço dessa meta deve ser celebrado e transformado em arma de arremesso contra o partido que a formulou. A ambiguidade que espalham é a de que esse número não passou de uma mentira ou, pior, que nunca deveria ter sido publicitado.

Não sei quais são os conhecimentos de economia do Ricardo. Talvez sejam extraordinários, como é o seu humor. Já sobre o Louçã não há a mínima das dúvidas, é uma das carolas que mais pesca de economia na terriola. Porém, mesmo que o Ricardo não esteja em condições de começar já em Setembro como assistente numa faculdade de Economia, igualmente ninguém põe em causa a alta qualidade do seu tecido neuronal. Podem formar uma parelha de luxo no campo da intelligentsia. Pelo que estou disposto a subir a minha parada usual dos 10 euros e chegar-me à frente com 12 euros e 30 cêntimos. É esse o valor que lhes pagarei se o Louçã e o Ricardo responderem a estas 3 perguntas:

– Quantos dos 150 mil empregos indicados como meta foram alcançados nessa legislatura?

– Quais as razões que impediram esse objectivo?

– Sem os factores que impediram o objectivo, e mantendo-se a conjuntura económica como estava antes dessa influência, quantos empregos teriam sido criados até finais de 2009?

Entretanto, Costa voltou a conseguir abrir bocas de espanto ao aparecer com uma meta de 207 mil empregos a criar, só para no dia seguinte estar na prática a demarcar-se desse desígnio. O que começou por ser uma afirmação de coragem e uma mensagem finalmente relevante para o eleitorado, porque tangível e crucial, foi de imediato transformada numa mistela que apenas consegue aumentar a confusão acerca do que o PS pretende fazer com o Governo nas mãos. Salva-se o futuro aproveitamento que o sr. Araújo e o sr. Anacleto farão do episódio pelos anos afora.

25 thoughts on “A economia, segundo o sr. Araújo e o sr. Anacleto”

  1. E depois não querem que o preso fale.
    Pois se ele era o único gajo à esquerda que sabia o que fazer com esta merda de país !
    O único que sabia e o único que queria !
    Por exemplo, o senhor “vamos dialogar” fez o manguito ao “pântano” e preferiu continuar a tratar dos refugiados.

  2. Belo naco de prosa! Sobretudo o ultimo parágrafo ! Não tenho dúvidas que constitui um contributo relevante para o aproveitamento que o Sr Araujo e o Sr Anacleto dele farão em 5 Out fp.

  3. Ó minha cara Jasmin, se havia alguém que já não fazia a mínima ideia do que fazer deste país era mesmo o preso 44!
    Se ele fosse dono disto, como gostaria certamente de ter sido, teria fugido para o Brasil!
    Com isto também não quero dizer que os “salvadores da pátria” que lhe sucederam fizessem a mínima ideia de como resolver o problema – aliás o resultado está à vista…

  4. As promessas de combate ao desemprego do Socrates de 2005 , caíram em saco roto, e não foi por culpa da crise. As promessas de Costa antes de ser já eram. O PS tal como o PSD atrelado ou não ao CDS sabem que as promessas não são para cumprir, são para animar campanhas eleitorais.

  5. Caríssimo Teodoro

    Então porque é que não fugiu ?
    Parece-me que os fujões são outros.
    Isso de fugir é mais para os empresários de sucesso amigos do actual PM, o 7º político mais sexy do mundo, e para certos comentadores televisivos de estatura inferior a 150 cm.
    Sim, o ex-PM foi o único que ainda se esforçou para abrir um rumo para esta merda. Os outros depois de suspenderem os seus projectos por serem “loucos” parece que agora vão querer reabilita-los e fazer de conta que foi ideia deles. Começaram no museu dos coches, vão continuar com os carros eléctricos, … e por ai fora, não tarda nada vão fazer o TGV e o novo aeroporto de Lisboa e vão dizer “FOI IDEIA NOSSA”.
    Cambada de camelos.

    Olha o Guterres parece que se meteu numa coisa que é areia demais para a camioneta dele.
    Tantos Migrantes e Refugiados, o homem que resolve tudo a dialogar não vai dar conta …

  6. comentário lateral:
    sim, ficaram bem na fotografia (e vídeo) quando o prenderam;
    mas Sócrates não lhes dá hipótese de ficarem bem na foto, se o pretenderem libertar…

  7. a coligação faz birra porque queria o dobro do tempo de antena nos debates. o próximo número é exigir dois códradrinhos nos boletins com fotografias da paulette e do marido e contagem dos votos a dobrar.

  8. Prezada Jasmin,

    Em termos de gestão dos dinheiros públicos, o rapaz que está encarcerado em Évora, é a antítese de António de Oliveira Salazar. Enquanto este último achava que não se deveria gastar o que existia, o nosso amigo José Sócrates sempre achou que deveria gastar o que existia e sobretudo o que não existia!
    É claro que esta rapaziada que anda pelo poder hoje em dia também tem o desejo de “deixar obra feita”. Nada me admiraria que ainda fossem desenterrar o TGV…
    Aliás o reinício das obras da AE Sines-Beja, paradas assim que tomaram o poder, é disso o melhor exemplo. Uma obra com um interesse quase nulo!

