Blogues, jornais… e livros

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«O monopólio da “verdade” e da palavra, detido em teoria no passado pelo poder político, pela imprensa tradicional e pelas editoras, já se entendeu que só se impunha ou parecia impor-se por não haver possibilidade de lhe opor uma concorrência séria. Mas hoje há gente a escrever nos blogues com competência e lucidez iguais ou superiores às dos jornalistas», escreve João Camilo no seu blogue Blue Everest, no post «Blogues e jornais: crédito?».

Se desejar ler mais João Camilo (desde há muito, professor universitário na Califórnia), passe pela livraria e peça Retrato Breve de JB, editado pela Fenda. É a reedição de um livro revelador, saído em 1974, triturado pela revolução. Ainda vamos a tempo. Do livro. E da revolução.

8 thoughts on “Blogues, jornais… e livros”

  1. É «nobilitação do media» que ainda existe. A propósito, há uns 5 anos, numa universidade portuguesa, um distinto catedrático (digo, catedrático) alertou-me, perante uma citação de O Expresso, que jornais não eram fontes fidedignas. Referi-lhe que, por acaso, a citação era de uma professora universitária citada na bibliografia, em «obra de livro»… Mas o argumento não foi suficiente e o homem continuou a cismar na dele…

  2. A Rainha da Sucata

    Andam por aí umas vozes em sobressalto com o que se escreve na Net, e, à cabeça, com a crescente influência das temáticas, abordadas nos “blogues”, sobre a Opinião Pública Nacional. Cumpre-me aqui dizer que sou novo nos “blogues”, e suficientemente antigo, na Opinião Pública. E como me estou, à cabeça, aparentemente – depois, verão que não… – zenitalmente borrifando para os “blogues”, vou, pois, começar pela Opinião Pública.

    Ora, em qualquer país pretendido civilizado, a Opinião Pública não é mais do que um misto de emoção e raciocínio difuso, que leva a que as sociedades exerçam, em conjunto, as suas auto-análises, os seus direitos espontâneos de aprovação e desagrado, e uma necessária catarse colectiva, fruto dos sabores e dissabores do Rumo da História.
    Os períodos de Opressão e de Distensão medem-se, pois, pelo vigor e maturidade que essa Opinião Pública manifestar.
    Na sua coluna de despedida do “Diário Digital”, Clara Ferreira Alves, criatura que nunca frequentei, nem sequer sabia que escrevia, mas que, naquele panorama do Ridículo Nacional, apenas me fazia, de quando em vez, sorrir, entre as suas apalhaçadas oscilações entre o negro azeviche e o louro caniche, dizia eu, centra-se, num dado momento da sua despedida, sobre a perniciosa influência dos blogues na tradicional “Imprensa Impressa”: de acordo com ela, “A Blogosfera é um saco de gatos, que mistura o óptimo com o rasca, e (as vírgulas atrás são todas minhas) acabou por se tornar num magistério da opinião (d)os jornais”, os quais nunca foram sacos de gatos, sempre souberam recolher o óptimo, e nunca constituíram um prolongamento do magistério dos Interesses Ocultos Predominantes.

    É óbvio que em todos os jornais, como em todos os “blogues”, como em todos os programas de televisão de carácter rasca, — terríveis eixos do mal –, “existe e vegeta um colunista ambicioso, ou desempregado, (as vírgulas continuam a ser minhas), ou um mero espírito ocioso e rancoroso”, que pode ser vário, como os nomes de Satã.
    “Dantes, a pior desta gente praticava o onanismo literário e escrevia maus versos para a gaveta, [publicando] agora as ejaculações”, as quais deveriam continuar a ser privadas, porque o exercício da cobrição, que tantas vezes levou a que um mau texto aparecesse nas parangonas da Crítica, fruto de uma noite mais ou menos bem passada, ou de uma jantarada em lugar eminente, poderia, e deveria, pelos mais elementares deveres do Pudor, nunca ultrapassar a atmosférica fronteira do Secreto e do Invisível. Para mais, parece que, nos blogues, escancarada janela rasgada sobre o Tudo, já não existe aquela claustrofóbica sensação das escassas três ou quatro janelinhas, onde a iluminação da Crítica Impressa revelava ao profano o pouco que se fazia, e, logo, podia aspirar a existir. Parece que nos blogues, dizia eu, se fala agora abertamente de tudo e de todos, e não apenas dos amigos, dos que nos assalariaram o texto, ou dos que nos pagaram para sermos gerentes da sua irremediável Insignificância.

