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Exactissimamente

A justiça parece, de facto, fazer-se em todos os lugares excepto nas salas dos tribunais. E com a bênção do Ministério Público. Como é possível que quando existem tecnologias informáticas que permitem saber quem abriu e fechou um ficheiro, quem o enviou, exportou ou importou, tecnologias que inclusivamente tornam impossível que alguém não autorizado abra um documento, o MP nunca consiga saber de onde vieram as fugas nem tão-pouco determinar quem foi o responsável?

E se a lei permite que jornalistas se constituam assistentes de um processo, e se parte do processo aparece no dia seguinte nas páginas dos jornais, como é possível que não haja uma reacção imediata de quem tem a obrigação de preservar a inocência de um cidadão até a uma condenação formal? É que, se o tivessem feito, não teriam sentido providências cautelares que, por serem requeridas pelo arguido, geram sempre a suspeita de que a justiça aceitou lançar um manto escuro sobre a liberdade de expressão.


Isabel Stilwell

De comunas a comunistas

A actual situação política inédita que temos vivido desde as eleições só se tornou possível por causa do PCP. A sua disponibilidade para entrar em negociações com o PS é histórica e tem riscos, mas apenas para o PCP. O PS nada perde porque não são os socialistas que estão a mudar qualquer pilar da sua identidade, são os comunistas. Para os socialistas, conceber a democracia como um sistema onde se trocam cedências ideológicas e programáticas por acordos de governação não é uma novidade, ainda menos um defeito ou um erro. É a essência mesma da democracia liberal, onde essa liberdade sustenta a praxis e conduz a um potencial criativo ilimitado (para o melhor e para o pior, imperfeição que aceitamos por não existir alternativa preferível, como disse o outro). Daí haver algo simultaneamente romântico e compassivo nesta experiência de vermos uma entidade de cariz religioso a fazer o seu aggiornamento. Mesmo que não o consigam concluir, todos acreditamos que estão genuinamente a tentar, e espera-se que no pior dos cenários fiquem pelo menos as sementes para acabar de vez com o bloqueio parlamentar à esquerda.

Quanto ao Bloco, está com a Catarina a cumprir a promessa que foi a de Louçã no começo da sua caminhada. Promessa substituída por uma megalomania estéril e, por fim, destrutiva. Os tempos de euforia no BE são também, contudo, a manifestação da sua volatilidade. Este partido continua a ser uma manta de retalhos, e precisará de consolidar a sua liderança para se conseguir perceber o que pode valer nos actos eleitorais seguintes. A conjuntura que lhe deu os votos de simpatia socialista muito provavelmente não se vai repetir tão cedo.

Finalmente, é provável que o eleitorado do centro, que está sempre no mesmo sítio e cuja vocação é ser charneira, esteja a ver com muito bons olhos a perspectiva de um Governo da esquerda unida. Sociologicamente, estaria de acordo com o resultado das urnas. Politicamente, corresponderia não à radicalização do PS mas à reconversão dos radicais. E antropologicamente, seria uma exuberante concretização do ideal de Abril onde a comunidade fazia finalmente as pazes com o seu passado, ficando com energias acrescidas para se agarrar ao presente.

Um comuna é um sectário na cidade, um comunista é um companheiro dos cidadãos. Dos primeiros estamos fartos, dos segundos estamos com saudades.

Revolution through evolution

Gender Equality Gives Men Better Lives
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Male/female brain differences? Big data says not so much
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Rare warrior tomb filled with Bronze Age wealth and weapons discovered
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Soothing words do more than pills to calm anxious patients
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Singing calms baby longer than talking
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Older beats younger when it comes to correcting mistakes
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Count your bites, count down the pounds
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666 telemóveis

Pedro Delille esteve no programa “360º” da RTP3, na passada quarta-feira. Antes de irmos ao que lá foi dito, partilho um enigma: que é feito da segunda parte? Os interessados poderão fazer o que fiz, procurar por ela na página do programa. Dos 16 que lá estão neste momento, quase todos têm duas ou mais partes disponíveis. Um dos programas só tem um vídeo por ter sido mais curto, outro por condensar num vídeo mais longo o todo dessa edição. E depois temos o vídeo onde se discutiu a providência cautelar contra a Cofina por esta publicar informações que estão sob segredo de justiça no Processo Marquês. Este termina com o anúncio do intervalo e do regresso para a continuação da conversa. Só que essa parte não está disponível. Porquê?

