Matéria negra

Há uns dias, conheci uma mulher a quem morreu um filho. Antes de a ver, já sabia do drama banal: o miúdo que desfalece sem aviso, o diagnóstico de tumor incurável, a tentação do suicídio, o longo e raivoso luto. Já sabia que não tivera mais filhos nem regressara por inteiro à vida; sabia que mantinha intocado o quarto da criança morta, que o seu desgosto se dava a mais uns quantos caprichos um pouco sinistros. Imaginei que todos os convivas daquele jantar tivessem também ouvido as mesmas histórias, recitadas entredentes como um segredo quase vergonhoso ou como uma fábula terrível que deixa sempre o mesmo arrepio: “e se tivesse sido eu?”
Claro que aquela mãe presa num nojo perpétuo e malsão tinha tudo para ser a atracção principal do jantar. Ainda em pé e de copo na mão, dei por mim a espreitá-la através de uma distância meio respeitosa meio medrosa. Estar face a alguém que sobrevivera a uma perda assim parecia-me coisa admirável; quase como conhecer o primeiro capitão a ultrapassar o Bojador ou trocar banalidades sobre o tempo com um astronauta reformado. Temo ter embasbacado por longos segundos, feito mirone da dor alheia. Mas não era o único. Bastou-me um pouco de atenção para reparar na lenta coreografia que animava os convivas: estes aproximavam-se da mulher, como que por casualidade, endereçando-lhe algumas palavras nos casos mais afoitos, e fugiam de seguida para a outra ponta da sala. Presos a órbitas parabólicas em redor de um astro que mal tocam: atraídos até certo ponto para logo se verem repelidos, talvez receosos de arriscar um qualquer contágio pela proximidade excessiva.


Quando chegou a hora de nos sentarmos à mesa, acabei por me tomar um lugar mesmo à sua frente. Fiz o possível por não ceder à curiosidade ofensiva, tentei desesperadamente olhar para outro lado, não prestar atenção a cada um dos seus gestos. Embalde. Não que houvesse ali muito de notável para observar. Ela empenhava-se em pequenas conversas de circunstância, ria de quando em vez, companhia quase graciosa para um jantar formal e atabafado demais.
Repare-se que nem me imagino a tentar sobreviver à perda de um filho. Sei-me absolutamente incapaz de tal feito. Mais uma razão para procurar sinais de vitalidade e de força indómita na postura dobrada daquela mulher, nas olheiras crónicas, nos olhos vagos que pareciam sempre focados um pouco para lá dos seus interlocutores. Havia ali, estava eu capaz de garantir, uma ausência qualquer. A sua pele, a parte dela que participava nos trâmites sociais da refeição, estava sentada à minha frente e até tinha a delicadeza de responder às conversetas voláteis que circulavam pela mesa sem pouso certo. Mas tudo aquilo tinha um ar algo mecânico, moroso, dolente. A réplica que tarda um segundo a mais, o olhar distraído desmentindo o sorriso da voz. Como se ela estivesse algures num recanto tranquilo, ou secretamente entretida com assuntos mais prementes, depois de deixar para trás uma casca vazia, incumbida da missão de entreter os mirones e despistá-los do paradeiro da dona. Poderia também ela ter pura e simplesmente desaparecido. Como um buraco negro, uma daquelas estrelas que se curva sobre si mesma, que implode cedendo ao seu próprio peso até se converter num novelo de gravidade e escuridão, num labirinto tão espesso que nem um vestígio da luz antiga dali consegue escapar. Nesse momento, aquilo que nos torna humanos talvez se transforme numa outra coisa qualquer: uma outra forma de vida, para sempre inacessível ao entendimento e ao consolo dos que cá ficam.
Dizem os astrónomos que o universo é composto sobretudo por matéria negra; que andam por aí galáxias opacas, obscuras, invisíveis, massas tremendas que atrasam as estrelas que vemos na sua expansão. Será que lá vive gente igualmente escura e terrível, gente como aquela mulher, sonhando sonhos de escuridão, vergados à força da sua gravidade feroz? E se algum dia os encontrássemos, como poderíamos ambicionar entendê-los? Por mais sinais que quiséssemos ler, a sua escuridão seria sempre um degrau mais funda do que imaginávamos, a sua distância ainda mais colossal do que acreditávamos. Lembro-me agora do lamento que Shakespeare ofertou a Ricardo II:
“The shadow of my sorrow! ha! let’s see:
‘Tis very true, my grief lies all within;
And these external manners of laments
Are merely shadows to the unseen grief
That swells with silence in the tortured soul”

