Quem é que daria um ministro ou ministra da Cultura mesmo fixe?
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O estranho caso de um partido emocionalmente desvairado
O PS tem passado por episódios de suicídio mediático que espantam dado o perfil e experiência dos envolvidos. Nos casos de Ricardo Rodrigues e o gravador fanado a jornalistas, do Manuel Pinho e dos corninhos na Assembleia da República, e agora do João Soares e o que se lembrou de teclar no Facebook às 6 da matina, estamos no reino da parvoeira e do absurdo. Só a sempre imprevisível, e para sempre misteriosa, natureza humana consegue explicar a estupidez dessas ocorrências. Também Costa está metido neste grupo, sendo ainda mais grave o que já mostrou de si na relação com os jornalistas. Mais grave por se ter repetido em diferentes situações e por causa das suas tão maiores responsabilidades como candidato a primeiro-ministro. E ainda Sócrates terá de ser incluído pois, e das duas uma, ou se provará que cometeu crimes ou se provará que arriscou à maluca poder vir a gerar a tempestade mediática que os seus inimigos iriam lançar na primeira oportunidade; a qual muito influenciou os resultados eleitorais de 2015, para já.
Só que esses episódios, com diferentes contextualizações políticas conforme as figuras e circunstâncias, são do domínio psicológico na sua origem e dinâmica, não do político. Também podem, nalguns casos devem, gerar considerações de índole ética, deontológica e moral. Mas não política no sentido ideológico, partidário ou governativo – apenas no sentido cívico. Quem extravasar para fazer o seu aproveitamento no “combate político” está somente a chafurdar na chicana. Impulso a que só os bravos resistem, escusado será lembrar.
Quero, contudo, assinalar que o texto do João Soares onde oferece bofetadas configura, para mim, uma real ameaça à integridade física dos visados. Ameaça que poderá ter sido efémera, rapidamente substituída por um consolo catártico após ter sido verbalizada e publicada. E ameaça que pode ter um quadro psicológico de perturbação e sofrimento na sua génese, mas ameaça. É esse o sentido do texto, onde até justifica para a audiência por que razão ainda não consumou o intento. Pelo que não estamos no domínio metafórico, como alguns figurões da nossa opinião profissional têm vindo a dizer. Infelizmente, o João Soares precisou de se imaginar a agredir alguém ao estalo para ir buscar um pouco, muito pouco, de amor-próprio.
Serviço público
A minha razão para que João Soares seja demitido
Não pelas ameaças de agressões físicas – pois tal parece-me matéria, em simultâneo, para a Polícia e a medicina mental – mas por reiteradamente escrever “bolsar” pensando que está a transmitir o conceito de “bolçar”.
Isso, à frente de um qualquer outro ministério excluindo o da Educação, não justificaria demissão. À frente da Cultura, sim. Sob pena de o exemplo continuar a bolsar, levando outros a bolçar o erro.
Exactissimamente
Os novos pides
O Governo Sombra é um programa de comentário político que utiliza o humor como dispositivo retórico. É também um programa de grande sucesso, onde o humor serve para institucionalizar as posições expressadas como se fossem críticas isentas, deliberações do bom povo na sua pureza risonha e sem mistura de políticos e coisas torpes que tais. A escolha dos protagonistas, porém, define a agenda política em causa, sendo o PS o alvo preferido, sistémico, dos ataques de todos. Pedro Mexia representa uma direita condescendente e difusa, João Miguel Tavares representa uma direita populista e bronca, e o Ricardo Araújo Pereira representa uma esquerda inconsequente e cínica. Obviamente, Sócrates reina supremo como agregador e estimulante da actuação frente aos microfones e às câmaras. Se alguém anotar quantas vezes se fala de Sócrates chegará à conclusão de que é esse o tema favorito ao longo dos anos, tanto pelo número das ocorrências como pelo entusiasmo, incluindo o entusiasmo do Carlos Vaz Marques. O poder de influência desta fórmula, em especial ou exclusivamente pela presença da coqueluche fedorenta, é enorme.