    Aos moços que nos governam é muito complicado gastar apenas o que existe. Têm o chamado medo de perder eleições…

  9. Comparativamente ás últimas legislativas, o tema que mais deixou de ser abordado foi o combate à corrupção. Como é assunto em que muita gente reconhece avanços nos últimos anos, deverá dar, justa ou injustamente, vantagem decisiva a Passos.
    Costa tinha de ter atacado o tema, sem vergonha ou pudor, para juntar ao , programa económico. Talvez julgasse ter interesse em não levantar o assunto, mas é tema que não devia ter ficado esquecido para um público moderado e esclarecido.

  10. Esta gente que trata o ex-primeiro ministro José Sócrates por “o preso 44”, não tem a noção da sua mesquinhês, arrogância, intolerância? Têm todo o direito de, politicamente, não gostar dele, mas, pessoalmente, o que têm de concreto contra ele que justifique a rasteirisse do tratamento? De concreto, não de ouvir dizer, não da leitura do Correio da Manhã. É indigno, cobarde, ofender alguém pelas costas.

  11. Com o devido respeito pelo entusiasmo da Caríssima, que não posso deixar de respeitar, por múltiplas razões, mas também para irritar o cegueta e, de certo modo, o Teodoro, eu cubro a aposta do VALUPI com a condição de ele me responder a estas duas perguntas.
    Primeira:
    Como pode alguém usar os poderes governativos para criar um número redondo de empregos durante uma legislatura, em que condições e com que meios?
    Segunda:
    Tens a certeza de que José Sócrates prometeu usar os poderes governativos para ou prometeu que o uso do poder governativo garantia?

    Seriam perguntas a mais se te perguntasse se estás mesmo convencido de que a crise começou depois de 2005. E se José Sócrates não o sabia.
    Não duvido de que José Sócrates tivesse feito tudo o que podia para criar empregos ou, pelo menos, para não os perder. Incluindo a promoção das empresas de construção civil portuguesas na América e em África.
    Sabias que o sector da construção civil estava a perder empregos desde 1995, pelo menos? De quando data o trambolhão da ENGIL e a operação de salvamento da Mota?

  12. Pois…
    Essa dos 207.000 empregos é mesmo para idiota (votante) acreditar.
    Se hoje cada vez mais o que conta são os trabalhos e não os empregos, estar com uma baboseira dessas só demonstra o irrealismo em que vivem os governantes que alguns ajudam a eleger.
    Daqui a 20 anos (ou até menos), bem mais de metade das pessoas que produzem, fá-lo-ão em regime de prestação de serviços, e andam estes a falar de empregos…

  13. Convenhamos que como apreciação séria e competente a um programa, se fosse essa a intenção, o que por aqui se tem escrito é irrelevante, é nada.

  14. Há temas que, a partir de dado estádio, só consigo comentar com sarcasmo. Vou fazer dois comentários.
    O primeiro é dirigido ao Teodoro. O segundo, façamos de contas que também.
    Primeiro.
    Daqui a vinte anos os assalariados serão todos prestadores de serviços por conta de outrem, ou seja, cada assalariado terá o perfil contratual de uma unipessoal limitada.
    Pior do que andar a prometer empregos durante quatro anos, é ser bruxo e adivinhar o estatuto contratual dos assalariados durante quatro anos. Como as coisas se apresentam e referindo algumas teorias da conspiração que por aí circulam, daqui a vinte anos seremos todos escravos consumidores da Mosnsanto SA.
    Tem razão o Teodoro quando propõe que, hoje em dia, o que mais interessa é o trabalho e não o emprego. O ideal seria mesmo que todos trabalhássemos sem emprego nem salário, em nome do PIB, da correcção do défice, das estatísticas e da produtividade, que são tudo metas alcançáveis com trabalho e sem emprego.
    Segundo.
    A acção governativa pode ter, sem dúvida, um papel determinante na criação de emprego.
    No início da década de 1960, na expectativa de uma crise generalizada de ”chomage” na Europa, mas com efeitos drásticos em Portugal, sendo claras e evidentes as tendências alarmantes da emigração ilegal dos confins da Europa para Paris e Franquefurte, Salazar teve o génio de congeminar o mais genial programa de governação com o fim de alterar as coisas, fixar os jovens ao sagrado território pátrio e atacar o desemprego. Entre 1962 e 1970, no espaço de duas legislaturas em moeda actual corrente, cerca de um milhão de portugueses foram mobilizados para a guerra colonial. Para enquadrar a estabilidade no emprego, ainda foi criado o quadro de oficiais milicianos e promovido o acesso à carreira de sargento.
    O problema é que, quando a acção governativa se centra na questão do emprego a tendência para resolver o problema alterando o estatuto do trabalho assalariado e estabelecer o perfil do prestador de serviços.
    Se um governo congeminar um programa para administrar a prestação de serviços das prostitutas, criando uma empresa pública que opere no mercado de trabalho temporário, garantirá, pelo menos, que nenhum governante engrossará as fileiras do desemprego.

  15. Boa tarde, senhor cegueta.
    Consegue perceber alguma coisa do que vou escrevendo por aqui, na esperança de que o senhor cegueta acorde e venha bater palmas?
    O Valupi ainda não accionou o dispositivo de leitura assistida.

  16. Resta assinalar, Caríssima Fátima, que o instinto, a abstenção, é agora também um produto de consumo eleitoral. Porque cada abstencionista, singular ou colectivo, se sai agora também com o seu partido. E cada um com o seu dispositivo de propaganda.
    Já não sei se a propaganda vai chegar para todos. Mas o partidos outrora da abstenção, todos juntos, representam a maioria aritmética. Veremos que solução terá o senhor Hondt para isto.

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