Mulheres de Sócrates

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Esta capa saiu durante o período da “mordaça”, intervalo de tempo em que o CM alegou estar sob “censura” a mando de Sócrates e em que publicou notícias a respeito do mesmo com chamada de 1ª página a uma média de 3,8 dias cada. Dentro da edição, encontramos transcrições de escutas e de interrogatórios, assim como a defesa institucional do que ali se faz – no caso, a cargo do Eduardo Dâmaso, o qual escreve estas reveladoras palavras:

"Olhar para tudo isto como uma espécie de "voyeurismo" judicial é atirar areia para os olhos dos portugueses."

O CM não manda areia para os olhos dos portugueses. Isso será a malta preocupada com a integridade, legalidade e decência da Justiça portuguesa, valores que não devem interferir com uma boa capa num tablóide de direita. O CM manda outras coisas, porém, posto que entrega algo ao público para ele consumir diariamente. Neste exercício, a parangona oferece o seguinte material:

– Sócrates tinha, ou continua a ter, 5 mulheres (pelo menos). Isto é, as 5 cidadãs identificadas eram, ou continuam a ser, posse de Sócrates enquanto fêmeas, seja de que forma for.
– Esse usufruto da posse teve um custo pecuniário, custo esse suportado por Santos Silva.
– A posse das 5 mulheres, e os custos respectivos, fazem parte da sua “vida de luxo”.

Quem não leia mais nada, pelo menos ficará a saber desta interessante história. Se for um consumidor regular do que o CM despeja no espaço público, vai acreditar no que leu e não terá qualquer dificuldade em interpretar o subtexto: Sócrates comprava mulheres e enviava a conta ao amigo. O CM, porém, preocupa-se com a possibilidade de estar algum dos seus leitores distraído, pelo que pratica um tipo de jornalismo onde até o português mais estúpido que se possa conceber tem acesso às informações que nos estão a ajudar a combater o mal. Vai daí, num bloco dedicado a Sandra Santos, uma das 5 putéfias, e após se relatar a suposta origem da relação com Sócrates, escreve-se o seguinte:

"Era o início de uma grande amizade."

Fino uso da ironia. Notável feito onde um jornal tem a ousadia, sempre em nome da liberdade de imprensa e da luta contra a grande corrupção, de assumir um registo de sarcasmo taberneiro para com uma cidadã envolvida lateralmente num processo judicial, passando o seu nome e imagem a serem alvo de qualquer tipo de exploração mediática. Registe-se que não estamos sequer a lidar com textos de opinião. O CM propõe no corpo das suas notícias que se considerem os seus alvos como pessoas destituídas de quaisquer direitos, reservando-se o papel de as tratar como melhor convier aos seus interesses comerciais e políticos. O que se está a fazer a Sócrates e terceiros das suas relações, incluindo familiares, é um linchamento social com o objectivo de destruir no grau máximo que for possível o estatuto, bem-estar e segurança das vítimas deste assassinato de carácter.

Na capa fala-se em 100 mil euros relativos a um período de 6 anos numa das situações. O jornal destaca essa soma porque as restantes são irrisórias na comparação. Contudo, até esse valor é irrisório quando relacionado com a dimensão dos rendimentos de Santos Silva. Corresponde a perto de 17 mil euros por ano, ou mil e trezentos euros por mês. É disto que estamos a falar, sendo que nos restantes casos as quantias serão irrelevantes até para cada indivíduo que pertença à classe média baixa. Se o CM conseguisse escutar o total da população portuguesa e depois aplicasse a mesma técnica difamatória e caluniosa a partir dos casos onde alguém emprestou ou deu dinheiro a alguém, vendendo a versão mais sórdida e degradante que lhe desse para inventar, não haveria árvores na galáxia para os números do jornal que teria de imprimir. Acima e antes de tudo, o pasquim não perde uma caloria com um mínimo de empatia e respeito para com o drama humano que pode, parece, estar na origem desses pedidos de dinheiro e ajuda captados pelas autoridades na privacidade desses cidadãos. Pelo contrário, aproveita a invasão judicial para fazer com ela um auto-de-fé.

