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¿Qué miran los poetas portugueses?

«José», de que ignoramos tudo excepto a acuidade dos seus comentários no Aspirina, envia-nos um texto, inicialmente destinado ao seu (temporariamente inacessível) blogue, segunda surpresa nossa. Havíamo-lo convidado a desenvolver certa, e curiosa, visão da blogosfera, e esperamos que venha a fazê-lo. De momento, vai este texto (permitimo-nos um ‘editing’), que abre pela «Balada para los poetas andaluces de hoy», poema de Rafael Alberti, cantado pelos Aguaviva.

Qué miran los poetas?

¿Qué cantan los poetas andaluces de ahora?
¿qué miran los poetas andaluces de ahora?
¿qué sienten los poetas andaluces de ahora?

Cantan con voz de hombre
pero, ¿dónde los hombres?
Con ojos de hombre miran
pero, ¿dónde los hombres?
Con pecho de hombre sienten
pero, ¿dónde los hombres?

Cantan, y cuando cantan parece que están solos
Miran, y cuando miran parece que están solos
Sienten, y cuando sienten parece que están solos.

No suplemento do DN , «6ª», publicado na sexta-feira passada, numa página de recensão de livros, podia ler-se um pequeno texto de apreciação a um livro de Charles Baudelaire, Conselhos aos Jovens Literatos. O texto assinado por JMS ( presumindo-se José Mário Silva), em pouco mais de uma dúzia de linhas, cita o tradutor- Jorge Melícias- para lhe dizer que traduziu «com pouco esmero» e com «alguns erros de palmatória» e refere uma particularidade do texto traduzido que seria «menor e quase juvenil», quando o autor das Flores do Mal andava pelos 25 anos. Depois, centra-se na pessoa do tradutor:

Ao desmascarar o “escritor maldito” que se revela um “burguês usurário e sem escrúpulos, alguém que confunde literatura literatura com licitação, poesia com juros», Melícias pretende apenas atingir, por interposta figura tutelar, a corrente estética da poesia portuguesa contemporânea oposta à sua. Raras vezes li ataque tão insidioso, tão desonesto e tão cobarde.

A seguir a este escrito, o visado Jorge Melícias, não perdeu tempo e no blog Da Literatura, logo no próprio dia, respondeu em letra de forma.

Não conheço o livro em causa, o qual, porém, admito folhear. Não sei quais são as correntes estéticas da poesia portuguesa de modo a poder alvitrar palpites sobre a justeza da crítica e da crítica ao crítico. De resto, nem leio poesia por aí além e este além, não passa daqueles livrinhos de recolha dela, editados por Assírio & Alvim, mas apenas nos momentos em que estou em livrarias. Estou por isso, muito desqualificado para comentar esta trica. Mas trinquei os dois textos o suficiente, para dizer algo de diferente.

Em primeiro lugar, o texto assinado por JMS ficaria num seguro olvido do não lido, não fora o reparo lido a propósito do ataque ad hominem. Em segundo lugar, deu-me para pensar que o universo da literatura em Portugal, escrita ou traduzida em português e particularmente da “poesia”, foi definitivamente apanhada numa onda onde emergem alforrecas e se afogam couves, para o caldo de cultura que está a parecer mais uma sopa de pedra: os últimos condimentos já são demasiado pesados para o estômago frágil do leitor acidental.

Cá por mim, este indivíduo pode ter razão, ao escrever sobre as…amizades na escrita. A qual implica uma outra face que tal como em Janus, a acompanha. As inimizades literárias podem bem descambar em menções pessoalizadas pelo meio restrito em que se movimentam.

Quantas pessoas, em Portugal, sabem que existem duas correntes estéticas (pelo menos), na poesia que se escreve e publica? Talvez as que frequentam as faculdades de letras… Então, pode muito bem perguntar-se: é para esse público que se escreve, publica e critica a poesia? Então, estão muito bem acantonados nos blogs! Deixem-se estar, nesses lugares tranquilos de reserva de caça às palavras escritas!

Porém, apetece repetir o título do postal: Qué miran los poetas… portugueses de ahora?!

JOSÉ

Os fantasmas ausentes

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Não sou um admirador da ficcionista Clara Ferreira Alves e conforta-me saber que o apreço é recíproco. Como este não é um blogue confessional, apresso-me a dizer que existe, de tão amável avaliação por parte da senhora, documentação impressa. Não sou, todavia, dos que fazem vida de apontar os fracos à cronista. Tenho pelo género ‘crónica’ a maior das estimas e considerei o trabalho de CFA assinalável o suficiente (e mais do que isso) para incluí-lo em antologia.

