Verão Marcelista

Marcelo tem duas características que o colocam na mesma categoria a que pertence o fenómeno Trump. A primeira é relativa à sua condição de estrela mediática, celebridade cujo sucesso está em relação directa com o seu desempenho televisivo como estrela que desperta afectos. Também Trump é um fulano de quem se gosta na TV, nem que seja na modalidade onde ele é um alvo de sarcasmos e caricaturas. A segunda é relativa à sua distância do sistema político. Parecendo paradoxal, mas sendo estritamente lógico, o estatuto de crítico oficial do regime implicava essa suposta e artificiosa distância face aos objectos criticados. Marcelo podia fazer política, no sentido em que tinha uma agenda e preferências, precisamente porque lhe era dado um formato de comunicação onde simulava estar acima da política. Ele era o intérprete autêntico das venturas e desventuras da classe política, o justo e sábio “professor”, tendo perdido ao longo do tempo as marcas da sua passagem pelo PSD. Purificou-se mergulhando semanalmente na merda defecada pela classe política, maravilhas da alquimia circense. Também Trump explora a sua condição angelical, anunciando que está sozinho contra o mundo da política e que é por essa exclusiva razão que devem votar nele e dar-lhe o poder político máximo.

Marecelo fez uma campanha presidencial que consistiu na anulação da paixão política e da querela ideológica. Limitou-se a pedir ao eleitorado que votasse no Marcelo da televisão, fulano muito mais simpático, muito mais popular, muito mais nosso, do que a múmia paralítica que estava em Belém ou do que os toscos e anedotas ambulantes que estavam na corrida ao seu lado. A imbecilidade da esquerda fez o que pôde para o ajudar, tendo até vingado a tese de que a sua vitória era o desfecho desejado por Costa. Depois da eleição, e nesse interim que termina hoje, tem sido aclamado como a escolha unânime do País para ocupar a chefia do Estado. É mais do que um estado de graça, estamos perante o Estado a ser tocado pela Graça.

Marcelo foi um dos mais poderosos e sofisticados cultores da baixa política em Portugal. O seu sucesso também se deve, para além do genuíno talento histriónico, a uma sociedade que aprova e consome esta forma de política-espectáculo que degrada o espaço público e intoxica a participação cívica e a decisão eleitoral. Durante anos, sem o berrado contraditório pedido a outros actores políticos caso sejam socialistas e fortes, a direita e a oligarquia portuguesas, Igreja Católica incluída, dispuseram de um tempo de antena semanal que esteve em perfeita sincronia com a cultura do ódio e a indústria da calúnia, as principais armas usadas por PSD, CDS e Cavaco desde 2008 contra o PS, a democracia e o Estado de direito. Para cúmulo da degradação, até o PS validava esse seu papel. Que se faça um simples teste: alguém recorda alguma crítica de Marcelo ao Correio da Manhã, ou mera reflexão acerca da sua influência? E este: alguém recorda algum alarme de Marcelo a respeito das violações do segredo de justiça, ou mera reflexão sobre o uso de escutas como arma de arremesso político e assassinato de carácter? Se sim, quantas vezes? Se nunca, porquê?

De facto, este país merece o que vai ter. A culpa não é dele, é da sua natureza. Como disse o escorpião.

17 thoughts on “Verão Marcelista”

  1. Vai-se Aníbal, o «Sonso», e chega Marcelo, a «Comadre». E o pior é que já me atrapalhei por causa deste dilúvio de afetos e acabei por pisar um bocado de proximidade com as pessoas…

  2. “Se nunca, porquê?”
    Pela mesma razão que, hoje em dia, o assunto não é abordado por mais ninguém a não ser pelo Valupi: no fundo, no fundo, todos estão convencidos que Sócrates foi corrupto e ninguém se quer dar ao trabalho de defender o Estado de Direito, o segredo de justiça, ..,. a propósito dele.
    Salvas as devidas proporções, pela mesma razão que ninguém critica a violência nas prisões se o alvo for um pedófilo violador (foi o pior que consegui imaginar). O que não quer dizer que concordem com essa violência, ou que a defendam (em abstracto). Só não querem é utilizar o exemplo de um pedófilo violador para fazer valer os seus pontos de vista. Até porque podia ser contra-producente aos olhos da opinião pública.

  3. “Se sim, quantas vezes? Se nunca, porquê?”

    Sugiro-lhe um outro desafio. Considere todos os comentadores regulares de órgãos de comunicação social, em particular os de esquerda (pode começar por Francisco Louçã, ou Fernando Rosas, por exemplo), e faça essa contabilidade. Serão assim tantas as diferenças? Se não, porquê?

  4. Afinal o Marcello lia mesmo os livros que apresentava!
    Foi pena não fazer uma antevisão do jogo de logo à tarde, caso o Benfica perca é capaz de perder o estado de graça.

