Perdidos no paraíso

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Que eu iria encontrar na Irlanda um país de alguma fartura, já o sabia. Que havia nele estranhas bolsas de pobreza, já estava avisado. Mesmo assim este burguês à son insu estranhou.

O contraste era visível, tanto em Cork como em Dublim. Não há, decerto, aquele luxo espampanante e paspalho dos casacos de peles de Estocolmo ou de Dusseldorfe. Para tanto, os irlandeses são gente com outro tino. Mas o que havia já contrastava que chegasse com a pobreza em fato de treino: a perplexidade nos rostos, a falta de perspectivas por trás do olhar.

Explica o geógrafo galego Xoán Paredes que não é por falta de emprego nem de dinheiro. Emprego há-o, e dinheiro há-o até a mais. O que existe é um Estado ultra-protector, católico a mais não poder, e amigo dos pobrezinhos, que ele sustenta sem integrá-los. Uma «dependência crónica», no dizer de Paredes, eis o resultado. À falta de mais interesses, o dinheirinho vai para a bebida. E assim os vemos em bandos pelas ruas, esses moços de 18, 20 anos, nos olhos uma noção do tempo já esboroada. Lost in Paradise. Como se dirá isto em irlandês?

Vão longe os tempos em que – modestamente – um insuspeito sugeria se engordassem os bebés irlandeses e se os servisse à mesa dos ‘bifes’. Para os miúdos perdidos nas ruas de Dublim, tanto se lhes daria. E sempre teriam tido uma bela vida.

9 thoughts on “Perdidos no paraíso”

  1. Nunca te sais com um aranzel, Fernando. São sempre saladinhas frescas, leves, com um extraordinário poder eupéptico. Abençoada mão que empurra a pena!

    Dona Ermelinda

  2. Mais que ninguem há aqui alguem que sabe muito bem quem é quem. Eu não vou dar nuita guita a este exemplar acabado de corre-vai-di-lo que, em vez de comentar a notícia ou o estilo do Fernando, prefere descansar as mãos nas ancas e insinuar que ando metida ou feita com os outros senhores. Olhem que traste. Que o Fernando, por favor, apague essa tentativa vilíssima de desviar as atenções dos honestos leitores deste blogue de coisas bem mais importantes. Se não tem nada que fazer, arranje uma trotineta, senhor(a) ninguem.

    Dona Ermelinda,

  3. “O que existe é um Estado ultra-protector, católico a mais não poder, e amigo dos pobrezinhos, que ele sustenta sem integrá-los. Uma «dependência crónica», no dizer de Paredes, eis o resultado. À falta de mais interesses, o dinheirinho vai para a bebida.”

    Não era o Fernando que há uns tempos elogiava este “estado paizinho” na holanda?

    “Num bairro pobre […] vive uma jovem senhora com o rendimento mínimo garantido.[…] Periodicamente, tem de apresentar contas ao município dos seus parcos réditos […] Para lhe perguntarem se não estará precisando duma nova máquina de lavar, ou de uns agasalhos melhores para o inverno. Que eles lhe oferecem, claro. Eu soube isto há dias, e fiquei fascinado.” – Fernando Venâncio , janeiro de 2006, https://aspirinab.weblog.com.pt/2006/01/republica_socialista_dos_paise.html

  4. Dona Ermelinda,

    Custa-me, mas não vou apagar o comentário que visas. Reservo esse divino poder para casos de excepcional gravidade. No caso atinente, há de facto uma insinuação acintosa (pelo menos, assim o consideras, e isso chega) a teu respeito, mas, repara, seguida de nove pontos de interrogação. Tu deste-lhes a resposta, uma resposta. Parece-me clara. Volta sempre, a casa já é tua.

    Tuga,

    Que memória essa! Mas, diz, desde quando é que o «fascínio» significa aprovação? Acredita: eu preferia que a senhora comprasse, com o seu dinheirito, as coisinhas. Este é um Estado que deseduca. Mas que deixa um cidadão boquiaberto, deixa.

    De resto, sou eu quem está a pagar à senhora as coisinhas, eu, com o meu trabalho de que – gostosamente, aliás – fujo para vir teclar aqui umas cenas.

  5. Interpretei mal então esse seu post de há uns tempos atrás. Pensei ter ficado implícito, pelo seu post e consequentes comentários, de que aprovava este modelo de estado social.

    Estranhei porque me pareceu que o seu fascínio no caso irlandês é diferente do seu fascínio pelo caso neerlandês.

    Em resposta a um comentário escreveu:
    “Saiba que ando há vinte anos descontando 300 euros (60 continhos) por mês para um serviço de saúde de que não necessitei nunca. Mas sei que há malta que passa por mim pelas ruas, que pôde estar mais bem tratada e mais quentinha.”

    Confidencio-lhe porque é que o post que referenciei me veio à memória – é que não é só o Fernando a pagar a máquina à senhora. Eu também o faço. Trabalho em Leiden e vejo por aqui também “bandos pelas ruas, esses moços de 18, 20 anos, nos olhos uma noção do tempo já esboroada”. Em amesterdão confundir-se-ão no meio da diversidade, mas em qualquer outra cidade, reconhecer-los-á pela indumentária (aqueles casacos de cabedal e as calças de ganga pré-desbotadas). Muitos são de origem marroquina e turca, mas também se vê muitos loirinhos de classes mais baixas.

