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Wishful thinking

Jardim perdeu votos, é verdade, mas atingiu o seu objectivo de vencer com maioria absoluta. E atingiu-o em condições que nunca tinham sido tão adversas como as que agora se verificaram. Apesar disso, muitos dizem que com o emagrecimento da maioria perdeu margem de manobra, e que foi Passos Coelho quem saiu vitorioso. Que nada será igual, que acabou um ciclo e a arrogância exibida durante mais de trinta anos. Até parece que não conhecem o Alberto João.
Claro que terá de negociar medidas difíceis, mas o Governo de Passos pode esperar sentado por um Alberto João mais humilde. Não acompanharam a campanha eleitoral? Apesar de tudo o que veio a público, vislumbraram algum sinal de mudança no seu discurso? Parece-me que a notícia da ocultação das contas era motivo mais do que suficiente para uma mudança de postura, e tal esteve longe de se verificar.
No discurso de vitória avisou que governará sozinho, sem necessidade de coligações, e é só isso que lhe interessa. Portas pode festejar à vontade, ladeado pelos seus ministros, o que, aliás, me pareceu um recado mais dirigido ao PSD nacional do que ao regional, que é para o lado que Jardim dorme melhor.
Cavaco também não teve uma votação muito famosa, mudou alguma coisa?

Acabou o tempo das ilusões?

Quando Cavaco disse que ‘acabou o tempo das ilusões’, muitos interpretaram a frase como mais uma crítica ao Governo de Sócrates. Mas tempo de ilusões assenta que nem uma luva na campanha eleitoral do PSD. Assim de repente, não estou a ver tempos mais ilusórios. O PSD criou a ilusão, na qual muitos acreditaram, de que bastaria substituir Sócrates por Passos para a credibilidade perdida do País ser reconquistada. Destacados membros do partido iludiam ao afirmarem que mal o PSD chegasse ao poder os mercados tornar-se-iam dóceis, os juros dariam um trambolhão, enfim, a crise, que então era só nossa, ficaria resolvida em três penadas. O próprio Cavaco, durante a campanha das Presidenciais, criou a ilusão da descida das taxas de juro com a sua reeleição. Ao contrário do PS, o PSD tinha tudo estudadinho, centenas de pessoas competentíssimas trabalhavam dia e noite para que Passos pudesse prometer como prometeu que, para além de pôr as contas em dia, iria pôr a economia a crescer, pois, para este mago da Economia, sem crescimento não fazia sentido a austeridade.

Claro que com a vitória nas eleições acabou o tempo daquelas ilusões, mas a direita não perdeu tempo e já trabalha afincadamente na criação de outras. Por exemplo, ontem, na Quadratura do Círculo, Lobo Xavier garantiu que, afinal, nos próximos tempos será impossível pôr a economia a crescer. Chegou a dizer que o PS devia ter na cabeça uma coisa mágica quando falava em crescimento. Criando assim a ilusão de que o actual Governo nunca poderia ter prometido tal coisa. E o Pacheco percebeu, finalmente, que a crise é internacional, e é tão grave que prevê que se prolongue por vários anos. Criando outra ilusão, a de que se o nosso pobre Governo falhar não será por culpa própria mas do que se vier passar no exterior. Quem diria.

Nem as ilusões são um exclusivo de Sócrates, pelo contrário, a direita poderia dar-lhe lições, nem o seu tempo acabou.

As manifestações já não são o que eram

É impressão minha ou a manifestação de ontem ficou um bocadinho aquém das expectativas? É verdade que 130 mil pessoas é muita gente, mas depois das mega manifestações de 200 e 300 mil pessoas contra os governos de Sócrates, como é que a CGTP explica que agora tenham comparecido apenas metade, ou um terço, dos manifestantes? E o Jerónimo e o Louçã têm alguma explicação para não terem respondido aos seus apelos 500 mil, no mínimo? Então não era na rua que se iria ver a força dos seus magníficos partidos? Virou-se o feitiço contra o feiticeiro. Tanto apregoaram que a causa de todos os males do País era o Governo socialista, e tanto se empenharam para o derrubar ajudando assim a direita a chegar ao poder, que, apesar da actual situação do País e de todas as medidas de austeridade, as pessoas se convenceram mesmo que o actual Governo de direita é o ideal para resolver os seus problemas. Ou isso ou são cada vez menos os que têm paciência para os discursos gastos e para a hipocrisia dos eternos dirigentes desta esquerda bafienta.

