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Passos a ver-se grego

Passos Coelho poderia ter sugerido a emigração a qualquer outra classe profissional, o que não falta são desempregados em todas as áreas. Até poderia ter sugerido a emigração a todos os desempregados por atacado, mas não, escolheu os professores. Não me parece uma escolha inocente. Os professores estiveram sempre na linha da frente da contestação aos governos de Sócrates. Não houve medida anunciada que não tivesse sido acompanhada de protestos, ameaças de greve e manifestações. A gritaria foi constante, até o tom de voz da ministra Maria de Lurdes Rodrigues era visto como uma provocação à classe. E, claro, se não protestaram mais foi por, naquele tempo, existir nas escolas ‘um clima de medo’.

Depois da mesma sugestão feita recentemente pelo Secretário de Estado da Juventude aos jovens desempregados, e da reacção que tal sugestão suscitou, Passos sabia perfeitamente que as suas palavras não passariam despercebidas. Então qual o objectivo da provocação aos professores? Provar que tem a classe profissional que ajudou a derrubar o Governo anterior na mão? Ou, pelo contrário, a ideia foi exactamente provocar mais contestação, dar um empurrãozinho à ‘situação explosiva’? Agora que começa a não fazer sentido a velha e gasta desculpa das governações anteriores, se calhar, dava jeito ao Governo poder desculpar-se do fracasso das suas políticas com a irresponsabilidade dos portugueses. Mas parece que a coisa não pegou, o primeiro-ministro terá de escolher outro alvo, os professores já não ligam a provocações.

Suspenda-se a oposição

Durante a última campanha eleitoral, Ferreira Leite, uma senhora que nunca mente, e que já nos tinha revelado o desejo de suspender a democracia, confessou-nos uma grande preocupação: não ficava nada descansada com Sócrates sentado na bancada da oposição. Pelo que vimos nos últimos dias, não era a única com essa preocupação, mas o problema da direita não é só com Sócrates. No fundo, é toda a oposição que os atrapalha. Este Governo, aparentemente, não reconhece legitimidade a ninguém para o criticar. Com o BE e com o PCP não têm de se preocupar. Logo agora que terminou a asfixia democrática, imposta pelo maléfico Sócrates, estes partidos quase desapareceram da nossa vista. A mesma comunicação social que todos os dias concedia tempo de antena aos seus líderes, neste momento, praticamente, só lhes dá voz em dias de greve ou manifestação. Quanto ao PS, é constantemente lembrado do seu passado e acusado de ser o único partido responsável pela situação em que o País se encontra. Quer seja no Parlamento, em debates televisivos, entrevistas, blogues, seja onde for, se alguém critica o actual Governo, à falta de outro argumento, é imediatamente lembrado do passado dos governos socialistas, sobretudo dos governos de Sócrates. Ora, Sócrates governou durante seis anos (não foram sessenta), antes tínhamos tido um Governo PSD/CDS que durou três longos anos (não foram três dias). Este Governo, liderado por Barroso, Portas e Santana, foi uma autêntica anedota de mau gosto. É este o passado recente dos partidos desta gente competentíssima que agora nos governa. E a anedota continuou quando passaram para a oposição, mas não foi por isso que deixaram de ser respeitados enquanto oposição durante os governos socialistas que se seguiram. Ninguém lhes esfregou na cara a toda a hora o triste passado.
Embora não me pareça que esteja para breve, até podem sair dos partidos da direita excelentes governantes, mas têm de o provar, não podem invocar a competência de governações passadas. Portanto, deixem lá o passado dos outros em paz.

