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Do terror ao horror

O terror é a evidência da fragilidade das nossas sociedades e autoridades face à intenção de espalhar a destruição entre civis. Uma destruição que ambiciona ser total, acabando com as vidas, com a cultura e com a memória. O horror é o esquecimento da nossa identidade histórica, feita de uma conquista milenar – que se confunde com a génese e evolução da raça humana – em direcção à segurança e à liberdade.

Combater o terror, se a ideia for a de atacar a sua lógica, começa por não ceder ao horror.

Vega9000 has left the building

O Vega9000 fez há uns dias a sua despedida formal, embora já tivesse partido muito antes, como assinala. O seu primeiro comentário por cá, pelo menos com esta identidade, foi em finais de 2009. Nos dois anos seguintes, encheu de forma assídua as caixas de comentários com a sua brilhante inteligência e paixão política. Os contributos eram sempre construtivos, informativos e desafiantes, servidos num português apurado. Em 2011 convidei-o para abandonar as catacumbas e subir à arena. Como autor, pôde mostrar todos os seus vastos recursos criativos no uso da imagem e da composição do texto. Já fora daqui, este artigo Desempregado usa humor para imitar Passos Coelho no Twitter e este texto Publicidade da casa dão conta do seu potencial admirável.

Nenhuma dessas características, nada desse talento, se deve ao Aspirina B. O Vega9000 já era um cidadão politicamente maturo e um blogger antes de aqui chegar. Tivemos foi a grande sorte de ele ter tropeçado neste pardieiro e por cá se ter demorado uns tempos. Na sua despedida, podemos também celebrar a memória de uma bela e estranha experiência nestes anos de partilha proporcionada pelo Al Gore, o inventor da Internet, onde conseguimos formar verdadeiras comunidades de socialização e pensamento sem levantarmos o cu da cadeira nem nunca chegarmos a falar presencialmente. É o caso, neste caso.

A minha citação favorita do Steve Jobs reza assim:

It doesn’t make sense to hire smart people and then tell them what to do; we hire smart people so they can tell us what to do.

Se tivesse uma empresa, era este o meu critério supremo para a gestão. Não a tendo, nem sendo provável que venha a ter, resta-me a consolação de ter pertencido a um blogue onde essa foi a lei de ouro.

Revolution through evolution

Watching TV May Reduce Differences Between Men and Women’s Sexual Expectations
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First prosthesis in the world with direct connection to bone, nerves and muscles
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Playing dumb and giving the cold shoulder: How stereotypes pervade the workplace
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Divided parties rarely win presidential elections, study finds
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Freedom of Religion, Civic Rights Were Important Components of a ‘Muslim Nation’
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Most Presidential Candidates Speak at Grade 6-8 Level
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8 Essential Nutrients for Aging Individuals

Estado de direita

O CM continuará a investigar Sócrates, certo de que o dia da transparência virá. Sempre tarde de mais para reparar os danos de tão prolongada mordaça. Sempre a tempo de fixar o perfil de um homem que tomou o poder para impor uma cleptocracia populista. Onde o jornalismo morreria em propaganda dócil.

Esgoto a céu aberto

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Esta é uma citação de um editorial não assinado. O que nele se escreve representa o órgão na sua plenitude – direcção, proprietários e colaboradores. Que se escreve nele? Que Sócrates impôs, ou pretendia impor, uma cleptocracia e a abolição do jornalismo. O mesmo “jornalismo” que persegue e devassa Sócrates ininterrupta e livremente sem qualquer incómodo ou prejuízo desde 2004, antes tendo nessa actividade uma fonte de lucro. E o que é a cleptocracia? É um regime de ladrões, pressupondo a acção concertada do Governo e da Justiça ao serviço da corrupção que desvia ilegalmente recursos do Estado para certos indivíduos.

A parte acerca do jornalismo num país onde o militante nº 1 do PSD tem um império mediático e onde o casal Moniz fez o que fez na TVI, já para não falar no que tem sido a RTP, é estúpida demais para sequer perder tempo com ela, mas dizer-se que Sócrates é um cleptocrata, nem que seja na forma tentada, implica necessariamente afirmar que os restantes governantes que com ele partilharam o poder, mais os deputados que apoiaram esse exercício do poder, mais o partido a que pertenciam esses deputados, mais os magistrados que permitiram essa situação, inclusive o Presidente da República que não denunciou essa cleptcracia como era seu dever, eventualmente os restantes partidos que se calaram a respeito, todas estas figuras e entidades foram cúmplices. É isto que está escrito no jornal mais vendido em Portugal.