Tudo isto não teria a mínima importância, não fosse o caso de a cronista me ter, agora, desapontado. No Expresso da passada sexta, CFA escreveu sobre «A morte do romance» uma crónica assustadora, onde afirma, a dado momento:

«Dos romancistas franceses, italianos, alemães, americanos, ingleses, russos, austríacos, checos, irlandeses, latino-americanos, que assombraram e iluminaram a adolescência e o princípio da idade adulta de várias gerações, sobram uns quantos nomes, clássicos de clássicos, enunciados com a indiferença do que se ouviu falar e não se conhece ou já não se conhece.»

«Este é o tempo imperial de Dan Brown e de Paulo Coelho»

Não é questão de lembrar que isto é a ordem natural das coisas. Daqui a 30 anos, desses «uns quantos nomes» restarão bem menos ainda. Não é sequer questão de sublinhar que outros fantasmas estrangeiros assombram e iluminam hoje as mentes. Ou que é pelo menos desdenhoso dá-los, a todos, como Paulos Coelhos (no que faço a CFA a fineza de supor que ela não fala do Dan Brown do estimável «Código Da Vinci»).

Não. Do que se trata é de termos de espantar-nos da ausência, entre os numerosos nomes aduzidos, de fantasmas brasileiros na mente de Clara. Para quem carrega fantasmas dessa procedência, é um assombro que alguém não os tenha. E sente a «morte do romance» segundo CFA como uma tese manca. Tão manca que constrange e mete um dó. E que ninguém corra em socorro da cronista, lembrando que ela referiu os «latino-americanos». É que pretender diluir neles os brasileiros ainda faz pior.

E mais importante ainda: cem assombrados por Machado de Assis, ou por Mário de Andrade, ou por Guimarães Rosa, compensam bem as dezenas de milhares de parvos que compram Paulo Coelho. Mas terá Clara alguma noção disso?

Goza com a tua língua

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Lisboa é grande. Mas duvido que haja, nela, mais do que um Helder Guégués. Pois bem, esse mesmo, que talvez você conheça (Lisboa é grande, mas os círculos são pequenos), tem um blogue em que, com paciente regularidade, comenta questões (sobretudo «erros» e «falhas») do nosso idioma. Chama-se Letratura e está aqui. É um prazer, um gozo, uma lição.

Pilhei o título do post de um cartaz galego, erotizante de linguístico. Pilhei a assombrosa foto no blogue de Helder Guégués. «Tudo vos será perdoado».

Há rebuliço na cave

Na caixa de comentários do post PRETO NO BRANCO, há discussão da grossa entre Nuno Ramos de Almeida e o autor do mesmo, Valupi, sobre a actuação do Bloco de Esquerda.

Está o Parlamento em férias, a agora isto!

Como se tal não bastasse, no post LIMPAR A FULIGEM, andam em grande folia Jorge Carvalheira e a nossa querida Dona Ermelinda, «senhora» que aqui vem sobressaltar-nos em outros avatares, masculinos esses.

Quem disse que este blogue era manso, pá?

BLOGOMILHO

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Galiza, Festival de Ortigueira, 2005 (foto Vieiros)

Na Galiza, a blogosfera (e quem cunhou o termo? José Mário Silva? Paulo Querido? quem, quem?) chama-se «bloguesfera». Mas também, e mais garridamente, «blogomillo».

O blogomilho galego (há-de ter-se aqui uma ideia dele) acaba de ver-se reconhecido com um prémio nacional na concreta pessoa de MARTIN PAWLEY, autor de Días Estranhos.

aqui no Aspirina se noticiou um encontro, muito proximamente, de blogueiros galegos e portugueses. Agora citem-se palavras de Pawley, entrevistado no Portal VIEIROS (Caminhos).

Como valora a evolución do blogomillo neste tempo?
«É espectacular. Se alguén nos conta hai tres anos, cando eramos vinte sendo xenerosos os que tiñamos blogs en galego, que hoxe a cifra andaría perto de dúas mil, non o creríamos. O cambio máis importante é que agora non lle tes que explicar aos amigos que é un blog antes de dicirlle que ti tes [tu tens] un.»