Sem Sócrates seria tudo um mar de rosas

O Governo ficou muito satisfeito com as alterações ao OE que foram apresentadas e aprovadas ontem. Segundo os próprios, prova que esta maioria tem o dom do diálogo, que sabe ouvir e decidir. Mas em lado nenhum se falou de terem chegado a um entendimento ou a acordo com o maior partido da oposição. Nem sabemos se o recuo do Governo resultou efectivamente de negociações com o PS, já que Passos e Seguro passaram os últimos dias a contradizerem-se em relação à existência das mesmas. E é isso mesmo que não se percebe. Então, PSD e CDS, não diziam que bastava Sócrates ser corrido para que o tão desejado entendimento entre os maiores partidos ocorresse sem quaisquer problemas? Passos e Portas, de forma inqualificável, chegaram mesmo ao ponto de pedir a sua saída da liderança do partido. Mas, afinal, com Sócrates, o arrogante com quem era impossível dialogar, fora de cena, o que o PS recebe em troca é desprezo. É assim que a maioria tem recebido as propostas apresentadas pelo maior partido da oposição, o tal com quem o acordo era imprescindível, no dizer de tantos. E nem o facto de o PS ter optado pela abstenção na votação do Orçamento contribuiu para ter direito a um tratamento diferente nos debates que se seguiram.

Não espanta que PSD e CDS quisessem afastar Sócrates, espanta é a ingenuidade dos que acreditaram que sem ele a atitude dos dirigentes daqueles partidos seria diferente. É que para que haja debate e discussão de ideias entre partidos, em primeiro lugar, é preciso tê-las.

Esperteza saloia

Imagine-se o que aconteceria se no Governo anterior viesse um secretário de Estado anunciar uma medida para de seguida ser categoricamente desmentido por um ministro. Foi o que aconteceu com o anúncio, e posterior negação, da revisão das tabelas salariais da função pública. Mas não é a primeira vez, a coisa parece estar a tornar-se um hábito neste Governo. Há dias foi o ministro da Economia a desdizer-se a ele próprio quando veio dizer que o encerramento do metro às 23h00, afinal, não fazia sentido. Se acontecessem semelhantes trapalhadas no Governo de Sócrates as acusações de desnorte, incompetência, etc. seriam imediatas. A oposição exigiria explicações e muito provavelmente não faltariam pedidos de demissão dos governantes. Já para não dizer que Sócrates seria acusado de manipular e de usar a comunicação social, coitadinha, para nos enganar. Agora parece normal o Governo dizer uma coisa num dia e desdizê-la com toda a calma no seguinte. Somos tratados pelo Governo e comunicação social como se tivéssemos todos cinco anos e ninguém reclama. Não admira que o Governo seja tão elogiado pelos senhores da Troika, que, aliás, parecem ter entrado também neste divertido jogo ao sugerirem os cortes nos vencimentos do sector privado para de seguida o Governo os desmentir. São uns génios estes nossos governantes.

Na Madeira há almofadas

Conhecidos os resultados das eleições na Madeira, e dadas as circunstâncias, houve quem pensasse que a partir dali tudo seria diferente, que se estava perante o fim de um ciclo, que o Alberto João iria finalmente baixar a bolinha (como se isso fosse possível), que provavelmente nem terminaria o mandato. Obviamente, estavam enganados. Após um período de descanso, Alberto João tira as dúvidas a todos, informa que vai manter-se no cargo até ao fim do mandato e que a austeridade na Madeira não será diferente da do resto do País. Mas para que não restem quaisquer dúvidas acerca de quem manda na Madeira ainda se dá ao luxo de dar tolerância de ponto aos funcionários públicos para que possam assistir à sua tomada de posse. Ele bem avisou, durante a campanha, que tudo correria melhor aos madeirenses com um Governo PSD no continente. Como provocação não está mal. Só falta, no discurso de tomada de posse, perguntar ao Governo, ao ministro Álvaro, por exemplo, que gosta tanto de pontes e feriados, se já sabe quanto custará ao País a cerimónia que terá lugar hoje às cinco da tarde.

Para quando Passos a deslocar-se num carro eléctrico?