Mas porque me teria eu lembrado de apontar a uma mãe enlutada os cuidados da minha imaginação? Já era tempo de aprender que somos todos indecifráveis uns para os outros. Qualquer teoria é boa e aceitável; pelo menos vai servindo para fazer conversa. Por exemplo: será que o desgosto não pode ser um consolo em si? Um centro que dá norte ao que de outra forma seria tumulto e caos? Mas seria rota difícil, a exigir atenção a uma bússola ensimesmada, sempre a apontar para longe do nosso mundo. E olhem que não se trata de ideia minha:
“Grief fills the room up of my absent child,
Lies in his bed, walks up and down with me,
Puts on his pretty looks, repeats his words,
Remembers me of all his gracious parts,
Stuffs out his vacant garments with his form;
Then have I reason to be fond of grief.”

Mas tudo isto é só ociosidade e desejo de inventar histórias dignas de nota. Ao fim e ao cabo, nada se passou naquele jantar.

29 thoughts on “Matéria negra”

  1. LR

    Este seu longo post, infelizmente, nada nos diz carradas sobre o mundo das pessoas palpáveis, incluindo você próprio mesmo com as mudanças em ponto morto. Entre outras coisas, o post pendura-nos pelo cú das calças no abismo dos infinitos imaginários de implosões estelares a partir de situações prandiais onde não se servem propastos favoritos a ninguem. No saco das muitas motivações que poderão ter sido cúmplices deste tipo de escrito há uma que talvez sirva: a fantasia baseada num sopro quotidiano anónimo da sua vida muito aborrecida pelos túneis e corredores da incompreensão política telecomandada à distância, sopro que lhe deu o ensejo literário para arrancar, pela via da transferência amparada a ditos de fantasmas shakespearianos e matéria negra, com ideias e propostas autoaniquilantes e serventes da murchidão generalizada da área do verdadeiro descobrimento e conhecimento. Esse, aliás, tem sido defeito muito visto e intenção disfarçada de ranchos e ranchos de letradores antigos e modernos: vender-nos o peixe pessoalíssimo convencidos que nos mostram o retrato do mundo. E a malta tem ido nisso, abrindo bocas desmesuradas e tomando notas.
    Mas como tudo serve para conversa, você próprio nos avisa num rasgo de lucidez final que caiu muito bem, why not, guys? Quando há falta de música até se dança ao som das colheres e garfos a arrastarem barrigas e dentes pela melhor Vista Alegre.

    Já tem o chantilly do Valupi. Parabéns!

    Compreensivo II

  2. Já que estamos assim juntos (este Anonymous é um amigo, não te assustes, Luís – o Valupi e eu conhecemo-lo, ele costuma andar por aqui com deliciosos avatares, que até, pessoanamente, polemizam entre si), sim, entre nós, eu diria que o Luís escreveu uma belíssima crónica, sobretudo se entendida na vertente que os brasileiros mais exploram. Todos os ingredientes do género aqui estão: o insólito, a incomodidade, a fuga para a reflexão, a fuga para a abonação, e o final apontamento de que nada se passou. Parabéns, cá me fica. Está já no ‘map’ de crónicas do século XXI.

  3. 14 – O senhor Fernando Venâncio quer dar a impressão de estar sempre a tomar conhecimento de alguma coisa. É a estranha preocupação de simular omnisciência. Recusa-se a aceitar que está atolado na ignorância e de cada vez que escreve algo, ficamos com uma sensaçãozinha de ladroagem. É assim um excelente indigente de serviço. O único termo que o define é em inglês: “blag”!
    O senhor Fernando Venâncio e o seu Aspirina, andam perigosa e violentamente a enganar meio mundo. Como é que nós, humildes comentadores, poderemos moralizar este estado de coisas? Aconselhando-o a tomar consciência da justeza das nossas questões éticas, que deverão pautar a sua conduta.

  4. A Golpada dos Manos Sá

    O ParqueMilhões não poderia ter aparecido em melhor altura para os manos Sá. O nome do benemérito: Domingos.

    O Domingos foi ter com o Ricardo (Ric) e disse-lhe que queria presentear o mano Zé com 200 mil euros. Os olhinhos do Ric brilharam e telefonou logo ao Zézinho:

    – Mano, veio ter comigo uma mina de ouro – e po-lo ao corrente do sucedido.