Em centenas de outras peças, o CM têm explanado o mecanismo através do qual foi possível termos sido sujeitos à “cleptocracia” encabeçada por Sócrates. E é verdadeiramente uma explicação simples, como convém quando se trata de educar o povo. Foi assim. Antigamente, no tempo do socialismo cleptocrata, o Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro, e o presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Noronha do Nascimento, abafavam todas as investigações que alguns magistrados honestos tentavam levar avante para acabarem com a roubalheira. E, curiosamente, tão bem o faziam que nada se podia provar contra eles, apesar da monumentalidade das suas ilegalidades, apenas dava para ir repetindo que eles defendiam aqueles que a gente séria atacava. Mas, em 2011, surgiu um novo Governo, o qual tinha uma ministra da Justiça que, para além de pertencer à gente séria, tinha a enorme vantagem de não ser socialista. Esta senhora vinha disposta a limpar a Justiça da podridão reinante, pelo que escolheu Joana Marques Vidal para a missão. E foi remédio santo, passado pouco tempo tínhamos Sócrates metido na choldra, algo que também Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento podiam ter feito mas não quiseram por serem cúmplices da ladroagem. Agora, continua o CM a esclarecer os seus leitores e telespectadores sempre que pode, a Justiça em Portugal depende do heroísmo deste casal, a Joana que lança os cães no rasto dos gatunos e o Carlos Alexandre que os guarda bem guardados nos calabouços onde merecem acabar os seus dias a pão e água.

Em abono da justiça com minúscula, há que reconhecer que o CM não está sozinho na promoção desta narrativa. Longe disso. António Ventinhas, presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, diz o mesmo à descarada. A Associação Sindical dos Juízes Portugueses conseguiu em 2012 abrir um inquérito-crime que visa o uso de cartões de crédito pelos membros dos Governos de Sócrates. Se perguntarmos ao Zé Manel, à Helena Matos, ao caluniador pago pelo Público, entre tantos outros com poleiro na comunicação social “de referência”, se precisam dos tribunais para terem certezas a respeito da culpabilidade de algum socialista não é outra a conversa. Se perguntássemos à fantástica Paula Teixeira da Cruz, bastaria um olhar seu para se desfazerem as dúvidas. Duarte Marques, que daria um belíssimo sucessor de Passos, chegou a reunir-se com o Procurador-Geral da República em ordem a conseguir levar a tribunal ex-governantes socialistas. Corre outra investigação judicial, em paralelo com a dos cartões de crédito, que visa as PPP assinadas durante a governação socrática. Estas investigações duram há vários anos, não se sabendo em que estado estão mas sabendo-se que, de acordo com a regra estabelecida no caso Freeport, no processo Face Oculta e na Operação Marquês, a informação coligida pode ser fornecida secretamente a quem os agentes de Justiça envolvidos, ou com acesso, quiserem, seja vendida ou oferecida. E foi Paulo Rangel quem conseguiu ilustrar, melhor do que todos os restantes dado o seu alto estatuto político e com isso revelando de forma ofuscante o pensamento de milhares que usufruem politicamente do serviço prestado pelo CM, o que esteve em causa:

“Alguém acredita que se o PS fosse Governo havia um primeiro-ministro investigado?”

Obviamente, só os tansos é que acreditam nisso, mas esses estão em vias de extinção à medida que o CM se torna na fonte histórica mais prestigiada em Portugal. Uma fonte que pode dizer e fazer o que lhe der na real gana sem sequer suscitar uma vagido de protesto das instituições pilares da República. Em relação a Sócrates, o CM declara-se imune à lógica do Estado de direito que lhe permite o seu negócio e lhe garante a liberdade, tratando esse cidadão como criminoso sem que algum tribunal o tenha feito até agora e praticando um linchamento mediático do seu nome e imagem. Mas não só esse cidadão fica assim violentado nos seus direitos, dezenas ou centenas de outros que com ele tiveram ou têm relações de convivência política e pessoal (incluindo os familiares), milhares se contarmos com os militantes do PS, igualmente são classificados como criminosos pelo CM. É este o alcance do conceito de cleptocracia, assumido institucionalmente pelo jornal. E há ainda uma forte probabilidade de que o CM esteja a replicar ipsis verbis as convicções das próprias autoridades policiais e judiciais envolvidas na Operação Marquês.

