Todos os artigos de Aspirina B

O jornalismo que teima sair do armário

Última página do Diário de Notícias. Leio com gosto a crónica do editorialista. A assinatura prende-me o olhar. Ruben de Carvalho, jornalista. Jornalista?

A última vez que ouvi falar de Ruben de Carvalho, para além das crónicas, foi como candidato à câmara municipal de Lisboa pelo Partido Comunista Português. Uma organização sobejamente conhecida pelos seus independentes.

Ruben de Carvalho, o jornalista, é jornalista como Diana Adringa, Mega Ferreira, Marcelo Rebelo de Sousa, Paulo Portas, Maria Elisa, Vicente Jorge Silva, José Saramago, Maria João Avillez e outros nomes na mesma da isenção ideológica.

Jornalista, porque é mais fácil, mais cómodo, mais popular.

Tenho para mim a secreta tese de que poucos jornalistas gostavam mesmo de ser jornalistas. Jornalistas de economia gostavam de ser empresários, jornalistas desportivos gostavam de ser treinadores e jornalistas de política…enfim, vocês sabem. E como também se nota, jornalistas que escrevem notícias, gostavam mesmo de escrever editoriais.

Não me interpretem mal. Compreendo que os jornalistas sintam a necessidade e a apetência pela participação cívica. Compreendo que não possam ser insensíveis às suas convicções e até vou mais longe admitindo que o jornalismo de causas e de opinião é, não só, legítimo como até desejável.

O que a mim me causa algum rubor é o teatrinho de sombras. Esta coisa do “agora sou isento mas amanhã já não sou”. Como se as convicções fossem pecado ou razão para ter vergonha. E porque alguém entendeu um dia que os jornais e os jornalistas têm se ser isentos, independentes e amorfos intelectualmente acabamos nesta ridícula figura de apontar o dedo à braguilha uns dos outros trazendo à liça o humorístico código deontológico.

RMD, Jornalista.

Perdidos no paraíso

Dublin.03.06.jpg

Que eu iria encontrar na Irlanda um país de alguma fartura, já o sabia. Que havia nele estranhas bolsas de pobreza, já estava avisado. Mesmo assim este burguês à son insu estranhou.

O contraste era visível, tanto em Cork como em Dublim. Não há, decerto, aquele luxo espampanante e paspalho dos casacos de peles de Estocolmo ou de Dusseldorfe. Para tanto, os irlandeses são gente com outro tino. Mas o que havia já contrastava que chegasse com a pobreza em fato de treino: a perplexidade nos rostos, a falta de perspectivas por trás do olhar.

Explica o geógrafo galego Xoán Paredes que não é por falta de emprego nem de dinheiro. Emprego há-o, e dinheiro há-o até a mais. O que existe é um Estado ultra-protector, católico a mais não poder, e amigo dos pobrezinhos, que ele sustenta sem integrá-los. Uma «dependência crónica», no dizer de Paredes, eis o resultado. À falta de mais interesses, o dinheirinho vai para a bebida. E assim os vemos em bandos pelas ruas, esses moços de 18, 20 anos, nos olhos uma noção do tempo já esboroada. Lost in Paradise. Como se dirá isto em irlandês?

Vão longe os tempos em que – modestamente – um insuspeito sugeria se engordassem os bebés irlandeses e se os servisse à mesa dos ‘bifes’. Para os miúdos perdidos nas ruas de Dublim, tanto se lhes daria. E sempre teriam tido uma bela vida.

Eu que não sou de intrigas…

Está a ser estudado o encerramento de alguns dos 11 departamentos da Polícia Judiciária no país. diz o ministro na TSF.

E antes mesmo que alguns, mal intencionados, com a mania que têm graça, venham com as suas inacreditáveis conspirações posso garantir-vos, em nome do governo da república, que o encerramento de departamentos e a actual instabilidade directiva no seio da organização não afecta, de maneira nenhuma, o normal desenrolar dos processos, mesmo os mais sensíveis, como o caso Freeport ou o caso dos tabuleiros de xadrez de Jorge Coelho. Perceberam? RMD

E o jogging? Como correu o jogging?

