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Uma receita tradicional

Os pafiosos vão mesmo governar esta choldra durante os próximos 4 anos, e descobri como. Passa por termos Passos, o Resiliente, a levar ao Parlamento o programa socialista transformado no programa do seu Governo, acrescentando que se compromete a cumprir todas as medidas nele contempladas e até, se preciso for, a ir mais além, incluindo medidas dos programas do BE e do PCP (desde que não façam mal à Nato, coitadinha). Obviamente, o PS terá de votar a favor e ficar calado durante toda a legislatura. Golpe genial.

Impossível? Não para o Pedro, esse homem invulgar. Às críticas que iria inevitavelmente receber de todos os lados, bastaria lembrar que estava a cumprir a tradição. E que a tradição é o valor supremo do regime onde gosta de ser primeiro-ministro. Afinal, também em 2011 tinha feito uma campanha eleitoral com um programa e depois governou com a antítese do que tinha prometido. E correu-lhe mal? Nada disso, como se comprova pela repetição da vitória em 2015. Logo, está encontrada a receita para termos os pafiosos a mandar nisto pelo tempo que eles quiserem.

Back to this future

Um forma de iluminar os dias correntes é regressarmos a 2009 para voltar a olhar o futuro a partir daí sabendo o que hoje sabemos. Por exemplo, sabemos que a direita admitia governar em 2011 calhando ter maioria parlamentar mesmo sem vencer as eleições. Ora, porque não logo em 2009? Acontece que ninguém sequer pensou nisso. E ninguém quis governar com o PS, apesar deste ter aberto negociações formais sem excluir qualquer partido. À esquerda, porque Louçã não fazia maioria absoluta com o PS e, portanto, não estava em condições de obrigar Sócrates a pagar o preço gigantesco que este Napoleão vermelho iria exigir. Embriagado com os votos dos professores apavorados com a avaliação, acreditou mesmo que iria destruir o PS nas eleições seguintes. Quanto ao PCP, jamais alinharia numa solução tripartida, pois vinha de uma derrota histórica para o BE e havia de cavar ainda mais trincheiras para reforçar o sectarismo, como manda a ciência da História. À direita, uma coligação PSD-CDS não daria maioria absoluta no Parlamento, não existindo qualquer possibilidade de juntar mais deputados, fossem eles quem fossem. Logo, seria uma iniciativa sem viabilidade. Quando hoje se invoca essa situação de 2009 para dar mais força à nomeação de Passos como primeiro-ministro em 2015 está-se apenas no campo de uma retórica primária para primários.

Em boa verdade, a verdade que nasce de termos regressado ao futuro com o filme destes 6 anos passados, é claro que ter um Governo minoritário liderado por Sócrates era a melhor situação possível para toda a oposição e, em especial, para Cavaco. Com eleições presidenciais em Janeiro de 2011, a legislatura iria ser desde o seu início um alvo da campanha presidencial cavaquista, estando condenada a terminar assim que a reeleição se consumasse e se abrisse uma crise política. Para a oposição, tratava-se de ir queimando tempo e queimando os socialistas, o que fizeram com entusiasmo incansável e espírito de união nacional que culminou no chumbo do PEC IV com o imediato afundanço do País e a entrega do poder ao casal Passos-Relvas. A existir alguma moral nisto, só a eventualidade de a esquerda pura e verdadeira ter entretanto aprendido a lição.

Cavaco – ao ostracizar BE e PCP, partidos que representam directamente 1 milhão de cidadãos neste novo Parlamento e que são partidos tão legítimos como os restantes, ao apelar à revolta contra a liderança de Costa adentro do grupo parlamentar socialista, e ao convocar entidades estrangeiras para prejudicarem os interesses de Portugal – está não só a revelar perfeita coerência com o que tem mostrado ser capaz de fazer desde 2008 como está a reclamar ser ele o mais importante chefe histórico de uma certa direita portuguesa decadente que se tem multiplicado com Passos e Portas, e que reapareceu em força com a derrocada do BPN, BPP e, em especial, BCP. O Ricardo Salgado, como se vê, é um menino meio tonto ao pé do outro senhor.