Pode ter sido por falha técnica. Seria uma grande coincidência, posto que essa segunda parte tem muita importância tanto para o conhecimento público do que é possível acompanhar do caso como para a avaliação das pessoas que estavam presentes em diálogo, mas as coincidências acontecem por acaso, né? Assim como quando apanhavam Sócrates a falar antes dos debates televisivos começarem ou a preparar-se para ser filmado antes das comunicações ao País e se exploravam essas cenas semioticamente obscenas. Coincidências. Alguém se esquecia, quando se tratava de Sócrates, de carregar no botão, ou se enganava no botão, e lá se exibia o bandido sem o disfarce da pose oficial para que fosse humilhado. Contudo, e se a falta desta segunda parte onde o Delille disse e ouviu das boas não tiver sido coincidência? Nesse caso, algo de muito grave teria acontecido. Irei entrar em contacto com o Provedor da RTP, solicitando-lhe que se disponibilize o acesso a esse segmento deste “360º” mesmo que ninguém apareça a explicar o fenómeno. É que também sou daqueles que adoram a liberdade.

Ora, neste dia 28, antes do esclarecimento do tribunal em causa, ainda a gente séria do jornalismo tratava a providência cautelar como um escandaloso acto de censura a merecer o mais fogoso e assanhado repúdio. Foi isso que José Rodrigues dos Santos, Francisco Teixeira da Mota, Ana Luísa Rodrigues e Joaquim Vieira disseram ao Pedro, nalguns casos juntando a essa denúncia essoutra de ser Sócrates um tirano que ambiciona acabar com a liberdade de imprensa, a liberdade de expressão, a democracia e, já sem surpresa, com a civilização Ocidental no seu todo, assim o deixem. A isto respondeu o Pedro com a reclamação dos direitos que assistem aos alvos das pulhices e dos crimes da Cofina. Não teve qualquer sucesso, pelo contrário, tendo o programa terminado com o Rodrigues dos Santos a apelar à desobediência à Lei dos jornalistas da Cofina de forma a continuarem com o que andaram a fazer até agora. O Dâmaso terá aplaudido o homem da sopa de peixe que foi “nobre” à moda do esgoto a céu aberto.

Ainda na 1º parte, Delille teve a oportunidade de explicar como é que o CM fez esta capa:

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De acordo com a versão do advogado de Sócrates, tal resultou de uma escuta onde Inês do Rosário, mulher de Carlos Santos Silva, estava a chorar ao telefone enquanto lia para uma amiga as notícias de jornais onde apareciam as suspeitas sobre o seu marido. Estando a repetir o que lia, e lendo que o dinheiro do seu marido era de Sócrates ou que o motorista fazia isto e aquilo, fora de contexto isso equivale a ter sido ela a confirmar as suspeitas posto que as reproduzia ipsis verbis. A ser verdadeira esta explicação, e que saiba o CM ainda não desmentiu Delille, a canalhice que se pratica a mando do Octávio Ribeiro é de uma violência que não imaginávamos possível na imprensa portuguesa. E de nada valerá ao pasquim invocar que esteve apenas a reproduzir o que encontrou no processo, sendo a interpretação da escuta da responsabilidade do Ministério Público, pois foi precisamente para preservar a privacidade dos envolvidos e evitar o dano de um eventual erro desses que se colocaram sob segredo de justiça esses documentos. O CM, ao usar as informações em causa, não está a servir o interesse do público porra nenhuma, a menos que se trate de um público que ambiciona ser cúmplice de criminosos. O CM está é a explorar num registo sensacionalista aquilo que neste momento é parte de um processo judicial cujo desfecho é desconhecido. Nesse sentido, assume um papel de apoio à acusação, veiculando e promovendo as versões mais caluniosas da investigação como se elas fossem o resultado final da aplicação da Justiça. Pelo caminho, destrói quanto possa do bom nome dos seus alvos e terceiros apanhados em escutas por laços familiares, profissionais, de amizade ou outros com os arguidos.