Como o CM trata o juiz Carlos Alexandre, o procurador Rosário Teixeira e a Procuradora-Geral da República Joana Marques Vidal como heróis cercados pelos bandidos, e como o CM tem publicado um caudal de informações a que só teve acesso porque alguém na Justiça portuguesa está a cometer crimes para lhes dar esses materiais, é então muito provável que o CM e essas pessoas não descansem enquanto não conseguirem limpar tudo o que considerem ser uma porcaria e um obstáculo para os seus gostos e interesses. A passividade e gula decadente da nossa comunidade, que fazem do jornal CM e da CMTV as mais poderosas forças de condicionamento social e político que existem actualmente, indicam que o processo já está em andamento.

O órgão de comunicação social que em Portugal cultiva um populismo levado às últimas consequências, embora dirigido politicamente para favorecer a direita do poder pelo poder e atacar a esquerda que possa ser poder, acusa o alvo supremo da sua perseguição de ser populista. Não se trata de uma ironia ou sequer de uma alucinação. Isto é o CM a dizer como se faz. E apareceu logo quem mostrou ter aprendido a lição:

Pedro Passos Coelho, candidato único, foi esta noite reeleito por mais dois anos secretário-geral do PSD, prometendo um partido "coeso" na luta contra o que classificou de política de "retrocesso" e "populismo" do Governo PS.

Esgoto canalizado

O patriotismo não se apregoa, pratica-se

Troika vermelha

A aprovação do Orçamento de Estado para 2016 é um triunfo que ultrapassa esta legislatura. Estamos perante uma estreia no regime. E o regime fica melhor por causa dela. Veremos o que os seus protagonistas farão com esta novidade que objectivamente está ao serviço dos principais valores que alegam defender.

Antes da votação já tínhamos visto algo que também foi uma estreia, mas essa apenas por comparação com o Governo anterior. Deu-se quando Pierre Moscovici, comissário europeu dos Assuntos Económicos, teve de meter a viola no saco e sair de cena pela esquerda baixa perante a prova de força do Governo português como resposta à sua exibição proconsular. Esse episódio marcou o fim de semanas de manobras conspirativas da neo-Troika – direita portuguesa, Comissão Europeia, imprensa portuguesa – onde se sucediam as declarações às abertas e sob anonimato a lançarem gasolina no fogaréu de um eventual chumbo europeu do Orçamento português.

Há que reconhecer como notável, algo até a pedir investigação académica, a capacidade desta direita decadente para ser obscenamente traidora e não ser punida por isso. Quem perder o seu precioso tempo a recordar como argumentaram contra a viabilização do actual Governo, e contra o actual Orçamento, vai mergulhar num berreiro que fazia dos supostos interesses estrangeiros, Europa e mercados, o critério exclusivo pelo qual nos devíamos governar. Em resultado disso, partiram furiosos para declarações chantagistas, rindo e chorando de gozo de cada vez que as taxas de juro da dívida subiam uma décima fosse qual fosse a causa. Mas muito mais escandaloso, porque muitíssimo mais grave, foi o que esta direita decadente fez para chegar ao poder e o que fez quando lá chegou. O ódio espalhado para cima dos portugueses mais frágeis, sendo que este é um país de uma classe média paupérrima, destruiu literalmente incontáveis famílias e indivíduos. Quando ministros abrem a boca para mandar os concidadãos emigrar, e quando um primeiro-ministro tem o descaramento, se não for a demência, de humilhar quem sofre por causa das suas opções políticas dizendo-lhes para não serem “piegas” e jurando que levará a destruição até ao fim “custe o que custar”, ficamos banzos com o masoquismo de uma sociedade e de um eleitorado que os aceita e pede para repetirem a dose. Este é mesmo um país que continua sob a alçada de um salazarismo cultivado pela nossa elite, a mesma que domina a comunicação social, o empresariado e o sistema de Justiça.

Parabéns a Costa, portanto e por tanto. Grandes são as expectativas para o que poderá alcançar mais.

No jornalismo o que parece é

Sobre a investigação judicial em curso não vale a pena dizer muito mais do que, no respeito pelos princípios elementares do Estado de direito, Lula é inocente até trânsito em julgado. Mas em política o que parece é. E, por estes dias, a conduta lulista não é muito diferente da dos coronéis corruptos que se eternizavam no poder para fugir à justiça. Em Portugal, por exemplo, onde vivemos tempos difíceis com um ex-primeiro-ministro indiciado por corrupção e outros crimes deploráveis para um servidor público, foram muito criticados em certos círculos o silêncio e a atitude distante de António Costa em relação à situação judicial do seu antigo chefe de partido, que fez sempre passar a narrativa de que está a ser vítima de um processo puramente político. Na verdade, e independentemente das motivações do agora chefe de governo, a consequência do distanciamento de Costa face ao processo contribuiu para a saúde do regime e prova que aprendeu com os erros cometidos no início do caso Casa Pia, enquanto líder parlamentar do PS. O que estas duas condutas revelam é, desde logo, a diferença entre uma democracia madura e consolidada e outra à beira do colapso, para gáudio dos saudosistas da ditadura militar.