Custa a acreditar, mas parece que o Governo aproveitou a cimeira no Paraguai para vender computadores Magalhães. Mas ao contrário de Sócrates, que implementou o programa e-escolinha e que acreditava nos seus benefícios, Passos suspendeu-o. A direita nunca lhe reconheceu qualquer mérito, muito pelo contrário. Portanto, que raio de argumentos terão usado para os venderem aos mexicanos? Não são bons para nós, mas são bons para os outros? E a empresa que os produz e exporta, e que era acusada de todo o tipo de trafulhices envolvendo o anterior Governo, já merece ser promovida nas cimeiras em que o actual Governo participa? Perguntas que ficam sem resposta porque a comunicação social, vá lá saber-se porquê, deixou de se interessar pelo assunto. Tal como não está muito interessada em dar-nos notícias sobre a visita de três dias de Paulo Portas à Venezuela. Será que houve eleições neste País e nós não soubemos de nada? Não era este País que era governado por um ditador com quem as pessoas sérias da direita jamais fariam qualquer tipo de negócio?

Deixem as pessoas empobrecer em paz

Todos os dias lemos notícias sobre os problemas que os bancos enfrentam, sobre a dificuldade de se financiarem, a impossibilidade de concederem crédito às famílias e às empresas, a necessidade de se recapitalizarem. Por isso, notícias como esta fazem alguma confusão. Então, os bancos estão assim tão mal e andam a oferecer taxas de juro altíssimas pelos depósitos, ao ponto de terem de levar um valente puxão de orelhas do Banco de Portugal?
Além disso, parece que os banqueiros não têm prestado atenção ao que diz o primeiro-ministro e ainda não perceberam que o objectivo do Governo é o empobrecimento dos portugueses. De todos os portugueses. Ora, com as taxas de juro que oferecem torna-se muito difícil cumprir essa meta. Já para não dizer que assim é muito provável que uma parte da população continue a viver acima das possibilidades…

Estalou o verniz

Ultimamente, eram cada vez mais os que acusavam Cavaco de ter uma agenda partidária, de dizer uma coisa antes e outra depois da eleição de Passos Coelho, o que é verdade. Com as declarações de ontem, Cavaco pôs fim a essas acusações. Agora o que ouvimos é que Cavaco ‘puxou o tapete ao Governo’, que ‘lhe espetou uma faca nas costas’, que ‘o Governo ficou fragilizado’, etc. Tão cedo ninguém acusará o PR de fazer fretes ao Governo e parece-me que foi esse o seu principal objectivo. Para além de querer demarcar-se do desastre que se avizinha, claro.
Mas, entretanto, reacenderam-se alguns dos velhos ódios no interior do PSD, e muitos dos que deliravam com as críticas de Cavaco ao Governo de Sócrates não gostaram do que ouviram e sem perder tempo passaram ao ataque. É bom lembrar que, para além da óbvia incompetência, esses ódios internos foram responsáveis pelo facto de o PSD em quinze anos ter governado apenas durante três. O Santana Lopes que o diga, pois ainda não deve ter esquecido os pontapés que levou dos irmãozinhos.
A verdade é que aquela que parecia ser a grande vantagem deste Governo, o apoio dos partidos da maioria, do PR e do PS, em escassos meses esfumou-se e, aparentemente, neste momento o Governo tem apenas o apoio de uma parte do PSD, já que até o Portas… o que é feito do Portas?

Palavras malditas

Modernização, inovação, ciência, tecnologia, são alguns exemplos de palavras que, desde que este Governo tomou posse, não podem ser proferidas, seja em que situação for. Estão contaminadas com o vírus socrático, se algum dos actuais governantes as pronunciar corre o risco de se engasgar e cair redondo no chão. O Governo não quer cá nada disso, não está minimamente interessado em passar a imagem de um país moderno, que investe em ciência e que, por exemplo, compete com os melhores na exportação de tecnologia. Não senhor, o que este Governo quer é que volte tudo ao normal, um país pequenino, pobrezinho, atrasadinho, que a única coisa que tem para oferecer a quem queira cá investir é mão-de-obra desqualificada e cada vez mais barata.
Nem percebo os que se queixam da falta de medidas para dinamizar a economia e promover o crescimento, ainda não perceberam que a estratégia do Governo é não fazer nada, é simplesmente esperar que o tempo apague da memória de todos, e se possível para sempre, estas palavras.
Depois, sim, aparecerão os bons negócios.

