
Todos os artigos de Aspirina B
Um módico contributo para o tento na língua
No afã de dar mais “modernidade” e “flexibilidade” ao Português, não cessam as novidades teratológicas. Depois do infame e esverdeado “glauco”, que continua a sua profícua carreira por esse mundo fora, salta-me agora a atenção para o vocábulo “módico”.
Mas quem se terá primeiro lembrado de martelar o pobre adjectivo até dar em substantivo? Hoje, de João Pereira Coutinho a este mesmo blogue, passando por locais mais ou menos recomendáveis e por fontes mais ou menos abruptas, poucos escapam à epidemia.
Não sei se a coisa terá raizes eruditas, no latim “modicus”; parece-me mais provável a parola importação directa do Inglês. Ao pé disto, julgo que a história do “estória” é inovação perfeitamente benigna e até louvável.
DESENHO* 9
Inspecções sanitárias
Os guardadores de rebanhos
No DN de sábado, lia-se esta passagem duma crónica de Fernanda Câncio. Se essa passagem salvar uma vida, já valeu a pena. Se a sua cópia aqui puder salvar outra, halleluyah. Copiai, pois, e multiplicai-vos com mais tranquilidade. De resto, Alberto Caeiro, no poema VIII do «Guardador de Rebanhos», diz uma coisa que serviria aqui de epígrafe. Mas sejamos, por uma última vez, caridosos.
Preservativo, the católico way
Ao fim de 23 anos, de 23 milhões de mortos e 40 milhões de vivos infectados, a Igreja Católica pôs-se a pensar e achou que, caramba, se calhar o preservativo é um “mal menor” . Mas não vá a malta concluir que isto agora é à tripa-forra e ainda por cima com bênção celestial, esclarece a Conferência Episcopal portuguesa que a admissão do uso do terrível e até agora proscrito artefacto é apenas e só para o “contexto do matrimónio” e se “algum ou os dois estão infectados”. Traduzindo: os católicos não casados não devem usar preservativo seja em que circunstância for; os católicos casados que tenham relações extraconjugais devem esperar até ficar infectados e saberem-no sem sombra de dúvida para usar preservativo com a pessoa com quem estão unidos pelo indissolúvel laço (que por essa altura, pela lei das probabilidades, já há-de estar também infectada, pelo que a permissão está duplamente assegurada). Mas qual a surpresa? O objectivo da Igreja é salvar almas; o corpo é sempre um mal, maior ou menor.
A crónica na sua totalidade está aqui.
Matéria negra
Há uns dias, conheci uma mulher a quem morreu um filho. Antes de a ver, já sabia do drama banal: o miúdo que desfalece sem aviso, o diagnóstico de tumor incurável, a tentação do suicídio, o longo e raivoso luto. Já sabia que não tivera mais filhos nem regressara por inteiro à vida; sabia que mantinha intocado o quarto da criança morta, que o seu desgosto se dava a mais uns quantos caprichos um pouco sinistros. Imaginei que todos os convivas daquele jantar tivessem também ouvido as mesmas histórias, recitadas entredentes como um segredo quase vergonhoso ou como uma fábula terrível que deixa sempre o mesmo arrepio: “e se tivesse sido eu?”
Claro que aquela mãe presa num nojo perpétuo e malsão tinha tudo para ser a atracção principal do jantar. Ainda em pé e de copo na mão, dei por mim a espreitá-la através de uma distância meio respeitosa meio medrosa. Estar face a alguém que sobrevivera a uma perda assim parecia-me coisa admirável; quase como conhecer o primeiro capitão a ultrapassar o Bojador ou trocar banalidades sobre o tempo com um astronauta reformado. Temo ter embasbacado por longos segundos, feito mirone da dor alheia. Mas não era o único. Bastou-me um pouco de atenção para reparar na lenta coreografia que animava os convivas: estes aproximavam-se da mulher, como que por casualidade, endereçando-lhe algumas palavras nos casos mais afoitos, e fugiam de seguida para a outra ponta da sala. Presos a órbitas parabólicas em redor de um astro que mal tocam: atraídos até certo ponto para logo se verem repelidos, talvez receosos de arriscar um qualquer contágio pela proximidade excessiva.