Esta direita despreza a Constituição e usa o Estado de direito como arma de perseguição política, explorando recursos policiais para devassarem a privacidade de alvos que depois expõem tanto secreta como publicamente só para destruírem o seu bom nome e a sua influência. Até agora, têm contado com a cumplicidade do PCP e do BE para o irem fazendo a seu bel-prazer, sem protesto nem repúdio. Talvez, com mais esta cena de ódio, Cavaco tenha ido longe de mais no seu rancor cego e soberbo. Talvez.

Estão criadas as condições óptimas, pois, para cada um dos nossos políticos favoritos mostrar o que vale.

Outubro vermelho

A Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP) angariou mais 1.400 milhões de euros através de títulos de dívida de curto prazo, com uma taxa de juro negativa no prazo a três meses.

O IGCP colocou esta quarta-feira 300 milhões de euros de Bilhetes do Tesouro a três meses e 1.100 ME a 11 meses. A emissão superou a expectativa inicial de 1.250 milhões de euros.

Fonte

Arca da governação

A democracia consiste numa ideia simples que tem o potencial para gerar as maiores complexidades políticas possíveis. A oligarquia consiste numa ideia complexa que ambiciona gerar a maior simplicidade política possível. A tirania consiste numa ideia demasiado simples que quase sempre gera consequências demasiado violentas. A aristocracia consiste numa ideia demasiado complexa que quase nunca consegue gerar a excelência que o seu conceito promete.

O espaço público está dominado por uma imprensa que, em diversos graus e modos, rema toda no mesmo sentido. Quando lemos os seus editorialistas, os quais sintetizam práticas internas e diárias no tratamento da informação pelas equipas de jornalistas que dirigem ou formam, o apelo é para a capitulação de Costa aos troika-tintas Pedro&Paulo&Aníbal. A arma que usam é o medo, tal como foi feito durante a campanha por uma coligação sem programa nem vergonha, só gula de poder. E chega a ser hilariante descobrirmos agora tanto direitola em pânico com a perspectiva de o PS se estar a preparar para desaparecer às mãos dos comunas e daí resultar um período de 10 anos, mínimo, só com maiorias absolutas da direita. Eles bem avisam aos berros, coitados.

O “arco da governação”, a ter desaparecido, tem um único responsável: PCP. Caso nesta altura o Jerónimo continuasse a tocar a cassete da “farinha do mesmo saco”, não haveria Catarina com tamanho e embalo suficientes para dar a Costa uma base política que servisse os interesses do País. Por aqui, por esta ofuscante facilidade com que se consegue mudar por completo de paradigma no sistema político português, se pode constatar quanto tempo foi perdido graças ao sectarismo de uma esquerda cristalizada numa visão religiosa que não passava de pulsão defensiva animalesca. Por estes dias, sabermos que comunistas e bloquistas são capazes de negociar com o PS abre um campo de possibilidades que beneficia tudo e todos, excepção para os adeptos de oligarquias e tiranias.

Negociar, como o étimo indica, passa por ser capaz de abandonar o ócio ideológico causador de perversidades políticas. Negociar, numa democracia, é o equivalente ao jogo evolutivo na Natureza, feito de acasos e necessidades. E de necessidades e de acasos. O aumento da complexidade resultante favorece o aparecimento de soluções de governo mais eficazes para o maior número de organismos políticos, cidadãos mas também instituições.

Esta é a arca da governação. Tão melhor quão maior. Maior até ao ponto de nela caberem todos os que livremente queiram lá entrar.

Uma guerra perdida?

Confesso que não sei como começar a falar deste assunto. Pelo que vou recorrer a um movimento parabólico e partir do Marcelo, provável futuro Presidente da República.

