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Falácias e fellatios

Em relação à actual direita partidária, há algo que podemos sempre antecipar com certeza absoluta: estamos perante pessoas que concebem a política como um exercício estritamente técnico, destituído de qualquer idealismo ou referente moral, onde a hipocrisia e o cinismo são inerentes à própria elaboração do discurso. Em suma, esta direita mente compulsivamente por não ter outro recurso intelectual à disposição na sua ambição de conquistar e manter o poder. É graças à supremacia desta praxis que um líder tão medíocre como Passos Coelho consegue medrar e ter sucesso, tendo feito uma carreira política onde saltou da JSD para a presidência do partido depois de andar a ganhar aquilo com que se compram os melões não se sabe bem como, e onde já disse tudo e o seu contrário nos últimos 7 anos, por vezes com diferença de minutos ou até segundos. Ao seu lado, na passada legislatura, manteve-se um político gasto que trocou o valor da palavra de honra por um palacete colado ao Jardim Zoológico.

Neste quase onírico período pós-eleitoral, onde estamos confrontados com a real possibilidade de uma inaudita e histórica governação com o pleno apoio, quiçá participação, de toda a esquerda parlamentar, temos visto o crescente desespero dos direitolas. O que dizem, contudo, não passa de merda atrás de merda. Atentemos nestas quatro falácias que repetem maníacos:

– “Seria imperdoável não tirar partido de todos os sacrifícios.

Esta direita está a pedir ao PS para salvar o seu legado. Um legado feito de propostas que violaram as promessas eleitorais, atentaram contra a Constituição, fizeram do abrupto e violento empobrecimento da classe média e dos pobres a única estratégia a seguir, tentaram ir além da Troika e foram mesmo ao conseguirem aumentar a austeridade em muitos milhares de milhões de euros, venderam mal as empresas públicas e alimentaram nesse processo clientelas próprias – chegando ao fim da desvastação não tendo atingido quase nenhum, ou mesmo nenhum, dos objectivos do Memorando, e isto apesar de terem desfrutado de condições externas excepcionalmente favoráveis.

Quão desavergonhados terão de ser para estarem a vangloriar-se destes resultados?

– “O PS não levou a votos a ideia de governar com o apoio/participação do Bloco e PCP.

Isto vindo daqueles que levaram a votos a ideia de acabarem com os sacrifícios, não aumentarem os impostos, não cortarem nas pensões e não fazerem despedimentos, porque já tinham as contas todas feitas e porque iam só cortar nas gorduras do Estado.

Quão estúpidos julgam que somos, e quão biltres se sabem ser, para terem o topete de vir com esta conversa?

– “67,6% de eleitores disseram que não queriam um governo liderado pelo PS. 89,8% dos eleitores rejeitaram a política defendida pelo Bloco de Esquerda. 91,7% votaram em opções diferentes das da CDU.

Exacto. Mas 100% dos eleitores votou para ser representado num Estado de direito democrático, instituindo um novo Parlamento e delegando na Assembleia da República o poder para formar as maiorias que quiser, quando quiser e como quiser. Viva a República!

Quão primários são estes tipos para estarem agarrados a raciocínios infantis e não se importarem com as figuras que fazem na via pública?

– “O PS está mais próximo do PSD do que do Bloco e do PCP.

O PSD anda desde 2004 a tentar meter na prisão dirigentes e governantes socialistas. Toda a sua estratégia, poderosamente realizada numa comunicação social que dominam hegemonicamente e tendo o apoio de agentes da Justiça e das polícias, tem passado por tratar como criminosos os membros do Partido Socialista, seja por actos ou omissões. A história de como se criou o “caso Freeport”, a espionagem feita a um primeiro-ministro em funções no “Face Oculta” e o extenso aproveitamento político que foi feito da mesma, a “Inventona de Belém” e a exploração das violações ao segredo de justiça na “Operação Marquês”, todos estes casos mostram que o PSD tem procurado destruir caluniosa e judicialmente o PS até que este escolha dirigentes que a direita aprove.

Quão pulhas têm de ser estes canalhas, ou quão canalhas terão de ser estes pulhas, para se permitirem uma permanente judicialização da política com vista ao assassinato político de quem mais temem e ainda virem falar em proximidades com o PS?

