Velha Lísbia

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Foi para isto que votei no homem: José Sá Fernandes apresentou uma ideia que é, no seu também simples pragmatismo, um manifesto de amor a Lisboa; e, por extensão, ao meu Portugal sonhado, às cidades por inventar, à História das estórias, à cultura da lógica da batata e da ética dos tomates, ao comércio da praça, ao turismo que envaidece, aos namorados da eterna esperança, às crianças de 90 anos, aos solitários que gostariam de estar sós, aos bem casados para incredulidade dos amigos, aos escrivães de versos banais, aos oradores de improvisos previsíveis, aos que lêem jornais por uma questão de sobrevivência, aos maluquinhos das fotografias, aos que se encantam com passeios de domingo às quartas-feiras, aos que não podem perder as manhãs de Sol, aos que escutam o Tejo a passar na alma, aos que ainda esperam partir nas caravelas, aos profetas da Velha Lísbia, aos que alucinaram e pedem informações, àqueles a quem apetece muito e já e no agora deitarem-se ao comprido num banco sem terem coragem para tal nem para muito menos, aos que passam de carro e juram voltar sabendo que estão a mentir por saberem que estão a jurar, aos que marcam o primeiro encontro num jardim por causa dos pontos de fuga, aos cães sempre aparvalhados, aos pássaros sempre de cabeça no ar, aos gatos sempre a pensarem lá nas coisas deles, a todos os puros de coração que nunca são falados sendo mais do que os outros que nunca estão calados e às minhas pernas.

Trata-se de demolir um acto de ódio a Lisboa, feito nos anos 70 na avenida 24 de Julho, criando no seu lugar um lugar. Para a catarse ser completa e exemplar, o prédio na posse da Direcção-Geral da Administração Pública deveria ser destruído e varrido do mapa pelos lisboetas. Eu iria.

12 thoughts on “Velha Lísbia”

  1. A Golpada dos Manos Sá

    O ParqueMilhões não poderia ter aparecido em melhor altura para os manos Sá. O nome do benemérito: Domingos.

    O Domingos foi ter com o Ricardo (Ric) e disse-lhe que queria presentear o mano Zé com 200 mil euros. Os olhinhos do Ric brilharam e telefonou logo ao Zézinho:

    – Mano, veio ter comigo uma mina de ouro – e po-lo ao corrente do sucedido.

    O Golpe foi montado. O Ric e o Zé simularam uma “indignação”, e ficou decidido que o Ric iria fazer uma queixa à Direcção dos Crimes Económico-Financeiros da PJ. As autoridades montaram um esquema em concluio com os queixosos, que culminaria com um 4º encontro no bar do hotel Mundial, no Martim moniz, onde o Domingos entregaria a prenda, sendo apanhado pela PJ em flagrante. Por razões desconhecidas para a autoridade, mas óbvias para nós, esta reunião nunca se realizou. Os maninhos tinham calculado tudo ao milímetro: ganharam o ParqueMilhões e o título de heróis. O Zézinho ficou com uma carreira política vitalícia, por ter sido considerado pelo povo um incorruptível e o mano Ric conseguiu que os seus escritórios fossem contratados pelo Domingos para o defenderem. A Rita, que trabalha no escritório do Ric, está agora a defender o Domingos. Os 200 mil irão assim ser multiplicados por 100 ou mais!

  2. PARECE-ME QUE TODO ESTE EXERCÍCIO DE PENSAMENTO PODERIA SER DA AUTORIA DE UM DOS GATOS QUE CONHEÇO, “sempre a pensarem lá nas coisas deles”.
    MIAU. GOSTEI.

  3. Esse prédio não é assim tão mau, embora concorde que jardins há muito poucos. Agora, de onde se desencabrestou a palavra “estórias” é que eu gostava mesmo de saber. Não faz sentido: é o mesmo que dizer “menutos” para as coisas que cabem dentro de uma hora.

  4. CAIXA

    Eras a minha aposta principal. Acertei. Mas nunca lá teria chegado sem a pista…

    Grammaticus

    A tua queixa é legítima. Mas não tens razão ao querer censurar uma palavra que já tem tradição literária, para além de uma história. De resto, a Língua ganha em ter mais opções expressivas, espero que concordes.