No programa de 20 de Março, tal como fez num texto na Visão, o Ricardo resolveu usar as escutas a Sócrates para gozar com ele, com Santos Silva, com um dos filhos de Sócrates e com o próprio conceito da presunção de inocência. Vejamos o trajecto do seu pensamento registado em vídeo:
– Começa por dizer, a propósito das escutas a Lula e Dilma, que nas suas (dele) comunicações telefónicas pessoais não há qualquer matéria do foro criminal. Parece uma referência inocente, neutra, mas com ela está a justificar o uso das escutas de forma ilegal desde que se suspeite de actos criminosos por parte dos escutados. É uma posição que também Passos Coelho assumiu, em 2012, quando disse que tinha “todo o prazer e todo o gosto” em que certas escutas onde aparecia a falar fossem reveladas. Parece a defesa da transparência absoluta, mas na prática trata-se de um insidioso ataque à privacidade e aos direitos de personalidade de terceiros. Esta posição do sr. Araújo, revelada en passant, é levada ao paroxismo poucos minutos depois ao fazer a sua rábula sobre as escutas a Sócrates.
– A rábula é antecedida por uma introdução, onde recorre a Sousa Tavares para justificar a exploração de qualquer escuta divulgada ilegalmente e sem carência de qualquer limite ético para o seu livre uso. Logo, não está sozinho no critério, está apenas a repetir o que outros, e até mais velhos, fazem ou fizeram, ou onde supostamente terão dito qualquer coisa do género.
– De seguida, protesta contra a imprensa portuguesa por apenas o Correio da Manhã estar a fazer com as escutas o que ele se prepara para fazer também dentro de segundos. Só um CM parece-lhe pouco, curto. O Ricardo gostaria de estar mais bem acompanhado, mas que se lixe. Antes com o CM do que perder a oportunidade, pensa e pratica este herói da cidadania à portuguesa.
– Por fim, veio a rábula. É um exercício banal de sarcasmo e deturpação no que toca ao diálogo entre Sócrates e Santos Silva, e é um exercício indecoroso de calúnia na parte em que achincalha o filho de Sócrates.
– Do princípio ao fim, mostra que a presunção de inocência não faz qualquer sentido perante o que ele, o CM e a restante população já concluíram a partir das escutas publicadas.
Nunca ninguém irá perguntar ao Ricardo por que razão não gozou com outras pessoas apanhadas nas escutas. Uma vez que as ouviu todas, qual o motivo para não ter aproveitado outros diálogos tão ou ainda mais caricaturáveis e igualmente pasto para a celebração televisiva da culpabilidade do monstro? Essa sua selectividade, do ponto de vista humorístico, causa perplexidade. Pelo que a melhor explicação deve estar noutro lado, o político. Por razões políticas, o Ricardo permite-se escolher quem deve ser levado à fogueira do seu espectáculo, sendo ele o juiz da presunção de inocência dos cidadãos envolvidos em processos judiciais. A sua difamação é selectiva, quiçá por calculismo, quiçá por misericórdia, quiçá por aleatoriedade. Em troca, recebe dinheiro, no caso da Visão e da TVI. E ainda inscreve o seu nome na História da sociologia jurídica em Portugal, ao se constituir como assistente oficioso do processo com a finalidade de contribuir para a acusação, julgamento e condenação de Sócrates e do seu bando de facínoras.
Creio que a TVI pode ter aqui um filão. O capital humorístico das escutas, mesmo que os protagonistas sejam ilustres desconhecidos, e de preferência quando as escutas são publicadas ilegalmente mas ficando à disposição dos cómicos e dos pulhas do regime segundo a tese atribuída pelo nosso herói ao Miguel Sousa Tavares, é infindável. Tanta piada que poderá ser feita, despertando gargalhadas homéricas na assistência e no Carlos Vaz Marques (não necessariamente por esta ordem) em cada caso judicial, haja ou não acusação. Corrupção, burlas, violações em grupo, violência doméstica, abuso de menores, assassinatos, uma caverna de Ali Babá para os justiceiros que ganham a vida nessa vida. Mas nem só com escutas poderá ser feito este novo programa. O Ricardo, apenas tendo de gastar migalhas do seu genial talento, será capaz de aproveitar qualquer violação da privacidade para nos levar às lágrimas. Pode ser um papel pardo cheio de nódoas de azeite com um coração e um zé bastos desenhados, ou uma fotografia de infância mais sugestiva, ou até umas cuequitas com o mapa de África evacuado que a bófia tenha levado como indício de alguma porcaria e que os seus amigos no CM lhe tenham feito chegar a casa para análise mais detalhada.
A única figura pública que me lembro de ter mostrado uma visceral repulsa pelo uso de escutas foi João Soares. Uma única num país onde muitos já nem sequer sabem o que foi a PIDE. Esta violência de se explorarem mediática e politicamente pedaços descontextualizados da privacidade de cidadãos que nem sequer foram acusados, quanto mais condenados fosse pelo que fosse, define quem a faz. Define a comunidade que somos, dominada por estes poderes fácticos. Num certo sentido, estamos perante um organismo muito mais opressor do que aquele da antiga polícia política. Agora, os novos pides são comediantes profissionais.