Na parte em falta, Delille entra em diálogo com um sorridente Joaquim Vieira que defendia a legitimidade do esgoto para dizer o que bem entendesse e como quisesse acerca do caso. No entanto, este Vieira amante da liberdade de imprensa ficou em silêncio quando o advogado lhe perguntou se ele tinha conhecimento de alguma ilegalidade que Sócrates tivesse cometido. Pelos vistos, o sorridente Vieira não passava de mais um leitor fã da pasquinagem. Essa foi a ocasião para Delille deixar um eloquente protesto contra a dualidade de critérios com que o Processo Marquês é tratado na comunicação social e na sociedade. Na prática, aceita-se qualquer suspeita acusatória como se resultasse de um facto estabelecido a que já só falta apensar uma pena judicial. Ao invés, toma-se qualquer declaração e acção da defesa de Sócrates como uma manobra para fugir à Lei. CM, Sol, Sábado, Observador, políticos do PSD e CDS, e até o primeiro-ministro que já falou do caso no mesmo registo, pretendem encher o espaço público de uma atitude persecutória e intolerante para com o próprio direito à defesa de Sócrates. Estamos a assistir a um linchamento.

Dois dias depois deste programa, Francisco Teixeira da Mota publicou Os seis telemóveis de José Sócrates. Vale bem a pena ler. Nele defende a ideia de que Sócrates sempre que recorre à Justiça está apenas a revelar quão tirano realmente é. Como político, não pode ter os mesmos direitos dos restantes cidadãos, pelo que se trata de comer e calar, declara afiando a guilhotina. As acusações de que for alvo, sejam elas quais forem, não passam do saudável “escrutínio” aos malandros dos políticos. Mas este Chico vai ainda mais longe, reclama o direito a saber o que fez ou não fez Sócrates na sua privacidade e intimidade. As suas últimas palavras são estas:

"Faz parte do direito à informação os portugueses poderem saber, por exemplo, que o ex-primeiro-ministro utilizava seis telemóveis. Se o fazia por razões lúdicas ou para esconder actividades criminais, poderá esclarecê-lo se quiser, mas temos todo o direito de o saber, como temos todo o direito de saber dos meandros de um círculo de amizades em que circulava despreocupadamente tanto, tanto dinheiro. Mesmo que não seja crime."

Curiosamente, Pedro Delille disse, no programa em que participou Teixeira da Mota, ser mentira que Sócrates tenha usado 6 telemóveis. Porém, o especialista em liberdade de expressão do Público, menos de 48 horas depois, dá como garantido que esse é um facto comprovado. Será que ele sabe que o advogado de Sócrates foi para a RTP mentir à boca cheia? Mas se sabe, como o soube? Questões a que não irá responder, e que ninguém terá oportunidade de lhe fazer. Entretanto, pregou mais um prego no caixão do respeito pelo Estado de direito e pela decência neste caso. É que mesmo que Sócrates venha a ser condenado, seja lá pelo que for, esta febre justicialista onde os fins justificam os meios continuará a ser uma regressão a um estado de animalidade em que se pretende impor a lei do mais forte. No confronto com um Ministério Público e um juiz que, por actos e omissões, permitem a continuação da sistemática campanha negra em que Sócrates se vê envolvido desde o Freeport, é fácil de aferir onde está a força e a fraqueza. O apelo populista mais rasteiro vindo de um jurista deste calibre e preocupações é quase tão impressionante como os 6, 66 ou 666 telemóveis da Besta.

