Os guardadores de rebanhos

No DN de sábado, lia-se esta passagem duma crónica de Fernanda Câncio. Se essa passagem salvar uma vida, já valeu a pena. Se a sua cópia aqui puder salvar outra, halleluyah. Copiai, pois, e multiplicai-vos com mais tranquilidade. De resto, Alberto Caeiro, no poema VIII do «Guardador de Rebanhos», diz uma coisa que serviria aqui de epígrafe. Mas sejamos, por uma última vez, caridosos.

Preservativo, the católico way

Ao fim de 23 anos, de 23 milhões de mortos e 40 milhões de vivos infectados, a Igreja Católica pôs-se a pensar e achou que, caramba, se calhar o preservativo é um “mal menor” . Mas não vá a malta concluir que isto agora é à tripa-forra e ainda por cima com bênção celestial, esclarece a Conferência Episcopal portuguesa que a admissão do uso do terrível e até agora proscrito artefacto é apenas e só para o “contexto do matrimónio” e se “algum ou os dois estão infectados”. Traduzindo: os católicos não casados não devem usar preservativo seja em que circunstância for; os católicos casados que tenham relações extraconjugais devem esperar até ficar infectados e saberem-no sem sombra de dúvida para usar preservativo com a pessoa com quem estão unidos pelo indissolúvel laço (que por essa altura, pela lei das probabilidades, já há-de estar também infectada, pelo que a permissão está duplamente assegurada). Mas qual a surpresa? O objectivo da Igreja é salvar almas; o corpo é sempre um mal, maior ou menor.

A crónica na sua totalidade está aqui.

29 thoughts on “Os guardadores de rebanhos”

  1. Quanto à ICAR, que resta dizer? Uma vez que só quem estiver infectado com o HIV é que pode utilizar o preservativo, será lógico concluir que todos os outros casos de pénis enrolados em pecaminosos derivados da folha de borracha, arderão, sem apelo nem agravo, nas fornalhas do Demo. ..
    Haja paciência para aquela gente…

  2. A referência ao “mal menor” é já feita há muitos anos pela Igreja Católica. Cá em Portugal (há uns 15 anos!) um bispo disse numa entrevista à TSF q em contextos de promiscuidade “por amor de Deus usem o preservativo”. Pouco tempo depois foi eleito porta-voz dos bispos portugueses.
    Quanto às relações extra-conjugais, a Igreja é contra, logo não parece lógico estar a encorajar tais relações.
    Já agora: em África, as zonas de maior intervenção das igrejas são as que têm menor incidência de SIDA.

  3. Rui Almeida,

    Eu sei que, pela calada, padres e até bispos vêm sendo humanos. Depois, você próprio (quero crer que sem se dar conta) alinha na perspectiva católica, ao usar o termo «encorajar». Porque a questão é essa. A Igreja, parva (eu fui dela, e sei), tem medo de ser acusada de «encorajar», quanto só teria de ser caridosa e de proteger os fracos (todos nós, a seu tempo).

    Por fim: eu sei também que há, na malta missionária, gente porreira. Mas alguma dela sente-se mal consigo. Porque está a… desobedecer. Porra de mundo, Rui.

  4. Este tema tem sido invariavelmente tratado com ignorância. Uma ignorância bem-intencionada, sim, mas que não ajuda nenhuma das partes.

    A Igreja não tem como função a promoção de campanhas a favor do uso do preservativo. Esse é o papel dos Estados e demais organizações de saúde. Tal como não lhe compete apelar à legalização do consumo de drogas ou ao estabelecimento de quotas por género, entre uma miríade de exemplos do foro da sociedade secular.

    A Igreja está neste mundo, mas não é deste Mundo — acredite-se ou não, essa é a sua identidade. Logo, a Igreja é anacrónica e intempestiva, é absolutista e moralista. Fala para os fiéis, não se impõe aos laicos.

    Porém, qualquer um se sente à-vontade para ofender a Igreja. Chega a ser um automatismo. E esses rápidos pistoleiros da opinião superficial e inane são também exemplos acabados de má-fé. Pavoneiam-se numa falácia de cristalina imbecilidade: por um lado, pressupõem que uma qualquer percentagem das infecções (no texto da Fernanda Câncio, sugere-se a totalidade) é o resultado da proibição romana quanto ao preservativo, como se os 63 milhões de casos correspondessem a 63 milhões de zombies que aliariam a sua inconsciência ao escrupuloso cumprimento da doutrina católica; por outro lado, não gastam uma caloria a relacionar a mensagem com as mensagens, apagando a solicitação primeira à monogamia, à castidade e ao celibato.