O problema de Pacheco Pereira com os links
Alguém me explica por que razão o autor do Abrupto remete «as querelas da Academia a propósito dos dicionários» para uma nota no Da Literatura, quando os dois artigos que escrevi no DN sobre o assunto, bem resumidos aliás por Eduardo Pitta (mas sem acrescentar nada de novo à polémica), se encontram disponíveis on-line aqui e aqui?
Ibéricos e levianos

Não sei o que terá ao certo Mário Lino – o ministro português das Obras Públicas, Transportes e Comunicações – afirmado, há uns dias, em Santiago de Compostela. Fazendo fé o diário galego Faro de Vigo de 24 de Abril, terá de supor-se Mário Lino sentindo-se «profundamente “iberista”, convencido de que España y Portugal tienen por delante un futuro en común porque su historia es también común y su lengua, similar».
Mais teria o ministro declarado: «Soy iberista confeso. Tenemos una historia común, una lengua común y una lengua común. Hay unidad histórica y cultural e Iberia es una realidad que persigue tanto el Gobierno español como el portugués» [negrita meu]. Suponho que há, aí acima, alguma «lengua» a mais e, quem sabe, alguma «cultura» a menos.
Perante isto, o mínimo que um cidadão português deveria fazer era solicitar ao seu Governo uma explicação, perguntando ao próprio Ministro, ou a um porta-voz governamental, se é essa «realidade», a «Ibéria», o que de facto o Governo português «persegue». Se efectivamente o Governo de Portugal é de opinião de que o seu país e Espanha têm uma «história comum». E de que há entre os dois países uma «unidade histórica e cultural».
Estas afirmações, a serem autênticas, são também (sejamos simpáticos) um exemplo de leviandade. Elas permitem supor, na agenda do Governo, concepções e propósitos que não rimam com os de quem vela por um País soberano. Se, efectivamente, o Governo português se propõe apresentar uma – em si, desejável – integração ibérica em termos (sejamos de novo simpáticos) tão aparvalhados, é porque não vê nenhuma necessidade de ser sério em tal matéria.
Sua Excelência não quis, decerto, entregar armas. Mas possivelmente ignora que, lida em espanhol, esta foi uma exacta mensagem de capitulação. Como se isso não bastasse, esta era a música por que o nosso nacionalismo neo-nazi vinha ansiando.
Fernando Venâncio
O descaramento

Cartoon de John Darkow, Columbia Daily Tribune
[Notícia sobre a “contratação” da Casa Branca, aqui.]
Retrato inclinado
Jogo floral
.NL faz 20 anos
A 25 de Abril de 1986, faz hoje exactamente 20 anos, um programador holandês, Piet Beertema, teve uma ideia com futuro. O número de utentes de email (ainda não se chamava assim, a própria Internet como hoje a conhecemos estava por nascer) prometia superar os 25.000. Aí surgiriam problemas, já que o nome único de cada computador não podia exceder, no sistema, as sete letras ou algarismos. Foi quando o administrador Beertema decidiu juntar «.nl» ao nome da sua máquina. Os códigos do país estavam encontrados, e também o nosso «.pt» começava a existir. Mas ainda ninguém o sabia.
Saudades do futuro

O futuro: visão de conjunto (foto analógica, antiquíssima)
Todos os dias, ao sair de casa, dou de caras com o futuro. Não um futuro qualquer, abstracto, nevoento. Não, o meu futuro é tacteável, legível, inscrito na pedra.
Alguém, de perfil e gostos hoje indefinidos, mas estuante de ideias, fez, em 1977, quando os prédios foram construídos, colocar um monumento ali na relva. O aspecto é fúnebre, concedo. Mas talvez a funebridade seja conceito relativo, resvaladiço, e daqui por uns tempos aquilo adquira conotações festivas, ou íntimas, enfim, coisa que nós ali hoje não vemos. Porque ‘futuro’ é o que não falta ao monumento: quase 500 anos.
É assim. Naquelas lajes, Amsterdão de 1977 saúda (textualmente) Amsterdão de 2477. E não se fica por palavras. Guarda, sob uma laje, água do Canal dos Senhores (o Herengracht, o turista reconhecerá), sob outra, água do Amstel (o rio que dá nome à cidade, A Represa do Amstel), e terra de sítios diversos do burgo, e ainda uns sons da época, com um gravador (eles pensaram em tudo), e até filmes da época, quase de certeza em Super8. Um dos torreões abriga um projector.