A tradição da estupidez

Ouvi ontem o Poiares Maduro repetir a cassete da tradição como argumento supremo que justificaria a escolha do partido mais votado para formar Governo, mesmo no caso em que não conseguisse obter maioria parlamentar. A lógica do argumento, tal como ele é apresentado pela direita, pressupõe que esse Governo assim formado continue a governar por um período indefinido, potencialmente até ao fim da legislatura.

Este Maduro veio de Florença para substituir Relvas. Chegou com odor de brilhantismo, talvez genialidade. Era um cromo de uma universidade lá na estranja, coisa da mais fina. Pelo que continuávamos no território do folclore académico, tão importante na carreira do seu antecessor. Depois de instalado no Governo, começou a ter de falar ao povo. E aí revelou que de florentino tinha só o embrulho. Tão inepto se mostrou que foi rapidamente abafado, a ideia dos “briefings diários” tendo entrado directamente para o anedotário nacional. Pelo meio ainda se prestou a um número circense onde quis gozar com Sócrates e acabou por se exibir como um palhaço triste. Não o deveremos voltar a ver na política tão cedo.

Aparentemente, os jornalistas que ouvem o argumento da direita não precisam de perguntar mais nada a respeito. Ouvem, calam, abanam a cabeça em assentimento e depois voltam-se para os políticos da esquerda e perguntam, preocupados ou furiosos, pelo acordo. Creio que este é um retrato fiel do padrão da comunicação social no tratamento da questão. Porém, o que está a ser dito pela direita é uma estupidez evidente. É colossalmente estúpido repetir que forças políticas sem maioria podem governar no Parlamento contra uma maioria. É colossalmente estúpido em qualquer dimensão, abstracta ou concreta. Nunca um Governo minoritário se manteve em funções em Portugal sem ter uma qualquer maioria relativa de deputados que fosse viabilizando a sua acção. É colossalmente estúpido falar-se numa “tradição” como se ela fosse um preceito constitucional ou como se ela fizesse sentido independentemente de cada quadro parlamentar específico que a viabilizou. Este argumento é antidemocrático, pois anula o próprio sentido do voto que a cada eleição constitui um novo Parlamento onde a vontade do soberano emerge plena – absolutamente livre das configurações de legislaturas passadas. Não admira que o vejamos a ser usado por uma direita decadente que tem na hipocrisia e no cinismo os únicos instrumentos intelectuais que domina.

À frente de Poiares Maduro estava Capoulas Santos, perigoso socrático e tão corrupto que até foi o primeiro ser humano a visitar Sócrates em Évora. Disse este homem o seguinte, palavras minhas: para um Governo ter legitimidade, um primeiro-ministro tem de ser indigitado pelo Presidente da República, primeiro, e o programa do Governo tem de ser aprovado* na Assembleia da República, de seguida – só depois de vermos um novo Governo a cumprir este protocolo completo é que saberemos quem ganhou as eleições.

Eis o que fica como um argumento à prova de estúpidos.

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* Nota

Ivan Nunes diz em comentário que o programa do Governo não tem de ser aprovado, pode é ser rejeitado – o que implica a demissão do Governo. E, de facto, é isso que consta na Constituição. Vou deixar o texto tal como o escrevi, ilibando o Capoulas Santos que, muito provavelmente, terá explicado correctamente a situação. Não revi o programa antes de escrever, daí a formulação errónea.

No país do CM

Uma coisa é certa: não será esta providência cautelar que vai parar a investigação do CM sobre o político Sócrates e que vem desde um tempo em que não havia qualquer investigação sobre ele. Jornalismo que se demite da sua obrigação de escrutínio dos atores políticos não é digno nem do nome nem da nobre história da profissão.