E sobre o comportamento blogueiro:

«A xente ás veces confía nunhas estrañas regras de “cordialidade na rede” que non comparto según as cales non hai que afastarse xamais dun comportamento case monxil [monástico] para non ofender a ninguén. Eu levo discutido no blog, e moitísimo, e sobre materias ás veces delicadas, con persoas que hoxe teño por amigos. En Internet, como na vida, dúas persoas poden levarse a matar un día, e ao seguinte son amigos da alma.»

Alentejanidades

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O Valupi lembra-me a minha ascendência berbere. O Filipe Moura lembra-me que sou alentejano. A minha irmã, Maria Antónia Venâncio, que é lisboeta, lembra-me – com esta sua foto – que, se mais razões faltassem para o orgulho meridional, as flores do campo já serviam.

Ao longe, espreita a serra de Alcaria Ruiva. Mais 10 quilómetros, e estamos em Mértola. O centro do mundo, claro.

O Abrupto, a ameaça e a ficção

Às vezes, a gente lê o que quer ler. Sucede sempre aos outros, claro. Mas uma vez tinha que ser a minha. Conduzido por uma informação com certo picante, impedi-me de fazer o óbvio: ir verificar se de facto JPP tinha refeito o texto. Não tinha. Supu-lo cedendo a uma pressão. A ameaça era real, está documentada. Só não sei se foi exercida. Se o foi, saiu frustrada.

Tenho a pedir desculpa ao autor do Abrupto por imaginá-lo cedendo a correcções políticas. E aos leitores deste blogue por não ter feito o trabalho de casa. Quis fazer História. Mas fi-la romanceada. Se não foi simplesmente ficção o que fiz.

O Abrupto cede à correcção política?

Através de um «newsgroup» de galegos e portugueses, sou alertado de que o autor do Abrupto ofendeu a unidade da língua portuguesa. Se o meu revoltado co-foreiro reportou bem, José Pacheco Pereira terá anotado no seu blogue: «À minha volta fala-se brasileiro, língua dos empregados de restaurante em Portugal, produto da globalização».

Vou verificar. É um facto: JPP actualizou o post das 11.54 de ontem. Concretamente, terá eliminado essa passagem e algumas outras, tão inócuas como ela.

No nosso fórum (que, evidentemente, não identifico) lia-se: «No blog de Pacheco Pereira, ao que parece o mais lido de Portugal, é feita uma referência ao português do Brasil, que mais uma vez demonstra a falta de consciência de unidade da língua, vinda da parte de alguém que é claramente um membro da nossa elite e que, por esse motivo, devia ter mais consciência e deve ser mais responsabilidade em relação àquilo que diz. […] Este é mais um exemplo da diferença de atitude das elites castelhanófonas, francófonas e anglófonas, que têm consciência e promovem a unidade das suas línguas enquanto as nossas elites não têm essas consciência e não promovem o conceito de unidade das variedades de português. É caso para repetir pela milionésima vez: com elites assim o nosso país não precisa de inimigos. Contudo o importante é agir, e o sentido desta minha mensagem é o de incitar a que escrevamos para o endereço de email do autor do blog sobre esta questão, chamando-lhe a atenção para que no futuro não repita o erro num blog que, ao que parece, é tão influente» [negrita meu].

A pressão terá, pois, tido efeito. Fico perplexo, e na realidade decepcionado. Claro que o brasileiro nos é uma riqueza e um orgulho, e não posso imaginar que JPP o sinta diferentemente. Mas tudo indica que, cedendo ao clamor da correcção política, ele repudiou uma afirmação lúdica e totalmente inofensiva.

Signor Presidente del Consiglio

Para os meus alunos – eles rondam os 20 anos – o telemóvel existiu sempre. Como para mim o telefone. É isso: o mundo já veio feito assim. E é essa gratificante falta de perspectiva histórica, no dia-a-dia, o que permite imaginar-nos eternos. O que é, de resto, a melhor disposição para vivermos. Imagine-se o que era uma consciência contínua da nossa temporalidade. Não dávamos um passo. Íamo-nos arrastando. Sim, fazer-nos esquecer a morte é uma das espertezas da vida.

Tudo isto por causa das eleições italianas de ontem. Não se vê logo a relação? Exacto. Mas eu explico. O chefe do governo de Itália chama-se «Presidente do Conselho»… de ministros, claro. Também Mussolini tinha o cargo de «Presidente del Consiglio dei Ministri», e ignoro se a designação é anterior ao Regime Fascista.

