Os fantasmas ausentes

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Não sou um admirador da ficcionista Clara Ferreira Alves e conforta-me saber que o apreço é recíproco. Como este não é um blogue confessional, apresso-me a dizer que existe, de tão amável avaliação por parte da senhora, documentação impressa. Não sou, todavia, dos que fazem vida de apontar os fracos à cronista. Tenho pelo género ‘crónica’ a maior das estimas e considerei o trabalho de CFA assinalável o suficiente (e mais do que isso) para incluí-lo em antologia.

Tudo isto não teria a mínima importância, não fosse o caso de a cronista me ter, agora, desapontado. No Expresso da passada sexta, CFA escreveu sobre «A morte do romance» uma crónica assustadora, onde afirma, a dado momento:

«Dos romancistas franceses, italianos, alemães, americanos, ingleses, russos, austríacos, checos, irlandeses, latino-americanos, que assombraram e iluminaram a adolescência e o princípio da idade adulta de várias gerações, sobram uns quantos nomes, clássicos de clássicos, enunciados com a indiferença do que se ouviu falar e não se conhece ou já não se conhece.»

«Este é o tempo imperial de Dan Brown e de Paulo Coelho»

Não é questão de lembrar que isto é a ordem natural das coisas. Daqui a 30 anos, desses «uns quantos nomes» restarão bem menos ainda. Não é sequer questão de sublinhar que outros fantasmas estrangeiros assombram e iluminam hoje as mentes. Ou que é pelo menos desdenhoso dá-los, a todos, como Paulos Coelhos (no que faço a CFA a fineza de supor que ela não fala do Dan Brown do estimável «Código Da Vinci»).

Não. Do que se trata é de termos de espantar-nos da ausência, entre os numerosos nomes aduzidos, de fantasmas brasileiros na mente de Clara. Para quem carrega fantasmas dessa procedência, é um assombro que alguém não os tenha. E sente a «morte do romance» segundo CFA como uma tese manca. Tão manca que constrange e mete um dó. E que ninguém corra em socorro da cronista, lembrando que ela referiu os «latino-americanos». É que pretender diluir neles os brasileiros ainda faz pior.

E mais importante ainda: cem assombrados por Machado de Assis, ou por Mário de Andrade, ou por Guimarães Rosa, compensam bem as dezenas de milhares de parvos que compram Paulo Coelho. Mas terá Clara alguma noção disso?

26 thoughts on “Os fantasmas ausentes”

  1. O aspirina alterna entre um anjo da guarda e um demónio obcecado, eliminando por completo a neutralidade a que se propuseram de início. Os seus autores têm uma imagem muito negra da sua obra, pois têm consciência de que nunca conseguirão alcançar a pureza da vida. É por isso que se nota uma compulsão para renuciarem à verdade dos factos, tentando assim aproximarem-se das promessas nunca cumpridas. São lentos de compreensão, andam descalços e inseguros.

  2. Daniel, perdi todas as chances logo no primeiro encontro. Fazia a senhora esforços para alcançar alto jornal britânico em certa livraria de Lisboa, quando um anjo – eu – voou para lho entregar. Mas reparou ela lá no anjo! Pudera. Tem a inteira corte celestial às ordens. Já vês.

    De resto, eu espreitei-vos, mais esta madrugada, juntos. Tu estavas muito descontraído. Ela menos. E muito mais abordável.

  3. Ó Ferdinand,
    para que é que foi apagar essa boca de uma tal Clara virtual?

    Que diabo, não me diga que lhe toca assim tanto dizerem-lhe que nem para o minete chegava…

    A sub-comandanta ficou ligeiramente decepcionada

    (com a rasura, entenda-se…)

    esperemos que tenha sido por esquecimento do latim

  4. A Clara Ferreira Alves que vá mas é plagiar o New Yorker.
    Quem escreve tão mal, comenta tão mal, veste tão mal, que espere tudo menos credibilidade.

    (donde saem estes energúmenos que aparecem de um dia para o outro a dar opiniões nos jornais todos e mais algum? Haverá uma fábrica? E seria possível um lóbizinho mexer os cordéis para a maldita oficina perder o alvará?)

  5. Devo informar que o Daniel Oliveira que acima assina não é o Daniel Oliveira que aqui escrevia. Não é, lamentavelmente, o meu tipo de humor.

  6. JVC, quem foi acusada de plagiar o New Yorker foi a Clara Pinto Correia. Se tens uma opinião tão forte sobre alguém, ao menos decora o nome dessa pessoa.

  7. Zazie,

    Acho que perdi algum imperdível comentário. Alguma alma boa e administradora achou por bem limpar porquêras – fica com o alentejanismo.