A actual direita é uma mistura do oportunismo pragmático do casal Passos-Relvas, do deslumbramento fanático da madraça de cientistas políticos na Universidade Católica e do ódio telúrico de um Cavaquistão agonizante. Se o PS de Costa viabilizar mais um Governo destes decadentes, não será por proximidade. Será por se ver de joelhos e ter de rezar.

Perguntas simples

Depois de termos visto o Palácio de Belém transformado num centro conspirativo ao serviço do rancor do chefe da direita portuguesa, estaremos condenados a ver de seguida o Palácio de Belém transformado num circo ao serviço do palhaço do regime?

Afinal

Afinal, a abstenção não diminuiu, aumentou.

Este desfecho é o mais lógico face aos números da emigração, à crise demográfica, à persistente desactualização dos cadernos eleitorais e a um contexto social e político que promoveu a abstenção de potenciais votantes no PS.

*

Afinal, o LIVRE não elegeu vivalma.

Foi um sonho lindo que, neste momento em que escrevo, não se sabe se resiste à manifestação da sua absoluta irrelevância para a comunidade. Teve o meu voto, e confirmou-se como um projecto falho de estratégia ao ter desaparecido em campanha. Em vez de terem procurado dialogar com abstencionistas e com comunistas, saltando para os cornos do sectarismo esquerdola, ficaram-se num imobilismo incompreensível, quiçá convencidos de que as sobras do PS dessem para juntar mais uns votos aos 70 mil que julgavam garantidos a partir das europeias. O eleitorado preferiu outro tipo de animais, não tão domesticados.

*

Afinal, o Marinho e Pinto ficou a ver navios.

Esperava-se, ou esperou-se, que a campanha do Marinho fosse um contínuo circo populista, atirando-se às canelas de tudo o que mexesse e passasse por perto. Em vez disso, vimos um candidato a passeio sem chama nem discurso. A ver se algum jornalista, ou o próprio, explicam o fenómeno num destes dias de rescaldo.

*

Afinal, os pafiosos ficaram longe da maioria.

No começo da noite, essa possibilidade foi avançada e, a juntar à falsa previsão da diminuição da abstenção, até levou os pafiosos a celebrarem as primeiras projecções como se viesse aí uma nova aparição da Nossa Senhora de Fátima para entregar um crucifixo novinho em folha ao Pedro. Mas não, era engano. Os votos que tiveram foram só daqueles que acham muito bem serem enganados, maltratados e toureados. Que os há.

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Afinal, o Bloco vale mais sem Louçã do que com ele.

O histórico triunfo do Bloco, realmente subindo a terceira força política nacional, nasceu exclusivamente da Catarina Martins, a qual rompeu com o modo imbecil de aparecer irada contra o mundo que a esquerda pura e verdadeira cultiva por contingência pulsional, vocação maniqueísta e ontologia totalitária. Como isso foi feito consistentemente ao longo dos debates, e estes foram vistos na televisão pelos públicos-alvo, o eleitorado do centro, flutuante e não politizado, pôde voltar a acreditar que no Bloco há pessoas razoáveis que merecem a confiança, ou a esperança, das restantes pessoas razoáveis. Numa campanha em que os parolos encartados declararam a morte dos cartazes como peça de propaganda eficaz, só porque assim poderiam bater mais um bocadinho no PS, os cartazes onde duas mulheres jovens e atraentes deram a cara por uma mensagem vácua e hipócrita acabaram por serem louvados como instrumentos fulcrais de uma “excelente campanha”. O grande Louçã da esquerda grande caiu do totem.

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Afinal, o PC continua a somar vitórias patrióticas e de esquerda.

O PCP é o melhor aliado que a direita possui neste miserável e adorável pais, e isto desde que Cunhal aterrou na Portela em 74. Trata-se de uma agremiação religiosa, imune a qualquer tentativa de diálogo com a democracia que ultrapasse o plano autárquico. Nas presidenciais, quando o PCP apoia um candidato democrata é só porque esse é o mal menor perante a eventualidade de ser acusado de ter favorecido o candidato da direita. Daí a obsessão com a retórica primária e febril das “vitórias” em nome do “povo”. Um povo que insiste em lhes dizer que o comunismo se deve concentrar na limpeza das ruas e nas manifestações bem comportadas, só com gente séria.

