Um módico contributo para o tento na língua

No afã de dar mais “modernidade” e “flexibilidade” ao Português, não cessam as novidades teratológicas. Depois do infame e esverdeado “glauco”, que continua a sua profícua carreira por esse mundo fora, salta-me agora a atenção para o vocábulo “módico”.
Mas quem se terá primeiro lembrado de martelar o pobre adjectivo até dar em substantivo? Hoje, de João Pereira Coutinho a este mesmo blogue, passando por locais mais ou menos recomendáveis e por fontes mais ou menos abruptas, poucos escapam à epidemia.
Não sei se a coisa terá raizes eruditas, no latim “modicus”; parece-me mais provável a parola importação directa do Inglês. Ao pé disto, julgo que a história do “estória” é inovação perfeitamente benigna e até louvável.

27 thoughts on “Um módico contributo para o tento na língua”

  1. “módico” é termo que também uso, por vezes, mas agora menos desde que reparei que o JPC usa e abusa ( quando o lia, pois agora, passo).

    Julgo saber de onde vem a inspiração directa: Vasco Pulido Valente himself!

    Pelo menos, tanto quanto julgo saber, foi da escrita de VPV que respiguei o termo que uso por vezes, como substantivo.

    Mas, anyway ( sse what i mean?), who gives a fuck?!

  2. Luís,

    Desconhecia a substantivação de ‘módico’, mais ainda as dimensões da epidemiazinha. Podes acertar, ao fazê-lo derivar de um uso inglês. Há um caso semelhante, o de «momento», usado no sentido do inglês «momentum», ‘dinâmica’. Ouvi há dias «o caso ganhou um momento imparável», por «uma dinâmica». E, no recente artigo do Paulo Querido sobre a Microsoft no Expresso online (para que fui alertado pelo blogue – um dos – do FJViegas), havia um uso do termo que me pareceu esse (de resto, não de admirar, PQ é pouco crítico nas suas versões do inglês).

    Facto é que muitos latinismos se espalharam pelo mundo através do inglês e do americano (como antes sucedera com o francês). Parece-me um fenómeno normal, aqui e ali positivo, mas há motivos para conservar-nos críticos.

    Quanto a «estória», aqui falado há dias, sempre o julguei ousadia de Guimarães Rosa. Constato que surgiu em Portugal por 1912.

  3. Existem pessoas que são feitas umas para as outras. A coisa é melhor organizada do que se pensa. Estes pares são postos no mundo para se integrarem e reproduzirem as mesmas ideias. É o caso do Valupi e do Venâncio!

  4. O “momento” sempre poderá gozar da atenuante de ser empregue pela Física numa acepção que não choca de forma atroz com esse uso (momento linear, momento angular). Mas esta ressalva é mais teórica que outra coisa; parece-me que a origem britânica é bem provável.
    Na mesma veia, também anda por aí o “balanço” como sinónimo de “equilíbrio”. Aqui, a derivação de “balance” é mais que certa.

  5. Finalmente, um nick apropriado à qualidade da prosa e do pensamento subjacente : “Pensador Estrábico”!

  6. Folheando Nação Valente, Rui Pêgo, Hugin 2003, também se topa a cada esquina em módicos disto, daquilo e daqueloutro.
    A substantivação do adjectivo é corrente e é correcta, havendo mesmo situações em que o substantivo e o seu acompanhante trocam, entre si e alegremente, de natureza morfológica.
    Há casos, porém, como este do “módico”, cuja substantivação se afigura exercício mais delicado. Embora “o módico bem administrado vale mais que o muito à desmedida” (do Aquilino, pois claro!).
    Os latinos tinham o seu modicum, (de modus – medida), para designar ‘pequena quantidade’. Nós não o aproveitámos, mas fizeram-no os ingleses, por certo num tempo em que para eles era tudo à grande, faltando-lhes apenas o modo de expressar a ‘pouca coisa’.
    Acerta assim FV, quando aponta aos ingleses.
    Cá entre nós, creio que precisamos de juntar aí o conceito de modismo, tique sempre à mão de certos clãs, quando querem delimitar territórios e realçar o que tomam por sublime. Pode ser que venha a pegar. Mas creio que nem eles próprios o desejam, para não terem que inventar outro ferro.

  7. jagudi,

    Quem primeiro sugeriu a derivação inglesa do modismo foi o Luís. Eu apenas disse que ele podia acertar. E cada vez penso mais.