  5. DECLARAÇÃO AMIGÁVEL:

    Quanto a essa treta da Lísbia, nada tenho a dizer. Não falo do que não sei; porquanto falo pouco (?). No máximo, posso largar um ‘a cidade a quem a trabalha’, a ver se tem piada. Não tem.

    “Mas se todo o mundo é composto de mudança…”. Esta albicitação saudosista remata lindamente o parágrafo anterior e desagua como um hors d’oeuvre prazenteiro para o que se segue.

    Story and History — Estória e História

    “Estória” é um anglicismo que faz absoluto sentido na prossecução de uma Língua crescentemente utilitária, objectiva e eficaz. Tal como o étimo inglês, ‘estória’ alude às curtas narrativas, a pequenas histórias de índole ficcional, popular, àquilo que é episódico e acrónico, enfim…

    ‘História’ abarca tudo que ladrilha a evolução da humanidade (tempos houve em que te maiusculava, pá!), o que compõe a sucessão natural de acontecimentos e factos económicos, sociais, políticos… porra! Não preciso de explicar isto. ‘História’ é, a meu ver, para o que emerge institucional, consumado, sedimentar. E basta.

    Exemplo: “Tenho uma história muito bonita com a minha mulher” versus “tenho uma estória a rolar com a loira mamalhuda que trabalha na agência de viagens”.

    Decerto que após este exemplo proloquial não restará dúvida a ninguém.

    A distinção ajuda a que a palavra esteja mais perto do seu objecto. E isso é, quanto a mim, sempre de louvar.

    De mais a mais, como é sabido, a História sempre foi e será escrita pelos vencedores. E os gajos com tendência perdedora ou os que, como eu, não se preocupam com isso, ficariam sem nada para fazer, não fosse esta magnífica criação dos livre-pensadores: a estória. E sem nada que fazer, eu e os outros como eu seríamos um perigo. Ainda dávamos em políticos — imaginem! Gajos criativos a deixarem-se corromper… A coisa ainda descambava na fundação de um partido. Parece que até já estou a ver o néon: Tijolo de Esguelha.

    Aqui fica esta minha achega. Contudo, quem sou eu para falar… Eu, que ainda tanto me custa ceder prioridade nas rotundas.

    — Não, senhor agente. Não lhe estou a contar estória nenhuma…

    Até já.

  6. Mil perdões,

    mas esqueci-me de referir que o termo já integra as edições dos bons dicionários há uma mão-cheia de anos. Portanto, é oficial! Podemos usar à tripa-forra que já nem história fazemos…

    Até já.

  7. Valupi: concordo que há um ganho em expressões novas, e até acho deveras que a linguagem muitas vezes nos limita o pensamento, mas no caso de “estórias” não vejo qual é o ganho em relação a “histórias” ou “episódios”.

  8. Mais uma achega, esta do ciberdúvidas.sapo.pt:

    «Quanto à questão colocada, estória é uma palavra vinda do Brasil. Note-se, era assim que se grafava no século XV. Só depois veio história. Um brasileiro lembrou-se de grafar história, quando se tratava de “ciência histórica” e de grafar estória para significar “narrativa de ficção”, “conto popular”, etc. Mas os dicionários brasileiros aconselham a que se escreva sempre história, embora se aceite a liberdade jornalística da distinção de um e outro conceitos.»

    «Não são sinónimos. É a mesma palavra com dupla grafia, e derivada do latim «historia(m)». No português medieval, escrevia-se historia, estoria, istoria, assim como homem, omé, omee (com til no 1.º e), ome. Compreende-se, porque a ortografia ainda não estava fixada.
    No Brasil, talvez por influência do inglês «story» (conto, novela, lenda, fábula, anedota, etc.) e «history» (narração metódica dos factos notáveis ocorridos na vida dos povos), começaram a empregar o português antigo estória para significar o mesmo que o inglês «story». É uma palermice, porque, até agora, nunca confundimos os vários significados de história. O contexto e a situação têm sido mais que suficientes para distinguirmos os vários significados. A estória só vem confundir as pessoas.
    Seria ridículo começarmos, por exemplo, a empregar homem para indicar o ser humano em geral, isto é, a espécie humana, a humanidade; e omem, para designar qualquer ser humano do sexo masculino, como por exemplo em «aquele omem que está ali», «o omem (= marido) da Joana», «sanitários para omens», etc.
    Alguém teria cara para abraçar esta ridicularia? Mas têm-na para escrever história e estória.»