Marcelo - CM

O Google não é de fiar, porém. Acaso alguém se lembra, ou é vizinho de alguém que tenha um primo cuja cunhada é colega de alguém que se lembre, de ter ouvido Marcelo a criticar o CM seja lá por que razão fosse? Eis do que me recordo, do Marcelo a referir-se com grande satisfação ao facto de esse pasquim perseguir Sócrates e o PS. Para ele, isso é algo legítimo, bom e aproveitável por si e pelos seus. Porque no caso de Marcelo estamos perante um ser que usou, e usa, o palco da projecção mediática para exibir a sua filiação à oligarquia vivida visceralmente como um clã. Daí vinha, e vem, o gozo supremo de estar em constante combate, em permanente ataque, em eterna luta pelo poder. Ter um jornal que comete crimes, ou paga por eles, ou é deles cúmplice, ou tudo isso junto, que explora o medo e a ignorância, que alimenta um populismo selectivo, que faz um jornalismo destituído de deontologia e reduzido à função de arma de arremesso, nunca levantou qualquer problema de consciência a quem se propõe vir a ser o “primeiro magistrado da nação” dado terem os mesmos inimigos, protegerem os mesmos senhores. Enquanto uns se passeiam pelos corredores alcatifados do regime, outros fazem o trabalho imundo de ter de lidar com o povoléu que cheira mal. Vale tudo para foder aqueles filho da puta do PS, cantarola em surdina enquanto faz a barba. Os dias de Marcelo seriam insuportáveis sem o cheiro a napalm pela manhã.

Fernando Medina - CM

Cá está o assunto. Medina imita Costa e vai colaborar com o esgoto a céu aberto. Tudo ultrapassa a minha capacidade de compreensão nesta notícia. A começar por ser uma estreia. Mais nenhum jornal tinha interesse em ter aquele que, inevitavelmente, um dia será secretário-geral socialista? Há lugar na “imprensa de referência” para caluniadores e broncos, passe a tautologia, mas não para uma figura tão promissora para o futuro do País como Medina? Ou será que os convites foram feitos mas ele recusou-os e preferiu inaugurar esta actividade no CM? Se sim, porquê? Pelo prestígio que atribui ao meio? Pela audiência? Pelo dinheiro oferecido?

O CM não é apenas um tablóide que consegue ser um poder fáctico ao serviço da direita, desfrutando de vasto alcance por estudar. Já desde o tempo da AD que nele se praticam manipulações grosseiras em período eleitoral, tendo encontrado em Sócrates o maior filão para a prática sistemática de pulhices em toda a sua história. Atente-se no que escrevem os seus directores em cima da entrada de Medina no corpo de comentadores.

Octávio Ribeiro - CM - Sócrates

CM- Eduardo Dâmaso - Sócrates

Em ambos, a mesma mensagem. Sócrates faz parte de um grupo muito maior, onde reina uma criminalidade indefinida mas indesmentível. Contra ela, o CM dá o peito às balas e lança-se na caça do dragão diabólico que anda a roubar o pobre povo que adora futebol, gajas boas e descascadas, assassinatos, assaltos e violações (mas não necessariamente por esta ordem). O CM está pronto para limpar o regime, e nem sequer lhe faltam os conhecimentos certos no Ministério Público e nos tribunais para fazer esse trabalhinho de forma a não escapar nem um dos xuxas corruptos. Eles sabem quem fez o quê, só não tratam de fazer justiça pelas próprias mãos porque são uma rapaziada paciente. Podem ir esperando pelos Governos PSD-CDS que acabam com a impunidade e conseguem prender ex-primeiros-ministros socialistas. Foi a esta gente que Medina deu a sua resposta “pronta”. Está pronto para os ajudar no seu plano, colando o seu nome a um antro de ódio, de decadência. Decisão inexplicável e vexante.

CM - Sócrates - Carro do Estado

Octávio e Dâmaso devem estar felizes da vida. Compram os socialistas que querem, do Costa ao Medina, do Rui Pereira à Maria de Belém, passando pelo Eduardo Cabrita. Até a excelente Fernanda Palma não se incomoda por receber dinheiro sem cheiro, pouco se importando como foi obtido. Quanto à esquerda pura e verdadeira, também sempre viram com agrado o trabalho sistemático de desgaste ao PS (ou fosse qual fosse a força considerada mais ameaçadora para os seus interesses) que o CM assume como missão e destino. Isto revela que há espaço na sociedade e na política portuguesas para um outro tipo de respeito pelo Estado de direito, pela decência e pela comunidade que não encontramos na nossa elite. Há espaço para um escol que faça da coragem e da inteligência os pilares primeiros do seu compromisso político. A coragem de chamar pulhas aos pulhas, a inteligência de ser implacável com quem não tem a mínima compaixão por aqueles que tomam como alvos a abater.