Maus alunos

Os que agora responsabilizam o anterior Governo pela actual situação económica do País, o que teriam feito em 2008 e 2009 para fazer face à crise internacional? Nada.
Nessa altura, tempos de pânico, convém lembrar, em que se temia o pior para a economia mundial, de tal forma que as instituições europeias autorizaram e incentivaram os Estados membros, incluindo Portugal, a adoptarem medidas para reduzir os efeitos da crise, e consequentemente a aumentarem os respectivos défices, se PSD e CDS estivessem no Governo teriam mandado os senhores dar uma volta. Por cá, ao contrário do que sucedeu nos outros países, contra tudo e contra todos, não se teriam adoptado quaisquer medidas de apoio às empresas e às famílias. Previdentes como são e adivinhando o que ainda ninguém adivinhava para 2010, teriam dado logo início aos planos de austeridade. Remando contra a maré, e orgulhosamente sós, teriam cortado nos salários, reduzido as prestações sociais, aumentado os impostos, os transportes e por aí fora. Apesar de fazerem sempre questão de ser os bons alunos da Europa, nessa altura, teriam mandado os professores à fava e as medidas de combate à crise às urtigas. Provavelmente, entre outras coisas, até lhes chamariam criminosos.
E, claro, o BPN teria falido, o Alberto João teria sido impedido de gastar à maluca e até os submarinos seriam devolvidos à procedência.
É isto, não é?

Venham de lá esses palpites

O conselheiro de Estado Vítor Bento não quer treinadores de bancada a dar palpites sobre as medidas do Orçamento de Estado para 2012. Curioso, até há pouco tempo não o incomodavam os palpites, nem os dele, em inúmeras entrevistas, nem os dos outros. Agora ‘não têm utilidade’ e ‘dificultam a execução do que tem se ser feito’.
Também não percebi a quem chama treinadores de bancada, se aos seus colegas economistas, se aos restantes mortais. E a verdade é que cada vez é mais difícil distingui-los. Por um lado, a credibilidade dos economistas já conheceu melhores dias, basta olhar para as suas previsões e ver a realidade que teima em mostrar que não passam de verdadeiros palpites com tanta probabilidade de estarem certas como as de um qualquer bruxo. Por outro, os portugueses, que fugiam da matemática como o Diabo da cruz e que viam nos números verdadeiros bichos-de-sete-cabeças, ultrapassaram os medos e tratam agora as questões económicas por tu. E se os seus palpites falharem, enfim, isso só os aproxima dos especialistas na matéria. Um feito extraordinário que prova que nem tudo é mau nesta crise, embora ainda haja assuntos sobre os quais, estranhamente, ninguém quer dar palpites e que passam ao lado de todos os treinadores de bancada. Por exemplo, a falência e consequente nacionalização do banco Dexia. Por onde andam os que tanto criticaram Sócrates por causa da nacionalização do BPN? Então, agora, já são normais as nacionalizações de bancos falidos? É problema dos belgas e dos franceses, não temos nada a ver com isso. E os testes de stress, invenção de brilhantes economistas, que garantiam, em Julho, que o Dexia gozava de excelente saúde, e que também serviram para testar a banca nacional, não merecem uns palpites?

Wishful thinking

Jardim perdeu votos, é verdade, mas atingiu o seu objectivo de vencer com maioria absoluta. E atingiu-o em condições que nunca tinham sido tão adversas como as que agora se verificaram. Apesar disso, muitos dizem que com o emagrecimento da maioria perdeu margem de manobra, e que foi Passos Coelho quem saiu vitorioso. Que nada será igual, que acabou um ciclo e a arrogância exibida durante mais de trinta anos. Até parece que não conhecem o Alberto João.
Claro que terá de negociar medidas difíceis, mas o Governo de Passos pode esperar sentado por um Alberto João mais humilde. Não acompanharam a campanha eleitoral? Apesar de tudo o que veio a público, vislumbraram algum sinal de mudança no seu discurso? Parece-me que a notícia da ocultação das contas era motivo mais do que suficiente para uma mudança de postura, e tal esteve longe de se verificar.
No discurso de vitória avisou que governará sozinho, sem necessidade de coligações, e é só isso que lhe interessa. Portas pode festejar à vontade, ladeado pelos seus ministros, o que, aliás, me pareceu um recado mais dirigido ao PSD nacional do que ao regional, que é para o lado que Jardim dorme melhor.
Cavaco também não teve uma votação muito famosa, mudou alguma coisa?