Isto acontece perante o aplauso de uma parte da sociedade e a passividade da restante. Pessoalmente, não imagino o que leva uma consciência com módico respeito por si própria a aceitar colaborar com uma entidade que se permite fazer e espalhar esta violência. Ver Baptista-Bastos, Joana Amaral Dias, Rui Pereira e, especialmente, Fernando Medina – como anteriormente Eduardo Cabrita, Fernanda Palma e António Costa, entre outros nomes da nossa elite – a contribuírem para o caudal do esgoto a céu aberto não é apenas uma tristeza vexante, é também um dos mistérios deste universo para a minha pobre inteligência.

10 thoughts on “Mulheres de Sócrates”

  1. de tudo que foi escrito,o que mais me chocou foi a falta de solidariedade e de vergonha de antonio costa e fernando medina. escrever para um jornal que atraves de socrates, quis destruir o seu partido para favorecer a direita,tem muito que se lhe diga!pergunto: que mal fez socrates ao “correio da manha”? nenhum. elevar o ps a um patamar politico do qual estava há varios anos arredado,foi pelos vistos, o crime que sócrates cometeu e por isso pagou com 9 meses de cadeia! se não foi ,digam então porque motivo socrates esteve preso?

  2. Esta capa só tem uma resposta possível: o sarcasmo.
    Resposta-tipo: “Porque é que não vão embirrar com as 7 mulheres de Santana Lopes ?” “Se esse gajo feio e careca pode ter 7 porque é que eu que sou o sexy platina não poderia ter 5 ?” e “oh whait … mas então eu não era gay ???”
    Cadê a capa, se não estou em erro da revista Flash, que dizia: “Sócrates mantém amizade íntima com Diogo Infante”, hum ? lembram-se dessa ?

    O CM vai acabar como o Charlie Hebdo dos pobrezinhos.
    Um belo dia, um daqueles psicopatas com quem eles se metem todos os dias, um daqueles que matam a mulher com 14 facadas, vai sair da choldra fixado neles e … acaba tudo em tragédia.

    Para o Valupi:
    Não é mistério nenhum. Chama-se simplesmente cobardia. Julgam comprar a garantia de que nunca serão “investigados” pelo CM.
    Ou pior. Pode ser uma reacção tipo Pedro Namora no caso Casa Pia …

  3. não gastes o teu bom e feliz carácter, de onde brota essa inteligência ,a pensar nisso, Val. uma coisa é certa: estão a fazer de sócrates O Pujante. ai que riso com o rico cognome! :-)

  4. «A rádio estava a dar um programa sobre a emigração checa. Era uma montagem de gravações clandestinas de conversas privadas feitas por um espião checo que se infiltrara entre os emigrantes e depois regressara em triunfo ao país. Eram conversas anódinas e entrecortadas, de quando em vez, por insultos contra o regime de ocupação e por frases em que os emigrantes se qualificavam uns aos outros como cretinos e impostores. A emissão insistia sobretudo nestas últimas passagens: com efeito, era preciso provar que aquela gente não só dizia mal da União Soviética (o que já não punha ninguém indignado) como também que não hesitava em mimosear-se com os piores insultos. O que é curioso é que dizemos palavrões de manhã à noite, mas basta ouvirmos na rádio um tipo conhecido e respeitado pontuar o seu discurso com uns estou-me bem a cagar para eles para, inconscientemente, nos sentirmos algo desapontados.
    A primeira vítima de uma coisa destas foi Prochazka, disse Tomas, sem deixar de prestar atenção àquilo que estava a ouvir. Jan Prochazka era um romancista checo de cerca de quarenta anos, forte como um touro, que, ainda muito antes de 1968, começou a criticar em voz alta a situação do país. Era um dos homens mais populares da Primavera de Praga, essa vertiginosa liberalização do comunismo que terminou com a invasão russa. Pouco depois da invasão, todos os meios de comunicação social lhe davam o toque de rendição, mas quanto mais encurralado se encontrava maior era a sua popularidade. Por isso, em 1970, a rádio começara a transmitir à maneira de um folhetim as conversas privadas que, dois anos antes (portanto, na Primavera de 1968). Prochazka tivera com um certo professor universitário. Nenhum dos dois suspeitava que havia um sistema de escuta montado em casa do professor e que, há muito tempo já, todos os gestos que faziam eram espiados até ao mais ínfimo pormenor! Prochazka punha sempre os amigos bem-dispostos com as suas hipérboles e as suas ousadias. E, agora, essas suas inconveniências eram regularmente transmitidas pela rádio! A polícia secreta, que montara o programa, tivera o cuidado de dar um relevo especial a uma passagem em que o romancista fazia troça dos amigos, entre os quais se contava, por exemplo, Alexandre Dubcek. As pessoas não perdem uma ocasião de dizer mal dos amigos, mas, coisa curiosa, ficaram mais indignadas contra o seu bem-amado Prochazka do que contra a polícia secreta, unanimemente detestada! Tomas desligou o aparelho e disse: Todos os países do mundo têm uma polícia secreta. Mas só cá é que ela transmite as gravações que faz pela rádio! É uma coisa inaudita! – Não tanto como isso!, disse Tereza. Aos catorze anos, eu tinha um diário. Tinha medo que alguém o lesse. Escondia-o no sótão. A minha mãe acabou por descobri-lo. Um dia, ao almoço, enquanto estávamos a comer a sopa, tirou-o da algibeira e disse: “Ora ouçam todos com muita atenção!”, e pôs-se a lê-lo em voz alta, desmanchando-se a rir a cada frase. Toda a família se desmanchou também a rir e se esqueceu de comer.» (Milan Kundera, «A Insustentável Leveza do Ser»; citado por Paulo Moreira Leite no site «Brasil 247», em 21/3/2016)