Nós dizemos «primeiro-ministro». Mas dizemo-lo desde há trinta e pouco anos. Porque, antes, também o nosso chefe de governo se chamava «Presidente do Conselho». Só isso. Nunca se ouviu chamar a Salazar ou a Caetano «Presidente do Conselho de Ministros», mesmo em discurso indirecto, mesmo numa notícia de jornal. Isto era uma das finuras da nossa ditadura. O senhor não era o chefe de um grupo de pessoas, mas um chefe sem mais, um «Presidente». Havia portanto dois presidentes no país. E, na percepção pública, um deles era mais «presidente», e esse não era o da República. Era o outro, o eterno.

Nessa nossa atemporal percepção – eu tinha a idade dos meus alunos hoje – Salazar havia existido sempre. Por isso, o fim do Verão de 1968 foi um tempo tão delicioso. Falava-se do «sucessor», trocavam-se boatos. E isto na rua, lugar inaudito. Era o princípio do fim? Ninguém o sabia. Mas sabia-se que era o fim de qualquer coisa, de alguém. Do Presidente Eterno. Que só o tinha sido dos seus ministros.

«E o que fizemos nós da educação?»

Destaco para aqui o comentário de Jorge Carvalheira ao post «É proibido ensinar. Aprender é vergonha». Trata-se de um texto notável do autor dos magníficos contos O Mensário do Corvo (Quasi, 2002).

Excelentíssimos senhores, alto aí e pára o baile, que tudo o que é demais parece mal! Sobretudo parece mal gastar tanto latim a repetir o que já foi dito mil vezes em vão. Só pode ser um exercício de desobriga de consciência. Está de acordo com a quadra, mas não deixa de ser uma vilania.

Deixem-se por isso de gestos de virgens ofendidas, como se fosse cair o carmo e a trindade, como se a tragédia da educação nacional fosse algo de surpreendente, de inesperado e único. É que a pátria inteira é feita de gestos tais há muitos anos, mas os senhores não querem saber disso, porque todos nós assobiamos para o ar e não queremos ver isso, porque é demasiado mau de ver, e porque nos fizeram assim.

Os senhores são cidadãos dum país que já tinha dignidade e alma, num tempo em que suecos, helvétivos, finlândios e dinamarcos ainda não tinham saltado a cancela do curral da barbárie. No tempo do rei Dinis os portugueses arroteavam terras, afiavam as lanças, construíam castelos e não se queixavam de ser pobres.

Os senhores pertencem a um povo que um dia foi levado para a Índia “ao cheiro desta canela”, ao serviço de interesses que nunca foram os dele, mas que por lá ficou até hoje.

Os senhores viram este povo gastar 500 anos a fazer filhos às pretas debaixo do embondeiro exactamente como os cafres, a merecer o estatuto de cafre da Europa, exactamente como se cafre fosse. Isto enquanto a Europa ia à escola e à oficina, e experimentava, e inventava, e progredia.

Os senhores viram este povo, ao longo de séculos, ser conduzido por elites crapulosas que sempre o cavalgaram com desprezo, e como alimento da barriga só lhe serviram mitos de fumo e nevoeiro. Os senhores viram o que foi feito de tanta riqueza que chegou nas caravelas, e puderam ver já que o mesmo destino tiveram os fundos que vieram da Europa, sem proveito nenhum para o país. Os senhores viram este povo, no séc. XIX, no tristíssimo papel do urso de feira, governado por estrangeiros, comido vivo por ingleses e outros filhos da puta civilizados, tentando apenas e sempre sobreviver à miséria.

Os senhores viram este povo a pagar as facturas da Índia em La Lys, viram-no a pagar as facturas do império na guerra das colónias, viram-no a fugir da fome, a salto, para a Europa, aos milhões, com a alma atulhada de mitos heróicos e putrefactos. Os senhores viram este povo a meter à força na cabeça que o ponto mais alto da pátria era o pico do Ramelau, na parte leste da ilha de Timor.

Os senhores viram este povo um dia fazer em desespero as atrasadas contas com a história e tomar o freio nos dentes. Tão bem tomado ele foi, e tão grande era a culpa histórica, que a clique dos poderosos, dos inteligentes, dos cosmopolitas, fugiu toda para o Brasil e ainda hoje não anda muito à vontade por aí. Tão bem tomado ele foi que o Moreira Baptista se borrou pelas calças abaixo no quartel do Carmo. Os senhores viram este povo voltar a casa, depois de 500 anos de forrobodó, e encontrar a casa em ruínas e a horta por cavar. E viram como, em oportuna manobra de recurso, este povo foi levado a integrar-se na Europa, que era afinal a sua terra, mas onde não teria lugar sem sofrer uma aturada catequese.