Falar verdade aos portugueses

"Nós tínhamos estudado todos os cenários, também este que está a acontecer, por isso não estamos assim tão surpreendidos na medida em que tínhamos imaginado todas as possibilidades", afirmou Aníbal Cavaco Silva aos jornalistas em Albufeira, ao ser questionado sobre as negociações entre os partidos para a formação de um novo Governo."

Fonte

O cidadão que utilizou a função presidencial para ser cúmplice ou instigador de transgressões constitucionais com o fito de perverter actos eleitorais, entre outras vilanias que consubstanciam a mais nefasta presidência da República desde o 25 de Abril, veio revelar que já tinha estudado o actual cenário. É de acreditar à primeira.

É de acreditar porque o cenário começou com a marcação das eleições por este mesmo senhor para Outubro em vez de Setembro ou ainda melhor Junho, assim criando uma disfunção no processo democrático onde se exploram à direita alarmismos sob capa europeia e orçamental e se faz pressão contra as eventuais negociações que possam ocorrer não havendo maioria absoluta. De seguida, continuou com a recusa do actual Presidente da República em celebrar a implantação do regime que está na origem do seu cargo, alegando precisar de ficar fechado no Palácio de Belém a fazer contas de cabeça. Por fim, consumou-se com o discurso onde veta a entrada do BE e do PCP em qualquer solução governativa. Não contente, anunciou – sem ter consultado nenhum dos partidos com representação no novo parlamento – que prefere ter o presidente do seu partido a formar Governo independentemente dos resultados eleitorais e das negociações possíveis nesse quadro.

Este é o cenário. Estudado ao pormenor por Cavaco, como é o próprio que admite mal disfarçando a gargalhada. Resta só saber se ele também imaginou o que pode acontecer se a esquerda portuguesa conseguir derrotar a sua histórica imbecilidade.

Revolution through evolution

Why being single is much more than handling just loneliness
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New research shows how to make effective political arguments, sociologist says
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How perfect is too perfect? Research reveals robot flaws are key to interacting with humans
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Relaxation response-based program may reduce participants’ future use of health services
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What a nightmare: sleep no more plentiful in primitive cultures
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Feasts and Food Choices: The Culinary Habits of the Stonehenge Builders
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Describing the Indescribable

In claris non fit interpretatio

No dia 16 de Outubro de 2015, a Justiça portuguesa fez saber o seguinte:

"O Ministério Público promoveu, e o Tribunal Central de Instrução Criminal deferiu, que a medida de coação de obrigação de permanência na habitação, aplicada a José Sócrates e a Carlos Santos Silva, seja substituída pela proibição de ausência do território nacional, sem prévia autorização, e pela proibição de contactos, designadamente com outros arguidos no processo.

O Ministério Público considera que se mostram consolidados os indícios recolhidos nos autos, bem como a integração jurídica dos factos imputados. Pelo que, na atual fase da investigação, diminuiu a suscetibilidade de perturbação da recolha e da conservação da prova."

Acontece que a libertação de Sócrates está directamente relacionada com o fim do segredo de justiça, o qual foi imposto pelo Tribunal da Relação ao Ministério Público. Não tendo existido essa decisão de um tribunal superior, e calhando ser essa decisão ainda recorrível com efeitos suspensivos, estaria agora o juiz Carlos Alexandre a libertar Sócrates? A resposta é não, não e não. A acusação levaria até ao fim do prazo limite a prisão daquele que, concomitantemente, é alguém que o próprio Ministério Público admite já não poder estar preso nem mais um dia a contar de ontem.

Pelos vistos, neste país só os advogados de Sócrates se indignam com o que tem de ser um gravíssimo abuso, se não for crime, por parte da Justiça portuguesa através do procurador Rosário Teixeira, do juiz Carlos Alexandre e da procuradora-geral da República Marques Vidal. Mais ninguém quer saber, posto que não se manifestam, e a maior parte até lamentará que um arguido veja os seus direitos reconhecidos e uma injustiça terminada. Uma das piores injustiças concebíveis, a privação da liberdade.