  8. A minha vénia, pois, a Luís.
    E V. não se apoquente, FV. Quando certos filhos da puta nasceram, já eu comia pão duro.

  9. NOTA

    Alguém se utilizou do meu nome para dirigir a «jagudi» um texto ofensivo. Imaginando uma modificação feita ao meu comentário, supus uma intromissão indevida no sistema do blogue e pedi ao Webmaster um apuramento da questão. O Luís fez-me ver que o meu comentário original se mantinha – no que eu, de facto, não reparara -, tendo apenas sido duplicado, com uma passagem modificada, mas servido da minha assinatura.

    Este incidente fica assim encerrado. Para «jagudi» foi pelo menos tão chato como para mim.

    P.S.
    Jagudi, certo. Mas continuamos vulneráveis. Talvez só com alguma melhor consciência do que os pulhas.

  10. outra praga k praí anda é as ” evidências”, das british ” evidences”, quando as nossas “provas” , evidentemente, seriam mais correctas….

  11. Se houver algum linguista que me saiba explicar o “momento”, agradeço.
    Notem que em inglês há o “moment” e o “momentum”! “Moment” é p.e. o momento de uma força; “momentum” é o momento linear (que na excelente edição em português do Brasil da saudosa MIR da Mecânica do Landau e Lifshitz é o “impulso”). Em inglês um sinónimo de “momento angular” é “moment of momentum” (no Landau e Lifshitz, “momento do impulso”!).
    Fernando, explica aí à malta o “moment” e o “momentum”, se puderes. Deve vir do latim, mas eu sempre achei que o latim era uma língua de fachos e padrecos.

  12. Venâncio:

    Fica aqui um texto vindo de um blog – incursoes.blogspot.com- que me merece atenção pela qualidade substancial da escrita.