  8. Pois é, FV. Divido salomonicamente a razão pelos dois. A Clara tem razão e você tb tem. Ela fala no presente e tudo o que diz é rigorosamente exacto e só podemos subscrever e você atira a sua apreciação para daqui a 30 anos, com a qual tb concordo. Percebo o seu prurido relativamente ao nivelamento entre o Dan Brown e o Paulo Coelho. Mas aí ela fala pelas tiragens, pelo que o argumento também é imbatível. Mas realmente a diferença entre o primeiro e o segundo existe. E se o segundo vai cair – se é que já não caiu – no olvido das massas, o primeiro, dentro do género do romance histórico, não será tão facilmente esquecido. Embora grande parte do seu êxito se deva à temática religiosa e à constestação – romanceada, é certo – de muito do que era aceite. Por mim, passo o «estimável Dan Brown». No género e no estilo, prefiro outros: o Pérez-Reverte, por exemplo.

  9. Que preconceito contra os escritores light tem a nossa clarinha! Não poderá a leitura light levar à literatura “menos light”? E ler literatura light, o jornal 24 horas e o raio que a parta não será preferivel a nao ler rigoramente nada?

  10. Estou a ver que quer à esquerda quer à direita é tudo a mesma gentalha elitista e que gosta de gente que faz s coisas “bem”, lê os jornais certos e se comporta hipocritamente.
    Cada vez gosto mais da Clara – está cada vez mais parecida com as pessoas que pensa estar a criticar.

  11. Não gosto de Dan Brown mas já tive uma´”época Paulo Coelho” na minha vida. E tenho um livro da Margarida Rebelo Pinto.
    Dá-me gozo saber que isso faz de mim uma excomungada para certas pessoas!

  12. Há um aspecto muito engraçado sempre que se fala nestas coisas, as pessoas acreditam que os críticos criticam leitores em vez de fazerem crítica de livros

  13. A morte do romance poderá ser uma “tese manca”.
    Mas também é verdade que a construção do romance no ponto de vista estrutural, e da criação artística desapareceu. Os exemplos são incontáveis e seria fastidioso estar aqui a enumerá-los.
    Mas esta é outra história, e sobre ela, só um crítico visionário poderá opinar.

  14. Ex brito: Mas isso é outra história e até concordo consigo. Os romances hoje em dia parece que sao todos fabricados e empacotados conjuntamente. A literatura americana então!…

  15. Agradeço Ferndinand mas não vale a pena. Venho cá espreitar e ver os magníficos desenhos do Jorge Mateus mas mais nada. A matilha continua vigilante e pronta a atacar. Esteja atento que também o têm debaixo de olho, pode crer.
    Hoje em dia os estalinistas têm muito nomes, andam encapuçados mas olhe mas não deixam de ser os patrulheiros que sempre foram. Isto aqui ainda é o bdE, a rábula da extensão do “Partido”- não importa o nome; há sempre a Luta e o fogo cerrado sobre o Inimigo.

  16. ó zazie, dizer que quem a critica é estalinista parece um pouco… estalinista. não se tenha em tão alta conta. tenho a certeza de que ninguém a vê como um “inimigo”. só há três inimigos da zazie: a inteligência, o bom português e o sentido do humor. eu, pelo menos, vejo-os sempre chacinados nos seus textos, os desgraçados. sabe, o sentido do humor não se mede pelos :o))))!! eu diria que é exactamente ao contrário.
    bom, e esta é a minha opinião. ainda posso dá-la sem cair em rótulos? parece que não. quem não gosta da zazie, é estalinista. é isto, não é? claro. como é que algum democrata de bom senso poderia não gostar? impossível. somos todos estalinistas “encapuçados”, ao contrário da corajosa “zazie”, que tira a carapuça e assume o seu nome à vista de todos.
    zazie, por favor, deixe de ser patética. não me obrigue a lembrar-lhe as figuras tristes que faz e fez no passado…

  17. Zazie, recomendo-lhe o artigo do Pacheco Pereira no Público de hoje. Se calhar, ele também é um desses patrulheiros estalinistas que não deixam a pobre Zazie, que é tão interessante, em paz… De duas, uma: ou se trata de uma vil perseguição à pobre Zazie, ou então a Zazie é mesmo desinteressante e patética. Eu cá tenho um palpite…

  18. será mesmo necessário andar a dizer mal dos outros para enaltecer o seu trabalho. deve se sentir muito triste quando se olha ao espelho

  19. Daniel Olieveira e Tsonga, não me conhecem de lado nenhum, portanto, não me tratem por «tu». Quanto ao resto, aparte a questão do New Yorker, tudo o que disse é pura realidade.

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