As mesmas interrogações, à luz desta impunidade violenta e violentadora destes mesmos agentes de Justiça, para os fundamentos que levaram Carlos Alexandre a recusar enviar Sócrates para prisão domiciliária sem pulseira electrónica, obrigando-o a permanecer num estabelecimento prisional. Nessa altura, em Junho, Sócrates ainda poderia perturbar o inquérito e a recolha de provas? Como? Quais provas? E como justificou o juiz a exclusão da vigilância policial? Ou tanto fazia e, como se tratava de Sócrates, então que ficasse em Évora durante o Verão em vez de se estar a incomodar a bófia?

A mesma questão para o início deste processo, ficando agora no ar a suspeita de que a decisão de colocar Sócrates em prisão preventiva tenha sido, logo no começo, um abuso de poder. E se o argumento da acusação for o de que o perfil do arguido justificava a prisão por causa da tipologia dos crimes na berlinda e da sua rede de contactos e de influência, há que devolver esse raciocínio para perguntar como se pôde tratar assim alguém cuja prisão preventiva iria ter implicações sociais e políticas inevitáveis, profundas e gravíssimas para toda a comunidade e para o futuro político do regime. Quão frágil, afinal, era a investigação em Novembro de 2014? Quem decidiu que, neste caso e com esta pessoa, a que acresce o calendário eleitoral, se podia prender para investigar?

Por fim, sempre que se analisar este caso temos de concentrar parte principal da atenção no que se passou em Julho de 2014. Quando a Sábado, meses antes da detenção, publicou informações que se vieram a confirmar pertencerem à “Operação Marquês”, não consta que tenha sido por iniciativa de Sócrates ou do João Araújo. Qual foi, então, o propósito? A resposta a esta pergunta conduz a duas conclusões: a de que as informações só podiam ter vindo da investigação e a de que já nessa altura estava em causa provocar um certo efeito político.

Sim, mesmo que Sócrates acabe culpado de alguma ilegalidade, ou de muitas – embora, neste momento, dada a demora na acusação (se é que vai existir) e os erros dos magistrados, seja a persistência da sua condição de inocente que vai refulgindo com crescente brilho – tal não apagará a fundada consciência de que estamos, de facto, perante um processo onde a Justiça portuguesa nos envergonha e deve assustar.

Dos fracos não reza esta história

A direita está furiosa com o PS mas a presente situação política teve origem no PCP. Era para este partido que os ataques deveriam estar a ser dirigidos pelos direitolas caso a política fosse um exercício de lógica ou implicasse módico respeito pela causalidade.

PSD e CDS não anunciaram em 2011 que iriam coligar-se no après-élections, apesar de ser mais do que certo ambos os partidos terem esse cenário como previsível, desejável e meio combinado antes da votação pelos escudeiros e conselheiros de parte a parte. E as razões para tal são evidentes. O PSD teria o poder para condicionar o CDS na exacta medida da sua diferença eleitoral e parlamentar. Inclusive, porque é sempre tudo possível numa eleição, poderia obter maioria absoluta, situação que dispensaria a coligação. Por sua vez, o CDS jamais anunciaria que o voto em si era inútil por já se saber qual o desfecho do panorama à direita. Mais, o CDS poderia legitimamente reservar-se o direito de ir para o Governo com o PS num eventual cenário onde tal fizesse sentido para Portas. Isto não é assim tão difícil de entender, pois não?

No caso presente, a situação é ainda mais clara. O PCP e o Bloco fizeram uma campanha onde atacaram o PS com a gana do costume, não existindo ninguém neste planeta, ou em qualquer planeta vizinho até onde os telescópios alcancem, que admita ter existido um acordo, ou vestígio dele, prévio às eleições entre os três partidos da esquerda. O que se viu, aliás, foi bem outro fenómeno. Na viragem para a segunda semana da campanha, surgiram notícias que davam conta de protestos populares em eleitorado comunista contra a obsessão de Jerónimo com o PS. Em simultâneo, saiu na imprensa que o PSD teria avisado o PCP da perda de votos para o PS, o que estaria a justificar a fúria veterotestamentária do patriarca da gente séria. De imediato vimos o PCP a travar a fundo, como se de repente tivesse pressentido o que viria a acontecer no dia 4 de Outubro. Do lado do Bloco, a proposta de Catarina a Costa no debate não passou de uma encenação que ninguém levou a sério tamanha a contradição com o restante das mensagens antagónicas espalhadas copiosamente, as quais retiravam credibilidade ao convite. Assim, estar a exigir retroactivamente que Costa devia ter anunciado as suas intenções de coligação com BE e PCP é acusação irracional para broncos ruminarem.