O futuro: pormenor
É de esperar que o futuro saiba simplesmente ler os dizeres, isto se o vento e a chuva – e os sapatos de quantos ali fazem picnics no Verão – não os tiverem apagado. Sim, porque entretanto a fita gravada e o Super8 ter-se-ão pulverizado. Se o gravador e o projector sobreviverem, o futuro nem saberá para que serviam, como o índio do Amazonas (feliz dele) que encontra um CD com a «Mila» do Netinho. Excelente número, mas segredo nosso.
Simplesmente, as perspectivas para o sítio não são as melhores. Ele fica, como quase a cidade inteira, abaixo do nível do mar. Visto que as previsões mais simpáticas (com o degelo, o efeito-estufa, vocês sabem) dão ao Oeste da Holanda duzentos anos, e as mais sinceras cem, o monumento é, desde já, tecnicamente, um achado subaquático ainda em seco.
Mas, enquanto andamos por aqui de pés enxutos, vamos pensando nos sorrisos do futuro, imaginando o fim de tarde de 2477 em que os netos dos nossos longínquos netos irão abrir, a laser, ou por palavras mágicas, o momumento… e darão de rosto connosco.
Mas isto só nós o sabemos. E isto nos basta. Porque é essa a consistência, e a certeza, de todas as saudades do futuro.
DESENHO* 8
O artista secundário
Publica-se, aqui, retocado. Definitivo.
O ARTISTA SECUNDÁRIO
Estava ele tranquilo, teclando.
A coisa até se pusera a sair bem,
Com Dvorčak passeando pelos cantos.
Abaixo da vidraça, a toda a largura,
Como nos filmes, Nova Iorque apressava-se.
Era aquilo um poema? Os outros diriam.
Saga? Também servia. E, a insistirem,
Prontos tá bem, um romance. Contentes?
E, de repente, aquilo. O ecrã a negro,
Silenciados ‘O Novo Mundo’ mais o ar condicionado.
Fizera o ‘save’? Fizera? Não fizera.
Isto é um sonho. Mas desta vez não havia sorte.
Ai a minha vida. Cita-se, também literalmente.
Vá, depressa, refazer, enquanto…
Mas oh, ali no papel perdera a graça.
Ai a minha vida. Já nem se comenta.
Pois era, perdera-se tudo. Apagara-se
O grande texto fundador do século,
Como diriam, alvoroçados, os críticos do costume.
E dirão, por Zeus. Dirão. Mas de outro.
Que, nesse dia, enlouquecerá de feliz.
Ele, o artista secundário.
Gandulos. Acabam sempre por encontrá-lo.
fv
Sttau

Faria agora 80 anos. Passou por cá escrevendo teatro («Felizmente há luar!»), romance («Angústia para o jantar»), crónica («A Guidinha»). Nunca pertenceu ao inner circle da cultura, menos ainda da literária. Nunca relia nada, nem provas. Não ia a estreias das peças. «Sou isolado dos escritores. Isolado dos críticos. Isolado dos literatos», disse a Mário Ventura, para o DN, em 1981. Vivia do trabalho, tendo a mãe uma fortuna. Mas disse-se que vivia à custa dela. «Convinha à direita, e à esquerda resolvia complexos. Como é que o gajo, que goza, que bebe e que brinca, tem dinheiro? E então a explicação era a minha mãe. Esquecendo-se que eu às oito da manhã estava a trabalhar em agências de publicidade, vinha para casa escrever, marrava que nem um cão».
Diz-se, também, que a peça «Felizmente há luar!», de 1961, só foi representada depois da Revolução. Há um grupo de pessoas que sabem que não foi. Elas representaram-na em 1964, algures no País, para uma pequena multidão. Um dos actores, dos principais, era este vosso servo. Mas é a pequeníssima história. Uma página da Guidinha vale mais.
para os meus amigos publicitários
Preto no branco, ainda
Faça-se subir aqui a discussão que, nos cafundós do blogue, se vem desenrolando. Os dois intervenientes o desculpem, se era a discrição o que procuravam.
