Signor Presidente del Consiglio

Para os meus alunos – eles rondam os 20 anos – o telemóvel existiu sempre. Como para mim o telefone. É isso: o mundo já veio feito assim. E é essa gratificante falta de perspectiva histórica, no dia-a-dia, o que permite imaginar-nos eternos. O que é, de resto, a melhor disposição para vivermos. Imagine-se o que era uma consciência contínua da nossa temporalidade. Não dávamos um passo. Íamo-nos arrastando. Sim, fazer-nos esquecer a morte é uma das espertezas da vida.

Tudo isto por causa das eleições italianas de ontem. Não se vê logo a relação? Exacto. Mas eu explico. O chefe do governo de Itália chama-se «Presidente do Conselho»… de ministros, claro. Também Mussolini tinha o cargo de «Presidente del Consiglio dei Ministri», e ignoro se a designação é anterior ao Regime Fascista.

Nós dizemos «primeiro-ministro». Mas dizemo-lo desde há trinta e pouco anos. Porque, antes, também o nosso chefe de governo se chamava «Presidente do Conselho». Só isso. Nunca se ouviu chamar a Salazar ou a Caetano «Presidente do Conselho de Ministros», mesmo em discurso indirecto, mesmo numa notícia de jornal. Isto era uma das finuras da nossa ditadura. O senhor não era o chefe de um grupo de pessoas, mas um chefe sem mais, um «Presidente». Havia portanto dois presidentes no país. E, na percepção pública, um deles era mais «presidente», e esse não era o da República. Era o outro, o eterno.

Nessa nossa atemporal percepção – eu tinha a idade dos meus alunos hoje – Salazar havia existido sempre. Por isso, o fim do Verão de 1968 foi um tempo tão delicioso. Falava-se do «sucessor», trocavam-se boatos. E isto na rua, lugar inaudito. Era o princípio do fim? Ninguém o sabia. Mas sabia-se que era o fim de qualquer coisa, de alguém. Do Presidente Eterno. Que só o tinha sido dos seus ministros.

16 thoughts on “Signor Presidente del Consiglio”

  1. Buscar no nome dado ao chefe do Executivo um pretexto para atacar um regime parece-me revelador da extrema fragilidade da afirmação. Mas claro, isto sou eu a pensar..

  2. Presidente do Conselho; gravatas sempre, em fatos escuros, às vezes; dicção aprimorada, em telejornais e rádios e um regime sem partidos, pode levar a um engano.

    Mas, atenção! Mesmo o povo não se deixava levar assim tanto. No próprio dia 25 de Abril mostrou que estava farto.
    E quanto ao outro presidente, o da II República, era gozado ostensivamente, por todos. Sem censura que lhe valesse.
    Também…quando dizia que gostava muito de estar em Manteigas porque apesar de ficar numa cova era a vila mais alta de Portugal,…que queria mesmo que fizessem? Um anedotário? Foi o que se fez!
    COnvém lembrar estas coisas, pois a longa noite do “fassismo”, teve muito dias com luz.

  3. Nandinho

    Eu sou uma senhora e não gosto de me meter nestas coisas de gentinha, mas enfim, cada um é para o que nasce e uma mulher como eu tem obrigações. Tenho muita pena do Fernando Venâncio . É muito parecido com o Artur Gonçalves, tem uma linguagem da Musgueira, ainda parece que vai com a mãe vender fruta. Ó rico, faça uma plástica, compre roupinhas de marca, mas deixe essa linguagem de esquerda carroceira que é tão pobrezinha. E o pior querido, não é ser pobre, é ser pobre e parecê-lo…

  4. Esta Lili das expuições monótonas tem, seguramente, uma bochecha mais alta que a outra. Será cabeça de pargo que anda por ali a deleitar-se?
    Cuidado menina, olhe que isso pode tornar-se crònicamente nidoroso.

    António Vergas

  5. Ó Fernado,

    Cometeste um lapso que não ajuda Salazar em nada, mas, enfim, é sempre um lapso. Os franceses da maçonaria andaram quase cem anos a usar o mesmo título para chefes do governo.Mesmo no tempo do famoso Front Populaire. Monsieur le President du Conseil.

    Mas és sempre bem vindo. Se não houver mais nada, pelo menos vamos aprendendo bom português. By the way, esse “de mais” é a provocar?

    Bons sonhos. Dona E

  6. Bom, talvez, os “socialistas” do Front Populaire tivessem mudado isso, mas pelo menos até 1934, altura em que o António já assava casta nhas corporativistas em Lisboa.

    Dona E

  7. Ermelinda,

    Eu sabia. E também sabia que já na nossa Primeira República o termo era corrente. Afonso Costa, por exemplo, era Presidente do Conselho. Eu não disse que foi invenção do Estado Novo. Mas parece-me que nunca se usou na imprensa «Presidente do Conselho de Ministros» para Salazar. E não era decerto corrente. Percebe-se agora?

    E quanto a «de mais»: sua espertalhona!

  8. “Anonymous”? Que raio de nome!

    Eu sou uma senhora e não gosto de me meter nestas coisas de gentinha, mas enfim, cada um é para o que nasce e uma mulher como eu tem obrigações. Tenho muita pena do Fernando Venâncio e do seu amigo com um nome estranho, o “Anonymous”. O nome mais parecido com este é “Ananás”. Coitado, como é que ele será fisicamente? Estou a imaginar um cabeçudo, com óculos e lentes de fundo de garrafa e umas cuecas tipo as do Buda.O Nandinho, já todos sabemos, és gémeo do Artur Gonçalves, e os dois foram educados na Musgueira e estagiaram no Seixal. Têm uma linguagem das minas da Panasqueira,e ainda parece que vão com os pais vender caracóis. Ó ricos, façam umas plásticas, comprem roupinhas de marca, mas deixem essa linguagem de esquerda carroceira que é tão pobrezinha. E o pior querido, não é ser pobre, é ser pobre e parecê-lo…

  9. Tiago,

    Sem ofensa, mas a sua crítica soa-me tão primária, que não me dei ao trabalho de «refutá-la». Você parece supor que eu, se quisesse denunciar a Ditadura, não saberia agarrar-me a nada mais do que ao título do Ditador. Se você pensa assim, não ande por estes descaminhos. Há por aí mais mundo, amigo.

  10. O texto é um mero exercício de estilo. E, por isso, aqui vai outro. Porque não recuperar o vernáculo da palavra ministro, que era «criado». E assim sendo o primeiro-ministro era o primeiro dos criados. Criado da «coisa pública», entenda-se. E os funcionários públicos evoluiriam para o que já foram, servidores do Estado (vd. resquícios na sigla ADSE)…

  11. Utilizei uma critica primária exactamente para expôr o quão primária a sua crítica também é..

    Não pretendia insinuar que lhe faltavam palavras para descrever a ditadura. Leio os seus textos e provavelmente saberá faze-lo. Mas, neste post, não o fez. Não entrei no campo dos “ses”, apenas me referia ao post corrente.

    Não é necessário ficar tão «ofendido»

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