    “Há dias em Matosinhos, numa caótica mesa redonda em que participei, o Alexandre Quintanilha, “coca-cola”de gema pois que nado e criado em Lourenço Marques, antes de ser Maputo, falou nos cheiros de África.
    Ai o que o mafarrico foi dizer. Eu a ouvir aquela, senti-me subitamente transportado aos anos felizes da minha adolescência, quando por um bambúrrio da sorte, nos tocou, à família, ir para África, Moçambique mais propriamente dito.
    Nos anos cinquenta, na primeira metade dos anos cinquenta, África era uma aventura. Ia-se de barco, num desses magníficos paquetes, enormes, que varavam o mar com uma lentidão majestosa. Claro que enjoei que nem uma pescada. Passei os primeiros dez dias de viagem, quase sempre no deck, único sítio onde não me sentia a morrer. Em entrando no corredor dos camarotes, a coisa começava a fiar fino. E nas proximidades do salão de jantar então nem se fala. E logo eu, na força dos meus treze anos, comilão como era… A Companhia Colonial de Navegação deve-me aí umas quinze refeições que na minha recordação eram mais que copiosas, óptimas com imensos “hors d’oeuvre” suculentos para não falar no resto. Claro que dormir no deck tinha compensações, como seja o avistar S Tomé pela manhãzinha, uma erupção de flores e verde no meio de um mar tranquilo semeado de pequenas canoas, um ar finíssimo que anunciava os grandes calores do dia mal a manhã avançasse. Ou a longa entrada no Lobito, a terra revelando-se a cada metro, primeiro uma mancha de casario á distancia depois o milagre de uma cidadezinha lindíssima, gente, carros, guindastes, um porto, ah…!
    Mas não era da viagem, de resto passada sob o signo do enjoo durante toda a primeira metade dela, que eu queria falar. Nem mesmo de Lourenço Marques, de um Lourenço Marques simultaneamente colonial e moderno para quem vinha de um pais imberbe e atrasado, que ali chamavam metrópole, com mais condescendência do que inveja, uma cidade geométrica de grandes avenidas muito arborizadas, onde se conduzia á inglesa, onde toda a gente usava calções de caqui e meia alta pelo joelho e camisas de manga curta que se arregaçavam ainda mais. Onde, privilegiado, talvez, aliás de certeza, eu tinha como campo de jogos o Club Militar, a Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra, o Pavilhão e a sua praia cercada de rede e onde o Natal se passava fora de casa e com calor.
    Mais tarde fomos para o Norte e foi altura de descobrir os imensos palmares que se estendiam de Quelimane até ao golfo de Moçambique, as prais coralinas, a Ilha de Moçambique, Muipíti, Nampula, a terra das chuvas cercada de morros de granito, o mato, a África antiga e verdadeira, as pequenas administrações e postos do mato, as picadas, os bichos, a distancia e a noite. A noite, a noite só de estrelas sem luz eléctrica ou outra, uma vaga fogueira por algumas horas e o silêncio ruidoso do mato.
    Voltei à metrópole, claro. Para estudar. Voltei aos ambientes pequeninos, friorentos, atrasados de um Portugal onde nas praias os homens eram obrigados a usar uma coisa ridícula chamada peitilho, sob pena de multa passada pelo cabo do mar. Um Portugal tristonho e vigiado por polícias de todo o género incluindo uns patuscos fiscais que mal viam alguém rapar de um isqueiro se apressavam a exigir-lhe que mostrasse uma licença. Um Portugal onde ainda não tinham chegado os cigarros de filtro, o nylon nem o whisky para não falar na coca cola que o pequeno mas eficaz ditador de Santa Comba achava perigosa. Um Portugal onde as pessoas se tratavam por você quando não era por senhor ou senhora… Um Portugal macambúzio e engravatado, de fatos que tendo visto melhores dias se “viravam”, de tamancos, pobrete e pouco alegrete pese embora uma fama persistente que dava os portugueses por rionhos.
    Não é de espantar que uma vez na universidade, os estudantes “ultramarinos” sobretudo os moçambicanos se organizassem para criar um sistema de viagens de férias que custava cerca de 15% do preço habitual das viagens de avião. O sistema baseava-se no facto dos aviões terem sempre uma dúzia de lugares vazios que portanto poderiam ser ocupados pela mocidade impecuniosa desde que esta se dispusesse a espera pacientemente no aeroporto pela sua vez. E lá íamos aos doze, quinze, vinte de cada vez em voos que duravam dois ou três dias e que nos primeiros anos de sessenta ainda sobrevoavam toda a África. Era uma aventura. Partia-se cerca das dez onze da noite, e por volta das sete da manhã chegava-se a Kano na Nigéria na orla do deserto, ou a Niamey no Níger, também na mesma zona, no Sahel para falar com alguma precisão. Mas antes, muito antes, já o dia ia claro e era um ver se te avias tudo mergulhado nas vigias, a sondar o solo perfeitamente visível, as manadas, os pequenos carreiros, as cubatas, os rios raros e breves, a gente pelos caminhos.
    E de repente, o “super constelation” começa a perder altura e a preparar-se para aterrar. E víamos crescer a cidade, o aeroporto, carros, uma estrada, enfim, voltávamos a África. O avião uma vez parado abria finalmente as portas para aquela turbamulta de passageiros fartos da viagem, loucos por desentorpecer os pés, por uma bebida diferente no bar da zona de transito do aeroporto. Ao chegar à porta, vinha-nos ao nariz aquele cheiro intenso de África, um cheiro que mesmo numa zona perto do deserto vinha carregado de frutas, calor, terra molhada, um cheiro intenso e primitivo, um cheiro de novidade, primacial, um cheiro carregado de memórias antiquíssimas, um cheiro de tambores, de pó, de dança, de pirogas no alto mar, de mato seco a perder de vista, de embondeiros, de telhados de zinco, de caril.
    Mas, voltando à mesa redonda, foi um desastre: o Alexandre Quintanilha a falar nos cheiros e este vosso criado a sentir as cataratas de Vitória a encher-lhe os olhos. Terei chorado a minha já longínqua juventude? Um primeiro amorico? Ah come é bello il primo amore ma il secondo é meglio ancor’. Lembranças de meu pai, caçador de caça grossa que até no mato trazia uma criança ao mundo com uma faca afiada, um pote de água quente e ordens rápidas à volta, bravo doutor branco que nunca viu cores à frente mas tão só doentes. Quem está primeiro?, dizia da porta do consultório para a sala de espera cheia. E uma vez sem exemplo, não havia colono por mais excelente ou mais antigo que passasse à frente da mulher negra e humilde ou da indiana forte e de sari. E o que é mais, não reclamavam, não iam embora, cumprimentavam-no afectuosamente, convidavam-no para festas, casamentos, caris monumentais, para padrinho de crianças que ele arrancara ao ventre das mães.
    Doutor, doutor caçador, sempre no seu carocha, cigarro ao canto do lábio, metido tantas vezes só por picadas sombrias até um acampamento de caça onde o esperava, fiel, um pisteiro. Numa dessas vezes, já a guerra tornava os caminhos desertos, o carro saiu da estrada e afocinhou na lama. Algumas horas depois, um grupo de quatro homens apareceu vindo de nenhures; cercaram o carro, ergueram-no quase a pulso puseram-no na estrada. O Pai quis distribuir umas moedas. Que não era nada doutor branco, doutor caçador. Que não era nada. E perderam-se pelos caminhos. Quem ouviu a história achou que se tratava de uma patrulha de guerrilheiros. O meu pai acreditou até morrer que deveriam ser clientes antigos de uma das suas consultas vadias entre duas caçadas. Os leitores escolham que eu só conto o que sei.
    E eu só sei daquele cheiro antigo e persistente, daquele cheiro prenhe de vida e de cor, daquele cheiro de África (também) minha”