Nuno Ramos de Almeida | abril 19, 2006 11:32 PM
Valupi,
Ao contrário de ti e do professor Cavaco que estão convencidos que pessoas com informação igual chegam às mesmas conclusões, há no mundo gente que pensa que é possível ter ideias diferentes sobre a realidade. A função do Bloco, e dos outros partidos políticos, é defender um conjunto de ideias que acham importantes para melhorar a sociedade. Por muito que te custe entender, o Bloco defende propostas diferentes para imigração do que CDS/PP. As iniciativas como o Colóquio Internacional, para ti “sem contexto”, a exemplo do relatório aprovado no Parlamento Europeu ou das propostas legislativas sobre a imigração e a nacionalidade, servem para fazer este caminho.
Nesta matéria, ao contrário de outras áreas, o Bloco e os seus activistas têm muita actividade e, de alguma maneira, as suas ideias que só há integração com cidadania, têm-se tornado presentes na discussão democrática e na formação de novas maiorias sociais.
Tu não mostras realidade nenhuma, apenas teimas em remendar um post com uma perna de pau e outra amputada.
Eu acho que toda a gente percebeu que apesar das más companhias do Aspirina, tu não és, nunca foste, e nunca serás do Bloco ou de Esquerda. Mas não teria sido mais fácil publicar um anúncio no Diário de Notícias a garantir ao Sr. Prior que nada tinhas a ver com gente pecadora?
Nota: eu que não tenho nada que ver com organizações de imigração, já estive em reuniões com associações, iniciativas e diálogos com a população no Vale da Amoreira, na Azinhaga dos Bezouros, na Arrentela, na Cova da Moura, no Bairro do Fim do Mundo, para além da Bela Vista… vê lá tu, a quantidade de trabalho que militantes do Bloco que participam, por exemplo, na Solidariedade Imigrante e em outras organizações já fizeram…
Valupi | abril 20, 2006 03:47 AM
Nuno
Não estás de boa-fé nesta conversa (coisa que não me preocupa, esclareço, mas também não me diverte) e por isso estás a perder tempo. Se preferes fazer alusões ao Cavaco, ao CDS, ao Aspirina ou à Virgem Maria, em vez de apresentares factos e informações relativos ao assunto, não pagas mais por isso. Há fantasmas de estimação, compreende-se.
Nunca pensei que a prestação de um trio de luxo — tu, o Daniel e o “James” — se ficasse pela inanidade de reagirem emocionalmente num campo onde detêm tanta informação. O Daniel foi buscar a produção legislativa, tu puxaste da biografia e o “James” disse-me para contratar um detective. Mas nenhum foi capaz de indicar um qualquer meio para aferir, constatar, avaliar, ponderar, simplesmente conhecer o plano de actividades (já nem falo dos objectivos) do Bloco nas áreas em causa. Esse silêncio começa a ganhar estatuto de mistério.
Onde vocês se mostram muito descontraídos é na hermenêutica de posts e consequentes comentários. Pelos vistos, estão preocupados com a integridade do texto, não admitem qualquer desvio. Fica-vos bem esse cuidado e ofereço-me para vos ajudar.
Reparem que o parágrafo em causa começa com uma tese genérica: os partidos são os maiores responsáveis pelo marasmo social no que respeita à relação que temos com os nossos imigrantes. É uma tese não académica, confirmo. Mas permitiu dar dois exemplos: PCP e Bloco. O que eu fiz, todos o podem fazer; e daí tirar conclusões. Se os sites não são actualizados por causa de qualquer situação anómala ou porque nem sequer é um canal que mereça atenção, é problema que não me diz respeito. Fica que, como cidadão, não encontro em lado algum (nem nos veículos informativos oficiais!) a informação que procuro. Acham questão de somenos? Acham que é preguiça? Essas magníficas respostas, aqui em cima gravadas, dizem muito do autismo partidário.
Mas porquê dar como exemplo o PCP e o Bloco? Para o Daniel, eu não poderia ter escolhido pior; e não é que o homem acertou?… Realmente, algo de muito mau se passa em Portugal quando as duas forças políticas com maior protagonismo na defesa dos imigrantes são, ao mesmo tempo, exemplos de desleixo e inércia. Desleixo na comunicação e inércia no pensamento, eis o que está à vista no que apresentam e no que escondem. Porque se a actividade parlamentar e mediática, o trabalho com associações e populações, é uma constante, também constante é a tibieza desses resultados. De resto, seria inconcebível que organizações partidárias profissionalizadas, com orçamentos para gastos vários, pagando salários, tendo voluntários à disposição, não ocupassem as temáticas e tecidos sociais onde viabilizam a sua existência. Não há surpresa nenhuma, nem sequer merece frouxo aplauso, o facto de o Bloco e o PCP terem militantes e apaniguados seus metidos nas associações disto e daquilo, produzirem documentos ou organizarem colóquios. O que se discute é a eficácia dessas intervenções.