Perguntas simples
Sejamos justos, o David Dinis tem uma ideia fixa
Dito isto, a verdade é que Pedro Passos Coelho é o líder político mais subvalorizado da política portuguesa. É frio, resistente, persistente, de ideias fixas. É imune a horários televisivos, a inversões de marcha, às polémicas do dia-a-dia.
Nenhum modelo económico consegue dar resultados em pouco tempo. É preciso um ano para os primeiros sinais, dois para os consolidar. Quatro para sabermos com maior certeza, sem meias-tintas. Passos, sejamos justos, não teve esse tempo - a sua legislatura foi mais emergência do que modelo.
Dr. Passos, dê tempo à geringonça
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A democracia será tão mais forte quão maior for o respeito, e inclusive o interesse, pela alteridade. Haver alguém que queira defender o PSD é bom, posto que esse partido, formalmente, defende a democracia. Haver alguém que queira defender este PSD, cujo líder é Passos Coelho, continua a ser bom, apesar de este PSD, cujo líder é Passos Coelho, não ter autoridade em matérias de defesa e promoção da democracia. E haver um jornalista, entretanto contratado para dirigir a TSF, que escreve publicamente para defender o PSD e Passos Coelho continua a ser bom, mesmo quando o faz desta maneira obscena e degradante. Aqui, a bondade limita-se ao fulgor da deturpação tentada.
David Dinis fez parte da brigada laranja que, nos tempos do Marcelino, transformou a secção política do DN em algo que rivalizava com o Povo Livre. De lá saltou saltou para o Sol, e deste pasquim para o Observador, também um pasquim mas sofisticado e pardieiro de direitolas fanáticos. Aqui, teve sempre o cuidado de aproveitar tudo o que o CM despejava contra Sócrates para levar ainda mais longe esse tipo de “jornalismo”. Recentemente, viu premiado o seu percurso e esforço com a direcção da TSF, substituindo Paulo Baldaia.
Como é que é possível a um passarão deste calibre pôr em palavras que Passos é “persistente, de ideias fixas“? É possível através do apagamento da memória, restando só saber se é algo que não controla ou se a memória em causa é a nossa. Passos é o tal fulano que chegou a dizer que Sócrates estava a responder muito bem à crise internacional de 2008, para fúria dos apoiantes da Manela. Uma ideia fixa que serviu o propósito de minar a liderança do seu partido nessa fase. Passos é também o líder que jurou não ir aumentar impostos, não ir cortar pensões e subsídios, não ir fazer despedimentos na função pública, e que bastaria cortar gorduras ao Estado para voltarmos ao reino da abundância e da vida eterna. Ideias fixas que o eleitorado fixou de cruz em Junho de 2011. Passos é o tipo que iniciou a sua governação garantindo que nunca iria recorrer ao passado para justificar o presente, muito menos para moldar o futuro. Uma ideia fixada com cuspo, tendo durado apenas meses e logo trocada pela ideia simétrica assim que o desastre da desgovernação apresentou os seus primeiros números. Daí até ao final, não passou um dia sem que o passado fosse utilizado de forma maníaca como arma de arremesso. Se continuássemos a recordar as ideias fixas de Passos, como em relação à TSU, à duração dos cortes, ao apoio a Marcelo como candidato presidencial, já para não falar das suas ideias fixas a respeito da Constituição ou agora da “social-democracia sempre”, o festival da fixação passista atingiria um grau alucinante. Só no marketing populista é que Passos, inquestionavelmente, tem revelado uma estabilidade notável.
Estes exercícios são politicamente sectários, com a agravante de não serem assim assumidos pois o autor apresenta-se como jornalista e explora esse estatuto com fins partidários. Quando se permite escrever que a legislatura de Passos “foi mais emergência do que modelo“, estando a referir-se ao mesmo Passos que derrubou um Governo e afundou o País num resgate de emergência agravado com a sua violência ideológica “além-Troika” e sem qualquer piedade para os piegas, David Dinis esconde (evaporando eventuais pingos de vergonha) que tudo isso foi feito em nome de um suposto modelo salvífico que em 2 anos estaria a dar resultados maravilhosos. Várias foram as vozes que na altura denunciaram o logro que estava a ser montado pelo PSD de Passos, e assinalaram a falta de patriotismo revelada, preferindo-se a política da terra queimada ao interesse nacional. É que naquela situação não existia qualquer dúvida acerca do que era o interesse nacional: evitar até ao limite das possibilidades o agravamento dos nossos problemas. Recusar o PEC IV e chamar a Troika levaria a uma mudança de cadeiras, colocando a direita no poder, mas isso teria um preço colossal em degradação da qualidade de vida de milhões de pessoas já oprimidas pela pobreza endógena de Portugal e pelas históricas crises internacionais de então onde a Europa andava completamente à nora.
