«José», de que ignoramos tudo excepto a acuidade dos seus comentários no Aspirina, envia-nos um texto, inicialmente destinado ao seu (temporariamente inacessível) blogue, segunda surpresa nossa. Havíamo-lo convidado a desenvolver certa, e curiosa, visão da blogosfera, e esperamos que venha a fazê-lo. De momento, vai este texto (permitimo-nos um ‘editing’), que abre pela «Balada para los poetas andaluces de hoy», poema de Rafael Alberti, cantado pelos Aguaviva.
Qué miran los poetas?
¿Qué cantan los poetas andaluces de ahora?
¿qué miran los poetas andaluces de ahora?
¿qué sienten los poetas andaluces de ahora?
Cantan con voz de hombre
pero, ¿dónde los hombres?
Con ojos de hombre miran
pero, ¿dónde los hombres?
Con pecho de hombre sienten
pero, ¿dónde los hombres?
Cantan, y cuando cantan parece que están solos
Miran, y cuando miran parece que están solos
Sienten, y cuando sienten parece que están solos.
No suplemento do DN , «6ª», publicado na sexta-feira passada, numa página de recensão de livros, podia ler-se um pequeno texto de apreciação a um livro de Charles Baudelaire, Conselhos aos Jovens Literatos. O texto assinado por JMS ( presumindo-se José Mário Silva), em pouco mais de uma dúzia de linhas, cita o tradutor- Jorge Melícias- para lhe dizer que traduziu «com pouco esmero» e com «alguns erros de palmatória» e refere uma particularidade do texto traduzido que seria «menor e quase juvenil», quando o autor das Flores do Mal andava pelos 25 anos. Depois, centra-se na pessoa do tradutor:
Ao desmascarar o “escritor maldito” que se revela um “burguês usurário e sem escrúpulos, alguém que confunde literatura literatura com licitação, poesia com juros», Melícias pretende apenas atingir, por interposta figura tutelar, a corrente estética da poesia portuguesa contemporânea oposta à sua. Raras vezes li ataque tão insidioso, tão desonesto e tão cobarde.
A seguir a este escrito, o visado Jorge Melícias, não perdeu tempo e no blog Da Literatura, logo no próprio dia, respondeu em letra de forma.
Não conheço o livro em causa, o qual, porém, admito folhear. Não sei quais são as correntes estéticas da poesia portuguesa de modo a poder alvitrar palpites sobre a justeza da crítica e da crítica ao crítico. De resto, nem leio poesia por aí além e este além, não passa daqueles livrinhos de recolha dela, editados por Assírio & Alvim, mas apenas nos momentos em que estou em livrarias. Estou por isso, muito desqualificado para comentar esta trica. Mas trinquei os dois textos o suficiente, para dizer algo de diferente.
Em primeiro lugar, o texto assinado por JMS ficaria num seguro olvido do não lido, não fora o reparo lido a propósito do ataque ad hominem. Em segundo lugar, deu-me para pensar que o universo da literatura em Portugal, escrita ou traduzida em português e particularmente da “poesia”, foi definitivamente apanhada numa onda onde emergem alforrecas e se afogam couves, para o caldo de cultura que está a parecer mais uma sopa de pedra: os últimos condimentos já são demasiado pesados para o estômago frágil do leitor acidental.
Cá por mim, este indivíduo pode ter razão, ao escrever sobre as…amizades na escrita. A qual implica uma outra face que tal como em Janus, a acompanha. As inimizades literárias podem bem descambar em menções pessoalizadas pelo meio restrito em que se movimentam.
Quantas pessoas, em Portugal, sabem que existem duas correntes estéticas (pelo menos), na poesia que se escreve e publica? Talvez as que frequentam as faculdades de letras… Então, pode muito bem perguntar-se: é para esse público que se escreve, publica e critica a poesia? Então, estão muito bem acantonados nos blogs! Deixem-se estar, nesses lugares tranquilos de reserva de caça às palavras escritas!
Porém, apetece repetir o título do postal: Qué miran los poetas… portugueses de ahora?!
JOSÉ