Acaso alguém, inclusive dentro do PS, concebe que Costa pudesse recusar o gesto mais importante do PCP desde o 25 de Novembro? Acaso não é óbvio que as presentes circunstâncias de diálogo à esquerda, mesmo que venham a resultar num fracasso imediato ou a médio prazo, são objectivamente históricas? Queriam que Costa fugisse da responsabilidade que os cidadãos portugueses lhe confiaram soberanamente? Até para os interesses do secretário-geral socialista que se segue, venha ele quando vier, é necessário que o PS esgote as possibilidades para a criação daquele que pode ser o primeiro Governo da III República onde se consagra a solidez do nosso regime e a maturidade da nossa democracia.

Perguntas simples

Em 2011, os 2.813.729 eleitores que deram o seu voto ao PSD e ao CDS queriam pagar muito mais impostos, ter cortes nos subsídios e nas pensões, ir para o desemprego ou ver os familiares e amigos perderem o emprego, emigrar ou ver os familiares e amigos a emigrar, ter o País a empobrecer muito mais do que o imposto pelos credores e chegar ao fim dessa devastação sem se ter atingido qualquer mudança estrutural positiva, nem sequer os objectivos do Memorando acabando cumpridos, e ainda ver o défice, a desculpa suprema para todas as vilanias, voltar à casa da partida?

Se não queriam que o seu voto resultasse nessas escolhas políticas, até porque acreditaram na propaganda que jurava o contrário, podemos dizer que Passos&Portas chefiaram um Governo ilegítimo nascido da maior golpada que a democracia portuguesa regista desde sempre e, quiçá, para todo o sempre?

A oligarquia a guinchar, não pode haver melhor sinal de que algo verdadeiramente importante está a acontecer

Quando há já bem mais de um ano escrevi aqui um texto de opinião em que deixava vir à tona das palavras a minha simpatia pessoal por António Costa (e sim, sempre foi pessoal e nada política, o que de resto só piora hoje as coisas), um bom amigo alertou-me: “vais pagar caro esse artigo, e lembra-te disto quando daqui a uns tempos ele te for seriamente cobrado”.

Pois bem, já está a ser. A factura é caríssima, a responsabilidade é minha e não tenho idade nem para dizer que me enganei, nem para fingir que não é “bem assim”. É muito pior que “bem assim”. Sucede que assumir um engano (o meu) desta natureza não o torna automaticamente mais explicável, mais compreendível ou compreensível e é por isso que, – repito – é preciso ir buscar a chave deste alarmante comportamento de António Costa ao pior que pode haver dentro de alguém. E mesmo sabendo nós que na política há ainda mais surpresas do que na vida, o mal está feito: haja ou não haja estreia da peça, António Costa não terá, face ao país ou face a mim mesma, uma segunda oportunidade para se redimir deste seu assalto ao poder.


Maria João Avillez

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Nota

Esta senhora declara que a tentativa de encontrar uma maioria num parlamento corresponde “ao pior que pode haver dentro de alguém“. O pior da natureza humana para a sua consciência moral, portanto, será o usufruto da liberdade num Estado de direito democrático, cujo contexto é uma ambição constitucionalmente legítima e politicamente bondosa. Isto é a oligarquia portuguesa, imutável no seu revanchismo soberbo e parolo há séculos.

Uma ideia a repetir em cada freguesia

Rui Moreira teve uma grande ideia, ou alguém que trabalha com ele: A Câmara do Porto procura fotos antigas e conta com a sua colaboração. A notícia já é de Setembro, e só falo dela agora porque entretanto parece que andámos entretidos a eleger um novo Parlamento.