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Afinal, as sondagens estavam todas certas.

Incluindo as erradas. Todas certas nisso de terem registado uma real alteração nas intenções de voto, a qual ocorreu precisamente ao contrário do que o PS antecipava: à medida que se aproximava a data das eleições, mais o eleitorado desertava do campo socialista e ia-se espalhando por tudo quanto era outro poiso, em vez de aparecer a dinâmica de maioria. Também um dos efeitos previsíveis face a sondagens adversas não se registou, o tal toque a reunir perante o pânico de uma vitória da direita. Conclusão: o problema nunca está no mensageiro.

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Afinal, Costa fez uma campanha que ultrapassou a imaginação de todos, inclusive a sua.

Ninguém poderia ter imaginado que a campanha iria correr tão mal. Ninguém de ninguém. E as razões para tal são da exclusiva responsabilidade de Costa. Não dizem respeito a qualquer eventual falta de recursos financeiros ou humanos, só à falta de estratégia e de liderança. Terminou a campanha a dizer que “o PS aprendeu com os erros passados”, sendo que pelos erros passados se referia a decisões de investimento de Governos socialistas tomadas num certo contexto nacional e internacional que em nada compara com o actual. Um desastre justamente punido nas urnas.

*

Afinal, Costa, Jerónimo e Catarina poderão completar o 25 de Abril.

O 25 de Abril está por completar desde que o PCP tentou impor uma ditadura comunista e o PS de Soares ergueu-se para defender a democracia liberal. De lá para cá, o bloqueio do sistema à esquerda perverteu o regime e talvez seja a principal causa da cidadania larvar e do afastamento da política de tantos. Agora, de repente, por milagre, estamos esperançadamente atónitos, e lucidamente descrentes, com os sinais de abertura do PCP. Mesmo que não dê em nada, também nada voltará a ficar igual depois de os comunas terem atravessado o Rubicão em direcção à cidade.

*
Afinal, a política continua a ser o que sempre foi e será.

A invenção da liberdade.

Na CMTV é que ficava bem

Admito que a situação protagonizada pelo Rodrigo dos Santos em relação ao Alexandre Quintanilha seja apenas um equívoco. Custa-me até conceber que lhe passasse pela cabeça tal forma de violência tão asinina e rancorosa. O facto de ter estado em rodapé, na emissão, o nome do deputado em causa também poderá não ser suficiente para demonstrar que ele estava a ver essa informação.

Já me custa mais aceitar que reclame desconhecer quem é o deputado em causa enquanto figura pública. Não parece ser um caminho que seja avisado trilhar, sob pena de passar por um jornalista que não merece estar com as actuais responsabilidades na RTP.

Finalmente, tenho que o Rodrigues dos Santos é mais um caso, entre tantos na comunicação social portuguesa, de um narcisista que se considera intocável, achando que pode transformar ódios pessoais em processos rasteiros e sonsos de influência política. Que é o que faz sistematicamente há anos.

Isto é muito bom

"António Costa é agora o mais fiel aliado de Passos Coelho... Aliás, como José Sócrates e os seus henchmen, interessados em negociar apoio parlamentar em troca de aggiustamento do processo. Se houver novas eleições próximas, por instabilidade política, Costa e o socratismo-ferrismo serão defenestrado no PS pela erosão provocada pelo Bloco de Esquerda e as novidades do processo Sócrates. Daí as imediatas sugestões de negociação com PSD-CDS feitas por Vieira da Silva, por Ferro Rodrigues e por Santos Silva. o PS quer manter os lugares de controlo no Estado (nos serviços de informação, nos serviços tributários, na segurança social, no ministério da economia e nas finanças) e defender os editores de confiança nas TVs, rádios e jornais: o socratino Sérgio Figueiredo, Judite de Sousa, mano Costa (António José Teixeira já caíu...), Paulo Baldaia, João Marcelino, etc., etc.. Porém, o domínio socialista do Estado e dos média existia na expetativa de que o PS negro voltaria ao poder após o interregno de Passos Coelho. Ora, Balsemão, os donos da TVI e os angolanos da Controlinveste, sabem que se finou essa esperança e que é altura de se virarem rapidamente para Passos."