Nuno Saraiva

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A nossa classe jornalística é muito pior do que a nossa classe política. Algo que não se discute em lado algum porque, lá está, os jornalistas não serão os melhores observadores do fenómeno. Excepções à parte, aquilo que ainda pode ser considerado “imprensa de referência” consiste numa agremiação de comadres que têm um dos trabalhos mais fáceis no mundo: escrevinhar ou palrar as suas opiniões acerca dos malandros dos políticos. Para além disso, e para isso se propagar, cuidam do alinhamento ideológico, partidário ou governativo (conforme as conjunturas e contextos) que os seus patrões estabelecem (explícita ou implicitamente) para os órgãos de comunicação em causa. E não é um acaso o facto de não haver qualquer meio onde se detecte um favorecimento do PS, sendo o contrário quase ubíquo. O DN é uma caixa de Petri deste regime que influencia decisivamente a opinião pública, a vivência cívica e os resultados eleitorais. Daí o interesse em analisarmos a tipologia mais assumidamente política da classe jornalística enquanto instituição, os “editoriais”.

Este exercício do Saraiva é um manual de falácias prontas a servir aos borregos. Cada uma das frases no bloco citado ou é oca ou consiste numa descarada deturpação. Em sintonia, formam a clássica canção do bandido. Vejamos.

"Sobre a investigação judicial em curso não vale a pena dizer muito mais do que, no respeito pelos princípios elementares do Estado de direito, Lula é inocente até trânsito em julgado."

Isto é um sofisma embrulhado numa tautologia. A tautologia consiste na equivalência entre os princípios do Estado de direito e a condição de inocente até trânsito em julgado. Acaso o autor acha que os seus leitores ignoram essa correlação? Pensará que está a dar uma novidade à populaça? Não, ele está é a querer justificar o seu silêncio sobre a “investigação judicial em curso”. Ou seja, Saraiva foge a ter de emitir opinião sobre partes da investigação. Quais partes? A frase seguinte dá a resposta.

"Mas em política o que parece é."

Uma frase oca, um bordão asinino, cuja utilidade é tão-só falaciosa. Serve-lhe para definir o que seja a “política” e, assim, poder falar das partes da “investigação judicial em curso” que lhe interessam neste momento. Pelos vistos, a Justiça brasileira no seu todo, e o actuação dos magistrados brasileiros neste caso, não pertencem à esfera da política ou não podem ser também avaliados politicamente seja quanto a actos, omissões ou consequências desses actos e omissões. Para o Saraiva, “política” é aquilo que os “políticos” fazem que dê para aparecer num editorial da sua autoria ou que seja pasto para explorações à canzana pelos tablóides e simpatizantes do estilo desde que possam atingir alvos da sua predilecção. A expressão “em política o que parece é” valida todas as campanhas negras, as quais, precisamente, chafurdam nessa lógica onde se espalham suspeitas, difamações e calúnias de forma a que os visados sejam vistos pela comunidade tal como são retratados pelos seus inimigos. As frases seguintes cumprem este plano.

"E, por estes dias, a conduta lulista não é muito diferente da dos coronéis corruptos que se eternizavam no poder para fugir à justiça."

Saraiva sabe que existiram “coronéis corruptos”, talvez por ter estudado o assunto, e que entre eles e Lula não há grandes diferenças. Como é que chegou a essa conclusão? Como é que ele se permite comparar um regime ditatorial fundado no medo e em assassinatos políticos com a possibilidade que a actual Constituição brasileira oferece a Lula de obter uma qualquer alteração no processo judicial onde é visado? Para censurar a sua opção adentro de uma democracia e do tal Estado de direito invocado é preciso ir buscar os coronéis? Que nome vamos dar a uma escola de jornalismo que segue estes critérios?

"Em Portugal, por exemplo, onde vivemos tempos difíceis com um ex-primeiro-ministro indiciado por corrupção e outros crimes deploráveis para um servidor público, foram muito criticados em certos círculos o silêncio e a atitude distante de António Costa em relação à situação judicial do seu antigo chefe de partido, que fez sempre passar a narrativa de que está a ser vítima de um processo puramente político."