  13. José,

    Este texto é, de facto, magnífico. Mas era ao Luís Rainha que deverias a vénia. É o autor do post, e sabe o que é escrever com qualidade.

    Vai só aqui uma nota pessoal. Quando, a 24 de Dezembro de 1974, desembarquei na Portela, depois de quatro anos e meio de exílio (aí interrompido por uma amnistia de quinze dias), também eu cheirei Portugal. Através das moléculas de querosene, cheirei. E cheirava magnificamente. Aceita, mesmo que não acredites.

  14. O cheiro desta terra é…”fodido”, como diria o outro, em semântica variada.
    Sempre que me ausento de cá, mesmo por pouco tempo que seja, ao aterrar e percorrer as vias de acesso às cidades, fico contente com esta terrinha que é a nossa. Julgo que isto não tem a ver com bairrismos ou com aforismos balofos, pois é coisa real e sentida.
    É por isso também que me causa muita perplexidade o discurso de quem agora se pretende “iberizar”, mesmo que o faça com a melhor das intenções.
    Esta terra é única! A pátria, como se foi definindo ao longo destes séculos, não é uma ideia vã, pois tem uma identidade precisa e referências topográficas de nota!
    A Galiza, por exemplo, também é terra que aprecio, como aprecio as Astúrias ou a Cantábria ou mais além. Mas não é a mesma coisa que esta terrinha que nos acolhe, com todas as referências conhecidas, vividas e sentidas, na língua, nos costumes, no ritmo de vida e nas rotinas.
    A familiaridade com essas referências idiossincráticas, torna esta terra naquilo que é: a nossa pátria.

  15. O ser “coisa real e sentida” em nada impede a classificação do fenómeno como “bairrismos”; antes pelo contrário.
    A “terra”, a “familiaridade”, os cheiros, as “referências idiossincráticas”… tudo isso por cá continuará, muito depois de nos termos diluído nessa mítica Ibéria ou nos mais prováveis EUE.
    Quem nasceu em Nova Orleães não deixa de a sentir como pátria só porque calhou integrar os EUA.

  16. New Orleans, pátria?

    Só se for dos blues…
    Mas disso, também já temos: o Minho é a pátria do vira.

  17. José:
    Boa ideia a sua, trazer-nos este texto belíssimo. E abrir-nos assim uma janela, que dá para o que foi, e é, a nossa vida.
    Apesar da idealização saudosista, era bom que o lessem os portugueses todos. Já que, a propósito do seu presente, muito lhes conviria uma boa revisão das matérias dadas no passado.
    Sou dos que pensam que os portugueses precisariam de identificar o morbo das feridas que trazem na alma, para serem então capazes de as curar. Textos como este, belíssimo, podiam ajudá-los muito.
    Há nele um só senão, quando fala da ‘África antiga e verdadeira’. O viajante, emocionado, atento e crítico, viu a África antiga. Mas a verdadeira não era aquela.

    FV:
    V. nunca teve a sorte de sentir o cheiro de África. Nem isso é a vida toda. Mas lá que é metade, não duvide!

  18. UFO,

    Acredito, acredito. E compreendo que para você África é a dos trópicos. E que é essa a que tanto cheira.

    Mas saiba que andei, e andei bem, pela nossa mais próxima das Partes d’África, o velho Marrocos. E que, para cheiro, basta-me o meu nativo Baixo Alentejo. Trinta quilómetros ao sul de Lisboa, já cheiram as estevas. Estamos quase lá.

  19. Era a esta “substância”, como a que vai aí nesse escrito, aquela a que me referia faltar aos escribas recentes de crónicas em forma de redondilha menor.