Generosamente exposto para gozo público por um doente da corneta

TINA, a assassina que o povo reelegeu

Male suicide on rise as result of austerity, report suggests

According to the research, every one per cent fall in growth rate of GDP in the Eurozone's periphery countries has seen a 0.9 per cent increase in suicide rates across all ages, which equates to over 6000 suicides in total over the period 2011-12.

Between 2011 and 12 there have been:

· 580 male suicides between the ages 10-24, a 1.6 per cent increase

· 2995 male suicides between the ages 25-44, a 1.4 per cent increase

· 765 male suicides between the ages 45-64, a 0.4 per cent increase

· 1725 male suicides between the ages 65-89, a 1.3 per cent increase

The above figures relate to falls in the growth rate of GDP but when looking at spending cuts alone, the male population most heavily affected is aged between 65 and 89. This translates to 2325 males in this age bracket having committed suicide between the years 2011 and 2012 due to fiscal austerity.

E as mulheres, senhor Costa?

A espectacular vitória do BE, numa liderança exuberantemente feminina, realça um dos primeiros e mais alarmantes erros de Costa ao tempo: ter metido à frente da bancada um Ferro Rodrigues institucionalmente correcto mas politicamente murcho, preterindo uma Ana Catarina Mendes promissora e combativa.

Nesta senda, ter deixado na sombra uma das estrelas socialistas da legislatura, a Isabel Moreira, foi outro erro que confirma o conservadorismo medroso com que o PS partiu para esta campanha.

Obrigado, Observador

Observador, um pasquim onde só escrevem direitolas talibãs e que serve para republicar os conteúdos caluniosos do esgoto a céu aberto e congéneres, bolçou uma reportagem sobre a ida de Sócrates à sua assembleia de voto. O título, e o texto respectivo, é um mimo de patifaria – “Enorme” como Deus, Sócrates foi votar pela primeira vez depois da prisão – mas é na seguinte passagem que damos por bem empregue o tempo perdido a ler a bosta:

Observador Sócrates

Ali depois dos sapatos engraxados (incrível o que estes bandidos são capazes de fazer quando resolvem sair à rua), e antes da informação acerca das opções de vestuário da “maioria das figuras nacionais” (o que revela a qualidade deste jornal, e deste jornalista, dando uma novidade da maior importância que fica como dado inquestionável a marcar estas eleições), temos a verdadeira cacha: Sócrates foi apanhado pelo João de Almeida Dias numa “posse de Estado“.

Sendo assim, e não temos qualquer razão para duvidar desta gente séria que tecla no Observador, é bom que este cabrão não volte a poder sair de casa tão cedo. Se o monstro, só por tocar com as manápulas num boletim de voto, consegue tomar posse do Estado, o que não conseguirá ele fazer aos bens e familiares das pessoas, incluindo menores, calhando poder ir ao café quando lhe dá na gana ou andar de autocarro sem pedir autorização ao Carlos? Medo. É caso para termos muito medo.

Cavalgaduras

Antecipando o que poderá ser um dos mais absurdos resultados eleitorais da democracia portuguesa, deixo aquele que poderá um dos mais absurdos diálogos na história do cinema Hollywoodesco. Passa-se no filme Crimson Tide, sendo Gene Hackman e Denzel Washington os protagonistas da fita e desta cena. Cá vai:

Capt. Ramsey: Speaking of horses, did you ever see those Lipizzaner stallions?
Hunter: What?
Capt. Ramsey: From Portugal. The Lipizzaner stallions. The most highly trained horses in the world. They're all white?
Hunter: Yes, sir.
Capt. Ramsey: "Yes, sir", you're aware they're all white or "Yes, sir", you've seen them?
Hunter: Yes, sir, I've seen them. Yes, sir, I was aware that they're are all white. They are not from Portugal; they're from Spain and, at birth, they're not white; they're black. Sir.
Capt. Ramsey: I didn't know that. But they are from Portugal.
[riso sarcástico]
Capt. Ramsey: Some of the things they do, uh, defy belief. Their training program is simplicity itself. You just stick a cattle prod up their ass and you can get a horse to deal cards.
[risada sarcástica]
Capt. Ramsey: Simple matter of voltage.

A raça de cavalos Lipizzan é de origem eslovena, resultado do cruzamento de várias raças e do adestramento austríaco começado pelos Habsburgos.