Dâmaso Sal&Sede

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O esgoto a céu aberto diz que investiga Sócrates em nome do interesse público e no cumprimento da sua obrigação de escrutínio dos “atores” políticos. Ou seja, está só a fazer jornalismo, daquele do bom e do melhor, nobre. Creio, portanto, que não só não se importarão como até apoiarão que também se investigue o CM, esse “ator” mediático que faz tanto dinheiro a “investigar” políticos.

Por exemplo, quando é que, exactamente, começaram as investigações do CM sobre Sócrates?

Por exemplo, o que é que, exactamente, a investigação do CM descobriu por si própria? E como?

Por exemplo, quando o CM viola o segredo de justiça, assim cometendo crimes sucessivos, isso, exactamente, é a parte ou o todo da investigação?

Por exemplo, quais são, exactamente, os outros “atores” políticos investigados pelo CM? Haverá, pelo menos, mais um?

Por exemplo, quando o CM utiliza informações captadas por instituições policiais e judiciais onde a privacidade de cidadãos fica exposta publicamente, não tendo ela qualquer relevância para qualquer “investigação”, onde é que está, exactamente, a nobreza? Isso será algo que os “investigadores” do CM gostariam de ver acontecer a si próprios, às suas famílias e aos seus amigos?

Por exemplo, tendo em conta que o CM não se rege pelo código deontológico da “profissão”, qual é, exactamente, o código deontológico em vigor nesse jornal? Ou nem sequer precisam dum por se saberem perfeitos, santos, acima dos erros e dos abusos?

Dâmaso, podes mandar as respostas aqui para o Aspirina ao abrigo do direito à pulhice.

Era mesmo isto que nos estava a faltar, mais laranjada ao serviço do laranjal

António Costa, João Marcelino e Miguel Pinheiro já participaram juntos num painel de comentadores da RTP. Gostaram da experiência e agora juntam-se na internet para um projeto alternativo. Para já, avançam com comentário e análise, mas mais tarde querem alargar o espaço às entrevistas e à reportagem.

Três antigos diretores de órgãos de comunicação social juntaram-se para criar um novo projeto

De 2011, e actualíssimo

Eu venho pensando é numa mudança de temperamento da esquerda. Ao longo do século vinte a esquerda política teve mais influência que a esquerda social, com o lado político parecendo mais poderoso em suas soluções e políticas. Menosprezou-se a política social, enquanto terapia e engajamento social como um fim em si mesmo. Esse escárnio se provou autodestrutivo; políticos de esquerda mostraram-se mais adeptos de arguirem e se exibirem do que de se conectarem com outras pessoas.


Richard Sennett: Por uma esquerda confiável

Seixas, olha as deixas

Uma coisa tenho por clara: a menos que estejamos perante uma monstruosa mistificação organizada por um sistema de justiça vingativo e irresponsável, o caso Sócrates não configura uma questão simplesmente política. Por isso mesmo, julgo que José Sócrates faria melhor em evitar paralelos com casos de outras figuras que, em diferentes paragens, se defrontaram ou defrontam com a privação da liberdade, por motivos quer relevam de delitos políticos ou de opinião. A invocação que ontem fez do caso Luaty Beirão, o jovem detido em Angola, foi muito infeliz.

Francisco Seixas da Costa

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Este cavalheiro, que se apresenta como um autêntico cavalheiro, é uma voz de simpatia socialista que, pelos seus justos méritos profissionais e intelectuais, faz parte da nossa paisagem de opinadores consagrados, aquele grupo que é escolhido pelos principais órgãos de comunicação para educar e/ou entreter o povo. Acresce ser muito bem recebido nos salões da gente séria, como é apanágio de um diplomata que se preze, conseguindo recolher uma estima ecléctica. O que me leva a destacar a sua opinião neste assunto diz respeito, precisamente, ao seu estatuto e o que ele representa da sociedade portuguesa.