Dos coronéis de pistola a cavalo no sertão saltamos para Sócrates e Costa. Mais uma vez, pagava para saber a quem se refere quando fala em “certos círculos” que terão criticado Costa pela forma como lidou com a prisão de Sócrates. Certos círculos? Vale tanto como dizer certos triângulos, certos rectângulos, certos trapézios. De quem fala? Esta forma de sugerir que está na posse de um conhecimento especial, ou quiçá de estar em diálogo cifrado com alguém capaz de o descodificar, também é algo que se aprende nas escolas de jornalismo ou vem com a tarimba? A ideia é a de usar uma expressão à prova de verificação para poder espalhar a mensagem. A mensagem é: Costa conseguiu evitar ser apanhado pelo corrupto Sócrates que anda para aí a fingir-se de vítima.

"Na verdade, e independentemente das motivações do agora chefe de governo, a consequência do distanciamento de Costa face ao processo contribuiu para a saúde do regime e prova que aprendeu com os erros cometidos no início do caso Casa Pia, enquanto líder parlamentar do PS."

A saúde do regime a que se refere o Saraiva deve ser aquela que, num ano eleitoral, mete o ex-primeiro-ministro e ex-secretário-geral do partido da oposição na prisão sem que se saiba porquê passado um ano e meio e lançando no espaço público uma selvagem campanha de violação de direitos, crimes a envolverem agentes de Justiça e a mais grave degradação do Estado de direito de que há memória em democracia. Como se trata de Sócrates, familiares e amigos, está tudo bem. Ele que não se tivesse metido na política e que não tivesse amigos ricos, é muito bem feito.

"O que estas duas condutas revelam é, desde logo, a diferença entre uma democracia madura e consolidada e outra à beira do colapso, para gáudio dos saudosistas da ditadura militar."

Sem dúvida, ó Saraiva. Entre o Brasil e Portugal há algumas diferenças de monta, vai sem discussão. Apenas não sei se concordo com a tua noção de maturidade e consolidação no que diga respeito a democracias.

Aplaudo Marcelo com uma só mão

Não tinha ouvido nem lido o discurso de Marcelo na tomada de posse. Pelo que fiquei cheio de curiosidade com o que a Fernanda assinalou:

[...] o gesto vinca também, com eficácia mortal, a distância face a um Cavaco crispado, cerimonial, obcecado com a segurança, cujo aparente elogio no discurso de posse é um prodígio de veneno [...]

Marcelismo, dia terceiro

No mesmo dia, no Bloco Central, Pedro Adão e Silva fez referência à mesma passagem do discurso marcelista. Pelo que também rumei a Belém na esperança de ver essa estrela (de)cadente. E lá estava, desafiando os incréus:

Senhor Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva,

Ao percorrer, num imperativo exercício de memória, a longa e singular carreira de serviço à Pátria de Vossa Excelência – com uma década na chefia do Governo e uma década na chefia do Estado, que, largamente, definiram o Portugal que temos – entendo ser estrito dever de justiça – independentemente dos juízos que toda a vivência política suscita – dirigir a Vossa Excelência uma palavra de gratidão pelo empenho que sempre colocou na defesa do interesse nacional – da ótica que se lhe afigurava correta, é certo – mas sacrificando vida pessoal, académica e profissional em indesmentível dedicação ao bem comum.

De facto, é demolidor. Começa pela associação entre o “Portugal que temos” e a responsabilidade de Cavaco pela situação dada a “longa e singular carreira” de “serviço à Pátria” de tamanha excelência. E rebenta com o alvo ao inscrever na solenidade da tomada de posse a relativização do que o anterior Presidente considerou como o “interesse nacional”, isto tendo como contexto e subtexto o investimento retórico e político que a figura fez, até ao último dos seus dias no cargo máximo da República, nessa expressão fetiche, máscara sórdida para o maior sonso da política nacional desde que há memória histórica.

O visionamento do discurso traz um bónus. É que Marcelo fica nervoso nesta passagem, engasga-se, e toma a decisão de não ler exactamente o que escreveu, censurando a expressão enfática “é certo” e o “mas” adversativo e também coerentemente enfático com o sentido textual. Ou seja, podemos testemunhar que ele só se deu conta da violência da sua denúncia em cima do acontecimento, tendo tido a presença de espírito de diminuir os danos potenciais. Um grande habilidoso, este rapaz.

Assim, aplaudo Marcelo apenas com uma mão. O seu momento zen merece um aplauso zen.