Revolution through evolution

Is beauty really in the ‘eye of the beholder’? Yes, and here’s why
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Does knowing high-status people help or hurt?
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Study Reveals Why Men Receive Much More Media Coverage Than Women
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Early maturing girls at great risk of alcohol abuse without close parental supervision
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Cellphones can damage romantic relationships, lead to depression, say researchers
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Tweets from mobile devices are more likely to be egocentric
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Investors are indifferent to the technology needs of healthcare systems, study suggests
Continuar a lerRevolution through evolution

Só falta o crucifixo

CM Passos

O esgoto a céu aberto não brinca em serviço, e até ao fechar das urnas há que trabalhar para o sucesso da grande coligação: mentirosos+caluniadores+pulhas.

Compare-se agora com o que fazem a Sócrates, chegando ao requinte de publicarem uma foto desfocada.

CM Sócrates

Um país de pafiosos?

Se os pafiosos ganharem, ou mesmo que fiquem com menos votos mas mais deputados do que o PS, isso será uma enorme surpresa para todos quantos, ao longo de 4 anos, pensaram ser impossível tal resultado. Como é que aqueles que traíram como nunca se tinha visto os compromissos eleitorais, e depois partiram para um castigo fanático e desastroso da comunidade, poderiam voltar a ganhar as eleições? Para o choque ser ainda mais vexante, esse cenário teria sido concretizado num curtíssimo espaço de tempo, o último mês de campanha. Manuais de ciência política terão de ser reescritos à pala desta eventualidade.

Todavia, o possível triunfo pafioso em nada desmerece a democracia. A acontecer, será tão legítimo como outro resultado qualquer. E tanto a vida como a luta continuam. Para os que não se identificarem com esses vencedores, fica a tarefa de compreenderem o país onde se realizam como cidadãos. Que país será esse que prefere Passos e Portas a qualquer outra solução de Governo?

A primeira constatação é a de que estamos perante eleitores que se motivam pelo medo. Os pafiosos apostaram tudo no discurso do medo, na retórica do apocalipse e na difamação moral. Estes argumentos são tão mais poderosos quão mais frágil, e menos politizado, for o intelecto do receptor. Assim, uma população idosa e analfabruta não dispõe de instrumentos cognitivos para criticar os apelos ao ódio a partir de deturpações e mentiras. Noutros segmentos sociais, esta pressão caluniosa também leva a que muitos eleitores optem pela abstenção, dado deixarem-se influenciar pela imagem negativa lançada para cima do PS e não podendo voltar a votar em quem tanto os enganou e tanto mal lhes fez sem com isso perderem o respeito próprio.

O combustível para o medo veio de várias fontes. Uma delas é o desfecho do confronto entre a Grécia e a Europa, culminando nas cenas das filas nas caixas automáticas para levantar o máximo diário, juntamente com as cenas da falta de produtos nas lojas e todo esse aparato resultante do castigo imposto aos gregos. Uma outra fonte, imprevista e em cima do auge da campanha eleitoral, é a das imagens dos refugiados a entrarem na Europa e a notícia de que algum contingente viria para Portugal. Isto gerou uma reacção surda, e por isso profunda, de um medo irracionalizante e racista. Um racismo construído a partir do pavor provocado pelo terror de bandeira islâmica. Logo, este estado emocional favorece a adesão à autoridade do momento, leva para atitudes defensivas e conservadoras. A terceira fonte do medo é a estupenda campanha que explora a figura e a pessoa de Sócrates, constantemente usado como papão, chefe de bandidos e potencial déspota que tem de ser mantido no calabouço, ou ser abatido, sob pena de voltar à política e desatar a comprar jornais, a despedir a Moura Guedes, a falar num tom mais entusiasmado com a Judite de Sousa e a fazer auto-estradas onde ninguém decente quer pôr os pneus, entre outras malfeitorias horripilantes. Conseguir ao longo de anos e anos manter esta chama acesa, onde a direita se pode servir à-vontade da pulsão populista e canalizá-la toda para este bode expiatório que até na Justiça é tratado como algo inferior a um ser de direitos e garantias, é já do domínio do psiquiátrico. E exibe a miséria cívica transversal ao regime, onde as honrosas excepções não chegaram até hoje para nos darem um general.