Como se pode ler, o nosso Seixas aposta as fichas todas na existência de algum facto indiscutivelmente criminoso na origem do processo que meteu Sócrates na condição de arguido e de prisioneiro. A pensar como ele pensa teremos a quase totalidade da opinião publicada, incluindo a dos taxistas. E há razoabilidade nessa conclusão: (i) ninguém acredita que Rosário Teixeira e Carlos Alexandre dessem cabo das carreiras e do seu prestígio indo-se enfiar num caso sem provas que sustentem as acusações, por um lado, (ii) e o que se diz nos pasquins constar do processo, mais o que se diz nos esgotos a céu aberto constar nas convicções da acusação, chega e sobra para julgar e condenar Sócrates sem precisarmos de gastar dinheiro com tribunais e chatices dessas, pelo outro. É o senso comum a funcionar – só os loucos é que não acreditam no que todos vêem, que o Sol se move à volta de uma Terra quietinha e repousada no centro do Universo.

Perfilhando o Seixas da convicção geral da inescapável culpa que se irá abater sobre o tal engenheiro licenciado ao domingo por fax, torna-se mais fácil entender o fenómeno que o leva a deturpar algo que, espero, tenha ouvido ou lido antes de lhe ter posto o carimbo. Vou recorrer ao nosso amigo dsm para exibir o material na berlinda:

"Sócrates não se comparou a Luaty: comparou a lei processual portuguesa com as leis processuais angolana e timorense, e o processo em que foi envolvido com os processos em que foram envolvidos Luaty Beirão e Tiago Guerra, em Angola e Timor, respetivamente."

Foi isto, e ainda mais na mesma senda. Primeiro, trouxe a causa de Luaty para a ribalta mediática nessa ocasião, assim reforçando a sua luta. Depois, criticou o Governo português por ser falho de autoridade em matéria de Justiça e, por extensão, de direitos humanos. Por fim, colocou a questão no estrito patamar do Estado de direito, denunciando a duplicidade de critérios que se pode constatar na sociedade portuguesa. Qual destas deixas é que te parece muito infeliz, ó Seixas?

Quando tropeçamos num desprezo pelo Estado de direito como este maviosamente aqui despejado no espaço público pelo elegantíssimo embaixador, não se pode, nem se deve, fulanizar a questão. O próprio não se reconhece nessa imagem, tendo de si a visão oposta. Ele acha que está, pelo contrário, a defender a moral e os bons costumes ao pretender excluir Sócrates da sua condição de inocente. Isto porque os inocentes não são todos iguais, e basta ler certos jornais para o sabermos de ginjeira. Ou seja, a lógica da comunicação de Sócrates – isso de ele denunciar ter sido vítima de abusos de poder com vista a criar a convicção de culpabilidade sem possibilidade de defesa – fica comprovada pela opinião de alguém absolutamente insuspeito de pretender alimentar uma campanha negra. Eis a força, a eficácia, da difamação e calúnias desde que nasceu a política.

Não só Sócrates não se equiparou a Luaty no plano pessoal e político como, mesmo que soubéssemos já de ciência certa da sua culpabilidade perante a Justiça, tal invocação não retirava uma vírgula à legitimidade das suas palavras. Porque é essa a essência mesma do Estado de direito, a de impedir que alguém, inclusive o pior dos criminosos condenados, seja destituído de um mínimo de respeito pela sua natureza como ser livre. Tão cristalina e consensual foi a palestra-protesto de Sócrates a respeito destes fundamentos que o resultado não foi a contestação, mas sim o dolo e o silêncio. Os nossos facundos editorialistas estão calados, apenas se ouve o ranger de dentes.