Velhas Oportunidades

Passos Coelho prometeu reformular o programa Novas Oportunidades, o tal que só servia para certificar a ignorância e que era desenvolvido de forma escandalosa. O PSD nunca reconheceu qualquer mérito a este programa de formação e valorização dos portugueses incluindo muitos desempregados. Percebe-se agora porquê e adivinha-se o sentido da tal reformulação. A formação deve ser prestada pelas empresas e não pelo Estado. Desenterra-se assim o velho método que fez furor no tempo de Cavaco primeiro-ministro, e que em matéria de desperdício de fundos foi o maior escândalo a que assistimos nas últimas décadas.
O programa de formação que o Governo anunciou esta semana terá a duração de seis meses. Será que é tempo suficiente para os formandos receberem uma certificação válida, ao contrário do que sucedia com as Novas Oportunidades, cuja certificação não servia para nada?
Se a opção do Governo é financiar a criação de emprego, está no seu direito, mas não venham com a conversa da formação dada pelas empresas. Há um limite para os atestados de ignorância que nos passam.

Afinal, de que se queixam os professores?

Talvez esteja explicada a fraca adesão dos professores à manifestação da última sexta-feira. O dia não era grande coisa para andar na rua, chegou mesmo a estar prevista para esse dia a queda, em parte incerta, de um satélite da NASA. Mesmo assim, estranhei o facto de tão poucos terem respondido ao chamamento, outrora irresistível, de Mário Nogueira. Afinal, há uma justificação, parece que não se têm sentido muito bem. Coitadinhos.

Um encontro para a fotografia

Passos Coelho aproveitou a viagem a Nova Iorque para fazer a visita da praxe à comunidade portuguesa ali residente. Provavelmente, convencidos de que o actual Governo tem um rumo definido para o País, os nossos conterrâneos pediram-lhe umas palavras de encorajamento para os que desejam investir em Portugal. Vá lá saber-se porquê, a reportagem da RTP cortou a resposta que lhes deu, destacou foi a sessão de fotografias que Passos se dispôs a tirar com quase todos os presentes. Foi pena, pois com a necessidade absoluta de atrair investimento, esta era uma oportunidade para ficarmos a conhecer o que pretende este Governo para o País. Para além das inevitáveis medidas de austeridade, em que sectores da economia pretende investir. Se é que pretende investir nalguma coisa.
A comparação com o Governo anterior é inevitável. Com Sócrates, podia-se concordar ou não, mas ninguém tinha dúvidas quanto às opções que fez, isto apesar da grave crise internacional que teve de enfrentar. Para Passos, aparentemente, desde que invistam, tanto lhe faz que se dediquem a cavar batatas como à apanha do mexilhão, depois logo se vê se são os investimentos que mais interessam ao País. Voltámos à estaca zero. Nem se dá continuidade aos investimentos do Governo anterior, que apesar dos excelentes resultados obtidos, obviamente, não prestam, nem se apresentam alternativas. Abençoado acordo com a Troika que vai disfarçando (mal) o total vazio de ideias.

TGV Lisboa – Atenas

Uma das promessas mais sonantes de Passos Coelho durante a campanha foi a da suspensão do projecto do TGV. Não havia dinheiro para grandes obras e o projecto era para esquecer, rasgava-se e não se falava mais nisso. Foi nisto que votaram muitos dos eleitores que lhe deram a vitória nas eleições. Mas, chegado ao poder, já não é bem assim, descobriu com grande espanto que há compromissos assumidos e, em vez do silêncio esperado, todos os dias temos novidades acerca do assunto. A obra, maior ou mais pequena, afinal, é mesmo para avançar. Com algumas diferenças, é certo, as mercadorias são agora a grande prioridade. É que já temos turistas mais do que suficientes, e a última coisa que este Governo quer é que nos entrem mais pelo País adentro ainda por cima em alta velocidade. Corria-se o risco de dinamizar o sector do Turismo e isso não pode ser. Como o Governo está cheio de ideias para impulsionar o crescimento da economia, o Turismo pode muito bem continuar a crescer devagarinho ou parado.
Mas para que não se pense que Passos tem aversão à alta velocidade, e que não tem visão de futuro, foi vê-lo, na última entrevista, a ligar-nos à Grécia a uma velocidade verdadeiramente estonteante. Curiosamente, sem mostrar quaisquer preocupações com os custos que tal ligação acarreta. Se calhar, o problema estava no destino. Linha de alta velocidade sim, mas directa a Atenas.