    Compreende-se a angústia da Clarinha: com a ascensão dos “blogues” e o declínio dos jornais, anuncia-se também o fim do monopólio das palas postas nos olhos dos burros, e daqueles que tinham o exclusivo poder de as pôr.
    Clara Ferreira Alves manifesta-se inquieta pelo seu Presente, e teme pelo seu Futuro. Mais acrescento eu que o que está em jogo é, sobretudo, o seu PASSADO e o de todos os que se lhe assemelham, porque a Cabala, que, durante décadas, tão habilmente geriram, se está agora a desmantelar por todos os lados.

    Nos “blogues”, nada mais existe do que quem diariamente fale de tudo e todos, sem defender quaisquer sistemas que não os da prevalência do Excelente sobre o Medíocre, do Livre sobre o Encomendado, e, sobretudo, quem o faça GRATUITAMENTE, ou seja, por mero Dever Cívico, por vontade de intervir, por caturrice, ou tão-só pela amistosa gratidão de poder Partilhar.

    É verdade que com os “blogues”, poderá estar em jogo o fim da Palavra Comprada, e já estar a vislumbrar-se o início da Era da Palavra Livre e Particular, o Reino da Palavra Gratuita. Talvez seja isso a Comunicação Global. Em breve, também aí se fará a separação do Trigo do Joio, e passará a vencer quem melhor escrever e mais for lido, dispensando-se as tradicionais encomendas das almas.

    Penso, publico, sou lido, e logo existo. Tudo o resto é vão.

    Ah, e isto não é um texto para resposta, sobretudo qualquer tipo de resposta, como dizia o Vasco Pulido Valente, que metesse “na conversa a sua célebre descrição do pôr-do-sol no Cairo.

    Muito obrigado.”

  3. Politikos,

    Boa marca. E conhecerá também a alergia dos estudos universitários (sobretudo de letras) à citação, ou adução, de textos mesmo ‘sérios’ (um ensaio, uma crítica) aparecidos em jornal. Isso tende a acabar. Gente com tino (Osvaldo Silvestre, Carlos Leone e João Pedro George são alguns exemplos) já não está para esquisitices.

    José,

    Por vezes, os livros recomendados mudam vidas, porque vêm feitos à nossa medida. Acautele-se.

  4. «O monopólio da “verdade” e da palavra, detido em teoria no passado pelo poder político, pela imprensa tradicional e pelas editoras”, diz o herói do Venâncio.

    Ora com muito mais rigor já há muito mais de um século tinham dito K. Marx e F. Engels: «Os indivíduos que dominam como classe (…) dominam também como produtores de ideias, regulam a produção e as ideias do seu tempo».

  5. A obsessão com a originalidade é tão despropositada como curiosa. Era isso o mais importante? Porque não falou a Margarida deste assunto antes de o Fernando o ter chamado para aqui? Mistérios do azedume nacional.

  6. Júlio: eu só comento ou os posts ou os comentários. Mas por acaso, em comentários anteriores já chamei a atenção para esta questão.

  7. Gosto muito da poesia de João Camilo e gostaria muito que o senhor, por favor, me indicasse alguma livraria virtual onde pudesse comprar O breve retrato de JB, desde o Brasil.

    Desde já grato,
    Mauro Jorge Santos

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