Existirão, por todo o País e fora dele, milhares ou milhões de fotos passíveis de serem recolhidas, digitalizadas e disponibilizadas ao povo dentro deste conceito da recuperação de paisagens portuguesas perdidas, tanto públicas como privadas. Mas não só às gentes locais e aos curiosos a recolha traria deliciosos momentos de descoberta e nostalgia, quiçá deslumbramento, cientistas de variadíssimas ciências humanas teriam também aí material precioso para as suas investigações.

Em Lisboa contamos com um muito bom arquivo fotográfico digital, onde já gastei dezenas de horas. Mas ele poderia ser muito, muito e muito melhor. Para além de, por vezes, apresentar erros na identificação dos locais fotografados, a sensação que deixa é a de que se trata do átomo na molécula que está mesmo na pontinha do icebergue. Quanto espólio imagético não se terá perdido nestas últimas três ou quatro décadas, só porque ninguém valorizou as suas fotos pessoais e de família como documentos valiosos do ponto de vista histórico?

Mas vamos sempre a tempo de salvar o que restar. É imitar o promissor exemplo do Porto e fazer das freguesias esses centros de recolha. Seria facílimo, bastava ir armazenando o material digital que chegar e digitalizar o que for entregue em papel. E não há pressa nenhuma, isto pode ir sendo feito com a lentidão que apetecer, embora aposte existirem voluntários de todas as idades dispostos a passarem dias e dias nesse encantador trabalho.

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A terceira maioria, e as três minorias

Nem só de duas maiorias se faz o actual Parlamento; uma que liga os partidos do em vias de extinção “arco da governação” ou da Europa, e a outra que liga os partidos da esquerda ou da anti-austeridade. Também há aquela que, nos idos de 2011, Bagão Félix, num momento de grande seriedade política, alvitrou:

"Há uma solução que é um Governo PSD, CDS e PCP."

Para Bagão Félix "há uma solução que é um governo PSD, CDS, PCP. Uma ideia ‘provocative'. Não estou a dizer que pode vir a acontecer, mas nós precisamos de abanar a cabeça senão morremos atrofiados. É quase impossível chegar a acordo com o PCP, mas, se alguma vez se chegar a acordo, este será cumprido. O PCP é muito respeitador, institucionalista."

"Não me repugnava que, num governo deste tipo, o PCP tivesse uma pasta social ou do trabalho. Jerónimo de Sousa é um homem sincero, um homem autêntico, um político sério. A certa altura sinto-me asfixiado pelas soluções equacionáveis. Precisamos de abrir o horizonte teórico das soluções".

"Sendo absolutamente não comunista, respeito o actual PCP e não o ponho no gueto."

Março, 2011

Cá está. Bagão põe as mãos no lume pelo São Jerónimo. O tal Jerónimo que fez uma campanha onde vendeu os comunistas como “gente séria” e nada mais para não atrapalhar a dialéctica do zeitgeist. Pelo que já só falta vir Pedro&Paulo com a pasta social ou do trabalho numa bandeja, quiçá as duas e mais uns trocos, para se reunir esse magote de gente séria e nascer um Governo da terceira maioria profetizada em 2011. Com a enorme vantagem de ser uma solução que Cavaco iria adorar, dado igualmente adorar o adorável Jerónimo e receber deste igual estima.

Entretanto, e independentemente do que vier a acontecer e de qual seja a origem parlamentar do próximo Governo, constata-se que a tomada do PSD por uma direita radical e decadente levou à formação de três blocos socio-ideológicos como nunca tivemos no sistema partidário com estes fundos antagonismos. Do lado direito, dois partidos que chegaram ao poder através do maior logro eleitoralista da história democrática e que não têm qualquer projecto outro a não ser conservarem-se no Governo. Do lado esquerdo, dois partidos sectários que recebem votos de fanáticos, votos de protesto e votos flutuantes. Ao centro, o partido esteio do regime democrático, o único partido que, neste contexto, consegue ser ecléctico e responsável o suficiente para dar origem às soluções de governação mais criativas, mais sólidas e mais eficazes. O seu eleitorado resiste à pressão de uma comunicação social em constante ataque moral e político contra os líderes socialistas.

Se estas três minorias se mantivessem, e se naturalmente levassem ao desaparecimento do CDS e do PCP ou do Bloco, nada se perderia que nos fizesse falta e poderíamos desfrutar do amadurecimento da fórmula que está, literalmente, a dar os primeiros passos em 40 anos de um parto que ainda se mantém com prognóstico reservado.