Há dias, Pedro Adão e Silva ficou a saber pelo Zé Manel, seu parceiro de comentário na RTP3 nessa ocasião, que Passos tinha dado o dito pelo não dito a respeito do que prometeu em campanha e o que veio a fazer como primeiro-ministro porque, e só porque, o Governo socialista tinha enganado a Troika em perto de 3 mil milhões de euros. O facto de mais ninguém ter até hoje falado neste assunto, muito menos neste valor, grupo onde se inclui a própria Troika e os governantes da Coligação, e não se fazer a mínima acerca do modo como tal poderia ter ocorrido quando todas as contas foram vasculhadas por peritos internacionais, em nada incomodou o Zé Manel. O que o estava a deixar cheio de dores era a evidência de Passos ser o maior mentiroso que já atravessou a política portuguesa. E esse problema foi resolvido com a maior das facilidades pelo fantástico Zé Manel. Perante este número, o David até consegue passar por sério.
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Preference for dating smarter partners negatively affects women’s attitudes toward STEM
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Doubts about career potential can pave way for immoral professional conduct
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Uncertainty can cause more stress than inevitable pain
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Remote Italian village could harbor secrets of healthy aging
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Personality influences how one reacts to email errors
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Basketball games mimic nature
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Is your political ideology in your head?
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A constituição da liberdade
Nos 40 anos da aprovação da actual Constituição, faz todo o sentido recuperar um extraordinário programa da TVI a propósito dos 40 anos das primeiras eleições em democracia, as quais elegeram a Assembleia Constituinte – Especial TVI24: as memórias dos primeiros deputados eleitos
Extraordinário porque, literalmente, esse tempo foi historicamente original e irrepetível, e os protagonistas do programa foram igualmente protagonistas dessa fase do regime e do estabelecimento do modo de vida que é o nosso desde a criação do texto constitucional. E também extraordinário pelo fulgor com que Jorge de Miranda colocou o PCP no seu devido lugar. Basta esta parcela da sua discussão com Jerónimo para contar a história, e a Historia, toda:
[minuto 43]
JM - A Assembleia Constituinte foi uma ilha de liberdade num meio hostil, que era o meio de Lisboa durante o Verão e Outono de 1975. Uma ilha de liberdade. Onde nós discutimos livremente, onde havia projectos diferentes. Recomendo às pessoas que leiam os projectos de Constituição. Leiam o projecto de Constituição do Partido Comunista, as restrições às liberdades fundamentais que apareciam no projecto do Partido Comunista.
Jerónimo - Não é verdade.
JM - Não é verdade?! Eu publiquei isso. Está publicado, o diário da Assembleia Constituinte. Não se pode... Isto não é a enciclopédia soviética!
Jerónimo - Desculpe lá, como é que um partido que lutou 48 anos pela liberdade podia estar contra ela?! Explique lá...
JM - Lutou pela liberdade para conquistar o poder.
Jerónimo - Ah...
JM - Essa é que é a realidade política. E foi o que vivemos e eu não me esqueço disso. Em 1975 houve uma luta pela liberdade. A Assembleia Constituinte era a ilha de liberdade, e foi cercada, num certo momento, e sequestrada, e nós fomos humilhados, vexados, gravemente.
Jerónimo nada mais consegue vocalizar do que uma exclamação infantilóide perante a evidência trazida pela contra-argumentação do Jorge constitucionalista. Os comunistas lutaram pela liberdade, sim, mas não pela mesma liberdade de que hoje desfrutamos e que corresponde ao modelo liberal. A liberdade comunista é outra coisa, que tem corrido sempre muito mal. O facto de nada mais ter espingardado, depois do assomo de bravata em cima da luta contra o fascismo, é em si uma transparência. E teria sido fascinante se aqueles dois pudessem saltar para uma mesa onde continuassem o mano a mano.
Neste simples trecho também podemos compreender a razão que levou o PCP a ser um suposto guardião da Constituição ao mesmo tempo que assistia impávido e feliz à degradação do Estado de direito. É que para defender uma Constituição-museu a liberdade não serve para nada. Já defender o Estado de direito democrático, e colocá-lo acima do sectarismo pulsional e tribal, essa é uma vontade indomável para quem esteja apaixonado pela liberdade.