    Claro, louvar a monogamia e a castidade não é tarefa gratificante, seja por não ter audiência, seja por não fazer sentido. A sociedade é promíscua, adúltera e irresponsável; e quer continuar a ser. Ironicamente, são os próprios especialistas na pandemia de SIDA quem anda a dizer, com cada vez menos sucesso, que não há melhor profilaxia do que a mudança de comportamentos, do que a monogamia e do que a abstinência. Ou seja, a Igreja leva 2000 anos de avanço na luta contra a SIDA.

    Dito isto, só mais três coisinhas:

    – Tirando raros casos patológicos, não conheço ninguém que obedeça na íntegra e cegamente aos preceitos da Igreja — bem pelo contrário e muito, muitíssimo, pelo contrário. A Igreja é irrelevante nas sociedades pós-industriais, como já o era nas industriais onde estava reduzida ao moralismo para gasto social. Hoje, é uma realidade folclórica, incapaz de se fazer ouvir. E quando lhe permitem tempo de antena, não é por interesse, é por oportunismo e manipulação de audiências. Isto não permite afirmar que esteja no fim, apenas que voltou às catacumbas, onde a fé se esconde para se salvar.

    – A Igreja comunica mal. Detendo um legado espiritual que se mantém prístino, está servida de recursos humanos sem formação adequada ao tempo da fragmentação que é o nosso. Esta falência na transmissão é inevitável, mas não irremediável. Faz parte do próprio dinamismo evolutivo da fé.

    – A Fernanda Câncio fez bem em escrever e o Fernando fez bem em destacar. É por aí que vamos, reunindo as boas vontades e ousando um amor implacável pela Verdade.

    Nota: o texto do António, em link aqui em cima, poderia levar a minha assinatura.

  5. Os católicos só devem ter relações sexauis num contexto de casamento. Por isso as outras situações, não poderão ser teoricamente contempladas.

  6. Do mesmo modo que os militantes trostskistas não seguiram as directivas do Louçã, quando em tempos também era contra o uso do preservativo, argumentando que a Sida era uma invenção dos EUA para contrariar o amor livre.

    Os textos foram publicados no jornal antigo Bloco de Esquerda e ainda se podem encontrar na Hemeroteca.

    Quanto aos autores, estão vivos e de boa saúde. Fazem parte do BE.

  7. Valupi:
    Olhe que esse casaco que traz está um bocado mal cosido. Ou então V. padece de ingenuidade, sem a consciência dela.
    Nesta matéria (como dizem todos os políticos), ninguém espera da ICAR que ande por aí a promover campanhas que lhe não incumbirão. O simples que se lhe pede é que não empate, não perturbe, não impeça. Não não torne tudo ainda mais difícil.
    Se a ICAR fosse uma sede de fraternidade cristã e humana, nem seria preciso pedir-lho, tão fácil que é entendê-lo.
    Mas não é. É uma sede de poder. E de fariseísmo, ainda mais antigo que a sua (dela) “luta contra a SIDA”.
    Está tudo no título do post: Os guardadores de rebanhos!

  8. Valupi:
    “A Igreja está neste mundo, mas não é deste Mundo”.
    Se V. está mesmo convicto do que diz (e apesar do seu subtil jogo dos mundos),porque é que não manda um aviso urgente ao Papa B16. É que ele ainda não sabe disso, homem!

  9. Valupi,

    Eu podia, e talvez devesse, limitar-me a citar o Jagudi, que já te escreveu:

    «Ninguém espera da ICAR que ande por aí a promover campanhas que lhe não incumbirão. O simples que se lhe pede é que não empate, não perturbe, não impeça. Não, não torne tudo ainda mais difícil».

    Isso deveria poder bastar. Mas terei de lembrar-te mais esta coisa. Uma afirmação como «A Igreja está neste mundo, mas não é deste Mundo» é simplesmente revulsiva (e fico por este adjectivo doce). Eu podia contar-te o que a Igreja-que-não-é-deste-Mundo fez de gente que me esteve muito próxima. Mas este nosso não é um blogue testemunhal, e baste a minha convicção de que, se és católico, quererias enterrar-te de vergonha.