    «Por agora, a bela batalha trava-se nas muralhas dela. De um lado estão as bestas do ódio, para quem só o linchamento daquele que mais temem conseguirá satisfazer a sua pulsão de morte. Do outro, uns poucos que defendem Sócrates como defenderiam as próprias bestas caso elas fossem vítimas de injustiça – aliás, caso se temesse que essas bestas viessem a ser vítimas de algum tipo de injustiça.» (Valupi, «Aspirina B», 12.4.2015)

    Continua bela, a batalha. (Mais uma vez:) Obrigado, Valupi.

  5. O Correio da Manhã tornou-se a melhor ferramenta de avaliação de sanidade políticica e cívica da nação portuguesa. Qualquer pessoa que permita a sua assinatura em alguma página desse objecto é classificada como imprestável. Definitivamente.

  6. Quem tem cu tem medo, Valupi, e, olhando para o tamanho do medo deles, calculo que os figurões e figurinhas que citas, tal como muitos outros que não citas, usem todos cuecas XXXXXXXXXXXXXXXXXXL.

    O medo vem-lhes da consciência que têm da impunidade dos da manha e afins se um dia decidirem marrar para o lado deles, impunidade garantida por uma justiça em grande parte capturada por interesses mafiosos, mas isso não os desculpa e não deixam de merecer o epíteto de cagarolas. E não se apercebem de que, por mais que se escondam, ou por mais broches que façam aos jagunços, não se livram de que um dia lhes possa tocar a eles. Basta que se atravessem inadvertidamente no caminho da glória de algum manhoso.

    “All that is necessary for the triumph of evil is that good men do nothing”, disse um irlandês no século XVIII. É certo que o mal continua a triunfar, mas resta-me a consolação de saber que, de vez em quando, há um filho da puta que leva uma machadada nos cornos e nunca mais faz mal a ninguém.

  7. Valupi, se preciso for afirmarei a plenos pulmões, fá-lo-ei sob juramento com a palma da mão sobre o livro sagrado e até não me importo de me submeter ao polígrafo do Artur Albarran. se a máquina estiver no sótão da SIC, para te dizer que o Aspirina B é um espaço de liberdade na blosfosfera existente na Tugaland, é melhor que uma loja de conveniência e, até-até-até, é melhor que uma farmácia em serviço nocturno (onde nem se precisa de sair de casa, no caso). Dito isto, e como poderás ver, a tua paixão para coleccionar as capas do CM “rende-te” ao fazer-se a caixa uma ninharia de um-1-um comentário em cada três-3-três horas. Contas por alto, inflacção, transpiração e inspiração quase no zero.

    28 Março 2016 às 16:23 e passa a nove-9-nove, sorry.

  8. Correcção, a tempo. A matemática da caixa dos trocos passa para seis-6-seis horas, afinal o post é de 28.

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