Para quem participa na vossa vida partidária, a revolução está de saúde. Há coisas a acontecer. Há papéis para mostrar. Há sítios para visitar. Há reuniões para comparecer. Há textos para escrever. Há fotos para mostrar. Há tempos de antena para preencher. Há eventos para encenar. Há pessoas com quem falar. A existência faz sentido, é uma questão de tempo até todos se convencerem das vossas verdades.
Entretanto, no mundo dos que apenas trabalham e vão para casa dormir, os dias passam sem se tropeçar nos partidos. A imigração cresce e as pessoas acomodam-se, mas não se aproveita a diversidade cultural para com ela fazer cultura. Esta a tese de todo o post, que abre com uma experiência no campo das ciências sociais. Por razões várias, Portugal poderia ser uma escola de solidariedade entre povos diferentes. Temos bagagem e lastro para tal, apenas nos falta a cabecinha. Dá-se é o caso dos partidos apenas se fazerem mediaticamente ouvir nessas matérias em períodos eleitorais. Mas ainda muito pior: os partidos não apresentam ideias do foro cultural, limitam-se a utilizar a temática para efeitos de combate político circunstancial. Os partidos não pensam, nem fazem pensar — são conúbios narcísicos.
Aborrece repetir o que já se repetiu: as propostas de lei, as participações em acções, a veiculação informativa (como no “Esquerda”, por exemplo) não estão em causa no post enquanto actividades formalmente meritórias. Para vocês, é o bastante. Para mim, não chega. Porque o modelo que reproduzem é o de uma organização fechada, cópia de associações de cariz religioso onde há um contentamento bovino com as virtudes próprias e uma acusação viperina na ponta da língua para exorcizar suspeitas alheias.
Que a coisa marchava assim, já o sabia. Depois desta discussão, fico assustado.
Eppur se muove
A discussão em PRETO NO BRANCO prossegue.
José responde a José
O leitor José levantou uma série de dúvidas, lá mais para baixo, sobre a minha polémica com Jorge Melícias. Espero que os posts que publiquei na Invenção de Morel (aqui e aqui) sejam suficientemente esclarecedores.
Portugal: queremos ‘isto’?

Portugal integrado na Espanha seria mais desenvolvido, mais produtivo, mais habitável? Qualquer inquérito aleatório – de rua, em site de jornal ou a dois taxistas – diria que sim. Suponho mesmo que qualquer inquérito bem estruturado o diria.
Ora o anti-intuitivo veio ontem expresso num artigo de Paulo de Pitta e Cunha, no Público. Intitulava-se «A união ibérica e a União Europeia: refutando a tese iberista» e continha este passo: «Não precisamos da integração política ibérica para nos desenvolvermos mais depressa, antes ela poderia levar a que se perpetuasse o nosso relativo atraso». E expunha-nos isto: que a tese iberista – ainda recentemente reformulada, com entusiasmo, por Saramago – contraria a actual deriva exactamente desagregacionista na Europa: os casos da Jugoslávia, da Checoslováquia, as tentações activas na Itália e na própria Espanha.
Faltou lembrar algo mais nítido ainda: que ‘ser Espanha’, e sê-lo de há séculos, não leva a grande desenvolvimento. Aí está a Galiza a mostrá-lo. Não se duvide: também nós, uma vez integrados, perderíamos (sucedeu aos galegos) os instrumentos para gerirmos os nossos recursos, os humanos incluídos. A Espanha não dorme em serviço. Nunca dormiu.
Mas não é a Espanha um magnífico país, dinâmico e boémio em dose invejável? Claro, entra pelos olhos. Mas isso não é razão para nos perdermos nele. A única boa razão para fazê-lo será a definitiva descrença em nós, o termos decidido que ‘isto’ já não nos interessa.
Ainda não chegámos lá. É até provável que nunca cheguemos. Esta coisa é certa: enquanto os iberistas não produzirem doutrina mais sólida, resta-nos rirmo-nos na cara deles. E irmos ao trabalho, senhores.