    A Igreja-que-não-é-deste-Mundo foi, e tu sabes isso, uma invenção de Saul de Tarso, um ser mesquinho, imensamente inteligente, mas frustrado por não ser da conta dos Doze, e mais que tudo não ser nela Número Um. Aí começou a Igreja-que-não-é-deste-Mundo a ser a Igreja-que-não-é-deste-Mundo. Cobarde, traiçoeira, sempre pronta a dar a facada e subir ao púlpito dizendo que não foi ela. Porque nada pôde ter feito que se lhe assaque. Porque, por Zeus, ela não é deste Mundo!

    E aquele Fulano de Nazaré queria que ela fosse. Teve azar. Ele, e nós todos.

  10. Porque será que os blogs mais lido, aspirinaB incluido são desta indigencia e desonestidade mental?

    A igreja defende uma coisa parecida com o programa ABC, que tornou o Uganda praticamente o unico pais da Africa negra com algum sucesso na luta contra a SIDA.

    Porque será que os tipos de “encefalograma plano”, como o autor deste bost, imaginam que alguem que tenha sexo com uma prostituta deixe de usar preservativo porque a Igreja é contra?

  11. Cam:
    Deixe-se de charadas, e explique lá o seu ponto de vista como se a malta fosse estúpida. É que assim ninguém se entende.

  12. “A Igreja é irrelevante nas sociedades pós-industriais, como já o era nas industriais onde estava reduzida ao moralismo para gasto social.”

    Não concordo mesmo nada, Valupi. Onde se pensa que a influência da Igreja está esgotada ou estagnada, ela ressurge sempre, de forma mais ou menos consciente, para o bem ou para o mal. ainda ontem alguém comentava comigo que “tudo em que a igreja se mete funciona, são os melhores gestores da humanidade”. Essa perda de influência de que falas é mais aparente que real.

    Outra coisa: o preservativo é uma das muitas formas de evitar doenças sexualmente trabsmissíveis. Mas afirmar que a Igreja católica é a responsável só porque não aonselhava tal meio é no mínimo absurdo. É que se as pessoas cumprissem os seus ensinamentos na matéria, em especial a fidelidade e a estabilidade nas suas relacções (coisas horríveis, moralistas, “medievais”), a utilidade dos contraceptivos seria dimunuta. Mas para os tradicionais críticos da Igreja, os fieis obedecem-lhe num caso e fazem ouvidos de mercador noutro.

  13. Essa Fernanda Câncio é um exemplo daquilo em que se transformou o jornalismo. Um clube de apadrinhamentos, propagandas e doutrinas. Acaso apresenta algum estudo que leve a concluir os efeitos nefastos da directiva papal?

    È que podia-se perguntar se em África se lê o diário do Vaticano sempre que se faz sexo ou se o máximo que ainda poderá contar para se fazer o mesmo e depois ir à confissão é o padre da aldeia ou a freira missionária.
    Seria mais conveniente apresentar os resultados das missões católicas em lugares para onde estes jacobinos ateus não vão.
    Como seria mais importante apresentar os trabalhos dos responsáveis políticos que não vivem no Vaticano nem têm como missão dizer o que é ou não é pecado.

    Os primeiros dão directivas de consciência, os segundos são responsáveis pelo seu povo.

    Mas bater na Igreja é sempre mais fácil. Quanto mais não seja porque se diz sempre o mesmo sem precisar de apresentar trabalho.

    Era mais fácil pedirem a demissão do Papa. Ou a troca por uma papisa Câncio

  14. Mas estes soissantehuitards imaginam que é pôr a camisa e foder o que estiver mais à mão? A cabeça, a de cima, também é para usar, seus micrónios. No Uganda, no Quénia, na Tanzânia, o êxito do combate à sida, como reconhecem os insuspeitos propagandistas da Onu, não se deve à campanha preservativa… Em 1983, quem começou a tratar dos doentes com Sida na Califórnia foram os… dominicanos, sim esses da inquisição… O nandinho, como diz, saiu da Icar (?!), por isso, embora vá contra o que lhe é natural, não fale daquilo que não sabe.

  15. Jagudi

    Aproveito a deixa e reclamo uma ingenuidade consciente de si mesma. Pelo paradoxo é que vamos.