A nossa notícia do dia
Este blogue é como o BCE da saúde para economias doentes. Juro.
Vamos lá a saber
Quem tem ganhado com a desconfiança?
Talvez seja este o gráfico mais relevante acerca de Portugal entre todos os que o POP apresenta. Abaixo de nós em desconfiança generalizada – portanto, consciência de se viver numa comunidade desagregada e ameaçadora – só os coitados dos búlgaros. No topo da lista, os vencedores do costume quanto à qualidade de vida nas suas sociedades. Curiosa, e ainda mais na comparação com Portugal, é a posição da Espanha, acima até da Alemanha.
Razões para esta ordenação serão aos molhos, a começar pelo questionamento acerca do rigor e representatividade do que o gráfico mostra. Todavia, não custa concordar com a ideia, por mais vaga que seja: os portugueses são desconfiados, e tão-mais quão menos assumem a sua cidadania. A cultura do queixume e do retraimento medra na iliteracia, no abandono escolar, na desqualificação e nos baixos salários. Por sua vez, a oligarquia explora de formas variadas a miséria reinante, numa luta implacável pelos poucos recursos disponíveis. Veja-se o que a direita portuguesa fez desde 2007, quando o seu império bancário desaba quase todo com os casos BPN, BCP e BPP, e como tratou a população assim que meteu as beiçolas no pote. De manual, gasto de tanto uso.
A esquerda portuguesa tem sido parte principal desta dinâmica erosiva, pois o PCP tem mantido desde o 25 de Novembro o estatuto de partido semi-clandestino. Com isso deu azo a que satélites como Louçã tivessem sucesso com variações de tom mas igual estratégia: destruir o PS a partir do discurso da desconfiança. Para cúmulo, a imprensa alinhava a agenda da direita com a manipulação dos imbecis úteis, resultando num constante berreiro de baixa política e numa florescente indústria da calúnia. O aumento das disparidades e a miséria reinante em grande parte do País, apesar dos enormes saltos positivos desde o 25 de Abril, explicam este sentimento de impotência e ressentimento que moldam a vida pública. A actual experiência de coligação parlamentar permite ter sustentadas esperanças de que se tenha mudado o paradigma, mas ainda é muito cedo para o descobrir.
Espaço enorme, autêntica ágora à disposição de quem quiser, para introduzir na comunidade a semente, o fermento ou até a poção mágica da confiança. Mas não pela converseta, antes pelas acções – pela coragem da sua inteligência, e pela inteligência da sua coragem.
Mulheres de Sócrates

Esta capa saiu durante o período da “mordaça”, intervalo de tempo em que o CM alegou estar sob “censura” a mando de Sócrates e em que publicou notícias a respeito do mesmo com chamada de 1ª página a uma média de 3,8 dias cada. Dentro da edição, encontramos transcrições de escutas e de interrogatórios, assim como a defesa institucional do que ali se faz – no caso, a cargo do Eduardo Dâmaso, o qual escreve estas reveladoras palavras:
"Olhar para tudo isto como uma espécie de "voyeurismo" judicial é atirar areia para os olhos dos portugueses."
O CM não manda areia para os olhos dos portugueses. Isso será a malta preocupada com a integridade, legalidade e decência da Justiça portuguesa, valores que não devem interferir com uma boa capa num tablóide de direita. O CM manda outras coisas, porém, posto que entrega algo ao público para ele consumir diariamente. Neste exercício, a parangona oferece o seguinte material:
– Sócrates tinha, ou continua a ter, 5 mulheres (pelo menos). Isto é, as 5 cidadãs identificadas eram, ou continuam a ser, posse de Sócrates enquanto fêmeas, seja de que forma for.
– Esse usufruto da posse teve um custo pecuniário, custo esse suportado por Santos Silva.
– A posse das 5 mulheres, e os custos respectivos, fazem parte da sua “vida de luxo”.
Quem não leia mais nada, pelo menos ficará a saber desta interessante história. Se for um consumidor regular do que o CM despeja no espaço público, vai acreditar no que leu e não terá qualquer dificuldade em interpretar o subtexto: Sócrates comprava mulheres e enviava a conta ao amigo. O CM, porém, preocupa-se com a possibilidade de estar algum dos seus leitores distraído, pelo que pratica um tipo de jornalismo onde até o português mais estúpido que se possa conceber tem acesso às informações que nos estão a ajudar a combater o mal. Vai daí, num bloco dedicado a Sandra Santos, uma das 5 putéfias, e após se relatar a suposta origem da relação com Sócrates, escreve-se o seguinte:
"Era o início de uma grande amizade."