Autogolos

Alberto Arons de Carvalho publicou O pluralismo da comunicação social depois das eleições. Calendário que não é irrelevante para a temática em causa. De notável no texto, dois aspectos. A sua raridade, posto que nem sequer do universo de filiações ao PS têm vindo denúncias ao longo destes longos anos acerca do poder esmagador que a direita exibe na comunicação social. E a sua superficialidade, posto que não toca nas campanhas de ódio, nos assassinatos de carácter, nos crimes da violação do segredo de justiça e na indústria da calúnia – a que se juntou nesta campanha eleitoral a exploração do estado de saúde de Laura Ferreira, provando-se pela enésima vez que vale mesmo tudo para a actual direita. Quanto ao que deixou escrito, certíssimo, inquestionável.

Para se atentar na vexante posição do PS, enquanto partido com militantes e simpatizantes e não apenas dirigentes, a respeito desta paisagem monocromática e perversa na imprensa portuguesa, vou repescar uma recente afirmação de Vital Moreira:

A democracia liberal supõe um "mercado livre de ideais e de opiniões". Mas como sucede com o mercado de bens e serviços, é precisa uma concorrência efetiva que impeça monopólios no acesso e abusos de posição dominante no debate político nos meios de comunicação, sob pena de se cair na "asfixia democrática" que há anos um dirigente político da direita denunciou com muito menos fundamentos do que hoje.

“Asfixia democrática”

Ora, bá lá ber. Vital considera mesmo que quando Paulo Rangel foi para o Parlamento Europeu berrar que já não vivia num Estado de direito, só porque tinha lido num esgoto a céu aberto que teria sido descoberto em escutas um “plano socialista” para vir a controlar órgãos de comunicação social – e ainda, na mesma vergonhosa peixeirada, ter responsabilizado o primeiro-ministro de então por uma crónica sórdida, doente e caluniosa de Mário Crespo não ter sido publicada no JN – estava o eurodeputado a exibir os “fundamentos” que o mesmo Vital admite existirem para se ter falado em “asfixia democrática” ao tempo? Se não, a que fundamentos se refere? Quais eram os órgãos de comunicação social que, de 2005 a 2011, mostraram defender fosse o que fosse associado com o PS ou com o Governo ou que tivessem calado a oposição, sequer diminuído o tom dos seus protestos febris? O que vimos foi precisamente o contrário: o império Balsemão, a TVI do casal Moniz, o Público de Belmiro e do Zé Manel, o Sol do tresloucado, a Renascença de uma Igreja invariavelmente de direita, um DN do Marcelino onde uma brigada de Passos Coelho tomava conta da secção política, uma TSF onde o Baldaia fez sempre o que pôde para defender Cavaco e desgastar Sócrates e o PS, e uma RTP onde Judite de Sousa tinha chiliques por causa do olhar incandescente do Diabo. Acaso o Vital Moreira conseguiria apontar algum dano à liberdade de expressão ou à liberdade da imprensa durante a governação de Sócrates? Não era evidente que a direita, com a cumplicidade activa da esquerda pura e verdadeira salvo pouqíssimas excepções, fazia o mal e a caramunha, tendo-se até descoberto numa comissão de ética que o Correio da Manhã, em 2009, liderou por larguíssima margem o investimento publicitário do Estado?

Nesta campanha eleitoral em 2015 não se discutiu a intoxicação do espaço público por uma comunicação social sem decência nas mãos de uma direita violenta e decadente, tal como não se discutiu uma Justiça onde parece haver magistrados a cometerem crimes e ilegalidades, tal como não se discutiu a Educação. Não admira, então, que haja em Portugal muito mais adeptos da bola do que do Estado de direito.

Revolution through evolution

Women and men react differently to infidelity, study shows
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Predicting which soldiers will commit severe, violent crimes
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The science of retweets
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Predictive policing substantially reduces crime in Los Angeles during months-long test
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Ravens cooperate, but not with just anyone
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New study shows that varying walking pace burns more calories
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What’s Our Obsession with Steve Jobs All About?
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