    O argumento anti-poder é pífio. O do farisaísmo é nulo. Resta a tese do impedimento. Ora, já no meu texto inicial a desmontei, pelo que talvez não seja possível dirimir a questão pela via racional. Preferia o seguinte: encontrar uma pessoa qualquer, em qualquer parte do mundo, que seja católica e não use preservativo por querer respeitar o interdito. Só uma. Não mais do que uma. Em todo o mundo.
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    UFO

    Não entendi o comentário, e não sinto, com essa falha minha, que me esteja a faltar alguma coisa de importante.

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    Fernando

    Não sou católico, nem sequer cristão. E quanto aos crimes (e infames horrores) cometidos pela Igreja, na Igreja e em nome da Igreja, duvido que me consigas surpreender.

    Parece-me é que estás a misturar conceitos. A Igreja enquanto instituição social e política é uma realidade igual a qualquer outra da esfera secular. Sendo habitada por homens, é pervertida pelos homens. É puta, como gente de cabedal teológico não tem prurido em lhe chamar. Mas Igreja é também o substantivo que designa o Corpo Místico de Cristo, realidade simultaneamente imanente e transcendente, espiritual e encarnada. É santa. Aqui estamos no domínio da fé, só entra quem bater à porta.

    Desta mistura nascem os equívocos, com cada um a olhar apenas para a parte que lhe convém ou que consegue alcançar. Enfim, and to make the long story short, em cada crente encontras a Igreja espiritual — não precisas de te deslocar ao Vaticano para conheceres o essencial do catolicismo, basta aproximares-te de uma pessoa de fé (aliás, basta aproximares-te de uma pessoa, seja lá ela quem for…). Foi esta a mensagem do Nazareno (mutatis mutandis), a qual continua dentro do prazo de validade e que provocou o trambolhão do Saulo.
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    João Pedro

    Não está em causa negar o poderio da Igreja. Se atribuirmos um qualquer valor aos seus bens e recursos humanos, contratos, esferas de influência e quejandos, resulta que é uma das organizações com mais poder na Terra. Contudo, é um poder que existe por herança. As suas assembleias estão vazias, as suas publicações não são lidas, os seus líderes não são tidos em conta para a conta-corrente do viver. A Igreja não faz ideia de como deve dialogar com os infiéis, muito por culpa de começar por não saber como dialogar com os fiéis. E compreende-se bem porquê: o Mundo roda a uma velocidade que deixou de ser possível de acompanhar; e isto desde o Renascimento…

    Repara no completo falhanço da Igreja na comunicação social. Se a fama de “melhores gestores da humanidade” tivesse razão de ser, um fracasso como o da TVI não teria acontecido. E ainda hoje se ouvem lamentos da hierarquia, sonhando com programas e canais. Por aí se vê como a Igreja não sabe o que fazer, pretendendo tão-somente imitar o que os outros fazem.

    Agora, que ninguém se engane: a questão da fé não se confunde com a presença social da Igreja enquanto instituição chefiada pelo Papa. O modelo do Vaticano é o da monarquia que se impõe como tirania, o modelo da dimensão espiritual é o de uma absoluta democracia que se consuma em comunismo. Afinal, tudo isto é lógico numa religião que adora um Deus feito homem, nascido de mulher virgem, que morre para nos salvar. É um sublime absurdo que continua a entusiasmar todos aqueles que querem sair desta pausa na escuridão com a curiosidade saciada; ou ainda mais esfomeada…

  16. Valupi,

    Tu dominas como poucos a subida, e invejável, arte de desconversar. Ou, em inefáveis termos teus, «pelo paradoxo é que vamos». E aqui, das duas uma: ou se aguenta ou não se aguenta. No teu caso, eu aguento, porque consegue ver-se que não és só paradoxos. E que, se os lanças, é em parte para fortemente denunciar equívocos, em parte para que as águas saudavelmente se mexam, em parte para nos, e te, divertires.

    Acontece que a questão central continua. E ela é a de uma Igreja Católica que se deseja consciência de crentes. Sim, só teólogos excepcionalmente inteligentes reconheceram alguma vez a liberdade de consciência individual. A Igreja oficial, ela, quando fala em consciência individual quer dizer disposição para obediência ao Seu decálogo (que já vai, sabes, em dezenas de dezenas de itens). És livre, mulher, homem, desde que faças o que a Igreja acha que deves fazer. É isso: a Igreja Católica sempre foi cagarolas. Tem medo do Mundo, tem medo da opinião, tem medo de «ti», pessoa pensante. (E insisto no «Católica», porque as confissões protestantes respeitam bem mais o indivíduo, a «ti», achando que és responsável perante Deus. Ainda não é a pura responsabilidade perante ti mesmo, mas é já um avanço de respeito).