Foi uma entrada directa no top dos fellatios jornalísticos: “Um dia de sucesso diplomático que já estava preparado” diz o Diário de Notícias sobre a viagem do nosso amado Primeiro a Angola. Reparem que o avião aterrou faz poucas horas mas a viagem é já “um sucesso diplomático”. E é. Pois é. Em Portugal deu, pelo menos, umas doze ou quinze páginas nos principais diários. E depois aquele “que já estava preparado” do género “um governo que prima pelo planeamento e que sabe o que está a fazer”. Vou ali beber um copo de vinho e já volto.

Em quase todos os jornais, o destaque é o jogging do nosso líder. Que se lixe a fome, a corrupção, a liberdade de imprensa ou qualquer outra miudeza que possa ensombrar o relacionamento entre nações civilizadas. O primeiro vai fazer jogging para a marginal às oito da manhã. O Público informa que a coisa “não estava no programa”. Era quase segredo e o engenheiro sempre foi bastante discreto quanto à sua vida. Por exemplo, nunca ninguém sabe onde vai passar férias ou que desportos gosta de praticar. E esta só se soube por causa de uma “inconfidência” de um dos parceiros de passada do engenheiro. E que grande inconfidência esta. Os jornalistas de diferentes órgãos de comunicação ficaram todos a saber e publicaram todos a boa nova.

Não podemos desvalorizar esta coisa do jogging. Antes de Sócrates já personalidades como Tony Blair e Bill Clinton deram a conhecer-se às massas pelas suas correrias. Guterres ainda tentou duas ou três vezes, mas a prática da modalidade era incompatível com o corte de cabelo. No caso de Bill Clinton o exercício físico para a fotografia nunca compensou o excesso de hambúrgueres e o homem lá teve baque no coração. Era jogging para americano ver. Mas isso não interessa a ninguém. O que realmente interessa é que o jogging é uma trademark da terceira via. Marques Mendes que se cuide e que mude de modalidade.

Tudo normal. O que eu não acho normal é obrigarem os jornalistas a viajar sete horas, escrever três ou quatro mil caracteres sobre o assunto. Ao invés de aproveitarem a viagem para fazer perguntas interessantes podiam simplesmente fazer copy paste dos comunicados de imprensa da central de propaganda sem deixar o conforto da redacção. RMD

Consultório sentimental

rodrigo.jpg
(o outro Rodrigo igualmente fantástico e merecedor dos maiores louvores)

Sobre o défice de criatividade do país, um anonymous atira quase certeiro: e a betalhada a por Rodrigo no nome dos filhos?

O fenómeno existe e preferia explicar-lhe que a superabundância de Rodrigos se destina a honrar-me. Incomprensívelmente não é assim. Nem sequer está relacionado com a betalhada.

Explico. No meu tempo, só havia dois Rodrigos: o da fotografia e Deus. Mas desde que o Tozé Brito (esse criativo) começou a fazer as novelas da TVI e desde então não há cabeleireira que não acabe com um filho Martim, Bernardo, Francisco e sobretudo Rodrigos. Resmas deles. Admito que sempre é melhor que Suelanias, Edinilsons e outros que mais. Admita que é especialmente irritante para os dois Rodrigos que já cá estavam. RMD

flabbergasted…

Leio que o Manuel Fonseca abriu uma editora de nome Guerra e Paz. Uma editora chamada Guerra e Paz? Guerra e Paz? Porque não ‘Os Irmãos Karamazov’ ou “Cousine Bete”?O que leva alguém a chamar Guerra e Paz a uma editora? E já agora porquê chamar “Por do sol” a um restaurante, “25 de Abril” a uma praça, “rouxinol” a uma bibenda, “sol e mar”a uma pensão, “snoopy” a um cão? RMD

menina@gmail.com

Quando era um iniciado na Internet, pensava que Hotmail era um qualquer serviço associado a coisas do género porno-erótico. Olhava de lado para todos os pobres infelizes que me enviam correspondência desse servidor. Com o tempo esse estúpido preconceito passou. Pelo menos até ao dia em que comecei a receber missivas mais pessoais de uma tal que tinha um Gmail. Primeiro ela era Hot agora era G. Hoje em dia sou incapaz de falar sobre o assunto sem deixar fugir um sorriso malandro. RMD