    O Golpe foi montado. O Ric e o Zé simularam uma “indignação”, e ficou decidido que o Ric iria fazer uma queixa à Direcção dos Crimes Económico-Financeiros da PJ. As autoridades montaram um esquema em concluio com os queixosos, que culminaria com um 4º encontro no bar do hotel Mundial, no Martim moniz, onde o Domingos entregaria a prenda, sendo apanhado pela PJ em flagrante. Por razões desconhecidas para a autoridade, mas óbvias para nós, esta reunião nunca se realizou. Os maninhos tinham calculado tudo ao milímetro: ganharam o ParqueMilhões e o título de heróis. O Zézinho ficou com uma carreira política vitalícia, por ter sido considerado pelo povo um incorruptível e o mano Ric conseguiu que os seus escritórios fossem contratados pelo Domingos para o defenderem. A Rita, que trabalha no escritório do Ric, está agora a defender o Domingos. Os 200 mil irão assim ser multiplicados por 100 ou mais!

  5. Tu, paspalho das 11.31, que não consegues desandar daqui, o cheiro desta cloaca deve dar-te tusa, não sabes, nem tens meios de saber, que desde 1985 me venho ocupando, na imprensa portuguesa, do fenómeno «crónica», em particular de jornal. Ninguém em Portugal fez metade disso. Acho que chamar-me «blag» neste assunto é um exagero.

    [Esta nota, parecendo-o, não é para ti, não te faças meigo.]

  6. Fraquito este texto. O primeiro paragrafo esta’ bom, mas os outros precisam de ser trabalhados. Ha’ imensas palavras desnecessarias.

  7. O senhor Fernando Venâncio revela uma grande dificuldade para encontrar, e aceitar, a sua identidade. Um bocadinho de meio-termo talvez o ajude a sair do buraco: o prazer de tentar melhorar a vida com paciência e perseverança. Uma das facetas mais curiosas desta personalidade do Aspirina, é o seu masoquismo, que cheira a remendo de mau pagador. Os seus artigos têm sempre um tom de arruaça e provocação chocarreira, que reflecte o que tem sido a boçal prática dos blogues de esquerda.

  8. a) — Os tempos vêm de crise; e eu tenho para mim que as palavras caras são o luxo banal das conversas baratas. Por isso sinto agora ásia no estômago, outros continentes até, sintoma da malnutrição que me impuseram estes comentários. Fora talvez a cacoépia (pág. 273, no da Porto Editora) da verborreia derramada, a estolidez (pág. 695 do mesmo) consagrada à edificação memorial do próximo ou uma procacidade (pág. 1349, idem) sem outro rumo que não o de retornar ao primevo cais de partida. Fosse o que seja, falta-lhe força. E dá-me sono, porra.

    b) — Mas se venho a um blogue não desdenho do conteúdo. Entro e saio, entro e saio, entro e saio e de quando em quando até me venho. Em surdina. Mas se entro e torno a entrar repetidamente não vou a contracções tantas desatar a desconstruir a sua concameração, lamentar a aspereza da sínfise púbica ou argumentar que o ponto G é um mito. O Grafenberg que se foda, mas se entras e sais agradece ao pubococcígeo. Não te queixes: ou não entras, ou aguentas como gente glande.

    c) — No fim de contas, com este singelo comentário eu tinha a pretensão primordial de perguntar apenas onde raio foi servido o café? E se a mãe acabada rodopiava com a colher… Tenho para mim, num assomo de envergonhada concordância, que a morte é mais piedosa que a consciência da presença brutalmente amputada de quem se ama. Pelo menos traz uma justificação acoplada; cria espaço para a construção da conformação ou do suicídio. O desaparecimento traz uma insciência dilacerante; sufoca, e mantém um canal aberto de dúvida para que sejamos obrigados a engolir a amargura de cada minuto; encosta a lâmina à sobressaliência das veias com um fervor apenas equiparável ao do nervo ocular querendo penetrar em cada fechadura.

    ps-d) — E, a menos que se sintam irremediavelmente cansados, por favor não ponham acento no cu (sim, falo convosco aí atrás). É que se um é fecundantemente diacrítico o outro dá erros de grafia e é de natureza preguiçosa e moldável — senta-se, habitua-se!

    Até já.

  9. Este Renato é um pândego. Dá gosto haver gente assim, num mundo (este, o da caixa de comentários) às vezes a enveredar para o deprimente. E no blogue dele há belos poemas, com osso e mais, ó críticos deste país que acaso aqui passeis. Eu sei que vos é quase incrível, mas experimentai.