    No caso concreto, deveria esperar-se que a Igreja Católica dissesse aos seus aderentes: «Gente, vocês sabem, de há muito, qual é a nossa posição – sexo só no matrimónio – e isso tem até, no contexto, vantagens profiláticas. Mas quem decide é você. Nós não queremos pensar por si».

    No caso mais concreto ainda: tudo o que salve vidas humanas tem de aplaudir-se. O aconselhamento da castidade, da abstinência? Perfeito, mostra coragem. Mas também o aconselhamento de protecção pelo látex por parte de padres e freiras missionários. Eles são não menos corajosos. Eles sabem que uma parte, ínfima que seja, da disseminação da epidemia se deve a desumanas consequências do tabu da Igreja Católica ao preservativo.

    A Igreja quer sê-lo só de anjos. Pelo caminho, vai aceitando alguns cadáveres.

  17. Pedir à Igreja um palpite sobre sexo é como, sei lá, pedir à TVI opiniões sobre bom gosto, ou à Margarida Rebelo Pinto explições de literatura: gajos que fazem voto de castidade, e que o único sexo que conhecem é a mariquice disfarçada e envergonhada dos seminários, julgam que o único sexo que existe é o sexo que eles conhecem: hipócrita e culpado. Sucede que, fora da Igreja, há o Mundo, há as gajas (esse continente tão bonito, que os doutores a Igreja simplesmente desconhecem) e há quem se esteja nas tintas para os palpites papais sobre bota a camisinha ou não botes a camisinha… Bento? O único digno desse nome mora em Alvalade e vai levar-nos direitinhos à Liga dos Campeões!

  18. A esta crónica falta aquilo que falta a quase todas de esqeurda: 2 dedos de testa.
    Claro está que a Igreja católica é responsável não só pelo surgir da SIDA e pelo seu alastramento em países católicos como o são os do sudoeste asiático e as tribos africanas.

  19. Valupi, deixe-me reincidir:

    A ICAR (que estranhamente alguém aí parece não reconhecer, e é apenas a Igreja Católica Apostólica Romana) não é a voz da divindade que a humanidade espera, e de que sempre se mostrou precisada. Uma voz que edifica, reconforta ou cura. Como Cristo, para os cristãos.
    A ICAR é uma organização de poder, eficaz como nenhuma outra. Usa Cristo.
    Diz V. que preferia “encontrar uma pessoa qualquer, só uma, em qualquer parte do mundo, que seja católica e não use preservativo, por querer respeitar o interdito”. Já viu V. prova mais cabal, e mais gritante, do fariseísmo católico? Se ninguém respeita o interdito (incluo os próprios ministros da igreja), para quê o interdito? Pelo poder.
    Mas V. vai mais longe. Reclama-se, perante isto, de “uma ingenuidade consciente de si mesma. Pelo paradoxo é que vamos”.
    Pois vá! Mas olhe que não há livro de reclamações.

    Pedro, das 11:23:
    Você, que parece ter dois dedos de testa, já viu aqui alguém sustentar que a Igreja católica é responsável pelo surgir da SIDA, ou pelo seu alastramento em tais países?
    Aqui apenas se verberou a proibição do preservativo, por parte da igreja. Isto considerando que o uso do preservativo é UMA das formas de evitar a disseminação do vírus. Além das outras que existem, claro!

  20. Fernando

    Subjaz ao teu raciocínio um conjunto de questões que ultrapassam o tema. Vejamos algumas.

    Nenhuma religião admite a liberdade individual, se por liberdade estivermos a referir o livre-arbítrio dissidente ou opositor. Trata-se, apenas, da aplicação do princípio de não contradição: uma coisa não pode ser e não ser, ao mesmo tempo. Assim, não se pode aderir e não aderir, ao mesmo tempo, a uma religião. Desta evidência solta-se o fio de Ariadne que nos poderá salvar nesta discussão: ninguém pode ser obrigado a confiar o seu destino a uma qualquer religião — mas, confiando, decorre que se conforma com a sua identidade.