Fino uso da ironia. Notável feito onde um jornal tem a ousadia, sempre em nome da liberdade de imprensa e da luta contra a grande corrupção, de assumir um registo de sarcasmo taberneiro para com uma cidadã envolvida lateralmente num processo judicial, passando o seu nome e imagem a serem alvo de qualquer tipo de exploração mediática. Registe-se que não estamos sequer a lidar com textos de opinião. O CM propõe no corpo das suas notícias que se considerem os seus alvos como pessoas destituídas de quaisquer direitos, reservando-se o papel de as tratar como melhor convier aos seus interesses comerciais e políticos. O que se está a fazer a Sócrates e terceiros das suas relações, incluindo familiares, é um linchamento social com o objectivo de destruir no grau máximo que for possível o estatuto, bem-estar e segurança das vítimas deste assassinato de carácter.
Na capa fala-se em 100 mil euros relativos a um período de 6 anos numa das situações. O jornal destaca essa soma porque as restantes são irrisórias na comparação. Contudo, até esse valor é irrisório quando relacionado com a dimensão dos rendimentos de Santos Silva. Corresponde a perto de 17 mil euros por ano, ou mil e trezentos euros por mês. É disto que estamos a falar, sendo que nos restantes casos as quantias serão irrelevantes até para cada indivíduo que pertença à classe média baixa. Se o CM conseguisse escutar o total da população portuguesa e depois aplicasse a mesma técnica difamatória e caluniosa a partir dos casos onde alguém emprestou ou deu dinheiro a alguém, vendendo a versão mais sórdida e degradante que lhe desse para inventar, não haveria árvores na galáxia para os números do jornal que teria de imprimir. Acima e antes de tudo, o pasquim não perde uma caloria com um mínimo de empatia e respeito para com o drama humano que pode, parece, estar na origem desses pedidos de dinheiro e ajuda captados pelas autoridades na privacidade desses cidadãos. Pelo contrário, aproveita a invasão judicial para fazer com ela um auto-de-fé.
Isto acontece perante o aplauso de uma parte da sociedade e a passividade da restante. Pessoalmente, não imagino o que leva uma consciência com módico respeito por si própria a aceitar colaborar com uma entidade que se permite fazer e espalhar esta violência. Ver Baptista-Bastos, Joana Amaral Dias, Rui Pereira e, especialmente, Fernando Medina – como anteriormente Eduardo Cabrita, Fernanda Palma e António Costa, entre outros nomes da nossa elite – a contribuírem para o caudal do esgoto a céu aberto não é apenas uma tristeza vexante, é também um dos mistérios deste universo para a minha pobre inteligência.
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No joke: Blondes aren’t dumb, science says
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How to spot elder abuse and neglect in the ER: Things are not always as they seem
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How Will an on-Demand Economy Work?
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Can too much talent harm your team’s performance?
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Change by the bundle: Study shows people are capable of multiple, simultaneous life changes
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Belief in the American Dream Regulates Materialism and Impulsive Spending
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City birds are smarter than country birds
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Da política-espectáculo ao espectáculo como política
Que têm em comum o convite a Draghi para participar num Conselho de Estado e a oferta de um cão a Marcelo, o primeiro animal de estimação com estatuto presidencial? Ambos são, essencialmente, golpes publicitários. O actual Presidente da República foi eleito, se esquecermos o facto de não ter tido concorrência, por ser uma estrela da televisão. E ele tornou-se uma estrela da televisão, em vez de um servidor público, porque – para além das benesses profissionais, sociais e pessoais que esse poleiro lhe dava – compreendeu com inteligência vocacional como funciona a fama de um artista do entretenimento. É uma arte do simulacro, um constante teatro onde a personalidade não se esconde pela máscara, antes passa a ser a própria máscara que se exibe em palco.
Chamar Draghi ao Conselho de Estado é uma jogada brilhante de relações públicas para Portugal e para Marcelo em tandem com Costa, mesmo que o seu efeito não passe de um fogo-de-artifício para inglês (e alemão, francês, americano, chinês) ver. Ter um cão, para mais oferecido por militares, a fazer companhia ao homem sem mulher no Palácio compõe a fotografia de família ideal para ficar no coração de 9 milhões de portugueses, mais uns trocos.
À volta disto tudo temos Marcelo a tratar a malta como se ele fosse um guru do coaching contratado para repetir as banalidades da psicologia positiva ao seu novo cliente: Portugal. Não tem nem terá outro projecto ideológico. O resto do tempo será passado num crescente processo de manipulação dos códigos que lhe deram o sucesso anterior e que têm enchido os dias desde que venceu as eleições.