A coisa

Em Fevereiro, a defesa de Sócrates entregou um parecer jurídico onde se argumenta contra a possibilidade de ter existido corrupção de Sócrates – leia-se, qualquer forma de favorecimento que tivesse nascido do seu papel como primeiro-ministro à data – no processo de licenciamento do empreendimento Vale do Lobo. Independentemente dos méritos ou deméritos da peça, algo que só especialistas em Direito poderão avaliar com um mínimo de objectividade, e deixando também sem análise o ponto onde o parecer considera haver uma falha muito grave do Ministério Público na classificação do eventual crime em causa, o que realço é o significado de o Correio da Manhã não ter noticiado o facto. Ou seja, o órgão de comunicação social que mais notícias publica acerca de Sócrates e da Operação Marquês, mantendo uma cruzada furiosa e assassina contra Sócrates e terceiros das suas relações pessoais, resolveu censurar as informações relativas a este documento.

As razões para tal não são difíceis de adivinhar, mas o que o episódio comprova, se mais provas fossem precisas, é que o CM não se comporta como um órgão de imprensa, apenas explora os privilégios legais e sociais desse estatuto. Estamos perante outra coisa.

O palco é um mundo

A morte de Nicolau Breyner comove-nos mais por a sentirmos injusta, cruel perante o que imaginamos que o Nicolau ainda tinha para viver e pela familiaridade da sua presença no nosso olhar. Nesse sentido, é como se tivesse morrido jovem. Um jovem de 75 anos que nos acompanhou e divertiu a todos, grande parte de nós desde que somos gente.

Por coincidência, ligo o seu fim à pujança de um outro actor, Tim Robbins, que está a fazer esta maravilha:

Actor’s Gang: How Tim Robbins has cut reoffending rates

Não sei se o Nico era homem para se meter em tais aventuras, mas de certo que sentiria orgulho por ter um colega assim.

À Barra

O convite a Cavaco para presidir a um Conselho de Ministros do actual Governo já está morto e enterrado na atenção da actualidade. Todavia, ele tem uma importância maior do que aquela registada mediaticamente. Para enquadrar o assunto, recorro a duas balizas que têm a dupla vantagem de serem convictamente socialistas e independentes no uso da liberdade de expressão:

Vital MoreiraContra a tradição, O namoro (este, uma versão do texto anterior escrita com mais diplomacia para com Cavaco), Sou contra

Estrela SerranoBofetada de luva branca

Ambos assinalam que o convite corresponde a uma vingança servida fria num cálice que Cavaco teve de engolir até ao fim. O Vital deixando que se percebesse melhor a sua irritação, a Estrela querendo celebrar o triunfo percebido. De facto, para os homens do ex-presidente, uma súcia de fanáticos do pior que passou pela Casa Civil, este era um Cavalo de Tróia que já se sabia o que tinha dentro e que, mesmo assim, era impossível recusar. Não havia qualquer tanga possível para embrulhar mais uma explosão de ódio, fosse o estar de férias nos Açores para não ir ao funeral de Saramago ou ninguém o ter avisado de haver um acordo com a Europa por obra e graça de um Governo socialista que evitaria o resgate de emergência. Se tivesse recusado, para mais numa encenação de Costa onde inclusive o tema do Mar era escolhido para anular qualquer desculpa concebível, essa recusa tornar-se-ia um escândalo que marcaria de forma insuportável o final do seu mandato – aliás, o final da sua era – e ainda a transição da Presidência para Marcelo. O silêncio da direita partidária e jornalística a respeito do episódio comprova que o golpe foi sentido e foi fundo.

Onde divergem é no significado e implicações da ocorrência para o PS. Vital, institucionalista, foca-se no tempo longo e só vê prejuízos e perigos na decisão de misturar as duas esferas de soberania. Estrela, partidária, desfruta do tempo curto e exalta os méritos do líder, Costa, no ajuste de contas com Cavaco. E estes são os extremos que também faço meus na avaliação desse 3 de Março no Forte de São Julião da Barra. Por um lado, acho que Costa esteve mal ao oferecer a Cavaco a honra de se associar a um Governo que tentou por todos os meios inviabilizar, fora tudo o mais que faz parte de uma História cheia de vilanias em Belém. Por outro, é um grande gozo imaginar a tortura de Cavaco desde que o convite foi feito até à conferência de imprensa no pós-operatório, passando pela foto de família e ter de estar na mesma sala com o Augusto Santos Silva, o Vieira da Silva e o Capoulas Santos.

A importância maior da situação remete para a figura de Costa e o seu exercício do poder. Há duas características que podemos identificar como pilares estruturantes do que é um padrão de comportamento: (i) a sua ideologia é a República, donde lhe vem tanto a devoção à causa pública como um monótono calculismo; (ii) ainda não provou a derrota, causa da sua indomada sobranceria, e esta a explicar a sua incompetência na campanha contra Seguro e nas eleições legislativas. Desta mistura resulta uma sólida inteligência de estadista, por aí surgindo o convite a Cavaco como jogada brilhante em vários planos, e uma substituição da paixão política e ideológica por um pragmatismo cínico, por aí ficando o convite a Cavaco como um teatro hipócrita ao serviço da sua própria pessoa.