    Outra temática implícita é a da matriz da racionalidade religiosa. As religiões não são filosofias, ideologias ou tratados científicos; são mitos. Estamos no domínio do pensamento mágico. Os pressupostos com os quais se estabelece a doutrina ficam isentos de escrutínio, sob pena de fazer ruir o edifício. Logo, qualquer ameaça aos fundamentos da crença é alvo de um ataque que confirma, e reforça, a armadura lógica que envolve postulados arbitrários (porque não demonstráveis).

    Salto para os preservativos. A Igreja tinha uma de duas opções: ser coerente; ser incoerente. Ser coerente é afirmar o seu credo, guiando-se pela sua racionalidade. Nela, um preservativo é um meio de ofender a dignidade humana e a vontade de Deus. Porquê? Pelas razões de todos conhecidas; mas, se for preciso, posso apresentá-las. O que aqui importa realçar é que o interdito relativo aos métodos anticoncepcionais é decorrente da interpretação do texto bíblico, em nada se relacionando com questões de higiene ou saúde. Ou seja, antes da SIDA já se proibia o preservativo, mesmo havendo outras doenças à disposição para reclamar o seu uso obrigatório segundo um ponto de vista secular. Por que razões, perante a pandemia de SIDA, arriscou a Igreja despertar a fúria da turbamulta, quando teria sido tão mais fácil (aparentemente…) aquiescer?

    Afirmar a bondade do preservativo provoca uma reacção em cadeia: se o preservativo é legítimo, os métodos anticoncepcionais artificiais são legítimos; se os métodos artificiais de impedir a gravidez são aceites, a sexualidade pode ser apenas uma actividade lúdica; se o sexo é divertimento inconsequente, o corpo é passível de manipulação e até de exploração comercial; se o corpo é alienado do seu estatuto de imagem de Deus, a alma está perdida. Isto é, uma fina película de látex separa o Céu do Inferno.

    Salto para os crentes. Há-os de dois tipos, e não mais do que dois: os que o são; os que o não são. Quem não se liga à Igreja nem sequer está preocupado com o que ela diz ou deixa de dizer, vai sem discussão — mas será que algum dos crentes, dos dois tipos, estará a pôr em risco a sua vida e a de terceiros por causa da Doutrina Católica? Esta a questão crucial neste debate, e gravíssima. Será grave descobrir que sim, mas também grave (embora numa outra ordem de importância) descobrir que não, pois a acusação é tremenda.

    O raciocínio que admite que sim, que a Igreja é responsável por alguma infecção (bastaria uma ou bastaria ser o tal impedimento acima referido), precisa de fechar os olhos e apoiar-se numa crença para se desenvolver.

    Por um lado, confunde letra morta com letra viva, reduzindo a Igreja à doutrina e esta a decretos — como se a Igreja não fosse, outrossim e principalmente, um Corpo de pessoas que interagem com pessoas; em liberdade e procurando fazer o Bem. A este estigmatismo acrescenta-se uma miopia em último grau, onde o interdito do preservativo cai do céu desamparado, obliterando-se todo o seu contexto que em nada se pode relacionar com a transmissão da SIDA — absolutamente pelo contrário e até se promovendo a profilaxia no mandamento da monogamia, castidade e abstinência. Culmina na bestial cegueira de relacionar pares antagónicos, em que uma sexualidade promíscua e irresponsável estaria a ser destinatária de interditos de fé cuja consequência inevitável seria o aumento das transmissões do vírus.

    Por outro lado, apoia-se num exercício imaginativo onde os crentes da Igreja são “tabulas rasas” da doutrina, incapazes de sentido crítico, discernimento, mero bom-senso. De facto, assim concebidos, esses escravos do Vaticano estariam à mercê das mais desvairadas encíclicas ou vagidos teoalcoólicos de um qualquer abade já senil. Pois não é assim. Para os crentes que o são, o primeiro dever é o de fazer tudo o que for humanamente possível para evitar o Mal. Estes nunca teriam um comportamento contraditório com a razão de ser da sua fé, nunca estariam nas circunstâncias em que se soubessem a arriscar uma infecção em si ou em terceiros — decorre esta certeza da definição dos termos, o serem crentes. Para os crentes que o não são — ou seja, para essa enorme maioria que tem um dedo do pé dentro e o resto do esqueleto fora — os critérios que regem a sua acção em nada respeitam doutrinas religiosas, antes são o reflexo das psicologias comuns, onde a ética é assunto privado, subjectivo e idiossincrático; pois caso não o fosse, seriam crentes que o eram.