Neste momento, a Justiça, a classe política e a classe jornalística pretendem a ostracização de Sócrates. Isto é, tentam que ele se convença de já não ter os seus direitos políticos intactos, pois é arguido, foi prisioneiro e tem amigos com muito dinheiro. O corolário, aqui onde ninguém nos lê, é não estar a ver infelicidade maior do que esta de termos figuras respeitáveis, e estimáveis, como Francisco Seixas da Costa a alinhar com a turbamulta dos linchamentos.

Revolution through evolution

Do women place less importance on their careers than men? Professor rebuts common misconception
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CEO effect on firm performance mostly due to chance
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Most Earth-like worlds have yet to be born
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Why are placebos getting more effective?
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Dead men punching
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A Study Suggests a Computer Algorithm Can Predict Someone’s Behavior More Reliably Than Humans Can
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Growing Old Can Be Risky Business
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Marcelo no seu melhor

Na sua intervenção, Marcelo Rebelo de Sousa referiu-se aos excessos do período pós-25 de Abril de 1974, "em que se dividiam os portugueses entre patriotas e não patriotas, bons portugueses e maus portugueses, em democratas e anti-democratas, entre os que tinham o exclusivo de acesso ao poder e aqueles que estavam marginalizados".
"Passaram mais de 40 anos e há uma coisa que nós sabemos e que eu sei: Não queremos voltar a ter esse tipo de divisão entre os portugueses. Somos todos portugueses, cabemos todos na democracia, temos todos a plenitude dos direitos de participação", declarou o candidato presidencial, recebendo uma prolongada ovação da assistência.
Mais à frente Marcelo insistiu: "O debate tem que ser feito com serenidade, sem exclusões e, sobretudo, não confundindo adversários e inimigos, porque não há portugueses inimigos de portugueses".


Fonte

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A pulsão de Cavaco pela política da terra queimada, consubstanciando-se na usurpação de poderes na forma tentada e na intenção de prejudicar a população, deixou Marcelo com a necessidade de tomar uma primeira grande decisão. Ou seria cúmplice de um traidor como Cavaco, com isso pondo em risco a sua eleição, ou se afastava dele com repúdio e convicção; mantendo intactas, ou até reforçando, as suas hipóteses de vir a ser o próximo Presidente da República. Felizmente para a salubridade do espaço público e para o futuro institucional do regime, escolheu a pose de estadista. Cavaco está agora reduzido a chefe de facção de um grupo de reaccionários, literalmente.

Não há portugueses inimigos de portugueses” – para além da sua relevância oportuna e letal, a sentença dá também um belíssimo cartaz de pré-campanha presidencial.

Observando o Daniel Oliveira

No final do Eixo do Mal, Daniel Oliveira exibiu a sua indignação por Sócrates ter equiparado o seu caso ao de Luaty Beirão. Foi uma declaração de segundos que nem sequer permitiu perceber qual era o argumento ou esboço de raciocínio. Acto contínuo, o bronco à sua frente deu aquela que talvez seja a interpretação autêntica do que está na origem da atitude do Daniel, ao largar uma estupidez qualquer em relação a ter sentido vómitos aquando da mesma passagem no discurso de Sócrates e, por isso, tendo deixado nesse momento de assistir ao resto.

Porque é que esta cena sem importância alguma me parece importante? Em primeiro lugar, por causa do bronco. Ele representa o eleitorado típico dos pafiosos, onde o culto do ódio a Sócrates é o mais potente afrodisíaco para se juntarem lúbricos e “fazerem política”. Este ódio, por sua vez, já pede investigação académica há anos e anos, pois é muito mais um fenómeno antropológico do que político ou moral – embora na sua explicação mais simples não passe de cagufa e pavor. Ora, o que o bronco espelhou na perfeição foi a simetria de uma paixão comum: também o Daniel Oliveira só se encontra consigo próprio na relação pública com Sócrates quando o pode odiar. Foi o que fez militantemente até 2011, ao alinhar nos assassinatos de carácter oriundos da direita decadente. Depois, devagar e sem pressa, teve de se render à evidência de ter sido mais um imbecil útil.