Acabou o tempo das ilusões?

Quando Cavaco disse que ‘acabou o tempo das ilusões’, muitos interpretaram a frase como mais uma crítica ao Governo de Sócrates. Mas tempo de ilusões assenta que nem uma luva na campanha eleitoral do PSD. Assim de repente, não estou a ver tempos mais ilusórios. O PSD criou a ilusão, na qual muitos acreditaram, de que bastaria substituir Sócrates por Passos para a credibilidade perdida do País ser reconquistada. Destacados membros do partido iludiam ao afirmarem que mal o PSD chegasse ao poder os mercados tornar-se-iam dóceis, os juros dariam um trambolhão, enfim, a crise, que então era só nossa, ficaria resolvida em três penadas. O próprio Cavaco, durante a campanha das Presidenciais, criou a ilusão da descida das taxas de juro com a sua reeleição. Ao contrário do PS, o PSD tinha tudo estudadinho, centenas de pessoas competentíssimas trabalhavam dia e noite para que Passos pudesse prometer como prometeu que, para além de pôr as contas em dia, iria pôr a economia a crescer, pois, para este mago da Economia, sem crescimento não fazia sentido a austeridade.

Claro que com a vitória nas eleições acabou o tempo daquelas ilusões, mas a direita não perdeu tempo e já trabalha afincadamente na criação de outras. Por exemplo, ontem, na Quadratura do Círculo, Lobo Xavier garantiu que, afinal, nos próximos tempos será impossível pôr a economia a crescer. Chegou a dizer que o PS devia ter na cabeça uma coisa mágica quando falava em crescimento. Criando assim a ilusão de que o actual Governo nunca poderia ter prometido tal coisa. E o Pacheco percebeu, finalmente, que a crise é internacional, e é tão grave que prevê que se prolongue por vários anos. Criando outra ilusão, a de que se o nosso pobre Governo falhar não será por culpa própria mas do que se vier passar no exterior. Quem diria.

Nem as ilusões são um exclusivo de Sócrates, pelo contrário, a direita poderia dar-lhe lições, nem o seu tempo acabou.

As manifestações já não são o que eram

É impressão minha ou a manifestação de ontem ficou um bocadinho aquém das expectativas? É verdade que 130 mil pessoas é muita gente, mas depois das mega manifestações de 200 e 300 mil pessoas contra os governos de Sócrates, como é que a CGTP explica que agora tenham comparecido apenas metade, ou um terço, dos manifestantes? E o Jerónimo e o Louçã têm alguma explicação para não terem respondido aos seus apelos 500 mil, no mínimo? Então não era na rua que se iria ver a força dos seus magníficos partidos? Virou-se o feitiço contra o feiticeiro. Tanto apregoaram que a causa de todos os males do País era o Governo socialista, e tanto se empenharam para o derrubar ajudando assim a direita a chegar ao poder, que, apesar da actual situação do País e de todas as medidas de austeridade, as pessoas se convenceram mesmo que o actual Governo de direita é o ideal para resolver os seus problemas. Ou isso ou são cada vez menos os que têm paciência para os discursos gastos e para a hipocrisia dos eternos dirigentes desta esquerda bafienta.