    Não despiciendo para a conversa é também o registo dos crentes, tanto os ordenados como os leigos, na ajuda aos infectados e na campanha pela prevenção, onde se inclui a formação de pessoas e a distribuição de preservativos. A Igreja, a que os Evangelhos revela, são eles.

  21. Jagudi

    A propósito do recente passamento de John Kenneth Galbraith, recomendo a leitura de “The Anatomy of Power” (trad. portuguesa Edições Difel). Nesse livro, de leitura basto fácil e rápida, se pode ler uma verdade que não desmerece a divertida memória de Monsieur de la Palisse: nem todo o poder é mau; mais, quase todo o poder é bom; muito mais, não há existência sem o exercício de uma qualquer modalidade do poder.

    A Igreja tem poder e ambiciona ter ainda mais poder. Sim, e daí? Em que é que difere de um médico, juiz ou pastor, de mim ou do meu vizinho? Ter poder é uma maravilha, meu caro. O que se faz com ele é que é outra história.

    Já agora, acaso se tem ideia, por vaga que seja, dos efeitos do poder que a Igreja ostenta na sua acção de apoio social e psicológico?…

  22. Valupi,

    Tu e a Igreja Católica mantêm a mais saudável das relações. Noutras épocas, ter-te-iam feito cardeal, coisa que se fazia a padres, mesmo a leigos, quiçá a incréus, sendo esta última circunstância despicienda. Era uma espécie de comenda, celestial essa. Pelos grandes serviços prestados. Se não te acautelas, e se jesuítas ou gentes da opus lerem este blogue, não tardará a receberes um convite para uma conversa discreta. Talvez para duas, com o que podes subir a parada. Não to invejo.

    Digo-o sem ponta de ironia. Porque tu tens com a Igreja Católica uma relação feliz. Outros têm com ela um passado, que atravessam a vida pontapeando, cotovelando, anestesiando. Tu não. Olha-la nos olhos, toma-la dum braço, até ajudá-la a atravessar a rua fazes. Como aqui. Pura caridade. Interesse pouco. E esse resto deve-se à maravilha (tu dixisti) que é exercer um poder, o da palavra no caso atinente. O dos jogos mentais a começos de madrugada.

    Acredito em cada uma das palavras que escreves, e todavia sei que um Universo sem princípio de contradição (o gajo chama-se assim) te seria igualmente confortável. Encontrando-me eu, sem mérito por aí além, para lá do bem e do mal, sei manter-me sem desgaste de maior na crista da lâmina em que adoras ver-nos andar. Mas sabes – tem-lo visto por aqui – que o teu destino é irritar o pagode mais frágil, e ter poucos amigos. Espero que os tenhas bons. A Igreja já a tens. Não o sabias. Fica-te bem.

  23. O processo de intenções feito por essa tal de Câncio ao que foi dito na Conferência Episcopal, na forma de “traduzindo…”, ou é uma imbecilidade da autora, na boa linha da esquerda folclórica, ou é a utilização de mecanismos utilizados quer por nazis quer por comunistas para desacreditarem o que é dito pelos adversários/inimigos. Não há dúvida que essa tal de Câncio não conhece os fundamentos da Igreja Católica e como todo o ignorante, gosta de falar do que não sabe.

  24. Essa Câncio não conhece nada, não sabe nada e só é jornalista de nome. Limita-se a vender uns comentários politicamente correctos, acompanhados de doutrina esquerdalha.
    Debita isto do púlpito como se alguem estivesse interessado em saber as suas opiniões.

    Jornaleiros destes deviam confinar-se aos blogs

  25. Será que a Igreja Católica já entregou a declaração de IRS referente a 2005?

    Pergunto-me se na rubrica “despesas de saúde” não aparecem lá uns “diversos” de natureza camiseira, destinados a não inflar barrigas-de-freira e outras moças adocicadas que se cruzam nos desígnios das batinas incautas em dias de vento suão.

    Vocês sabem de que é que eu estou a falar. E se não sabem, não se preocupem — apesar de ser um nabo na fiscalidade, eu sei. Mas nego tudo.

    Até já.

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