  20. Fernando,
    Sobre um único parágrafo daquilo que consideras um “magnífico” – para outros “belíssimo” – texto, desencantado por aí na blogaria pelo José:

    Que os homens vestiam peitilhos em praias, mesmo no tempo da Marylin e da Russell, do realismo italiano, do baile de Cascais, quase da Bardot e a dois passos do bikini às bolinhas amarelas? Chiça que essa é de nos arrasar, mesmo pensando no Portugal “tristonho” e “fascista” desses tempos! Se fosse com as peitilheiras à mostra, vamos lá, ainda se poderia aceitar vigilância em nome do decoro pelos cabos do mar.
    Ok, concedo: fiscais da brigada anti-isqueiro pagos pelo solene Instituto Nacional do Fósforo ou coisa similar para incutir respeito. Mas eu digo: malta dessa era quase tão rara como dodos em Madagascar. Nunca vi nenhum desses marmanjos. Mesmo em 54 ou dois anos antes ou cinco anos depois.
    E que pena, não é? Nesses tempos não havia sequer cigarritos com filtro (que atraso salazarista!) nem nylon (nem camisas TV, suponho) e o Salazar poderia ter sido pequeno em termos de ditadura e marreco fisicamente mas tinha razão, porque a Coca Cola era, e continua a ser, REALMENTE, uma mistela perigosa.
    Portugal dos fatos (presume-se que incluiam calças e coletes) virados e engravatados, dos tamancos, pobrete e pouco alegrete (e a procissão no adro ainda vai graças ao vilarete sempre triste, diria eu)? Sim, talvez, mas temos que nos lembrar que esses eram os tempos das terriveis tuberculoses…furunculoses, guerras de coreias, desmanchos, festas e romarias, marchas populares e planos marshais, cancros, volta a Portugal, Amálias e Hermínias, castanhas assadas com águas-pés postiças, entradas na Nato, e da repressão à maneira da oposição amolar facas em alguidares.

    Espero que os meninos do futuro não façam fé demais nestas “belíssimas” reminiscências dum Old Timer que talvez (favor) tenha exagerado um pouco, como convém à indústria dos mitos e lendas. Para mim, estes “pés negros” do colonialismo português nunca me comoveram nem enganaram. Foram a África para fazer cacau, e aproveitaram a deixa para se apaixonarem por leões, capim e macacos. Conheci alguns. Há muito anos falei com um desses rapazes. E contou-me, todo hilariante, que um dos seus passatempos favoritos era olhar, dum cais de cidade colonizada, a atracação de barcos carregados de tropas portuguesas que lhes iam defender os sim-senhores de colonos mal agradecidos. “Lá vem mais um barco de pretos da Metrópole”, diziam eles na galhofa. Ainda gostaria de saber que termo é que esta cambada de usar “preto” para se referir aos soldados que vinham de Portugal usava para ofender os pretos pretos ou africanos. Macacos, sem dúvida. Por isso, não mandes isso para o Museu dos Coches.Há fantasmas de cavalos que são alérgicos a essas coisas.

    Tadeu (Tio)

  21. Hummm…boa reacção a um texto que pelos vistos aparenta ser mais reaccionário do que parecia.
    Mas, por mim, continua a ser um belíssimo texto, por isso mesmo: porque se me apresenta como literário e não como texto de História.
    O cheiro da mata e do capim que nunca cheirei a sério, tresanda-me nesse texto, como algumas passagens da literatura de viagens o conseguem fazer.
    Lembro-me de ler uma narrativa de Poe sobre um brigue, literalmente.
    Eu não sou do tempo de Poe, como é de verificação óbvia, mas ao ler a narrativa de Artur Gordon Pym, quase que posso jurar que lá estive…

  22. Tadeu(Tio):
    Acreditará V., REALMENTE, que Salazar proibiu a coca-cola, por ela ser uma mistela perigosa?
    Em todo o caso fez V. muito bem. Nos intervalos de alguma confusão no discurso, V. abriu um pouco do véu, e logo começou a aparecer uma África mais verdadeira.
    Não se limite a ser cáustico com ela, nem a renegue, homem, porque V. a traz às costas! Identifique primeiro a quem deve essa herança, esse conto do vigário que nos contaram a todos, antes de se desfazer dela e pôr as ideias em ordem.
    Este belíssimo texto ajuda a fazer isso. Mas é preciso ler o que nele está, e tudo o que sugere, e o que traz à nossa memória colectiva.

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