Ver os pafiosos ganharem, ou a perderem por pouco, será também reconhecer o papel da comunicação social na criação de uma opinião pública letárgica, depressiva e derrotista. O País é pequeno e a nossa imprensa é minúscula. Não existe nenhum órgão que possamos associar a uma simpatia pelo PS, ou pela social-democracia. Nem um. Mas existem vários que são ostensivamente simpatizantes do PSD, esteja lá quem estiver na liderança, como o grupo Impresa. Existem aqueles que não são claros, que simulam uma independência deontologicamente exemplar, mas que na prática pendem para as agendas da direita, como o grupo Controlinveste. E depois temos órgãos especializados na luta política a favor da direita e contra o PS, como o grupo Cofina e o grupo Newshold. Esta realidade faz do PS um partido isolado e cercado no sistema, neste momento a sofrer a maior pressão a que alguma vez esteve sujeito. Até a extrema-esquerda desfruta de muito melhor imprensa, seja porque não assusta a oligarquia, seja porque assim se aumenta o desgaste do PS.

Será este o país onde somos cidadãos? Amanhã, logo pelas 8 da noite, ou um pouco mais tarde, ficaremos a saber.

Excelente pergunta

João Ramos de Almeida faz uma excelente pergunta – Por que deixaram Passos e Portas sozinhos a explicar a frágil retoma económica? – cuja resposta, dado estar com pressa, vou resumir em duas orações: (i) porque a esquerda portuguesa é imbecil e (ii) porque quem levou esta direita decadente para o poder não se importa que ela por lá fique desde que com isso se consiga manter a esperança de ir anulando, e até mesmo destruindo, o PS.

O que o João escreveu, que só por si justifica a leitura e até a releitura, teve ainda um bónus, este na sua caixa de comentários. Junto-me à perplexidade de quem escreveu o seguinte:

Lamentavelmente o PS não conseguiu desmontar a estratégia fundamental da coligação PaF que consistiu em fazer recair sobre o anterior governo todas as culpas da situação de crise que o país vive e viveu. Uma vez mais Coelho/Portas não tem pejo algum em mentir e faltar à verdade histórica.
Ora não é verdade atribuir culpas ao governo de Sócrates pela chamada crise das dívidas públicas que a Europa viveu. Sócrates não foi o responsável pela falência do Lehman Brothers ou pelo ida da Troika para a Irlanda ou para a Grécia ou pela bancarrota da Islândia ou ainda pelo quase resgate da Espanha e a subida dos juros da dívida pública a valores quase insuportáveis na Itália e na Bélgica e de uma maneira geral pelos países do euro.
Não se pode honestamente responsabilizar a governação de Sócrates pela subida vertiginosa dos juros da dívida pública no auge da crise do euro e que tornou impossível o financiamento do país através dos mercados financeiros e a consequente vinda da Troika.
Ao não saber desmontar esta estratégia tornou-se muito difícil ao PS contradizer a PaF quando ela se apresenta como responsável por “corrigir” o rumo e “entrar no caminho certo” como se lê na “mensagem aos portugueses” distribuída pela coligação.
Daí a impensável eventual vitória eleitoral da coligação Coelho/Portas.
Depois de:
O PIB com a coligação PaF regrediu para os níveis de 2003.
O rendimento disponível dos portugueses é inferior ao do ano 2000.
Entre 2010 e 2013, o PIB “per capita” português caiu 7%.
O nível de vida dos portugueses recuou, em 2013, para valores de 1990.
O número de pessoas com emprego não era tão baixo desde 1995.
O investimento caiu para níveis que não se registavam desde finais dos anos oitenta.
O número de pessoas que emigram todos os anos é maior do que na década de 1960
Existem mais de um milhão e duzentas mil pessoas continuam sem encontrar um emprego em condições.
A pobreza e a desigualdade aumentaram, num dos países que era já dos mais desiguais de toda a Europa.
A dívida pública aumentou de 94,0% do PIB em 2010 para 130,2% em 2014.
Em 2010 tínhamos uma divida externa líquida de 82,7% do PIB que aumentou para 104,5% em 2014.
O IRS aumentou mais de um terço entre 2010 e 2013.
É deveras espantoso!!!

Carlos Sério