À Barra

O convite a Cavaco para presidir a um Conselho de Ministros do actual Governo já está morto e enterrado na atenção da actualidade. Todavia, ele tem uma importância maior do que aquela registada mediaticamente. Para enquadrar o assunto, recorro a duas balizas que têm a dupla vantagem de serem convictamente socialistas e independentes no uso da liberdade de expressão:

Vital MoreiraContra a tradição, O namoro (este, uma versão do texto anterior escrita com mais diplomacia para com Cavaco), Sou contra

Estrela SerranoBofetada de luva branca

Ambos assinalam que o convite corresponde a uma vingança servida fria num cálice que Cavaco teve de engolir até ao fim. O Vital deixando que se percebesse melhor a sua irritação, a Estrela querendo celebrar o triunfo percebido. De facto, para os homens do ex-presidente, uma súcia de fanáticos do pior que passou pela Casa Civil, este era um Cavalo de Tróia que já se sabia o que tinha dentro e que, mesmo assim, era impossível recusar. Não havia qualquer tanga possível para embrulhar mais uma explosão de ódio, fosse o estar de férias nos Açores para não ir ao funeral de Saramago ou ninguém o ter avisado de haver um acordo com a Europa por obra e graça de um Governo socialista que evitaria o resgate de emergência. Se tivesse recusado, para mais numa encenação de Costa onde inclusive o tema do Mar era escolhido para anular qualquer desculpa concebível, essa recusa tornar-se-ia um escândalo que marcaria de forma insuportável o final do seu mandato – aliás, o final da sua era – e ainda a transição da Presidência para Marcelo. O silêncio da direita partidária e jornalística a respeito do episódio comprova que o golpe foi sentido e foi fundo.

Onde divergem é no significado e implicações da ocorrência para o PS. Vital, institucionalista, foca-se no tempo longo e só vê prejuízos e perigos na decisão de misturar as duas esferas de soberania. Estrela, partidária, desfruta do tempo curto e exalta os méritos do líder, Costa, no ajuste de contas com Cavaco. E estes são os extremos que também faço meus na avaliação desse 3 de Março no Forte de São Julião da Barra. Por um lado, acho que Costa esteve mal ao oferecer a Cavaco a honra de se associar a um Governo que tentou por todos os meios inviabilizar, fora tudo o mais que faz parte de uma História cheia de vilanias em Belém. Por outro, é um grande gozo imaginar a tortura de Cavaco desde que o convite foi feito até à conferência de imprensa no pós-operatório, passando pela foto de família e ter de estar na mesma sala com o Augusto Santos Silva, o Vieira da Silva e o Capoulas Santos.

A importância maior da situação remete para a figura de Costa e o seu exercício do poder. Há duas características que podemos identificar como pilares estruturantes do que é um padrão de comportamento: (i) a sua ideologia é a República, donde lhe vem tanto a devoção à causa pública como um monótono calculismo; (ii) ainda não provou a derrota, causa da sua indomada sobranceria, e esta a explicar a sua incompetência na campanha contra Seguro e nas eleições legislativas. Desta mistura resulta uma sólida inteligência de estadista, por aí surgindo o convite a Cavaco como jogada brilhante em vários planos, e uma substituição da paixão política e ideológica por um pragmatismo cínico, por aí ficando o convite a Cavaco como um teatro hipócrita ao serviço da sua própria pessoa.

Aprecio Costa como republicano e estadista, sendo um dos nossos melhores nessa dimensão, mas não o aprecio como líder, pois a política não precisa de mais cinismo e hipocrisia. Na minha humilde e nada modesta opinião, a política precisa é de mais coragem.

15 thoughts on “À Barra”

  1. Cinismo ou talvez nao tanto. Essa apreciaçao depende mais do cinismo que cada um tem dentro de si, do que das apreciaçoes do Valupi.

  2. mais vale um cobarde vivo que um herói morto. a política vive de cinismo e hipocrisia, dos corajosos trata a comunicação social, a polícia e a justiça. tudo é permitido e tudo é proibido, depende de quem tem o poder. depois há umas abéculas que disfarçam na procura incessante do sapo encantado.