Aprecio Costa como republicano e estadista, sendo um dos nossos melhores nessa dimensão, mas não o aprecio como líder, pois a política não precisa de mais cinismo e hipocrisia. Na minha humilde e nada modesta opinião, a política precisa é de mais coragem.

Revolution through evolution

In the absence of caring, understanding alone doesn’t cut it
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Retirement Is Good for Your Health
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Trust your aha! moments: Experiments show they’re probably right
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People in Their 60s Uniquely Benefit From Giving Advice Despite Fewer Chances to Offer It
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Brain tune-up may aid self-motivation
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Meditation and Ballet Associated with Wisdom, Study Says
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Want a younger brain? Stay in school – and take the stairs
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Continuar a lerRevolution through evolution

Escrito em 27 de Agosto de 2009, por quem sabe do que fala

Num Estado de Direito, a investigação criminal deve desenvolver-se aliando a competência técnica à dimensão ética. Quando falha uma ou outra, é a sua credibilidade que fica em causa. Quando falham as duas, a investigação criminal torna-se num jogo de ignomínias.

A história que vier a fazer-se da investigação criminal, em Portugal, nas últimas décadas, encontrará um número significativo desses jogos. Erros processuais grosseiros, estratégias de investigação sem coordenação entre os diversos intervenientes, fugas sistemáticas de informação que parecem querer condicionar o desenvolvimento futuro das diligências, estarão lá, nessa história, sem que, infelizmente, já nada dela aproveitemos.

O que escrevi, não é novidade. Creio mesmo que reunirá algum consenso entre aqueles que habitualmente analisam estas questões. O que surpreende é que, sabendo-se tudo isso, não tenha havido as alterações estruturais que se justificariam. Ao longo dos anos da democracia, a investigação criminal tem-se mantido igual a si mesma, sem sobressaltos, seja nas suas poucas virtudes, seja nos seus múltiplos vícios. Uns e outros, à direita e à esquerda, têm preferido o imobilismo e as suas degradantes e degradadas consequências.

Neste contexto, não será ousado dizer que se criou um caldo de cultura que possibilita, facilmente, a criação de casos em que, mais do que a descoberta de factos, estão em causa desígnios que não cabem na investigação criminal. As corporações tomaram-lhe o gosto, ensaiando aí o seu poder, mas sem terem a noção de que será também aí que perderão a sua causa.

Os danos causados ao Estado de Direito têm sido incomensuráveis. Onde não há credibilidade, não há eficácia. A eficácia traduz a correcção dos procedimentos, a transparência dos propósitos e a sensatez das conclusões. Uma investigação sem credibilidade está inquinada definitivamente, seja qual for a aparência dos seus resultados. Nenhum cidadão gostaria de ser alvo de uma investigação assim. É o que presumo.


Ética e investigação

Verão Marcelista

Marcelo tem duas características que o colocam na mesma categoria a que pertence o fenómeno Trump. A primeira é relativa à sua condição de estrela mediática, celebridade cujo sucesso está em relação directa com o seu desempenho televisivo como estrela que desperta afectos. Também Trump é um fulano de quem se gosta na TV, nem que seja na modalidade onde ele é um alvo de sarcasmos e caricaturas. A segunda é relativa à sua distância do sistema político. Parecendo paradoxal, mas sendo estritamente lógico, o estatuto de crítico oficial do regime implicava essa suposta e artificiosa distância face aos objectos criticados. Marcelo podia fazer política, no sentido em que tinha uma agenda e preferências, precisamente porque lhe era dado um formato de comunicação onde simulava estar acima da política. Ele era o intérprete autêntico das venturas e desventuras da classe política, o justo e sábio “professor”, tendo perdido ao longo do tempo as marcas da sua passagem pelo PSD. Purificou-se mergulhando semanalmente na merda defecada pela classe política, maravilhas da alquimia circense. Também Trump explora a sua condição angelical, anunciando que está sozinho contra o mundo da política e que é por essa exclusiva razão que devem votar nele e dar-lhe o poder político máximo.