Da saborosa arte de ser português

2006_opi_mig.gif

Nunca falha. Ontem, de novo me sucedeu. Mas nunca aprendo. E, pior, nunca me conformo. Que se passou? Produzi aqui um elogio, coisa de nada, a certa figura pública. E imediatamente se destaparam os poços do azedume. Tudo indica que só a afirmação da mais irremediável inanidade do visado teria mantido o ambiente sereno, conversável.

Como sempre, nunca chegamos – eu nunca chego – a saber a razão. Ou ela pertence a uma ciência infusa que me foi negada, ou é parte já democratizada da opinião pública. Não dispondo de uma nem de outra, não tenho meios de relativizar, de compreender sequer, mais essa nacional catástrofe. Se não é o fim do mundo, estamos perto. Concretizemos.

Disse eu que Miguel Sousa Tavares escreveu umas coisas com piada. Tive o cuidado de passar por cima dos romances, indo directo ao cronista e ao contista. Baldado esforço. É que, segundo a quase totalidade dos comentadores, nada se aproveita no senhor. Eu perceberia se isto fosse o Pipi. Mas não é. É um blogue lido por gente da classe média alta (que também lia o Pipi, mas não dominava na paisagem) e até fez uns estudos.

Não sei que fama tem o autor por aí. Nunca falei sobre ele com ninguém, nunca lhe falei a ele, e apenas o vi de passagem, se meia hora de TV se chama ver. E, contudo, eu sei que ele é (quando quer, mas ele quer muitas vezes) um dos fulanos que melhor dominam este amado idioma. E que escreve umas coisas com tino, e com piada, que às vezes me irritam, mas respeitam o meu discernimento. Isto me basta. Disto já estou grato. Mas sou um caso raro, estranhíssimo, se calhar suspeito.

Vou deixar de elogiar os meus contemporâneos. Não chateio e andaremos sempre todos em paz, estupidamente em paz. E felizes, sim pá. Estúpidos de felizes.

Adeus

Vou abandonar o Aspirina. Este projecto vivia muito da capacidade do Luís nos juntar e motivar, fazendo com que a nossa diversidade criasse uma riqueza que, bem agitada, produzia um blog com muitos sentidos. Os textos do Luís davam as linhas melódicas, eu cá fazia de desajeitado contraponto, outros, como o João Pedro, enriqueciam-no com uma inteligência sempre diferente. O desamor do Luís pelo Aspirina retirou grande parte do prazer de escrever aqui. No entanto, ficou o vício. Acho difícil dizer adeus aos blogs, só consigo dizer: até já, aqui ou em qualquer outro ponto do ciber-espaço.

Bombas publicitárias

Segundo o Público de hoje (ver Cultura), Margarida Rebelo Pinto e o seu editor, a Oficina do Livro, tentarão judicialmente impedir a publicação de Couves & Alforrecas, o livro (editado pela Objecto Cardíaco) em que João Pedro George estuda a escrita da autora.

Não bastando já o bem que João Pedro George vem fazendo aos nossos estudos literários (a Estilística foi sendo abandonada por uma faculdade de letras crescentemente anémica e medrosa da literatura), ainda por cima se tenta, com recurso a tribunais, impedir que o seu trabalho atinja um maior público.

Nada (a não ser isto) contra a Oficina do Livro. Ela vem pondo cá fora excelentes coisas, como o Miguel Sousa Tavares (sobretudo o contista e cronista). Mas que uma bela bomba publicitária se arrisca a privar-nos de um belo estudo literário, não sobre dúvida.

[Com um obrigado à Margarida P.]