  3. Nem mais, Ignatz, se te entendi bem, é verdade que assistimos ao triunfo do cinismo e da cobardia e à perseguição implacável dos homens com coragem. É a falência das estruturas democráticas, quando a justiça e a comunicação social estão ao serviço do cinismo e da cobardia.

  4. Não é generoso, não é solidário, não é destemido, ou seja não tem CARISMA, e por isso Valupi “não o aprecia como líder”, e eu digo que por isso ele está destinado a ser feliz e a ser rapidamente esquecido.

    Mais vale um cobarde vivo que um herói morto, diz Ignatz. Mas mais vale para quê e para quem ? Os heróis mortos vivem para sempre e dos cobardes vivos ninguém lembra os nomes. No fundo tudo depende de quanto tempo se quer viver (muitos anos ou para sempre) e de como se quer viver (amado ou ignorado).
    Che Guevara é eterno. Alguém sabe o nome dos cobardes que o mataram ou mandaram matar ? Mais que isso: alguém deseja saber ?

    Os Deuses vendem quando dão
    Compra-se a Glória com desgraça
    Ai dos felizes porque são
    Só o que passa !

  5. Coragem!!! Qual a acção que define a coragem?
    É corajoso o que se mete imprudentemente frente à bala para morrer e deixar pior o que está? Ou também é corajoso aquele que manhoso, sábio e prudentemente evita a bala para continuar no caminho traçado para evitar mais e piores males?
    Penso que Costa também aprendeu com o exemplo Sócrates que enfrentar a besta de frente, à maneira típica do herói clássico, (da guerra só se pode regressar com o escudo ou em cima do escudo) neste preciso tempo só conduziria a nova derrota de morte frente aos poderes ocultos dos mercados e seus lacaios.
    Costa não pega de frente mas de cernelha, é menos corajoso e sobretudo menos espectacular à vista mas é mais seguro e, em política actual, é mais sábio sobretudo quando já houve uma tentativa de pega de frente e levou o pegador à prisão e quando a situação pede que a coragem se exerça com astúcia e sagesa para manter o controlo da situação e poder continuar a dar passos em frente. Pode parecer cinismo e hipocrisia mas, a política e a sobrevivência política, desde sempre e actualmente foi isso mais o maquiavelismo. E aqui lembro ao Valupi que o cinismo é a filosofia dos totalmente cépticos que pensam que nunca se pode conhecer a verdade absoluta das coisas logo, os práticos ou pragmáticos devem submeter-se à coragem prática e não à coragem pura isto é, usar de uma dose sábia de cinismo, se querem manter-se vivos ou activos.
    A coragem do herói clássico é uma grandeza épica bonita e muito fácil de pedir ou exigir aos outros para satisfazer o nosso moralismo sem coragem. Veja-se o caso Sócrates; nós os que defendemos convictamente a sua inocência o que já fizemos para o defender por via da acção prática?
    Costa aprendeu a lição e, inteligente como é, sabe que a coragem em política é a que serve para vencer os pulhas como forma de manter os meios de poder úteis para melhorar a vida das pessoas e não a que faz mártires.

  6. Valeu, para ver o ar de sofrimento do Pilatos de Belém, em determinados
    momentos até parecia um peixe fora da àgua … e, o tema era o Mar, foi mui-
    to pior do que engolir uns sapos vivos!!!

  7. José Neves

    É certo que tens muita razão no que dizes.
    Mas o problema é que por vezes fica difícil distinguir entre essa “coragem prática” e a submissão oportunista.
    Para total esclarecimento é preciso tempo … o tempo dirá o que António Costa realmente é e o que realmente anda por aí a fazer.

  8. A maior surpresa de António Costa, sentiu-a o PS

    O PS ainda está boquiaberto.