“The High Mountains of Portugal”
Vamos lá a saber
Variações em mete dó maior
"Acho que, a partir do momento em que elas estão no espaço público [as escutas a Sócrates], parece estranho fingir que elas não estão. Houve uma pessoa qualquer que se levantou num programa de televisão para não comentar escutas. Isso não faz sentido, pois apesar de tudo estão no espaço público, acho um preciosismo. Tudo isto é divertido, tudo isto nos ajuda a formar uma convicção; que neste caso percebe-se qual é... Qualquer pessoa que a ouça, não é? Quando ouves aquilo, quase só mesmo o círculo mais próximo dele é que não fica com aquela convicção."
(licenciado em Direito pela Católica, crítico, cronista, poeta, editor, argumentista, dramaturgo, pioneiro da blogosfera, jurado do Prémio Camões, do Clube Português de Artes e Ideias, da Fundação Luís Miguel Nava, do Instituto Camões, das Correntes d’Escritas/Casino da Póvoa, da Sociedade Portuguesa de Autores, da Associação Portuguesa de Escritores e da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, bem como dos festivais de cinema IndieLisboa e Curtas Vila do Conde, é membro efectivo do júri dos prémios literários atribuídos anualmente pela Fundação Inês de Castro, Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, subdirector e director interino da Cinemateca Portuguesa entre 2008 e 2010, celebridade mediática, consultor presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa)
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Acho que, a partir do momento em que elas estão no espaço público [as fotos gamadas de um telemóvel onde se vê a proprietária do aparelho nua e em actos sexuais], parece estranho fingir que elas não estão. Houve uma pessoa qualquer que se levantou num programa de televisão para não comentar fotos gamadas dos telemóveis ou computadores pessoais. Isso não faz sentido, pois apesar de tudo estão no espaço público, acho um preciosismo. Tudo isto é divertido, tudo isto nos ajuda a formar uma convicção; que neste caso percebe-se qual é… Qualquer pessoa que as veja, não é? Quando vês aquilo, quase só mesmo o círculo mais próximo dela é que não fica com aquela convicção.
Acho que, a partir do momento em que elas estão no espaço público [as escutas às conversas sigilosas entre advogados e os seus clientes], parece estranho fingir que elas não estão. Houve uma pessoa qualquer que se levantou num programa de televisão para não comentar escutas às conversas sigilosas entre advogados e clientes. Isso não faz sentido, pois apesar de tudo estão no espaço público, acho um preciosismo. Tudo isto é divertido, tudo isto nos ajuda a formar uma convicção; que neste caso percebe-se qual é… Qualquer pessoa que as ouça, não é? Quando ouves aquilo, quase só mesmo o círculo mais próximo deles é que não fica com aquela convicção.
Acho que, a partir do momento em que ela está no espaço público [a correspondência privada entre duas pessoas que não autorizaram a sua publicação], parece estranho fingir que ela não está. Houve uma pessoa qualquer que se levantou num programa de televisão para não comentar correspondência privada publicada à revelia dos seus autores. Isso não faz sentido, pois apesar de tudo está no espaço público, acho um preciosismo. Tudo isto é divertido, tudo isto nos ajuda a formar uma convicção; que neste caso percebe-se qual é… Qualquer pessoa que a leia, não é? Quando lês aquilo, quase só mesmo o círculo mais próximo deles é que não fica com aquela convicção.
Acho que, a partir do momento em que eles estão no espaço público [os relatórios de saúde roubados de um centro médico], parece estranho fingir que eles não estão. Houve uma pessoa qualquer que se levantou num programa de televisão para não comentar relatórios de saúde roubados num centro médico. Isso não faz sentido, pois apesar de tudo estão no espaço público, acho um preciosismo. Tudo isto é divertido, tudo isto nos ajuda a formar uma convicção; que neste caso percebe-se qual é… Qualquer pessoa que os veja, não é? Quando vês aquilo, quase só mesmo o círculo mais próximo desses pacientes é que não fica com aquela convicção.
Acho que, a partir do momento em que ele está no espaço público [o diário perdido de uma criança de 10 anos], parece estranho fingir que ele não está. Houve uma pessoa qualquer que se levantou num programa de televisão para não comentar o diário perdido de uma criança de 10 anos. Isso não faz sentido, pois apesar de tudo está no espaço público, acho um preciosismo. Tudo isto é divertido, tudo isto nos ajuda a formar uma convicção; que neste caso percebe-se qual é… Qualquer pessoa que o leia, não é? Quando lês aquilo, quase só mesmo o círculo mais próximo da criança é que não fica com aquela convicção.