Depois disso o que fizeram os senhores, o que fizemos nós todos, o que fez este povo de si mesmo, da vida, da liberdade que tinha? O que fizemos da pouca indústria, o que fizemos das pescas, o que fizemos da agricultura, o que fizemos da justiça, o que fizemos da saúde, o que fizemos do dinheiro alemão, o que fizemos nós da educação?

Pois fizemos o que somos capazes de fazer. Pusemos tudo num pandemónio, levámos a banca à glória, porque desde a Índia (de Ceuta?) havíamos trocado uma boa capa por um mau capelo.

Somos óptimos, individualmente, e a trabalhar sob um capataz alemão. Colectivamente, não sabemos governar-nos, não temos capacidade para gerar uma elite que nos dirija. Somos desorganizados, corruptos, irresponsáveis, infantis, cafres, cafres, cafres. Os espanhóis viram-se livres da gangrena imperial, que também os aniquilou, há 100 anos. Nós apenas ontem. É o tempo que nos falta, para atingir a modernidade.

E o que fizemos nós da educação? Entregámo-la ao “génio” do PPD durante mais de 20 anos consecutivos. Demos-lhe o Deus Pinheiro, e a Manuela Leite, e um tal Couto dos Santos, e outros tantos. Demos-lhe a Weltanschauung do Cavaco, e demos-lhe o Roberto Carneiro, que talvez soubesse o que fazia e por isso mesmo se demitiu. Só nos faltou dar-lhe o saber do Dias Loureiro, porque esse fazia falta na polícia. E a subtileza de catrapilo do Jorge Coelho, atarefado a construir o túnel por baixo da Serra da Estrela.

Agora, 1200 criancinhas por ano vão aos fagotes à professora na sala de aula. E nós queixamo-nos de quê?

JORGE CARVALHEIRA

A despedida que antes de o ser já o era

Na verdade nunca escrevi com a regularidade que esperava no Aspirina. Por isso, acabo por partir sem nunca ter realmente chegado. Na adolescência, quando aparecemos em casa quando nos dá na bolha e saímos quando nos apetece, as nossas mãezinhas costumam dizer, num momento de irritação: «isto aqui não é uma pensão». Por isso, muito obrigado por me abrirem as portas da vossa casa que indecentemente eu tratei como uma pensão. E as minhas desculpas pela falta de assiduidade. Voltarei brevemente à blogosfera, com mais tempo e disponibilidade. Abraços a todos.

Blogues, jornais… e livros

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«O monopólio da “verdade” e da palavra, detido em teoria no passado pelo poder político, pela imprensa tradicional e pelas editoras, já se entendeu que só se impunha ou parecia impor-se por não haver possibilidade de lhe opor uma concorrência séria. Mas hoje há gente a escrever nos blogues com competência e lucidez iguais ou superiores às dos jornalistas», escreve João Camilo no seu blogue Blue Everest, no post «Blogues e jornais: crédito?».

Se desejar ler mais João Camilo (desde há muito, professor universitário na Califórnia), passe pela livraria e peça Retrato Breve de JB, editado pela Fenda. É a reedição de um livro revelador, saído em 1974, triturado pela revolução. Ainda vamos a tempo. Do livro. E da revolução.

É proibido ensinar. Aprender é vergonha.

Há muito tempo que andava à procura de quem o disesse melhor do que eu alguma vez o conseguiria. E encontrei. No Expresso de sábado passado, Guilherme Valente, o editor da Gradiva, citava o francês Laurent Lafforgue, expulso do Haut Conseil de l’Éducation, por ter afirmado coisas como isto:

«Depois de ter começado a interessar-me seriamente pelo estado da educação no nosso país (…), cheguei à conclusão de que o nosso sistema de ensino público está em vias de destruição total. Esta destruição é o resultado de todas as políticas e de todas as reformas conduzidas por todos os governos a partir dos anos 60. Essas políticas foram desejadas, aprovadas conduzidas e impostas portodas as instâncias dirigentes da Educação Nacional, particularmente pelos famosos especialistas da Educação Nacional, os corpos de inspectores (recrutados entre os docentes mais dóceis e submissos aos dogmas oficiais), as direcções das administrações centrais, as direcções e corpos de formadores das IUFM dominados pelos famosos didactas e outros especialistas das ditas ‘ciências da educação’, pela maioria dos especialistas das comissões de programas, em suma, pelo conjunto da nomenclatura da Educação Nacional. Essas políticas foram inspiradas a todo o sistema por uma ideologia que consiste em não conferir valor ao saber e que quer fazer prioritariamente desempenhar à escola não a instrução e a transmissão do conhecimento, mas outros papéis, na crença imposta em teorias pedagógicas delirantes, no desprezo pelas aprendizagens fundamentais, na rejeição do ensino organizado, explícito e progressivo, no desprezo pelos conhecimentos de base ligados à imposta aprendizagem de conteúdos nebulosos e desproporcionados, na doutrina do aluno ‘no centro do sistema’ e que deve ‘construir ele próprio os seus saberes’. Esta ideologia dominou igualmente as instâncias dirigentes dos sindicatos maioritários (…). Toda esta gente não tem hoje outro objectivo que não seja o de alijar a sua responsabilidade e mascarar por todos os meios a realidade do desastre. Confesso não saber se têm agido de boa-fé, ou se, pelo contrário, não terão organizado deliberadamente a destruição da escola. Também não sei quais de entre eles – uma minoria certamente – não participaram nesta loucura colectiva, nem quais, tendo participado, têm hoje consciência das consequências dramáticas dos erros acumulados desde há dezenas de anos e estarão hoje dispostos a partir numa outra direcção. ‘A priori’, tenho a mais extrema desconfiança relativamente a todos os membros da nomenclatura da Educação Nacional».

[ Leia-se, no Expresso, o artigo todo de Guilherme Valente. Nunca as mãos lhe doam. ]

Também em Portugal é bom tom não ensinar («Somos todos alunos», não é?) e é melhor tom não aprender (exige disciplina, essa coisa chatíssima). De todas as desgraças que a correcção política nos trouxe, esta é a mais desgraçada: porque priva as crianças do direito a desenvolverem-se. E o que sobra… é essa prática contentinha do professor que nada exige e nada ensina, porque poderia ser acusado de querer ensinar. Sobram essas pedagogias «delirantes», esses «conteúdos nebulosos», essa «loucura colectiva» dos senhores pedagogos e seus chefes, para quem tudo está sempre muito bem, porque até a sugestão do mais parvo dos néscios é… aproveitável. Isto é uma mentalidade de Esquerda? Receio que sim, e desta Esquerda me envergonho.

Somos poucos os que não temos vergonha de ensinar. Mas, quem sabe, atingiremos alguns que não tenham medo de aprender. Eles são a reserva do futuro.

E então? Foi tão bom para vocês como foi para mim?

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(não quero deixar de agradecer todas as muitas mensagens de apoio que recebi)

Porque é Abril, mês da direita fugir para o Brasil, decidimos lá em casa fechar portas (salvo seja) no dia 8. E enquanto não fechamos, nem fugimos, podem sempre encontrar-me no Frágil (salvo seja). Não sei se a blogosfera acaba ou não, mas deixa de fazer muito sentido continuar no Aspirina.

Vim cá parar em regime de artista convidado porque o Luís Rainha e o José Mário Silva devem ter exagerado no vinho e eu, já se sabe, estou sempre exagerado. Não sei se estão arrependidos. Sei que eu não estou. Sei que me diverti, muito. Sei que escrevi sempre o que quis, como quis, sem dar cavaco (salvo seja, cruzes credo) a ninguém. Sei que as ilustrações do Jorge mereciam melhor companhia que os nossos escritos. Sei que vi o fundo da garrafa ao Nuno e ao Fernando e que gostei (salvo seja). Sei que isto acaba com o Luís a fazer rodriguinhos e o Valupi a fazer graçolas à Deus. Sei que até o Daniel Oliveira me vai fazer falta (salvo seja, mesmo!). Não consegui conhecer a Joana Amaral Dias, mas que se lixe, vou daqui de barriguinha cheia (salvo seja).

Gosto do Aspirina (e não é só por causa dos meus textos) e para continuar a ler os aspirineiros, espero que o projecto continue. Nem que seja só para o João Pedro Henriques não ter razão.

Se os leitores do aspirina tinham a certeza de que a minha direita é decadente, espero que tenham aprendido que a minha direita até gosta bastante desse estatuto.

Deus existe, eu avisei-vos.

Até amanhã, camaradas!

Rodrigo Moita de Deus