  10. Por esta não estava à espera… fez-me lembrar, que durante muito tempo, me recordei da falta que me fazia a leitura dos contos e novelas, que há muitos anos eram publicados no jornal “le monde”, na última página, e, que já adolescente, ía comprar ao sábado, com data de domingo, para os poder ler. Foi esta recordação que me levou a fazer um blogue, na esperança de ter coragem de publicar os contos que gostaria de ler, meus, ou de outros, mesmo se a escrita ainda está perra, à força de ter virado bilingue, mas mais para o outro lado… coisas! Quero ler mais coisas destas por aqui.

  11. Desculpem, mas há problema malicioso com esta caixa de correio. Primeiro, não passavam os comentários, agora vejo que entrou quase meia dúzia. Não foi intenção fazer comentários a metro ou a peso.

  12. João Pedro, não confundas “matéria negra” com “buracos negros”. São duas coisas bem diferentes.

    Luís, olha que a matéria negra hoje em dia é algo bastante controverso. Vê http://physicsweb.org/article/news/10/2/4 ou http://cosmicvariance.com/2005/12/13/where-the-dark-matter-is/ – sobretudo os comentários do Dissident e os links por ele fornecidos. É um assunto controverso. Uma vez mais, não há que especular – há que experimentar. Pôr as mãos na massa (neste caso nos detectores de ondas gravitacionais).

    Quanto aos buracos negros, embora o João Magueijo os conteste (o João Magueijo contesta tudo), são aceites de uma forma geral.

  13. Descontando o lamentável erro de ortografia final (trocar à com há, tss, tss…) saúdo o comentário do Compreensivo II. E espero pela aprovação do meu anterior comentário, que continha dois links…

  14. Bem revindo, Luis. O texto é muito interessante, embora lhe acrescentassee, um outro tema: a culpa.

    A culpa de ter perdido um filho e mesmo assim não suportar viver em luto eternamente. Ir a jantares, como as pessoas normais, e fazer conversa como faz um convidado qualquer. Rir um pouco, dizer umas piadas. E depois chegar a casa e enfrentar o horror de ter achado graça a um qualquer “mot d’esprit”.

    Julgo que era o Nietzche quem dizia que os poetas são impúdicos para com as suas emoções. Não concordo inteiramente com ele. À medida que os anos passam, tenho vindo a achar que só os textos que deixam as emoções a meio nos parecem impudicos.

    O seu pareceu-me, de facto, um pouco impudico, não porque dissesse muito, mas porque lhe faltava ainda dizer alguma coisa. Faltava-lhe, talvez, o peso e a extensão de toda essa culpa.

    Repare que isto não é um juizo moral, mas estético.

    De qualquer modo, tem momentos muito bem conseguidos. Parabéns.

  15. gostei muito do texto.
    (é a sombra com que nós todos, que somos pais, vivemos, essa hipótese de sobrevivermos aos nossos filhos. conheço várias pessoas que sobreviveram sem apatia, por terem outros filhos, que a isso as obrigaram.)

  16. Obrigado, João. O do PhysicsWeb é bastante técnico, mas o do blogue, o Cosmic Variance, tem uma figura (que “mostra” o que poderá eventualmente ser a matéria negra) que é de facto fascinante.

  17. Permalink,
    o texto está bastante bom,embora ache se alonga demasiado. mais curto seria mais eficaz. eu teria ficado pela primeira parte até ” proximidade excessiva”. está lá tudo e seria quase um poema. mas isto é tudo muito subjectivo. o texto tem beleza e densidade.

  18. Para quem por aqui passar e gostar do ZBIG, o polaco magico das imagens, informo que vai estar em Lisboa na MONSTRA 2006 – Festival de Animação da Lisboa – entre 17 e 21 de Maio para apresentar – quase todos os seus filmes – e fazer duas master class – 18 e 19 de Maio no FORUM LISBOA. A primeria retrospectiva é logo na abertura, a 16 de Maio no Teatro Maria Matos . A não perder. Para saber mais mailar para
    monstra2006@yahoo.com
    Informações nos dentes superiores da monstra no http://www.monstra2006.com
    até lá
    Galrito

  19. Boas,

    escrevo sobre cultura (mais sobre cinema e musica) Polaca, Portuguesa e dos PALOP.

    Queria saber mais sobre o Monstra mas no site nao consegui ter nenhuma informacao. Ja tem o programa definido? sera possivel obte-lo?

    Obrigado

    Romeu

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.