    Nunca fui à Irlanda e por isso tenho curiosidade em saber as diferenças. Mas, se bem me parece, estes grupos de jovens “desamparados” ou “amparados demais” não existem também em Portugal? Em Olhão, de onde venho, há-os. E nos Estados Unidos? Não eram estes que incendiavam Paris (ou melhor, os seus subúrbios, mas também Toulouse, etc.) ainda há poucos meses? Qual a relação da protecção do Estado Paizinho com este fenómeno? Fico com mais dúvidas que certezas …

  6. Caro Tuga, boa tarde Leida.

    Se tens mais dúvidas que certezas, já somos dois.

    Um Estado (na prática, um grupo de funcionários que executam decisões parlamentares, e por vezes ministeriais) deveria «proteger» e, mesmo assim, «incentivar». Alguns Estados (suponho que os Estados Unidos são um exemplo) existem para garantir a liberdade de movimentos da elite económica, deixando a protecção dos desfavorecidos à sociedade civil (e deve dizer-se que os cidadãos americanos são, em geral, um exemplo de empenhamento e solidariedade). Outros Estados, estes nossos europeus, sentem-se responsáveis pela sorte, ou falta dela, dos cidadãos. Burocratizaram, para isso, a caridade. Mas não acharam (ainda) a fórmula para um burocrático pontapé-no-cu que ponha os desfavorecidos a mexer, a inventar, a arriscar.

    O problema (um problema) da Esquerda é que receia ver-se acusada de falta de empenho ao esperar do desfavorecido (ao exigir dele) que se mexa por si. Eu, e outros, sonhamos com uma Esquerda capaz disso. E ainda não desistimos.

    Bom, e obrigado por me ajudares a pagar a máquina lá à senhora.

  7. Boa tarde A’dão (suponho).

    Fica a pergunta: Qual é que os deixa mais desamparados – a falta de solidariedade estatal liberal ou a social-democrata falta de pontapé-no-cú? Comparando o caso sueco com o norte-americano não sobrariam muitas dúvidas. Mas até já vi o Dias Loureiro na tv a dizer que a Suécia é um país de economia liberal onde se respeita mais as sacrossantas leis do mercado do que em Portugal…

    Tenho uma opinião, em fase mais ou menos embrionária sobre o assunto. Fala-se no modelo social europeu. Que tem vindo a falir e sendo subsituído por ideias neo-liberais. Há uns anos os neo-liberais congratulavam-se com isso. A Europa estava na mão deles. Tinham ganho. Agora, com os “desamparados” de França em alvoroço, culpa-se o modelo social europeu. Mas afinal o modelo europeu, em particular na frança, não tinha já deixado de ser “social” há uns anos? Os governos na Europa (escandinávia exclusivé) não oscilavam entre a terceira via liberal de blair e o puro neo-liberalismo de berluscologni?

    Enfim, terão sido as falhas da social-democracia que toldaram o seu fracasso em combater a exclusão, ou antes a cada vez maior inclusão de medidas liberais na política de estados “sociais democratas”? Não serão os insucessos da social-democracia exactamente devidos ao abandono, à força da esmagadora pressão dos lobbies, do seu carácter social?

    E ainda outra questão, que volta ao assunto, com as devidas desculpas por insistir: Percepciona diferenças no resultado da social-democracia holandesa (o Balkenende não é democrata-cristão?) relativamente à política citada mais frequentemente como neo-liberal da Irlanda (mas Bertie Ahern é um bocado social democrata não é?) ?

    E já agora: é afinal “esta holanda” dada como exemplo de social democracia (em que por acaso o sistema de saúde é tão privado como nos EUA) menos social que esse exemplo de sucesso neo-liberal irlandês?

    Tudo isto não te retira, evidentemente, razão, quando dizes que a esquerda tem que encontrar estratégica de incentivo àqueles que suporta, e essencialmente, combate à corrupção. (Um exemplo engraçado sobre um tipo de aproveitamento – as condições e acessos para deficientes motores são tão boas por cá que é comum em conversas de café aqui na holanda, ouvir-se alguém queixar-se dos gordos, velhos, preguiçoso, etc., que podiam bem andar por seu pé mas preferem andar naquelas cadeiras de rodas eléctricas a empatar o caminho dos que realmente precisam. Um neo-liberal não teria dúvidas: acabe-se com as facilidades de acesso para os deficientes, para que não se aproveite delas quem não merece).

  8. Caro Tuga,

    A tua análise (por produzida em espiral que seja) é nítida. Vais bater no ponto: é preciso redescobrir o caminho à Esquerda. Os neo-liberais são puros aproveitadores. A ‘razão’ deles é o falhanço da Esquerda em conduzir uma política da protecção aos desfavorecidos COM exigência.

    ‘Exigência’ mete medo a alguma – ou muita – Esquerda. Lembra paternalismo e coisas assim. Daí a fuga para a frente, para a superprotecção, com quotas e o diabo.

    Creio que, um pouco por toda a Europa, pode estar a surgir uma Esquerda nova, frontal, corajosa, que sabe ser humana e ser exigente.

    Vai um abraço de (realmente) Amsterdão.

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