    Cuidado com o queixo

  9. Eheheh
    Se o cobarde for um cobarde nosso amigo é um tadinho. Se for do CM, da direita, etc…é um cobarde, mas cobarde daqueles a sério. Costa é assim um cobarde desqualificado que nem cobarde a sério consegue ser. Pior, só mesmo um gajo com coragem. É isto não é?

    Bem apanhado Val.
    Costa poderia bem iniciar o seu ciclo com esses institucionalismos todos com Marcello. Novo PR nova AR, novo ciclo. Englobar Cavaco foi Mau e imerecido, por quem mais infringiu o q ele pretende preservar. Como se a Cavaco, isso o ofendesse o mínimo q fosse ( não q Costa pense isto, são so os tiffosi), como sempre o que o ofende e aquilo que o fez julgar q ofendia os outros.

  10. Costa foi também genial ao aproveitar a candidatura de Maria de Belém para evitar a tempo o apoio à candidatura de Sampaio da Nóvoa: caso este tivesse ganho, Costa teria agora o BE na Presidência. Em vez disso tem um presidente de afectos. Genial!

    Costa é ainda genial na forma como governa: reverteu o essencial da austeridade de Passos (pelo menos no plano mediático), acrescentou algumas medidas de impacto mediático para agradar a PCP, BE e PAN (IVA nos copos vaginais a 6%!!!), cobra impostos aos camionistas (gasóleo) para dar rendimentos aos restaurantes (IVA), mas deixou essencialmente tudo na mesma: os Tratados são para cumprir, não se pode falar em renegociar a dívida. De resto é ir gerindo o dia-a-dia, responder a uma reivindicação aqui (agricultura), abrir uma linha de crédito acolá (cheias no Algarve), …
    A austeridade acabou e o PS sobe nas sondagens (já nem precisava do PCP, o próximo é o BE, rumo à maioria absoluta). Costa é genial!!

  11. Este anónimo está a dizer que Costa passou tudo a ferro.
    Só já faltam os Açores e a Madeira, os únicos calados por enquanto.

  12. “Este anónimo está a dizer que Costa passou tudo a ferro.”
    O que eu estou a dizer é que concordo com o essencial da análise de valupi (“Desta mistura resulta uma sólida inteligência de estadista, … como jogada brilhante em vários planos, e uma substituição da paixão política e ideológica por um pragmatismo cínico”) mas acrescento outros exemplos de que me só apercebi à posteriori.

    Neste momento estou convencido de que Costa é o homem certo no local e no momento certo para manter o essencial, mudando o acessório (mediático). Costa meteu todos (PSD, CDS, PCP, BE; de Assis a Pedro Nuno Santos) no bolso e caminha a passos largos para a maioria absoluta que PCP e BE não tardarão a proporcionar-lhe. Para um político que parecia estar acabado no dia das eleições, é obra. Genial!

    Costa surpreendeu-me, confesso.

  13. http://expresso.sapo.pt/economia/2016-03-15-Paulo-Macedo-e-opcao-para-a-presidencia-da-Caixa

    PROCURA-SE

    Cargo: Presidente da CGD

    Requisitos;

    – Ser do PSD (obrigatorio)
    – Ter experiência anterior em funções de estado exercendo plano de cortes na Administração Pública pondo em perigo a saude do pipol. (Obrigatório)
    – Ter relações priveligiadas com os media, nomeadamente na àrea economica (obrigatório)
    – Para facilidade de comunicação só se aceitam candidatos cujo 1º nome comece pela letra P, e o último apelido pela letra M (obrigatório)

    Oferecemos;
    – Excelente ordenado
    – Bons planos de saúde e reforma exclusivamente privados.
    – Férias em Cabo Verde
    – Um PM Manso e ao dispôr.
    – Medalha no fim do mandato oferecida pelo Exmº PR.

    A candidatura deve ser endereçada para o email costamanso@gmail.com , não é necessário o envio de carta de apresentação. Eheheh…. hum…cof..cof

  14. A salvação do orçamento de António Costa está nas mãos de Centeno e de Caldeira Cabral, vão abastecer viaturas para as bombas da GALP.

    Fácil! limpinho, limpinho!

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