Velhas Oportunidades

Passos Coelho prometeu reformular o programa Novas Oportunidades, o tal que só servia para certificar a ignorância e que era desenvolvido de forma escandalosa. O PSD nunca reconheceu qualquer mérito a este programa de formação e valorização dos portugueses incluindo muitos desempregados. Percebe-se agora porquê e adivinha-se o sentido da tal reformulação. A formação deve ser prestada pelas empresas e não pelo Estado. Desenterra-se assim o velho método que fez furor no tempo de Cavaco primeiro-ministro, e que em matéria de desperdício de fundos foi o maior escândalo a que assistimos nas últimas décadas.
O programa de formação que o Governo anunciou esta semana terá a duração de seis meses. Será que é tempo suficiente para os formandos receberem uma certificação válida, ao contrário do que sucedia com as Novas Oportunidades, cuja certificação não servia para nada?
Se a opção do Governo é financiar a criação de emprego, está no seu direito, mas não venham com a conversa da formação dada pelas empresas. Há um limite para os atestados de ignorância que nos passam.

Afinal, de que se queixam os professores?

Talvez esteja explicada a fraca adesão dos professores à manifestação da última sexta-feira. O dia não era grande coisa para andar na rua, chegou mesmo a estar prevista para esse dia a queda, em parte incerta, de um satélite da NASA. Mesmo assim, estranhei o facto de tão poucos terem respondido ao chamamento, outrora irresistível, de Mário Nogueira. Afinal, há uma justificação, parece que não se têm sentido muito bem. Coitadinhos.

Um encontro para a fotografia

Passos Coelho aproveitou a viagem a Nova Iorque para fazer a visita da praxe à comunidade portuguesa ali residente. Provavelmente, convencidos de que o actual Governo tem um rumo definido para o País, os nossos conterrâneos pediram-lhe umas palavras de encorajamento para os que desejam investir em Portugal. Vá lá saber-se porquê, a reportagem da RTP cortou a resposta que lhes deu, destacou foi a sessão de fotografias que Passos se dispôs a tirar com quase todos os presentes. Foi pena, pois com a necessidade absoluta de atrair investimento, esta era uma oportunidade para ficarmos a conhecer o que pretende este Governo para o País. Para além das inevitáveis medidas de austeridade, em que sectores da economia pretende investir. Se é que pretende investir nalguma coisa.
A comparação com o Governo anterior é inevitável. Com Sócrates, podia-se concordar ou não, mas ninguém tinha dúvidas quanto às opções que fez, isto apesar da grave crise internacional que teve de enfrentar. Para Passos, aparentemente, desde que invistam, tanto lhe faz que se dediquem a cavar batatas como à apanha do mexilhão, depois logo se vê se são os investimentos que mais interessam ao País. Voltámos à estaca zero. Nem se dá continuidade aos investimentos do Governo anterior, que apesar dos excelentes resultados obtidos, obviamente, não prestam, nem se apresentam alternativas. Abençoado acordo com a Troika que vai disfarçando (mal) o total vazio de ideias.

TGV Lisboa – Atenas

Uma das promessas mais sonantes de Passos Coelho durante a campanha foi a da suspensão do projecto do TGV. Não havia dinheiro para grandes obras e o projecto era para esquecer, rasgava-se e não se falava mais nisso. Foi nisto que votaram muitos dos eleitores que lhe deram a vitória nas eleições. Mas, chegado ao poder, já não é bem assim, descobriu com grande espanto que há compromissos assumidos e, em vez do silêncio esperado, todos os dias temos novidades acerca do assunto. A obra, maior ou mais pequena, afinal, é mesmo para avançar. Com algumas diferenças, é certo, as mercadorias são agora a grande prioridade. É que já temos turistas mais do que suficientes, e a última coisa que este Governo quer é que nos entrem mais pelo País adentro ainda por cima em alta velocidade. Corria-se o risco de dinamizar o sector do Turismo e isso não pode ser. Como o Governo está cheio de ideias para impulsionar o crescimento da economia, o Turismo pode muito bem continuar a crescer devagarinho ou parado.
Mas para que não se pense que Passos tem aversão à alta velocidade, e que não tem visão de futuro, foi vê-lo, na última entrevista, a ligar-nos à Grécia a uma velocidade verdadeiramente estonteante. Curiosamente, sem mostrar quaisquer preocupações com os custos que tal ligação acarreta. Se calhar, o problema estava no destino. Linha de alta velocidade sim, mas directa a Atenas.