Em segundo lugar, a cena remete para a dimensão em que o Daniel Oliveira é, até agora, um político fracassado. Por “político fracassado” refiro-me a políticos que nunca tiveram a oportunidade de aplicarem as políticas que defendem numa função legislativa ou governativa. Onde tem alcançado sucesso é na dimensão da política-espectáculo, quiçá também na do jornalismo, tendo recentemente anunciado que interrompia a actividade política para se dedicar ao jornalismo. A julgar pelo episódio que comento, porém, nada há de jornalístico na opinião que assumiu a respeito das tais declarações de Sócrates, seja quanto à forma ou ao conteúdo do que vociferou. Tratou-se de puro espectáculo ao serviço do formato mediático em causa.

Com sorte, o Daniel irá escrever no Expresso um texto fogoso onde irá demonstrar que a razão, se calhar bastando o coração, lhe assiste e que Sócrates foi mesmo um crápula em ter ousado referir-se ao martirizado, e nosso compatriota, Luaty. É esperar. Até lá, constate-se como aqueles que não quiseram comentar uma qualquer das muitas declarações importantes e graves que Sócrates proferiu neste sábado se agarraram à invenção de que teria sido cometido um sacrilégio no estabelecimento de uma conexão entre a sua prisão e a de Luaty. Foi exactamente esta a artimanha do mano Costa, nada tendo a dizer sobre as violações do segredo de justiça, dos verdadeiros atentados contra o Estado de direito e do desprezo pela Constituição que oprimem e conspurcam o País, mas não perdoando que se fizesse um paralelo entre as reacções em Portugal acerca da prisão preventiva de três portugueses em três partes do mundo.

O Daniel, no início do programa, disse que não lia nem o Avante nem o Observador. Pelo menos quanto ao último, está agora claro porquê no que a Sócrates diga respeito: não precisa, basta-lhe pensar no assunto.

Vamos lá a saber

Esta actual direita no poder é decadente não só por utilizar os eleitores como carne para o seu canhão oligárquico (mas eles gostam, pelo que têm o que querem), por não ter qualquer ideia de comunidade (para além da ideia de acabar com os pobres através do aumento da sua miséria) e por se limitar a fazer o que certos poderes estrangeiros exigem (assim conseguindo dormir descansada posto que não se responsabiliza pelas consequências das suas decisões governativas). A decadência começa a montante, por estar espelhada, e operativa, no discurso. Um discurso que não ambiciona ultrapassar as capacidades cognitivas e respectiva literacia do homo correiodamanhãpitecus nãosapiens. Quando algum pafioso abre o bocal, já sabemos que vem aí asneira da grossa.

Quais têm sido, então, os argumentos mais hipócritas, mais estúpidos e mais neofascistas que foram até agora lançados no espaço público pelos direitolas?

Uma receita tradicional

Os pafiosos vão mesmo governar esta choldra durante os próximos 4 anos, e descobri como. Passa por termos Passos, o Resiliente, a levar ao Parlamento o programa socialista transformado no programa do seu Governo, acrescentando que se compromete a cumprir todas as medidas nele contempladas e até, se preciso for, a ir mais além, incluindo medidas dos programas do BE e do PCP (desde que não façam mal à Nato, coitadinha). Obviamente, o PS terá de votar a favor e ficar calado durante toda a legislatura. Golpe genial.

Impossível? Não para o Pedro, esse homem invulgar. Às críticas que iria inevitavelmente receber de todos os lados, bastaria lembrar que estava a cumprir a tradição. E que a tradição é o valor supremo do regime onde gosta de ser primeiro-ministro. Afinal, também em 2011 tinha feito uma campanha eleitoral com um programa e depois governou com a antítese do que tinha prometido. E correu-lhe mal? Nada disso, como se comprova pela repetição da vitória em 2015. Logo, está encontrada a receita para termos os pafiosos a mandar nisto pelo tempo que eles quiserem.