Marecelo fez uma campanha presidencial que consistiu na anulação da paixão política e da querela ideológica. Limitou-se a pedir ao eleitorado que votasse no Marcelo da televisão, fulano muito mais simpático, muito mais popular, muito mais nosso, do que a múmia paralítica que estava em Belém ou do que os toscos e anedotas ambulantes que estavam na corrida ao seu lado. A imbecilidade da esquerda fez o que pôde para o ajudar, tendo até vingado a tese de que a sua vitória era o desfecho desejado por Costa. Depois da eleição, e nesse interim que termina hoje, tem sido aclamado como a escolha unânime do País para ocupar a chefia do Estado. É mais do que um estado de graça, estamos perante o Estado a ser tocado pela Graça.

Marcelo foi um dos mais poderosos e sofisticados cultores da baixa política em Portugal. O seu sucesso também se deve, para além do genuíno talento histriónico, a uma sociedade que aprova e consome esta forma de política-espectáculo que degrada o espaço público e intoxica a participação cívica e a decisão eleitoral. Durante anos, sem o berrado contraditório pedido a outros actores políticos caso sejam socialistas e fortes, a direita e a oligarquia portuguesas, Igreja Católica incluída, dispuseram de um tempo de antena semanal que esteve em perfeita sincronia com a cultura do ódio e a indústria da calúnia, as principais armas usadas por PSD, CDS e Cavaco desde 2008 contra o PS, a democracia e o Estado de direito. Para cúmulo da degradação, até o PS validava esse seu papel. Que se faça um simples teste: alguém recorda alguma crítica de Marcelo ao Correio da Manhã, ou mera reflexão acerca da sua influência? E este: alguém recorda algum alarme de Marcelo a respeito das violações do segredo de justiça, ou mera reflexão sobre o uso de escutas como arma de arremesso político e assassinato de carácter? Se sim, quantas vezes? Se nunca, porquê?

De facto, este país merece o que vai ter. A culpa não é dele, é da sua natureza. Como disse o escorpião.

Exactissimamente

O governador revisita o PEC IV

Nota

O Nicolau, com a pressa, até se esqueceu da reunião entre Sócrates e Passos, numa quinta-feira à noite, um dia depois da tomada de posse de Cavaco e do comício na Assembleia a pedir a queda do Governo pela rua, e na véspera da apresentação das principais medidas do PEC. Dessa reunião entre o primeiro-ministro e o líder da oposição resultou, no dia seguinte, um estado de silêncio expectante por parte do PSD, sinalizando que a aprovação do PEC IV era uma forte possibilidade. Durante o fim-de-semana outra decisão foi tomada e a direita partidária, acirrada pela direita presidencial, partiu para o afundanço do País. As mentiras que se contaram nos dias seguintes deviam ser estudadas na escola pública logo a partir do Ensino Básico.

Já à timidez devemos atribuir as dúvidas, por mínimas que sejam, manifestadas no texto acerca do putativo conhecimento de Cavaco e Passos a respeito do acordo que tinha sido alcançado entre Portugal e a Europa de forma a evitar o resgate, consubstanciado no PEC IV. Embora lembre que Durão Barroso estava à frente da Comissão Europeia (e que fosse outro qualquer), tal processo jamais poderia ser escondido das principais autoridades portuguesas, Belém e PSD incluídos. Resultou de variadas reuniões entre o Governo e responsáveis técnicos europeus ao longo de Janeiro e Fevereiro, e era do interesse da própria Alemanha que levasse a uma aprovação no Parlamento português – logo, o clima era precisamente o contrário ao da afronta pelo secretismo. Por outro lado, Cavaco passou o mês de Fevereiro em reuniões a ouvir toda a sociedade civil e responsáveis políticos, parte dos quais, senão todos, igualmente sabiam que algo estava a ser preparado para evitar a situação ocorrida na Grécia e na Irlanda. Prova disto mesmo foi a manchete do Expresso, logo no início de Fevereiro, onde se lia “FMI já não vem”. As reacções da direita decadente e traidora a essa notícia, num festival de ressabiamento e ódio, igualmente merecem estudo escolar para se aprender logo de tenra idade a conviver com pulhas.

Finalmente, o Nicolau, imitando toda a gente desde 2011, não faz qualquer referência a uma declaração de Durão Barroso onde ele recorda um diálogo mantido com Passos no período que antecedeu a votação do PEC IV, período esse de intensa pressão europeia para a sua aprovação. Conta Barroso que Passos lhe disse que ia chumbar o PEC – apesar de Barroso o ter tentado convencer dizendo que mesmo assim o resgate seria inevitável pelo que com o PEC aprovado seria melhor para Portugal quando substituísse Sócrates – porque havia o risco de o Governo socialista, com o PEC IV aprovado, conseguir mesmo evitar ter de pedir um empréstimo de emergência. Basta este episódio, entretanto apagado da Internet, para contar a história toda às crianças.

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