    É um Mr. Chance. Os editores de conteúdos vão ter um trabalhão em encher e dar gravitas ao personagem.
    “Leve como espuma de cerveja”, como disse Mick Jagger de Michael Jackson.

    Pelo feeling do Eduardo Barroso que chorou tanto pelo Marcelo como chorou pelo Bruno de Carvalho, as coisas não serão fáceis.

    Houve bancadas à esquerda que não aplaudiram Cavaco Silva.
    Muito bem. O institucionalismo é para quem respeita as instituições, não há borlas.

  5. anonimo, não posso concordar mais contigo. Quando acabei de publicar este texto fiquei a pensar que tinha deixado de fora a parte relativa à esquerda pura e verdadeira, e de como essa maltósia sempre foi cúmplice de tudo o que contribuísse para o desgaste do PS, mesmo que viesse da direita. Porém, e indo para os nomes de Louçã e Rosas, diria que eles já falaram dessas questões, pelo menos no passado recente e de alguma forma, por um lado, e que não são eles que tomam posse hoje como Presidentes da República, pelo outro.
    __

    Joe Strummer, esteve muito bem quem não aplaudiu o palhaço.

  6. Apesar de escorpião, merece o benefício da dúvida pois, como disse o Paulinho
    das feiras o seu discurso de posse foi inatacável do ponto de vista político mas,
    como assinalou o camarada Jerónimo de promessas está o inferno cheio … só
    nos resta esperar pelo desenvolvimento da sua actuação face ao visível ressenti-
    mento trazido pelo lider parlamentar do PSD inconformado com a forma como
    o actual Governo está em funções! Por outro lado, o Passos Láparo o criador do
    catavento, recebeu convite para o almoço e não deu a cara … será para marcar uma
    posição? Ou na impossibilidade do marquitos não poder ir, resolveu não avançar?
    Mau começo, o Presidente fala em acabar com a crispação e, os estarolas forçam
    esse caminho e depois dizem-se uma oposição responsável ???

  7. Por mim valeu o facto de a Judite de Sousa não ter sido avistada nos cumprimentos. Isso é um bom prenúncio.

  8. “Mau começo, o Presidente fala em acabar com a crispação e, os estarolas forçam
    esse caminho …”
    Não foram só os estarolas a forçar esse caminho. A esquerda à esquerda do PS (BE e PCP) perdeu a oportunidade de contribuir para que essa crispação diminuísse (ou pelo menos não contribuir para que aumentasse). E não tinham de assinar nenhum acordo ou posição conjunta, não tinham de prescindir de nenhum dos seus princípios programáticos, não tinham de concordar com as opiniões de Marcelo: bastava que cumprimentassem civilizadamente o discurso de tomada de posse. Até para respeitar a parte do seu eleitorado que votou Marcelo.
    Mas a esquerda à esquerda não tem de contribuir para diminuir a crispação, só tem de chamar a atenção aos outros.

  9. Uma das coisas que mais chocou, entre as que melhor me recordo, foi quando o Marcelo abordou a questão da licenciatura de Sócrates, na sua homilia dominical. Estando muito mais bem informado que eu sobre a questão, não teve o menor escrúpulo em afirmar que a licenciatura do Relvas era “limpinha”, comparada com a “trambiquice” da Licenciatura de Sócrates. É este homem de opiniões facciosas e com esta facilidade de palavra pulha, que temos hoje como Supremo Magistrado da Nação. Após Cavaco, qualquer coisa serve para PR.
    Depois de termos ouvido Jaime Gama afirmar que Alberto João Jardim era um democrata exemplar, agora ouvimos António Costa ajoelhar diante de Cavaco, para afirmar que o mar foi o grande desígnio cavaquista! Oxalá Costa faça um bom trabalho como PM, como fez como presidente da Câmara de Lisboa, porque quanto ao resto ficamos a saber que convive muito bem com o pior lixo da politiquice. Porra, a boa convivência institucional tem limites, como a verdade e o mínimo decoro.

  10. Pois estiveram Val, parece q já há quem queira transformar a AR numa nova União Nacional. Os jornalistas, a classe mais corporativa, são os primeiros. Vivem do conflito mas adoram narrativas controladas .

  11. Deixei de acreditar na possilidade de António Costa ser útil ao país anteontem, quando o vi aplaudir a proposta de adesão da Turquia à União Europeia, sob o estrondo de bombas a cair em cidades do Sul da Turquia e do Norte da Síria e da voz de encerramento de jornais e agências noticiosas.

  12. Estou tão tão tão contente com a saída de cavaco que nenhuma sombra me aflige
    estou mesmo euforicamente ALIVIADA!
    Viva Marcelo!

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