  9. O fenómeno de grafias múltiplas medievais não explica o ressurgimento dos termos no contexto presente, pelo hiato e pela consagração de uma grafia como absoluta, entretanto, tendo as demais ficado submersas na história. Ao passo que as influências de um universo de referências globalizante constroem uma justificação mais consistente, porque imediata, e verosímil, quanto a mim.

    Em todo caso, isto é porventura o que menos importa. Importa, sim, que todos os universos evoluem e se renovam. O linguístico não é excepção. Por vezes, arrepio-me com aquilo que se me afigura como ‘crimes’ atrozes contra a minha Língua-mãe, pelo vil intuito de reciclar — nada há nela que requeira reciclagem. Mas nem por isso deixo de aplaudir a invenção e a reinvenção, a dinâmica de criatividade que lhe deu berço e que deve continuar a renovar-lhe o sangue (lindo! Estou quase a vomitar…).

    A Linguagem deve ser ágil, versátil, volátil. Cúmplice.

    E independentemente das raízes etimológicas que possamos descobrir ou atribuir às palavras, o facto é que o verdadeiro problema da origem ou da mudança nunca estará nelas, mas em nós. E no modo como lidamos com isso. E na maneira como nos deixamos ancilosar…

    Pessoalmente, considero ridículo, uma palermice, que me queiram proibir de fumar em cafés e restaurantes. Defendo que caiba aos empresários essa escolha, que seja obrigatória e vinculativa a desejável informação visível no exterior dos estabelecimentos, de molde que cada um dos utentes possa fazer a sua opção prévia e consciente. Mas, tendencialmente, cada vez nos vemos mais privados de opções em prol sabe-se lá de quê. Vão-se as equidiferenças, vêm os igualitarismos ocos. Quando o que deveria vigorar é uma multiplicidade de escolhas e a capacidade socialmente transversal de pensar sobre elas.

    O pavor da mudança é fecundado! E esteriliza.

    Isto, claro, a propósito de uma estória qualquer que já me não lembra.

    A despropósito, sempre posso afirmar que já me vieram fazer queixinha de uns certos gajos do ciberdúvidas que fumam ganza no local de trabalho… Será, decerto, uma louvável e zelosa tentativa de destrinçar as origens da coisa.

    Até já.

  10. Renato

    Muito obrigado pela saborosa prosa, cheia de ideias nutritivas e bem confeccionadas. E também pelas telúricas imagens da agência de viagens de onde não apetece partir.

    Grammaticus

    Qualquer palavra é um ganho. As palavras não ocupam espaço, acrescentam-no. Porquê ser-se poupadinho? Ademais, cada um é senhor da sua fala, o léxico não se impõe à má fila.

    No caso de “estória”, sigo o raciocínio do Renato citando o exemplo inglês. Embora não se esteja perante uma evolução paralela, a sua aplicação coeva parece replicar a semântica de “story”. No entanto, eu iria ainda um pouco mais longe: enquanto a demarcação entre history e story é foneticamente dramatizada, a homofonia lusa permite acrescentos de significado. Como se a nossa “estória” remetesse para uma dimensão onde verdade e ficção já não se distinguissem.

    Ora aí está um território caro aos portugueses que há séculos grafavam “estória” sem complexos de culpa.

    Zohia

    Obrigado pela informação, mesmo que já a conhecesse (mas pode haver quem não conheça). O que me deixou com um amargor no palato foi essa precisa frase: “A estória só vem confundir as pessoas.”

    Temos então um vigilante da confusão ao serviço do Ciberdúvidas. Será, portanto, um suicida funcional, no seu afã de eliminar dúvidas, hesitações, subtis vacilamentos linguísticos. Obviamente, trata-se de um filho da puta da pior espécie (mas sem endosso maternal, bem entendido).

    Obedeça à gramática quem se ficar pelo Ciberdúvidas; magnífico projecto, de resto, mas não é isso que está agora em causa. Para os outros, que se inventem mais dias claros.

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