Acho que, a partir do momento em que ele está no espaço público [o vídeo onde um familiar ou amigo do fulano acima citado aparece embriagado ou numa crise psíquica], parece estranho fingir que ele não está. Houve uma pessoa qualquer que se levantou num programa de televisão para não comentar o vídeo do meu familiar/amigo. Isso não faz sentido, pois apesar de tudo está no espaço público, acho um preciosismo. Tudo isto é divertido, tudo isto nos ajuda a formar uma convicção; que neste caso percebe-se qual é… Qualquer pessoa que o veja, não é? Quando vês aquilo, quase só mesmo o círculo mais próximo dele é que não fica com aquela convicção. É o meu caso, aliás, não tenho nada aquela convicção.
Contra o terror, mais Europa
Um aspecto da contemporaneidade que o surgimento da Alcaida e do “Estado Islâmico” tem posto a nu é o da surpreendente impotência dos aparelhos policiais e militares não só das maiores potências como ainda das maiores potências a trabalhar em conjunto. Por exemplo, Bin Laden escapou ao poder dos EUA e aliados, na sua força máxima, durante mais de 12 anos. Só foi apanhado graças à obsessão de uma agente da CIA que não descansou até o encontrar. Sem ela, é muito provável que continuasse escondido à vista de toda a gente. E agora contra os suicidas no Iraque e na Síria a situação é ainda mais bizarra. Naquelas geografias não temos a selva do Vietname nem as montanhas do Afeganistão. É terreno plano, deserto, quase sempre sem nuvens e com ocasionais tempestades de areia. O inimigo está cercado, não têm aviação, não tem satélites, não tem recursos humanos e tecnológicos comparáveis com a bilionésima parte daqueles ao dispor dos americanos, europeus e russos, fora as restantes forças em presença. As suas condições de sobrevivência são rudimentares e seria incorrecto dizer que cada um deles não sabe se estará vivo no dia seguinte, pois nem sequer para a hora seguinte têm qualquer garantia. Dada a intensidade dos ataques de que são alvo, não sabem se estarão vivos no próximo minuto. No entanto, as tropas governamentais iraquianas e sírias, apoiadas, treinadas e dirigidas por potências mundiais, têm apenas conseguido ganhos marginais e à custa da completa destruição de cidades e património económico e cultural. A mesma perplexidade para os terroristas que actuam em solo europeu e norte-americano. Tendo de recorrer aos sistemas de comunicação presentes nesses territórios, e actuando perante o olhar dos eventuais vigilantes profissionais ou ocasionais, conseguem mesmo assim, e ao longo de anos, desenvolver redes e planear ataques devastadores contra inocentes e contra a segurança das populações.
Isto significa que o discurso contra os poderes do Estado, e a figura do Estado orwelliano que vigia tudo o que fazemos para nos condicionar e oprimir, é muito mais de origem retórica e ideológica do que de real fundamento prático. Não há nenhum político, militar, polícia e magistrado europeu e norte-americano que não desejasse acabar com a ameaça terrorista caso lhe fosse dada essa possibilidade. E não há nenhum político (excepto Trump), militar, polícia e magistrado europeu e norte-americano que não se reconheça incapaz de o prometer em público. Mutatis mutandis, seria o mesmo de termos um suposto responsável a prometer acabar com os crimes de violência doméstica. Seria uma declaração irracional para falar de um fenómeno cuja origem é irracional enquanto dinâmica individual.
Ontem, na CNN, especialistas em terrorismo referiam que as polícias belgas têm falta de recursos humanos, por um lado, e que têm um quadro legal que lhes impede de fazer escutas com a facilidade com que elas se fazem noutros países, pelo outro. E referiram que os ingleses andavam a vigiar alvos em Molenbeek em vez dos belgas por causa dessas limitações, mas tiverem de interromper a operação após a publicação de informações secretas por Snowden. Esta situação leva-nos para a possibilidade de que a resposta ao terrorismo em solo europeu, o qual na sua matriz apolítica dos suicidas de justificação islâmica tem uma lógica apocalíptica, passe também por uma muito maior integração das forças policiais europeias, criando-se um corpo comum. Os desafios políticos e legais que tal projecto implica serão sempre menores do que, por exemplo, poderá acontecer caso algum dia alguma central nuclear europeia seja alvo de um ataque ao seu reactor. Um exemplo em milhentos onde se irá tentar a destruição máxima, só isso é certo.